De Minas para o mundo

“Eu gosto de trabalhar com ela. É uma pessoa bem legal. Só acho que é muito acelerada. Tem hora que tenho que falar: calma, Babalu, calma! E ela retruca: mas, Ricardo, eu estou atrasada, tenho que fazer isso, aquilo…E, eu falo: calma, calma”.

Foi com essas palavras que o cortador de tecido das fantasias de carnaval da escola de samba Tom Maior definiu Bruna Babalu, enquanto aguardávamos sua chegada na quadra localizada na Av. Sérgio Tomaz, na capital paulista.

“Você vai ver! Ela é bem atenciosa, super amiga e tudo o que você precisar, pode ligar. Teve um tempo aí que eu fiquei ruim de saúde e ela não parava de me ligar: ‘Ah, você quer que eu vá aí na sua casa? Te levo pro hospital? Compro um remédio?’…” continuou, Ricardo, descrevendo uma prévia da figuraça que encontraria em poucos minutos.

De repente, uma voz forte e afeminada misturada ao som sertanejo de Jorge e Mateus saiu de dentro de um carro, invadindo o ambiente em que estávamos. Pouco tempo de observação foi suficiente para confirmar tudo o que Ricardo havia me contado. Loiríssima, com 1,79 de altura e mais 0,7cm de salto, Babalu subiu as escadarias em direção ao camarote para me encontrar e, enquanto subia, começou o roteiro incansável de praticamente uma hora e meia de ordens atrás de ordens, intercalando com respostas às minhas perguntas.

Trajando um mini vestido rosa que cobria um pouquinho mais que a polpa da bunda, Babalu acabava de chegar das compras que fizera na rua 25 de março e no Brás. Durante todo o tempo em que a acompanhei, ela não perdeu a pose antiga de passista e nenhuma gota sequer escorreu do seu rosto super maquiado no espaço abafado e lotado de sacolas com tecidos.

“Maurícioooooo!!! Pode deixar o portão aberto que a gente já vai sair já!…Não deixa o pessoal fechar o portão não, Maurício, a gente já vai voltar já!…É só descarregar essas coisas e por as outras no carro pra gente levar pra Conceição”, gritou Babalu ao motorista da escola, com uma fala acelerada e um andar incansável de um lado para o outro.

Responsável pela confecção das fantasias para o desfile da Tom Maior no Carnaval 2013, quem a observa com seu jeito autêntico e despojado não imagina a quantidade de barreiras que já enfrentou para ser o que é hoje. E, ainda mais, que se candidatou a vereadora de São Paulo nas eleições 2012, por pura vontade de ajudar o próximo.

VOLTANDO NO TEMPO

É nato de todo paulistano saber que são inúmeras as histórias de migrantes brasileiros que chegam à “terra da garoa” em busca de novas condições de vida. Algumas tentativas dão certo; outras não, e ajudam a compor o cenário dos famosos e longos quadros televisivos “De volta pra minha terra”- uma frase que, certamente não existe no vocabulário de Bruna Babalu.

Messias Moreira Dias (seu nome original) saiu do município de Caratinga – interior do estado de Minas Gerais – aos 18 anos, para se tornar uma estrela, uma referência em sua comunidade e entre os amigos que conquistou. “Não tinha iluminação elétrica, a gente tinha lamparina de querosene e eu tinha vontade de mudar de vida porque lá todo mundo tomava conta da minha vida. É muito pequena a cidade e eu não poderia ser o que realmente queria ser”, disse Babalu, pensativa.

E, você pretende mudar o nome de registro? – perguntei à ela, enquanto etiquetava as sacolas. Sem hesitação, respondeu de imediato: “o de registro? Vou trocar sim, se Deus quiser! Só estou esperando umas mudanças aí”.

Essas mudanças que Bruna se refere têm a ver com as cirurgias que deseja fazer assim que receber um prêmio em dinheiro que a Tom Maior prometeu lhe dar, caso consiga uma boa nota e uma boa colocação no carnaval. Com esse dinheiro, pretende realizar uma bateria de cirurgias plásticas que a permitirão se tornar uma mulher, por completo.

A candidata a vereadora pelo PSOL sempre se considerou menina porque cresceu juntamente com suas primas Lucimar e Tininha, e o fato de estar num lugar de muita simplicidade e pouco conhecimento sobre as coisas, nunca ninguém a orientou sobre as questões sexuais. “Eu sempre achava que era igual a elas, mas sentia que tinha uma coisa diferente que me incomodava, mas não tinha ninguém pra explicar pra gente o que era isso, como era”, afirmou.

A vinda para São Paulo fez com que descobrisse o real significado das coisas e o que acontecia com ela: “eu só vim saber quando cheguei em São Paulo porque a capital é totalmente diferente. Imagina! A capital em 89 já era adiantada, e, na roça, era totalmente atrasada. A gente não tinha noção do que era a vida!”, exclamou com a convicção de que fez a coisa certa.

Hoje, Babalu sabe que tudo o que expressava tinha um nome: a transsexualidade, que é como se considera atualmente. Assim, além de fugir de todo o desconhecimento para encontrar respostas, a transex também fugiu dos preconceitos que enfrentava, pois se para alguns a cidade grande é um poço de tristezas, para Bruna é o remédio que a trouxe de volta à vida. “Agora, quando eu vou lá, em Caratinga, já tem uma aceitação melhor e também eu não me importo mais com essa aceitação, não. Eu acho que aprendi uma coisa muito importante aqui em São Paulo: a gente ser feliz!”, exclamou.

Para Ricardo, que trabalha com Babalu há aproximadamente três anos, não há preconceitos nessa parte: “ela é bem profissional. A gente sai, bebe, se diverte, mas assim, nada de mais. Pra mim não muda nada o fato dela ser transexual ou não”. Já para Maurício, Bruna significa muito mais que uma companheira de trabalho, pois graças ao apoio que deu no carro de som da campanha eleitoral de Babalu, recebeu a oportunidade de trabalhar como motorista da Tom Maior.

Aliás, essa é uma característica mais que perceptível para quem convive com a candidata. O jeito desinibido, de palavras sinceras, demonstra uma constante disposição em atender e ajudar os outros – deve ser por isso que conquistou muitos amigos e, hoje, conserva uma rotina lotada e requisitada.

“Essa semana tenho uma missão pro Ricardo. Ele tem que cortar toda essa baiana e todo o resto dessa ala verde pra gente entrar na bateria até sexta-feira. Se não, a gente não consegue concluir” – disse Babalu dirigindo-se à Ricardo com um ar de mãe que dá bronca no filho desobediente.

MOMENTOS DE UMA VIDA NOVA

Diariamente, a migrante constrói novas lembranças para sua vida se dedicando à igreja aos domingos e as segundas; tingindo e escovando cabelos loiros num salão de cabeleireiro; cuidando do departamento de fantasias da escola de samba Tom Maior; e, segundo ela, “namorando um pouquinho”.

O primeiro emprego de Babalu foi em São Paulo, no MC Donald’s. Após dois anos penando na indústria capitalista exploradora de jovenzinhos, resolveu desfilar na escola de samba X-9 como destaque e começou a ajudar na parte da organização ocupando, mais tarde, o cargo de diretora-social do carnaval da X-9 por cinco anos consecutivos.

Aos 26 anos migrou-se para a Acadêmicos do Tucuruvi se consolidando como diretora de carnaval e há aproximadamente três anos integra o departamento de produção das fantasias da Tom Maior. “E, assim é melhor, viu?! Se não eu fico muito sobrecarregada. É muita coisa pra pensar, e aqui eu também tenho que cuidar da roupa que a diretoria vai usar no dia do desfile”, completou.

