Faça-me rir

“E eu lá vou cobrar a água para um palhaço? Dá logo pra ele” bradou um vendedor de bebidas na festa dominical de 183 anos de Parelheiros. A atitude surpreendeu e não foi, por incrível que pareça, ofensiva. A ordem que o senhor deu a seu ajudante veio acompanhada de um pedido para que eu pusesse no nariz a bolinha vermelha que me acompanhava feito um colar junto ao pescoço. Com um telefone celular que tira fotos, o vendedor passou a sorrir e apertar um botão que fazia o aparelho emitir um som baixo, que imitava o barulho de uma dessas câmeras digitais modernosas. “Posso usar?”, perguntou. Com minha resposta afirmativa, virou a tela do celular para me mostrar o enquadramento que deu ao meu rosto palhaçal.

Passei um final de semana atípico. Duas noites em regime militar num Retiro de Palhaço, com cinco pessoas em um sítio, dormindo, comendo, alongando, meditando e vivendo grandes saias justas juntos.

O combinado era que nos encontrássemos às 23h da sexta-feira nas catracas do metrô Santa Cruz para que então partíssemos de carona com a organizadora do retiro, Ciléia Biaggioli. Esse era o acordo, mas acabamos por chegar em Parelheiros às 4h do sábado. Tudo graças a um rombo no pneu do fusca que nos levaria até lá e a alguma pane ainda não identificada no queridinho do ex-presidente Itamar Franco. A solução foi a providencial carona do providencialíssimo namorado de uma das participantes, o Douglas, que lotou seu carro popular com compras de mercado, mochilas e malas de pessoas que acabara de conhecer.

Fomos recebidos a farejadas, lambidas e barrentas patadas de seis cachorros que vivem no sítio do retiro e acolhidos com uma sopa preparada por Ciléia em incríveis cinco minutos, cheia de vegetais e de gosto peculiar. Estávamos, eu, Carla – namorada de Douglas – e Paula, exauridos, afinal era sexta-feira, dia oficial do sono acumulado.

Depois de prepararmos os colchões esfarrapados pelo uso com dezenas de cobertas, veio a ordem de Ciléia para que sentássemos em roda. Nada de dormir, tínhamos de nos apresentar uns aos outros formalmente, pois de nada valiam os descontraídos papos durante o trajeto de 1h20 de carro até lá. Finda a pequena reunião, nos soterramos sob os cobertores, esperançosos de que o fogo da lareira fosse outro trunfo para combater o frio de bater os dentes que fazia em Parelheiros.

Eu particularmente nunca pensei em ser um artista, quanto mais um palhaço. Quando me interessei pelo retiro, foi com o estreito intuito de escrever uma reportagem. Não sabia em que terreno estava pisando e permaneceria com esse ponto de interrogação enorme povoando a mente até o fim da experiência. Sei que agora concordo com o gênio Frederico Fellini em sua definição de que o palhaço “é uma caricatura do homem como animal e criança, como enganador e enganado. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê sua imagem torpe”.

No retiro, percebi também que a opinião do não menos genial Jimi Hendrix de que o palhaço é o último a ir pra cama faz muito sentido…

“Acorda, é hora de dar bananas aos macacos”. Eram oito da manhã, três horas e pouquinho desde a deitada de cabeça no travesseiro e eu esfregava os olhos como responsável por despertar o grupo. A frase aparentemente sem nexo na linha de cima foi minha saída à ordem de Ciléia para “acordar os outros de forma inusitada”. Foi então que percebi que outras duas moças haviam se juntado a nós: Laudicéia e Julia. A primeira é uma jovem índia guarani de 16 anos, da tribo Tenonde Porã, aluna de Ciléia num curso de teatro em Parelheiros. A segunda é a filha da organizadora, de apenas 12 anos.

Apresentados, semidespertos e instigados, depois de um café da manhã ‘natureba’ – nada de frios, açúcar refinado ou derivados de carne, leite e ovos –  já era hora de começar a primeira atividade: o alongamento. Músculos desses que a gente nem sabe da existência, quando flexionados, pareciam estar a ponto de romper a qualquer momento. Alongamento de ator que mais parecia tortura. O mais curioso era um em que, apoiado todo o peso do corpo sobre o pescoço e a nuca, joga-se as pernas e pés para trás, ficando com o tórax junto ao queixo. Esse dói uma barbaridade

Entre uma puxada daqui e uma cara de dor dalí, Ciléia tomava alguns minutos para explicar, sempre com uma consistente base teórica, alguma teoria sobre a importância da respiração e da postura. Eis que então mantras começaram a sair de sua boca, encoberta pelas pernas em mais uma tentativa de fazer borracha do corpo humano.