Porém, tudo isso não foi suficiente para alguém que sonhou a vida inteira em se encontrar, ser alguém na vida e ser reconhecida por isso. E, foi  justamente por um pedido de suas amizades que Bruna decidiu dar um passo adiante. Para ela, não bastava ser uma simples migrante em adaptação no paraíso de arranha-céus. Mas, alcançar o céu, de verdade, se tonando uma artista nacional. Para isso, vestida de fada madrinha produziu um vídeo de inscrição para o Big Brother Brasil com os seguintes dizeres: “Uau! Eu sou Bruna Babalu, mais conhecida como Babalu. Baba de BBB, uau!”.

Apesar de não ser selecionada para o reality show (bem que merecia!), o seu sonho de se tornar um pouco mais para si e para os outros não parou por aí. Este ano, Bruna Babalu se candidatou à vereadora da cidade de São Paulo pelo PSOL. “Lá onde eu moro e frequento: Tucuruvi, Santana, Jardim França…é um lugar até bom. Mas, a parte da Vila Zilda, do Jardim Brasil, eu acho muito abandonada. E eu já votei em vários candidatos pra isso, mas eles nunca fizeram nada pela região. Então, eu achei que tinha que fazer alguma coisa por essa região que é boa, mas está abandonada”, explicou a candidata.

Segundo ela, o fato de ter se envolvido na política atrasou bastante a produção das 3.100 fantasias que precisa entregar até fevereiro. E, há apenas três meses produzindo, está atolada de coisas para resolver. Mas, disse que não se arrepende de ter se candidatado à eleição, mesmo que tenha recebido apenas 1202 votos, pois o PSOL conseguiu eleger um candidato: Toninho Vespoli. “Agora que eu achei meu partido, vou voltar na próxima eleição. Eu não sabia que gastava tanto, viu menina? Eu gastei só 13 mil. Muitos do meu partido querem que eu saia como deputada para lançar meu nome, mas eu acho bobagem. Prefiro apoiar o Ivan Valente pra deputado federal, deixar dinheiro reservado e fazer um fundo de caixa. Hoje eu não começaria uma campanha se eu não tivesse 50 mil”, afirmou Babalu.

Além de fazer uma divulgação bairrista, foi somente vinte dias antes do primeiro turno que conseguiu um carro de som: “Eu fiz uma campanha de, na verdade, um mês e meio, ao invés de dois, porque não sabia que era tão difícil. Aí, quando eu entrei que descobri as dificuldades que você passa. E, sem dinheiro não tem condições”. Porém, apesar das dificuldades, Bruna Babalu encara tudo como um aprendizado e, agora, compreende que para ajudar o próximo não é necessário um cargo político. “Eu achava que tinha que ser vereadora para ajudar mais um pouco o próximo. Agora eu descobri que não. Sem ser vereadora eu posso fazer alguma coisa pelo bairro. Eu sei que posso engajar mais em obras sociais, que eu estava um pouco ausente”, completou.

Enquanto a entrevistei, Babalu não parou em nenhum momento. Descia, subia, organizava e contava os recortes de tecido. Até eu entrei na dança ajudando com as sacolas. Antes de partir para entregar os tecidos em ateliês e aderecistas, Babalu pediu licença, entrou na sala de diretoria e voltou transformada. Com o cabelo preso, óculos escuro e um mini vestido preto do mesmo tamanho que o anterior, brincou: “agora eu me troquei porque eu vou lá na comunidade, e tenho que ir bem comportada!”.

Ricardo retrucou: “comportada? O que você acha Thaísa?”

Babalu me perguntou: “não está maior que o anterior?”

Respondi: “sim!”. E, caí na risada.

Para terminar, perguntei à Bruna se desejava “voltar para o seu aconchego”, sua terra natal que visita anualmente. Ela, por sua vez, não dispôs possibilidades e disse que lá o povo já é bem velhinho e que agora o foco é outro: terminar as cirurgias plásticas que materializarão por completo o seu espírito feminino – uma oportunidade que somente a cidade do progresso pode proporcionar.

Um fiel sonhador e seus princípios

“Eu acho que tentar e abandonar é meio que sem sentido, você tem que ter um foco e continuar. Se você sair da sua zona de conforto e se mobilizar você pode fazer a diferença, independente de ter ou não a caneta na mão”. Este espírito lutador, de buscar seus ideias em qualquer meio é o que norteia a vida de Cláudio Modesto, um carioca de 49 anos que veio a São Paulo com a esposa não só em busca de sucesso profissional, mas de tornar seus sonhos realidade. Sonhos que vão muito além de meras realizações pessoais.

Uma pequena sala no fundo do quintal de sua casa, em Perdizes. Este é seu ambiente de trabalho. É ali que Cláudio e Cláudia, sua esposa, dão vida a sua agência de turismo, o ganha pão do casal. Com o pôster de um luxuoso resort da Cidade do Cabo como pano de fundo e várias réguas de propaganda eleitoral própria a sua frente, Modesto nem precisa ser questionado para começar a falar sobre sua experiência como candidato a vereador de São Paulo.

Como bom pastor evangélico, Cláudio tem uma facilidade incrível para falar. Se deixar, a conversa vira um monólogo sem que ele próprio perceba. Sua ligação com a igreja evangélica é estreita e de longa data. Ele mesmo não sabe precisar, mas afirma que está ligado a religião intensamente há pelo menos 20 anos. Modesto é fundador da Estação 337, uma pequena comunidade de Perdizes que realiza trabalhos com famílias. Ele também presta auxílios jurídicos e pastorais a outras pequenas comunidades evangélicas de São Paulo.

Engana-se quem pensa que Cláudio é apenas mais um pastor que se vale de um eleitorado evangélico para pleitear um cargo na Câmara dos Vereadores. “No contexto evangélico temos as mega-igrejas, que elegem seus candidatos, apoiados por nomes de peso, mas candidatos que em nada representam os fiéis”, explica o agente de viagens. A área de atuação de Modesto é outra, são as pequenas igrejas. Algumas que, segundo ele, nem configuração de igreja possuem. São comunidades evangélicas ainda muito embrionárias.

Porém, é por meio dessas comunidades, majoritariamente compostas por pessoas simples e de baixa renda, que Cláudio teve acesso as principais carências da cidade. Seu foco, em tudo que faz, está na periferia. Desde sua área de atuação na campanha a vereador até seus próprios trabalhos sociais ligados a Igreja. Como ele mesmo diz, apesar de a religião nortear seus ideais, sua principal intenção onde quer que esteja é colocar seus princípios de igualdade de direitos em prática.

Modesto, como se percebe pelo trabalho de sua Igreja, se preocupa muito com as famílias. “Hoje, nas igrejas, vejo muitas mães que trabalham o dia todo e não têm onde deixar seus filhos. Se forem pagar uma babá, gastam praticamente metade de seu salario. Quando tem condições de abrir uma possibilidade, a Igreja é um caminho. Mas o dever mesmo é da Prefeitura”, frisa o ex-candidato a vereador. Modesto se licenciou de sua Igreja e preparou dois outros pastores para assumirem seu lugar durante a campanha e pelo menos nos próximos dois anos.

“Minha ideia é colocar em prática tudo aquilo que propus na campanha mesmo sem ter sido eleito. Criamos um círculo de atuação que nos permite mudar a vida da sociedade mesmo longe do poder”. Cláudio explica que pretende trabalhar pelo menos nestes dois próximos anos em cima de seus projetos de campanha. Ele ainda não fala sobre se candidatar por uma segunda vez, pode ter sido a primeira e última, porém, o desejo de fazer a diferença apenas aumentou.

Enquanto contava um pouco de sua vida, dois norte-americanos passaram em seu escritório para se despedir. Amigos evangélicos que vieram visitar o Brasil e que encontraram na casa de Cláudio um local para se hospedar. A vida do casal é basicamente a Igreja. Não há conversa com ambos que não comece ou não termine com os ideais evangélicos. “Corremos muito atrás daquilo que acreditamos. Cremos que, independente da situação ou do contexto é possível fazer do mundo um lugar mais justo”. Pode-se dizer que ao mesmo tempo em que Modesto é um eterno indignado com os problemas sociais, é persistente em seus ideais.

Enquanto seca o suor no insuportável calor de sua sala, decorada com um ar condicionado que não funciona, Cláudio explica que visitou várias comunidades carentes ao longo da campanha a Câmara dos Vereadores. “Como a gente conhece várias igrejas e é ligado a elas, foi por meio dos pastores das mesmas que nós percorremos praticamente todas as zonas periféricas da capital paulista. Vi muita coisa. Vi, inclusive, que é na periferia que a eleição realmente se dá”.

Modesto ficou impressionado com o quanto as eleições mexem com a vida de quem mora na periferia. “Primeiro que nas eleições são abertas várias vagas de empregos temporários e as pessoas se agarram a esses empregos”, explica o corretor dizendo que “as pessoas entregam panfletos, flamulam bandeiras, colam adesivos e batem de porta em porta para ganhar um dinheirinho enquanto estão desempregadas”, ressaltando que com isso vários candidatos conseguem votações expressivas na periferia.

Apesar de ter andado por várias comunidades, Modesto sabe que não conseguiu tantos votos nelas justamente por não ter esse poder financeiro. “É muito caro conseguir se eleger vereador em São Paulo. Sem contar os que já estão lá e que passam quatro anos mantendo seu eleitorado”, afirmando que hoje, na Câmara, dá-se mais títulos de cidadão paulistano a caciques eleitorais que vota-se projetos. E é dessa forma, mexendo com a economia das comunidades, que os grandes nomes conseguem vencer.

Modesto trilhou o caminho inverso. “Conheci os reais problemas da periferia, sempre com aquela ideia de que mesmo que não conseguisse me eleger faria de tudo para melhorar a vida das pessoas”, afirma. Enquanto mexe em uma régua de sua campanha, com seu número de legenda estampado, Cláudio explica que “o lugar que mais me sensibilizou foi o Jardim Pantanal, aquele lugar que poucos paulistanos conhecem, mas que fica totalmente submerso nas temporadas de chuva”.

O ex-candidato a vereador explica que é preciso desenvolver um trabalho contínuo naquele local. “Além de um trabalho de prevenção muito forte, é preciso tirar aquelas famílias de lá. Mas não se trata simplesmente de tirar. Tem que dar outro lugar. E mais, é preciso conhecer essas pessoas. Bater de porta em porta, cadastrar as famílias, saber exatamente em que situação cada uma vive e ajuda-las da melhor maneira”, detalha Modesto, que teria essa região como principal foco de suas ações caso eleito.

Pedindo para que a mulher entrasse na roda de discussão, Cláudio deixava claro que ficou um pouco desiludido com a política. “Fui convidado pelo General Olímpio, deputado estadual e meu amigo, a sair candidato. Ele conhece nosso trabalho social junto a igreja. Logo aceitei porque achei que era o momento para isso. A decepção foi grande com o sistema, porque percebi que não basta boa vontade para chegar lá”, afirma cabisbaixo, até com a voz já mais desanimada.

“Só que a gente não pode parar. Sinceramente, não sei se volto a me candidatar a qualquer cargo público, pode até ser que sim. Mas nesses próximos dois anos me dedicarei, junto ao círculo de atuação que criei na campanha, a colocar meus projetos em prática mesmo sem ter a caneta na mão”. Mais forte que a decepção com o sistema eleitoral paulistano, apenas a vontade de Modesto de fazer a diferença, de fazer dos seus sonhos uma realidade.

Uma conversa com Gabriel

A Praça Roosvelt estava lotada, baianas de saia rodada dançavam o maracatu entoado em alto e bom som. Sentada em frente ao simpático bar Papo Pinga e Petisco, eu imaginava como seria o jovem candidato a vereador de São Paulo com o qual marquei uma entrevista. Haviamos conversado brevemente ao telefone, “sou melhor numa conversa, pessoalmente. Os pensamentos fluem melhor e também é mais pratico e rápido do que uma entrevista escrita”, sugeriu ele. O local também foi sua ideia, “estou sempre por lá, trabalhando ou passeando, aquela é minha área” contou, e assim eu constatava ao reparar nos cartases e adesivos políticos sobre as paredes e janelas dos bares e teatros dos arredores: “Vote Gabriel Medina, PT”.

Reconheci a figura caminhando em direção a porta do bar: ele olhava pros lados, quem sabe procurando a imagem que teria formado de mim, usava uma camisa verde xadrez e uma calça jeans. Da mesma maneira simpática que falou comigo ao telefone, sem rodeios ou formalidades, me recebeu com um sorriso. E assim foi com todos os que o cumprimentaram ali, garçons e clientes acenavam calorosamente, quase que como se fossem íntimos. O barulho não ajudou na gravação e, por isso, resolvemos mudar para uma padaria ali perto.

Neste local, também o reconheceram: “eu votei em você, ganhou?”. Sorrindo, Gabriel acenou que não, mas completou “estamos todos lá, juntos com o Haddad”. Depois do garçom nos trazer dois sucos, pedi que ele não encarasse a experiência como uma entrevista, não me interessava fazer propagandas politicas ou discutir ideias, queria apenas conhecer a pessoa por traz da foto sorridente que me cercava por todo o bairro. Combinamos de que apenas conversaríamos, sem grandes formalidades. De qualquer forma, ele não pareceu se incomodar, estava tranquilo e falava com naturalidade, algo que talvez devesse ser comum aos políticos.

Nascido em Araraquara, Gabriel teve seu primeiro contato com a politica muito cedo. Seu avó foi prefeito da cidade pelo PMDB, “meu avô era um pouco mais conservador” observou. Apesar disso, foi nos colégios de São Paulo, “no Logos, um colégio construtivista”, que o engajamento politico de Gabriel sobressaltou-se. E foi nessa grande cidade também, apesar de uma vida repleta de viagens, que passou a maior parte de seus anos. Era um aluno ativo, muitas vezes representante de sala, “não necessariamente do grêmio, eu era um pouco crítico em relação ao grêmio. Desde essa época já havia essa vontade, essa presença participativa, mas ainda não organizada. Aos 18 anos, Gabriel começou a trabalha no Centro Cultural KVA, na Vila Madalena: “Lá eu trabalhava com cultura popular. Tínhamos várias atividades com juventude, teatro, capoeira, coisas assim”. Na época, os arredores da rua Cardeal Arcoverde, onde ficava o centro, era muito mal cuidado: pixação, lixo, violência. Gabriel participou de programas para revitalizar a região, organizando produções de grafites, refeição para os moradores, um jornalzinho regional e até um encontro, que ficou conhecido como Forró Social Mundial, quando o KVA abrigou por muito tempo o ritmo durante o Forum Socail Mundial no Brasil. “A partir daí” parou um pouco, forçava a voz contra o barulho do liquidificador atrás do balcão e da TV presa na parede, “A partir daí, comecei a me sensibilizar muito com a discussão da politica publica, de pensa a cidade, de pensar como atuar no espaço público e dialogar com a cultura”. Foi nessa época que, já com a ideia de trabalhar no campo social, Gabriel entrou na faculdade de Psicologia na São Marcos, “tanto a São Marcos como o Logos fecharam, mas não foi minha culpa!” brincou.

Medina falava entusiasmado, parecia lembrar dos episódios orgulhoso, quase que com um sorriso infantil nos lábios. Pediu um cheese burguer, “você não vai comer nada? Essa padaria é umas das mais antigas por aqui”, e rapidamente voltou às lembranças. Durante o Forum Social Mundial, ele ajudou a organizar o Acampamento Intercontinental da Juventude. A coisa cresceu tanto, “virou um laboratório de experiências” e chegou a abrigar trinta mil jovens em 2005.