Sem que me desse conta ou me esforçasse, já estava repetindo aquelas palavras que não me faziam sentido semântico algum. Um destes mantras ficou registrado em meu gravador, levado ao banheiro numa escapulida sorrateira. “Oh dé, oh dé, oh dé, Ode Arerê, oh dé. Dé, oh dé, o dé, Ode Arerê…”. Na volta, o grupo já estava em outra música, a qual não registrei e nem fixei mentalmente, mas que falava algo sobre um tal de Henrique, creio. Pela primeira vez na vida pratiquei conscientemente a meditação, pois percebi que sai do ar por algum tempo.

Era hora então de confeccionarmos a menor máscara do mundo: o nariz de palhaço. O procedimento é bem simples, mas recomenda-se a supervisão de um palhaço responsável, como Ciléia. Ela é palhaça de carteira assinada há 15 anos, casada com um palhaço e que dirige uma Kombi. Mais clichê, impossível. Se não a conhecesse, talvez ficasse ressabiado, imaginando se ela faria parte da quadrilha de palhaços ladrões de órgãos infantis dos quais tanto se comentava durante meus anos no primário.

Já com o instrumento de trabalho pronto, começou atividade seguinte, o ‘Faça-me rir’. Com um nome destes, explicações são desnecessárias.

Se o conceito é simples, fazer a mini platéria rir não é. Arrancar gargalhas é doloroso, desgastante e sincero. Explico: não há gancho, não há contexto, assunto ou qualquer situação de onde se possa tirar inspiração. As pessoas não necessariamente têm carinho ou admiração por você e pouco conhecem o calibre de seu senso de humor. Eu fui vítima de mim mesmo ao tentar ser engraçado. Fiz acrobacias, contei piadas, histórias e senti como é péssima a sensação de olhar para o público com esperança e ter como troco o olhar nada atraído da platéia. Foi aí que, numa tentativa de cambalhota mal executada, ouvi de Ciléia que a única coisa engraçada em mim era meu ‘cofrinho’.

Pronto, não pensei duas vezes antes de declarar que usaria a informação privilegiada a meu favor. Abaixei mais um pouco a calça jeans e comecei a conversar com eles como se nada tivesse acontecido, exibindo despreocupado o vão entre a calça e o vinco em meu quadril nada atraente. Aleluia, eles riram, e bastante. Ufa, já podia me sentar, era a vez do próximo palhaço.

O segundo demorou a apresentar-se, pois o medo causado pela reação do público – ou melhor: da não reação do público – foi paralisante. Mas a próxima a se apresentar, a Carla, tomou coragem e ficou de pé a poucos metros de nós para seu ato. Ela rompeu em prantos no meio, mas assim como os demais conseguiu a duras penas fazer rir.

Hugo Passolo, diretor, autor, ator, jornalista, roteirista, crítico de espetáculos e PALHAÇO criador dos Parlapatões (famosos artistas teatrais de São Paulo) é direto e reto ao falar de uma de suas atividades: “Para ser palhaço, é preciso fazer rir. Se não fizer rir, não é palhaço”.

O exercício seguinte foi mais enigmático. Tratava-se de falar sobre si mesmo ao falar unicamente o próprio nome. Paula Marcelle, Paula Marcelle, Paula Marcelle. Pa-u-la Mar-ce-lle, PaulaMarcelle. Todos escaparam ilesos e o relógio, o único da casa, já indicava que era hora de jantar.

Com a barriga tão cheia quanto a vontade de ir para a cama, ainda tínhamos uma última tarefa: dar um beijo na(s) parte(s) do corpo que escolhemos como mais bonita(s) de cada um e que havíamos escrito em pequenos pedaços de papel antes de sabermos do propósito. Recebi estalinhos nos ombros, olhos e bochechas (dois), além dos de boa noite.

No domingo, último dia do retiro, a intimidade entre os participantes era grande e o clima de descontração, notório. Logo de manhã, a pedido da Ciléia, fizemos massagens uns nos outros e pelo corpo todo. Recapitulando: domingo, em um retiro de palhaços em Parelheiros, 7 da manhã, gente apertando as nádegas de quem há dois dias era um completo estranho.

Brincar de esconde-esconde era nossa próxima tarefa. Só que não era a brincadeira convencional, na qual uma pessoa vai à procura das outras e, se as achar, transfere a responsabilidade do posto para elas. No esconde-esconde proposto, apenas um se escondia e, na medida em que as pessoas iam encontrando o escondido, se juntavam a ele. Bem lúdico, para descontrair mesmo.

Para descontrair à primeira vista, a atividade seguinte mostrou-se bastante agressiva. Com a ponta de uma corda presa ao batente de uma das duas portas da sala onde passamos 90% do tempo – inclusive nas poucas horas de sono que tivemos – Ciléia ordenou que fizéssemos fila  para pular corda. Ela fazia movimentos circulares com as mãos para centrifugar a corda e um a um tínhamos de entrar e pular a quantidade de vezes que ela determinava. Chegamos a estar os 5 palhaços no mesmo compasso e pulando simultaneamente a corda 20 pulos seguidos. Sincronia foi a chave para a atividade que durou pouco mais de 40 cansativos minutos.