Durante seu trabalho no KVA, Medina ficou muito próximo de Tita Dias que, em 2000, tornou-se vereadora da cidade e o chamou para trabalhar como assessor: “eu não era afiliado nem nada, mas tinha atuação e ela achou que seria legal colocar um jovem na posição”. Foi nesse período que Gabril começou a pensar em formular leis, conheceu os mecanismos da câmara e viu que podia atuar no parlamento. Foi conhecendo a juventude do PT que Gabriel começou a se engajar e filiou-se ao partido: “No começo eu achava um horror, porque eu não era um cara com uma formação marxista e no PT tem essa coisa de correntes, são vários grupos que disputam. Eu achava uma juventude muito interna, discutiam coisas muito além, como a revolução russa ou a situação da Palestina. No entanto, havia pouca capacidade em discutir a nossa cidade, pouca penetração das coisas vivas da cidade, muita burocracia”. Apesar disso, Medina sempre gostou do partido, considerava a atuação de Lula muito importante para o país. Antes de ir para a câmara, ele ajudou na camapanha do futuro presidente trazendo alguns artistas e organizando eventos para alguns deputados.

“Eu achava essa coisa do Lula uma coisa importante para o Brasil, tinha essa identidade mais de esquerda. Eu li Marx no Logus na oitava série, pelo menos o manifesto do partido comunista eu tinha noção, eu ia saber a diferença de Trotski pra Stalin. Tinha uma referencia mais de esquerda, o Logos era um colégio progressista, eu estudei com a filha de militantes do PT, eram filhos de artistas que estudaram comigo. Então já tinha uma proximidade com essa visão mais ligada na transformação social, na justiça social, na mudança”.

Antes de dar a ultima mordida no sanduiche, Gabriel lembrou entusiasmado: “Fiz um trabalho na faculdade que me marcou muito, a mim e a minha formação”. Seu primeiro trabalho em grupo, contava, foi sobre empregadas domenticas da favela de Heliopolis, um estudo para entender a autoestima das mulheres que trabalhavam na classe média e que moravam na periferia, “a própria escolha do objeto já era certamente engajada”.

“Teve uma entrevista que me marcou muito, sai chorando, foi muito forte. Eu perguntava sobre o sonho, sobre a expectativa, o que ela esperava para a vida dela. Era uma vida muito sofrida com, inclusive, com abusos sexuais. Ela havia sido estuprada pelo patrão, engravidou, foi expulsa e depois ainda se casou com um cara que incendiou sua casa. E sabe o que ela me respondeu quando perguntei o que projetava, o que sonhava? Ela respondeu que queria poder comprar um saco de cimento pra fechar os buracos do barraco pois, com a chegada do inverno, ela passava muito frio”.

Era essa necessidade, chamada por alguns de romantismo, de transformar o Brasil; era essa sensibilidade social de pensar as politicas para quem nunca teve direito, que o impulsionava. Tocava-lhe a ideia de um processo que chamou de “psicologia do alimento”: as pessoas não se importam mais em ver moradores de ruas, as cenas não chocam mais.

Gabriel participou do Forum Nacional de Movimentos e Organizações Juvenis, movimento do qual resultou, em 2005, o Conselho Nacional da Juventude. Eleito presidente deste conselho, representou o Brasil no Fórum de Juventude do Mercosul, viajou para a Africa e teve atuação em diversos países.

No entanto, Medina buscava mais poder político na época, queria ter força no partido, demarcar a construção de sua historia. Sua campanha era jovem, libertaria e crítica. Buscava também retomar o uso do espaço publico, sempre organizando eventos e participando da revitalização do centro da cidade: “temos que voltar as ruas, voltar a ocupar o espaço que nos é de direito para o uso da cultura e da arte”.

Ele candidatou-se com dois objetivos: romper com um modelo de campanha muito instituído em São Paulo, generalizado dos partidos, que é um cercamento territorial. Media estava muito preocupado em como pensar um projeto de cidade, como trazer temas mobilizadores que pudessem ser temas mais amplos, falar sobre a homofobia, falar sobre temas importantes como educação e cultura. De outro lado, ele tentava romper um pouco com esse modelo de poder econômico instituído no qual você só se elege com cinco milhões, sete milhões, dez milhões. Ele questionava o custo/voto, que é muito presente.

O telefone tocou, “pode atender” eu disse.

“Só um momentinho, acho que é um amigo do Rio. Oi cara, estou chegando na Roosevelt já, já. Estou aqui perto, dá um tempo estou aqui no café Galliça, estou dando uma entrevista aqui cara, um tempinho, aí eu chego”.

Levantamos, Gabriel pagou a conta, disse que eu era sua convidada.

Há tempo para todas as lutas

O simples, discreto e barato relógio de plástico pendurado na parede denunciava que já era para Maurício estar ali meia-hora antes. Neste meio tempo a faxineira varreu todo o local, passou pano e ainda fez um café fresquinho para encher a garrafa térmica. A mistura do aroma do café com o perfume do desinfetante fez com que Deise rompesse um silêncio que parecia interminável: “mas esse Dr. Maurício não tem jeito mesmo, fica tentando abraçar o mundo e acaba não fazendo nada direito”.

A secretária dizia que o responsável pelos Recursos Humanos da AIPESP (Associação dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo) sempre deixa seus convidados na mão. Ela explicava que o candidato a vereador nas últimas eleições municipais tem muitos compromissos, desempenha várias funções em diferentes associações, portanto, corre pela cidade durante todo o dia e acaba esquecendo que tinha hora marcada com alguém. Além do mais, como a avenida Cásper Líbero fica bem localizada, ao lado da Estação da Luz, ele sempre combina alguma reunião com alguém por ali e ela é quem tem de acalmar os solitários.

“Aprenda uma lição: quando marcar alguma coisa com ele, ligue no dia pela manhã, ou algumas horas antes, pra não passar nervoso”, dizia Deise, já compadecida com a espera. Tirando as nada alentadoras palavras da secretária, pouca coisa quebrava o silêncio da área comum do primeiro andar do edifício. Deise trabalhava em silêncio em uma mesinha que ficava de frente para o elevador. Às suas costas uma estante com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e outra de Jesus Cristo. Crucifixo ao final do corredor, uma mesinha com bolachas e café num canto, bebedouro em outro.

À sua direita três salas maiores, dos diretores, e à sua esquerda várias salas pequenas ao longo de um grande corredor que levava ao auditório. Um ambiente frio, dominado por um tom de gelo, bem carregado. Ouvia-se algumas conversas de pessoas que estavam dentro das salas, na maioria das vezes apenas um dos lados de uma ligação telefônica. “Aqui é sempre assim silencioso, calmo. É que a maioria dos diretores, como o Dr. Maurício, não trabalham direto aqui, só passam de vez em quando”, completou a atenciosa secretária.

Um homem de várias causas

“Mil perdões, rapaz. Mil perdões”. Com um jeito apressado e um pouco atabalhoado, Dr. Maurício enfim chegava. “Neste final de semana fui jogar bola com os meninos que eu ajudo, virei o pé e tive que ir pro hospital”, justificando o fato de ter entrado manquitolando e de nitidamente estar com o pé inchado. “Sabe como são essas coisas, não é? A idade já não ajuda. Acordei com o pé parecendo uma batata”, rindo-se enquanto pegava um molho de chaves e abria a porta de uma das salas que nada mais tinham senão uma mesa cinza e quatro cadeiras pretas de estofado econômico em seu entorno.

Devidamente sentado em uma posição em que observava toda a sala e, pelo vidro da porta, o que se passava do lado de fora, Maurício Ludovico começou a se explicar: “não sei se você sabe, mas além do meu trabalho como investigador lá no 30° DP, ajudo associações afrodescendentes e ainda dou palestras educativas, portanto, acabo ficando com o tempo apertado e até me complicando um pouco. Pode parecer desculpa de político, mas pode crer que é verdade”. Ainda aos risos, Ludovico logo entregou aquele que considera seu mais importante trabalho e, além disso, seu ideal de vida: a defesa dos afrodescendentes.

De terno azul marinho, camisa branca e gravata vermelha, o investigador de polícia apontava para sua pele e afirmava que, enquanto negro, se sentia no dever de buscar mais voz e representatividade para sua classe em quaisquer que sejam os âmbitos sociais. Falava com orgulho que é conselheiro do Centro Cultural Africano e que a vontade de representar a classe negra na Câmara dos Vereadores foi apenas uma de suas tentativas de se fazer ouvir. Todos os dias, incessantemente, ele tenta defender seus ideais frente ao maior número de pessoas possível.

“Atuo em duas frentes, digamos. Primeiro dou palestras a jovens carentes, em sua maior parte negros, visando dar a eles a noção de que têm os mesmos direitos e possibilidades que qualquer outro. Uma outra frente é a de ajuda a entidades de auxílio a africanos e afrodescendentes, onde ajudamos pessoas que vêm de outros países, além da preservação da cultura”, explica catedraticamente Dr. Maurício.

O educador da autoestima

Poucas são as semanas em que Ludovico não dá palestras. Ele é chamado principalmente por instituições de ensino e diz que muitos diretores se surpreendem com seu trabalho pois imaginam que, enquanto policial, vá falar apenas do perigo das drogas e da criminalidade. Segundo ele, isso é sim importante, mas é algo que tem espaço em outros momentos. O investigador conta que em suas palestras tenta mexer com a moral dos jovens, levantando sua autoestima, tentando fazer com que eles se conheçam, encontrem suas potencialidades, tenham um sonho na vida. “Meu pai era analfabeto, minha mãe só tinha o primeiro grau completo. Porém, mesmo assim, conseguiram me formar em Direito”.

“Não acredito que nada que conquistei na minha vida tenha caído do céu, tudo tem um propósito, portanto, tento devolver aos meus semelhantes aquilo que eles mesmos me deram”, afirma já emocionado. Apesar de afirmar que já sofreu muito preconceito na vida, sendo até impedido de palestrar em um colégio por uma diretora que não aceitava negros ensinando seus alunos, o problema maior que vê está na falta de espaço do negro nos vários escalões da sociedade. E isso, segundo ele, “é uma faca de dois gumes”.

“Na política só ouvem o negro no processo de construção de políticas públicas porque são obrigados por lei. Os partidos só têm negros como candidatos porque precisam de uma certa diversidade. E os poucos que conseguem alcançar os altos postos não estão integralmente comprometidos com as causas de fato necessárias”, diz Ludovico, justificando ainda mais por quais motivos tentou entrar na política. Portanto, segundo ele, o problema não é apenas a falta de oportunidade para os negros, mas também o fato de muitos negros não acreditarem em sua própria causa e não correrem atrás dela.

A preservação da cultura e da religião

“Creio que o grande preconceito a ser eliminado em nossa sociedade seja o com a cultura e a religião africanas”. Por ser ligado a entidades de defesa a afrodescendentes, Ludovico acha que o grande desafio deste trabalho é desconstruir os preconceitos que existem com as religiões africanas e com a sua cultura. Enquanto mexia no celular, explicava que algumas dessas organizações acolhem africanos que chegam ao Brasil.

Ludovico explica que, no processo de inclusão social dessas pessoas, a principal dificuldade está em adequar a sua cultura a realidade brasileira. Principalmente porque há muita rejeição à religião. “A maioria das pessoas não reage com naturalidade quando se depara com manifestações religiosas africanas, assim como se espanta com as músicas, as danças, a alimentação e os hábitos dessas pessoas. Não é apenas estranhamento, é também preconceito, uma imagem negativa que possuem”.

Já com o celular devidamente guardado no bolso, Maurício afirma não seguir qualquer religião africana ou sua cultura diretamente. Abaixando o tom de voz, ele conta que é maçom. “Não defendo isso porque sou de alguma religião africana, até porque não sou. Defendo apenas porque percebo que é um dos maiores entraves para a plena convivência de africanos e descendentes em nossa sociedade. Na verdade eu sou maçom, a gente entende que o bem deve ser feito independente de quem a pessoa seja e em qual situação ela esteja. Essa é uma outra frente que eu defendo”

Lutas, bandeiras e ideais

Olhando desesperadamente para o relógio com pressa para um compromisso que o celular lhe lembrou ter, Ludovico diz que sempre trabalhou no funcionalismo público, ligado a Polícia Militar. Portanto, ele tem um círculo de relacionamento grande e procura se engajar para fazer o melhor de si em todas as frentes. “Como candidato, tanto a deputado em 2010 quanto a vereador em 2012, construí meu eleitorado entre a classe policial, a classe de afrodescendentes, a classe maçom e a aos vários segmentos em que já atuei”.

“Dentre eles está aqui a ONG Viva o Centro, da qual fui presidente por duas vezes”. Apontando para a janela, ainda completou que “se você olhasse essa avenida Cásper Líbero alguns anos atrás, só se depararia com drogados por todos os lados”. Maurício diz que na atual gestão a região da Luz está voltando a ser degradada e que, quando ainda era presidente, sofreu muito preconceito junto as entidades municipais quando ia reivindicar melhorias na região justamente por ser negro.

Levantando-se da cadeira e já em posição de despedida, para um outro encontro em que provavelmente chegaria atrasado de novo, Ludovico encerrou: “bom, acho que deu pra conhecer bem o investigador, o afrodescendente, o educador, o pai de família e o candidato Maurício Ludovico. Estamos sempre aí, lutando por aquilo que achamos certo, seja lá o que seja. Qualquer coisa que precisar estamos aí na luta. Qualquer dia te ligo para você me acompanhar nos vários encontros que já tive com o Alckmin. Tenho seu número. Eu te ligo”. Ludovico, provavelmente, esqueceu.

Da sala de aula para a Câmara

O Pipoca sempre foi fiel ao seu estilo único, permanece da mesma maneira que o conheci há quase 10 anos. Camiseta, calça jeans e tênis “All Star”, sempre com seu cigarro fino e o cabelo enrolado. Amante do Rock N’ Roll clássico dos anos 70, sempre toca seu violão nas reuniões com os amigos e a família.

Apesar de ser essa figura urbana, o conheci em Águas de Lindóia, interior de São Paulo, onde praticamente cresci e construí laços de amizade fortíssimos. Pai de um dos meus melhores amigos, sempre foi uma figura marcante e extremamente carismática e muito querido por todos. Não a toa era um dos professores mais queridos do colégio Arquidiocesano e do cursinho do Anglo. Feito difícil para quem leciona uma matéria tão maçante como física.

Aposentado há dois anos, nunca esteve longe de seus antigos alunos. Mantendo um frequente contato, muito graças a seus filhos, sempre gostou de ser presente para os estudantes e ajudar com problemas em cursinho, dúvidas no vestibular e no que podia também em faculdade, além é claro, de debater os problemas do país e principalmente do sistema de educação.

Foi em uma dessas conversas com ex-alunos, debatendo corrupção e o despreparo dos políticos do Brasil que veio a ideia de fazer algo, não só reclamar, mas agir e fazer algo na prática. Foi quando alguém disse “temos que estar lá dentro” que o ex-professor teve a ideia de se candidatar a vereador para as próximas eleições.

“Precisava primeiro de um partido que abrisse as portas e apostasse no potencial.”, explicou Pipoca quando perguntei por que a escolha do PPS. Não estar em um dos partidos considerados grandes era até que lógico, uma vez que a campanha foi proposta por uma pessoa que, apesar de ser bem relacionada, não é popularmente conhecida e nem chega perto de ser uma figura pública, principal jogada de marketing dos partidos hoje em dia.

Quando o questionei sobre a campanha e se ele mudaria alguma coisa para ter mais chances de eleição, sua resposta foi rápida, como se estivesse esperando pela pergunta, “Em termos da filosofia que eu acredito, jamais!”. Logo me passou pela cabeça a cena da conversa com seus ex-alunos e como a responsabilidade de ser um educador é algo além da aposentadoria e que nunca perde seu valor. Percebi como ele sentia a responsabilidade de dar o exemplo. Me perguntei o quanto ele acreditava na sua campanha, se de repente não fez isso para dar exemplo, cumprir seu papel de educador e passar uma mensagem de esperança para os jovens. Mas logo veio o resto da resposta: “Para se eleger é necessário muita grana. Em média R$90,00 por voto! Faz a conta!”. Mesmo rindo depois de terminar, percebi que era uma mistura dos dois: o exemplo para os estudantes desiludidos com a política do país e a questão financeira. Realmente fazer política custa caro.

Conhecendo a figura de professor e a pessoa tranquila que é em sua casa nas horas de lazer, não poderia deixar de perguntar o que o fato de ser professor tem com relação a carreira política. A resposta já era até que esperada: “Tem pelo simples motivos de eu saber me relacionar com as pessoas. E sem querer me gabar, aposto que melhor do que muito político por ai…E claro, por entender um pouco de educação”. Logo perguntei no que a carreira de professor iria ajudar na vida política. A resposta veio com muito bom humor e um toque de ironia, “Muito, pelo menos eu sei me expressar. O que temos visto por ai dos políticos é piada!”.

Eu precisava deixar a figura do vereador aparecer no meu entrevistado. Precisava que ele me mostrasse que todas essas ideias juntas e essa filosofia de professor iriam resultar em um vereador sério e preocupado com os problemas da cidade de São Paulo. Quando perguntei quais seriam as providências e os primeiros passos a serem dados como vereador, caso tivesse sido eleito, Pipoca ficou com o semblante sério, mudou até o tom de voz e foi firme na resposta: “O primeiro deles seria me aproximar do Ministério da Educação, depois iria propor mudanças no ENEM”. Eu sei bem o quanto ele detesta o modo como é aplicado esse exame. Me lembro de estar no colegial e comentar sobre a prova e ele balançar a cabeça negativamente e perguntando para si próprio “o que estão querendo provar com isso?” ou então “o que custa ser um pouquinho mais organizado?”.

Aproveitando o clima sério nessa parte da entrevista, que antes vinha sendo conduzida com muito bom humor, perguntei o que significa e a importância da política na vida dele. Essa era uma pergunta que apesar de parecer simples e soar como clichê, me intrigava e eu tinha marcado como uma das principais. Todos os jornalistas que cobrem essa área devem usar essa pergunta como um quebra-gelo em um início de entrevista ou para preencher o tempo que lhe é dado em uma reportagem. Mas no meu caso era diferente. Eu nunca soube qual era a verdadeira opinião da pessoa que eu estava acostumado a conviver como um amigo, que foi professor não faz muito tempo e que hoje vive uma experiência no mundo da política. “Simples: fazer política é convencer as pessoas que existe honestidade e que se pode fazer alguma coisa pelo bem comum. Infelizmente hoje, ficou difícil, mas não deveria ser. Em tese é bem simples”. Foi uma resposta sensacional que atingiu minhas expectativas. Simples, mas foi possível sentir que realmente acredita em uma filosofia de trabalho onde a objetividade e a simplicidade são fundamentais para uma política limpa e coesa.

Eu ainda perguntei qual era a diferença do Professor Pipoca para o Vereador Pipoca e como ele vê os dois personagens, se é que deu tempo para notar alguma coisa. “Deu tempo e foi uma experiência muito bacana estar junto do pessoal do partido e fazer o planejamento da campanha. Tem horas que você se empolga e já começa a se ver eleito, imaginando o projeto na prática. Na minha resposta anterior se vê essa diferença. Na sala de aula eu era bonzinho e sempre ajudava os alunos. Não que como vereador eu não fosse fazer o mesmo, mas imagino que tratar com um monte de políticos em um mundo onde eu ainda não era ninguém seja bem diferente do que lidar com adolescentes te pedindo meio ponto para passar de ano, né?” Depois de umas risadas, que dessa vez foram mais pelo jeito engraçado dele falar que quem o conhece sabe e não por qualquer ironia, a conclusão: “Se eu fosse eleito? Putz….tenho até medo de pensar!”

Não quero menosprezar ninguém, até porque, conheço o Pipoca há anos. Sei o quanto sabe sobre educação depois de tantos anos lecionando e o quão bem relacionado é nesse meio. Sem contar seu potencial. Mas é difícil de acreditar que aquele sujeito de camiseta e tênis, que faz graça de tudo poderia um dia se tornar uma das pessoas que comandam a maior cidade do hemisfério sul do planeta. Sei que ele seria melhor que muitos que se candidataram por partidos grandes e muitos que já estão lá dentro na maioria das vezes fazendo um grande nada. Alias, ele é uma daquelas pessoas que sempre falavam “se eu estivesse lá…”, mas uma das poucas que eu realmente imaginava fazendo alguma coisa se tivesse a chance.

Sei que é uma pessoa que se dedicaria naquilo que se propôs a fazer. Não porque o conheço e estou fazendo qualquer tipo de propaganda, mas pelo fato de ser um educador que tem suas revoltas com a política nacional como qualquer cidadão e dispõe de meios para realizar projetos. Como ele bem disse, custa caro e poucas pessoas sabem disso. A candidatura sai do bolso do candidato. Por isso muitas eleições acabam sendo ganhas com o uso de verba pública que os partidos usam.

Como amigo e também cumprindo o papel de jornalista, precisava perguntar como sua família reagiu a isso e se eles tinham apoiado a ideia. Pensava que uma coisa era apoiar por obrigação e outra era apoiar praticamente se candidatando junto, se interessando e entendendo até como uma decisão familiar. Conhecendo  e frequentando sua casa, sei qual seria a resposta, sei que o apoio não poderia ser outro senão grande, sempre foi muito unido com sua esposa e com seus dois filhos, além de sempre ter a casa cheia de amigos e mantendo contato com seus ex-alunos de várias idades que também apoiavam sua candidatura: “Foram muito a favor, fizeram campanha dentro dos limites permitidos. Me apoiaram demais. Sou muito gratos à eles. São família, né”.

Foram pouco mais de 1600 votos, nada dentro da esfera política, mas muito para o pessoal de alguém que mostrou ter meios para quem sabe, tentar novamente nas próximas eleições e até lá, planejar uma campanha que chame a atenção dos grandes partidos ou que tome forma e cresça o suficiente para ter um espaço na Câmara Municipal.

Paulo Bezerra e você

Seu tio era a imagem que ele queria seguir. Passou a infância correndo atrás de carro de som. Pintava camisetas. Ajudava na publicidade do tio que era candidato a vereador. Agora, mais de 30 anos depois, ele quase conseguiu realizar seu sonho. Quase. Por pouco, não foi eleito vereador da câmara de Diadema.

Paulo Cézar Bezerra da Silva, mais conhecido por Bezerra Gesso. E, atualmente, Paulo Bezerra e você. Culpa do jingle utilizado na sua campanha eleitoral. “Sempre tive o sonho de ser político. Via meu tio vereador, e queria ser igual a ele”. Sua família é bastante animada. Suas irmãs e mãe são falantes e agitadas. Eu que não o conhecia, fiquei espantada pela calma em sua voz. Quando conversei com sua família, a animação era tão grande que, às vezes, eu me perdia na entrevista. Porém, com o candidato era diferente. Sua Irmã, Lena, já havia me alertado que ele era bastante calmo. “Ele é bem diferente de mim, eu falo alto, me embaralho todinha. Ele é quieto, na dele mesmo”. Eu, por conhecer o resto da família, duvidei. Sem embargo, quando conversei com Paulo Bezerra, percebi a calma que sua irmã se referia. Acho que eu estava mais agitada que ele. Não acreditava que o autor daquela música infernal, seria um homem pacato e de poucas palavras. Eu achava que ele era meu pior inimigo, pois quantas vezes acordei com aquele maldito jingle ecoando pela minha casa.

Na cidade natal, Janduís, no estado do Rio Grande do Norte, ele passou a infância ajudando as campanhas eleitorais de Antonio Canuto, seu tio. O candidato ajudava na confecção de camisetas e em tudo mais que poderia ajudar. Sempre que podia, Paulo Bezerra acompanhava os comícios de todos os candidatos. “Participava de todos, só que eu me empolgava mais quando era o do meu tio”, relembra. Como sempre gostou bastante de música, ele e outras crianças da sua pequena cidade corriam atrás dos carros de som dos candidatos da região. “Decorava as músicas dos políticos e adorava”, relembra. Como cresceu rodeado por políticos e pela rotina política, seu desejo não seria outro; a não ser seguir a carreira de político.

 Sua carreira na política começou em 2004. Em sua primeira campanha, Paulo Bezerra não se dedicou tanto a corrida eleitoral. Contou, apenas, com a sua popularidade para arrecadar alguns votos: 426, no total. “O começo era bastante novo para mim, acabei nem me dedicando tanto”, conta o candidato. Para ele, o ano de 2004 foi, apenas, uma experiência que o Partido Verde depositou nele: “O PV (Partido Verde) quis testar mais o meu desempenho do que garantir uma possível vitória”, confessa. Paulo Bezerra, sem tanto apoio financeiro do partido, mostrou certos resultados e surpreendeu os líderes do Partido Verde.

Sua próxima corrida eleitoral foi em 2008. Com o resultado anterior, o Partido Verde ofereceu um pouco mais de apoio para o candidato concorrer e tentar vencer. “Ainda não tinha começado a me esforçar tanto, mas até que consegui um número significativo naquele ano”, relembra. Eu, na época, não fiquei sabendo de sua candidatura. Não tinha carro de som. Eu era feliz e não sabia. Apenas alguns muros pintados na região eram responsáveis para fazer propaganda para sua campanha. Por se considerar popular, Paulo Bezerra acredita que os eleitores o escolheram porque ele possui certa popularidade na região. “Sou bastante popular aqui, todos me conhecem por causa do meu comércio”, conta ele.

Nesse ano, como eu mesma fui obrigada a saber de sua campanha, deu para perceber o quanto Paulo Bezerra, realmente, se esforçou. Os carros de som que fizeram parte de sua infância, o candidato fez questão de colocá-los na vida dos moradores do bairro, principalmente na cabeça das crianças. “Quando fiz a minha música, pensei nas crianças. Elas decorariam a música e contariam para seus pais”, conta o candidato. Paulo Bezerra acredita que a música influenciaria as crianças para convencerem seus pais a votarem nele. “Minha música entrava na cabeça e não saia mais”. De fato, o jingle feito com uma música conhecida das pessoas, tocava diariamente e repetidamente pelas ruas da região. De domingo a domingo, o jingle surgia como forma de tortura. Era de manhã, tarde ou noite. Não importava, eu só escutava, hoje digito cantando: “Ele é do PV, ele é do PV. Paulo Bezerra e você!”. Eu, que não gosto deste tipo de música, fui torturada durante a campanha inteira. Acordava com a música na cabeça, dormia com a música na cabeça e quando menos percebia eu estava cantando “Paulo Bezerra e Você”, sem motivo algum.

No começo, alguns moradores até gostaram da música. Mas com o passar da campanha e o quanto o jingle era exaustivamente repetido, a raiva era geral. “Sério, eu já não gosto da música original, ainda tenho que ser obrigado a escutar uma versão ainda mais tosca!”, esbraveja Henrique Dalla Costa Lovison. Quanto mais se aproximava do dia de votação, mais o carro de som passava repetindo a música. Para Paulo Bezerra e família, o jingle era um orgulho. Era a estratégia perfeita para alcançar mais uma vitória. No entanto, eu e alguns moradores do bairro nunca achamos isso. Até hoje o fantasma “Paulo Bezerra e Você” me assombra. 

Seu trabalho para divulgar a campanha foi árduo, sua irmã conta que a filha dele até sentia falta do pai. “Ele passou muito tempo focado na candidatura. Não parava no trabalho e nem em casa”, admite Lena. Esse esforço quase o garantiu um lugar na câmara dos vereadores. Seu grande sonho. “Foi por pouco, eu achei que ia ganhar, mas não deu”, diz com a voz desanimada. O total de votos dessa eleição foi de 1844. O número triplicou com o passar das eleições. Com o número de votos que recebeu, o candidato a vereador, ficou em 31º lugar. Teria que passar, apenas, mais 10 candidatos. Para ele, o grande problema era a quantidade exagerada de pessoas concorrendo ao mesmo cargo. “Havia gente demais concorrendo, o voto se espalhava para outros”, reclama.

 O candidato possui uma empresa de gesso. Paulo Bezerra tem todas as características de empreendedor, sua empresa cresce cada diz mais. E tudo começou quando ele chegou de Janduís. Sua infância foi bem simples e sofrida, sua família de 13 irmãos passou bastante necessidade. “Erámos muito pobres, e sair daquela cidadezinha poderia significar um futuro melhor para nós”, desabafa Lena, irmã do Paulo Bezerra. Com 14 anos, ele desembarcava em São Paulo cheio de sonhos e esperanças. Escolheu Diadema, pois era uma cidade que estava crescendo e oferecia boas oportunidades de empregos. Seu primeiro trabalho foi de ajudante de pedreiro. Por trabalhar com obras, ele juntou dinheiro e começou a comprar terrenos pela região. Em seguida, com um pouco mais de dinheiro disponível, abriu a sua pequena fábrica de gesso. Sua empresa, atualmente, está presente em duas cidades: Diadema e São Bernardo do Campo e há pretensões de se expandir ainda mais.

Casou-se uma vez e separou. Agora, não acredita mais em casamento, apenas em “juntar os trapos” como ele mesmo disse. “A ex dele, quis levar tudo que o Paulo conquistou. Ela é ruim!”, esbraveja Lena. Depois dessa experiência nada agradável. Ele ficou traumatizado. Casamento nunca mais. Apenas, morar junto. Azar da atual mulher que tem uma filha com ele. “A nova mulher dele é bem melhor. Acho que ela não deva ser uma pessoa interesseira como a outra”, opina Lena. Na entrevista, o candidato, diferentemente da irmã, prefere não dar muitos detalhes sobre sua mulher e filha.

Hoje ele vive confortavelmente. Mora com a mulher e a filha e deseja melhorar, cada vez mais, a região. “Gostaria de oferecer para minha família e amigos um bom lugar para morar”. Por isso, acredita que os moradores, do seu bairro e das vizinhanças, devem lhe escolher como o representante dos moradores dos lugares que ele mais conhece. Paulo Bezerra acha que a luta não foi perdida, no fim do túnel poderá existir uma chance. E isso não está longe de acontecer, afinal, se o candidato a prefeito de seu partido ganhar, uma vaga de secretário está disponível. E, bom, o candidato do Partido Verde ganhou, mas isto é outra história.

O divino cansado e frustrado

O “Divino” está cansado. A aparência um pouco abatida, olheiras carregadas que (escondem os belos olhos azuis), rugas que agora mais nítidas do que nunca deixam mais evidente o cansaço no velho rosto daquele que foi colocado ao lado de Zeus, para os mais clássicos, ou ao lado de Deus para os mais religiosos. Aos 70 anos, se vê nos olhos, não tão mais divinos assim de Ademir da Guia, eterno craque do Palmeiras e ex-vereador de São Paulo, que não veem mais nada sem auxílio dos inseparáveis óculos, a emoção ao falar de sua história no time Palestrino, e o cansaço que a política lhe proporcionou.
– A o Palmeiras, se não fosse por ele nada disso seria possível na minha vida – Disse com um ar saudosista e emocionado e um leve sorriso no rosto. – Sempre terei orgulho de ter minha história associada ao Palmeiras, não importa o que dizem. Ele fez um garoto pobre de Olaria, RJ, a ter uma vida bem melhor, tenho que agradecer eternamente a este clube maravilhoso, e a torcida que jamais me esqueceu”. Neste momento um sorriso emocionado tomou conto do rosto sereno e apático.
Além de eterno ídolo da academia, o “Divino” começou a carreira política graças a um pedido do atual ministro do esporte, Aldo Rebelo. Pensativo, o ex-jogador tenta lembrar como e onde recebeu o convite do ilustre amigo. – Em 2004 fui convidado pelo Aldo Rebelo a ser militante do PC do B, só que saiu uma noticia no Estadão, dizendo que fui convidado a ser candidato a vereador, eles (Estadão) tinham viajado na maionese, porém fui muito bem aceito e muita gente disse que se eu me candidatasse, votariam em mim, foi então que o Aldo me convidou a ser candidato a vereador por São Paulo e eu aceitei.
Curioso, perguntei se de fato ele tinha vontade de ser politico, ou entrou “para tirar uma onda”. Pensativo e com um leve sorriso no rosto, Ademir foi enfático ao dizer um solitário e curto “Não”. Após uma breve pausa e levando a mão direita a nuca, o ex-vereador completou. – – O PC do B estava mal das pernas, e viu em mim a possibilidade de eleger mais candidatos da legenda comigo. O Palmeiras vivia uma fase até que legal com a volta do Edmundo ao Palestra, e na época várias ações de marketing foram feitas pela diretoria, e quase que em todas eu estava lá sendo homenageado ou promovendo algo, foi quando que o Aldo me disse que era o momento certo, e fui.

– Consegui eleger 3 candidatos comigo, não lembro o nome, mas foi muito bom pro partido – Respondeu com um aspecto soberbo, levando o copo de água que estava na mesa de centro de sua sala a boca. Fugindo um pouco de como Ademir entrou na política, comecei a perguntar da campanha de 2012. Com 14.345 votos, 2664 votos a menos que a última eleição (2008) onde já não havia sido eleito de forma direta (assumiu como suplente), resolvi perguntar sobre erros em sua campanha e com um aspecto nervoso, respondeu todas as perguntas de maneira direta, sem enrolar.
– Ademir, por que você acha que não foi eleito esse ano como vereador?
– Ah, é difícil dizer né? Muita gente não foi votar este ano. – Pausa para pensar – Não sei dizer, não sei dizer mesmo do porque eu não ter sido eleito. – respondeu levando com um olhar distante e coçando a nuca com a mão direita, gesto que foi repetido dezenas de vezes durante toda a entrevista.
– Você acha que como sua campanha foi focada somente nos Palmeirenses, a má fase do time também deve ter contribuindo para o menor número de votos?
– Não sei, talvez sim, talvez não. Essas coisas são muito difíceis de responder,filho – respondeu com um leve sorriso e pegando novamente o copo na mesa de centro e levando a boca para um leve gole. – Acho que a fase é algo relativo, se o Marcão (Marcos, ex-goleiro e ídolo do Palmeiras) tivesse se candidatado, talvez tivesse ganho. Como ele parou esse ano, ainda está em destaque na mídia, conseguisse se eleger. Como parei de jogar em 1977 tenho um pouco menos de apelo hoje do que o Marcão. – Sorrindo, completou – Menino, você faz perguntas que não sei responder, vamos terminar a entrevista logo, desse jeito – quando novamente levou o copo de água a boca.
Em 2005, o ex-vereado foi acusado de reter para beneficio próprio, parte dos salários de funcionários que trabalhavam em seu gabinete na Câmara Municipal. Na ocasião, dez servidores diziam ser afetado pelo esquema. Além destas acusações, Ademir foi duramente criticado na época pelo grande número de familiares em seu gabinete. Sua mulher, Sueli, seu filho Namir, uma sobrinha de Sueli e dois irmãos. Então resolvi perguntar se esse caso poderia estar presente na cabeça dos eleitores e te-lo prejudicado de algum modo.
-Sr. Ademir, você acha que as acusações recebidas pelo senhor em 2005 ainda o prejudique ou tenha queimado a imagem o senhor no ramo da política?
– Não falo sobre isso – Respondeu rispidamente. O semblante antes simpático e dócil deu lugar a uma expressão fechada e irritada. – Foi tudo mentira, ninguém nunca provou nada, só serviu para tentar manchar minha imagem. Não acho que isso possa ter me prejudicado, já que nada nunca foi provado. – respondeu de maneira séria e nervosa, novamente pegando o copo d´água, agora na metade, e virando de uma só vez. – Vou pegar mais água, você aceita? E vamos falar de coisas boas em… – Disse se levantando e indo em direção a cozinha de seu belo apartamento.
– Não, muito obrigado – Disse eu com um sorriso sem graça no rosto.
Enquanto o ex-deputado ia até a cozinha, comecei a dar uma boa olhada na sala de estar de seu apartamento. A sala de estar era bem ampla, porta-retratos e camisetas do Palmeiras de diferentes épocas enquadradas nas paredes faziam a decoração do local juntos a alguns troféus e medalhas. A decoração é bem “clean”, o tapete cinza claro, bastante confortável, combinava com seu sofá branco de camurça de frente a uma belíssima televisão de mais ou menos 50 polegadas. Alguns em estantes acima da televisão mostrava que mesmo tendo estudado até a quarta série, Sr. Ademir gostava bastante de ler. Dentre os que pude notar, haviam livros sobre o Palmeiras, e títulos como “A arte da guerra”, “O Código da Vinci” e um que me chamou bastante atenção, “Uma breve história da filosofia”, de Nigel Warburton.
Rapidamente Ademir voltou da cozinha com uma jarra de suco e algumas bolachas.
– Você deve estar com fome, pode se servir – disse colocando as coisas na mesinha de centro.
– Muito obrigado, Sr. Ademir! – Respondi meio sem graça.
– Quantas perguntas ainda faltam? Perguntou sentando lentamente em seu confortável sofá.

– Pouquinho, já está acabando.

– Não tem pressa, só para saber mesmo. Então, qual é a próxima – perguntou enquanto coçava a nuca novamente com a mão direita.

– Quantas pessoas compunham sua equipe? Como foi elaborado o plano de campanha?
– Diretamente eram seis pessoas diretamente. Um assessor cuidava do planejamento, e cinco pessoas cuidavam diretamente da candidatura. Mas no total, tinham mais de 70 pessoas, contando com as meninas e rapazes que entregavam “santinho” na rua. – Após uma breve pausa, com um olhar distante, novamente pensando – Não, acho que eram mais de 80 pessoas.
– Você foi eleito como quinto suplente, acha que ainda há chances de assumir como vereador?
– Existem chances, pequenas mas há. Está muito difícil né meu filho?! Sinceramente, acho que não há chances. Estou cansado da politica, acho que pude contribuir com muita coisa boa, muita coisa no esporte. Consegui disponibilizar mais verbas para escolas públicas e atletas de confederações, além de conseguir que fosse implementado o dia do ex-atleta. (10/09).
Quando avisei que iria fazer minha última pergunta, pude notar um sorriso aliviado no rosto de Ademir, que já se sentia a vontade em responder as perguntas novamente, depois que fiz a pergunta no qual o deixou aborrecido.
– Para terminar, Sr. Ademir. Você pretende continuar na vida política? Pretende se candidatar para deputado federal ou estadual?
– Olha filho, estou realmente cansado da vida política, é muita correria. Já estou com 70 anos, embora não pareça né? – Cai na gargalhada quando mostra para mim, os músculos já flácidos de seus braços – Viu como estou bem? Mas agora falando sério, hoje eu diria que não aceitaria me candidatar, mas nunca sei o dia de amanhã, se tivesse que tomar uma decisão hoje, acho que não aceitaria. Essa eleição me deixou meio desgastado, são muitos compromissos o dia todo, muito dinheiro para investir. Não gosto de entrar em nada para perder, e fiquei frustrado por não ter sido eleito nessas eleições. Não sei filho, não sei – Abrindo um largo sorriso e colocando a mão direita em meus ombros finalizou – Já te falei anteriormente que você faz perguntas muito difíceis.