Em seguida fomos ao centro de Parelheiros, que completava 183 anos com uma festa singela, porém aconchegante. Em frente a um palco aparentemente montado às pressas, o público não devia ser de mais de 3 mil pessoas, incluindo as crianças que ligavam mais para as brincadeiras na pracinha cheia de espaço. Havia alí por volta de 15 barraquinhas de comerciantes locais que vendiam guloseima, roupas e serviços, como o de massagem rápida, que pareciam não estabelecer concorrência direta entre si. Quem vendia bebidas, só vendia bebidas. A microdoceria, a pastelaria e a pequena tenda de bolsas seguiam o mesmo código.

Lá se apresentou Laudicéia, a indiazinha que vivia a experiência no retiro. Na peça, cantou uma canção indígena de cadência e ritmo muito suaves e bonitos pelo sepultamento de uma árvore. A finada era o tema central da peça de cunho ambiental mas sem pieguice, que até então era a atração que mais cativara o público. Em segundo lugar nesse quesito vinha um rap em homenagem a um garoto da comunidade que morrera recentemente de forma violenta, chamado Jeremias.

Com o fim do espetáculo, vestimos nossas máscaras – que devem ser colocadas de costas ao público e não devem nunca ser tocadas pelos dedos – e fizemos uma pequena intervenção urbana ao interagirmos com o povo na rua. As reações eram diversas, partiam indagações sobre o que fazíamos, acenos, gritos indecifráveis e desvios de olhar. Fizemos perguntas simples, como de onde saia o ônibus para Marcilac e que horas eram.

Nas ruas de Parelheiros, a quantidade de igrejas pentecostais é enorme. Seus principais adversários na guerra pela alma do homem, os bares, estão enfraquecidos na região, mas àquela noite reuniam quantidade considerável de etílicos ruidosos.

A volta ao sítio foi para palavras finais de Ciléia que agradeceu a colaboração e a resistência de nós todos, vindos de origens tão distintas. Nenhum de nós pretende ser palhaço. Paula é formada em filosofia e trabalha em um centro cultural, Carla é advogada do TRF e Laudicéia ainda tem dois anos para completar o ensino médio e eu, bem, eu pretendo prosseguir minha carreira como jornalista. Nunca se sabe agora que já passamos por uma prova de fogo e perdemos parte da inibição e da vergonha.

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Intransponível blindagem

“Quando eu comecei a trabalhar aqui, lá em casa tínhamos  que comer em fundos de garrafas de cândida porque não tinhamos pratos” despejou conceição ao comentar da situação em que foi deixada pelo marido há três anos. “Eu e meus filhos ficamos pra fora, sem casa, num dia de chuva”.

Enconstada na porta do quarto 3×4 que ocupa durante o expediente como empregada doméstica em um apartamento na zona norte, Conceição não é de olhar nos olhos e se ocupou o tempo todo de encurtar a metragem de um carretel de barbante com o corte de uma tesoura implacável.

A mulher, hoje com 42 anos, cabelos longos e presos, saias compridas abaixo do joelho e blusas invariavelmente mais largas que a silhueta de proporções generosas diz ter uma “vida boa, que melhora cada vez mais”. Presença diária e certa em uma igreja pentecostal próxima à sua casa, no Jd. Antártica, Conceição vive com seus seis “meninos” sob um teto de dois cômodos, um fogão de duas bocas, alguns colchões, uma geladeira emprestada, o aluguel e  as contas que insistem em chegar todo final do mês. Ela gosta de futebol, é corinthiana e, se tivesse de escolher um prato para sua última refeição, seria “arroz, feijão e bife”.

Ela trabalha em casa de família desde os 8 anos, quando começou como babá, “uma criança que cuidava de outra criança” como brincou. Com menos de uma década de vida ela havia acabado de ser mandada para fora de casa pela mãe,enciumada projetando um possível envolvimento dela, naquela idade, com o então atual marido. Mudou-se de Iguatú, onde nasceu, para Fortaleza. “Fui pra casa de Dna. Idália, que disse que tinha um filho professor e que se eu me mudasse para a casa dela teria estudo e comida”. Só que não foi bem isso que aconteceu.

Os três filhos de Dna. Idalia ensinaram para a menina muitas coisas, sendo a lição mais recorrente a de técnicas de tortura; maltratavam-na,  roubavam sua comida e a faziam “sentir medo”. Talvez imaginassem que trancar a criança em um quarto úmido dos fundos, sem luz, comida ou água fosse bom para enrijecer sua personalidade. Parece que, sabendo ser no mínimo mesquinho afirmar isso, foram por caminhos tortos e técnicas diabólicas que eles lubrificaram as primeiras peças de um tanque de guerra de saias, sem canhões ou metralhadoras.

Maria da Conceição aprendeu que a vida pode ser muito injusta, mas que se deve aprender com ela e nunca abaixar a cabeça. Por exemplo:  do tal filho professor de dna.Idalia, ela aprendeu a ler e escrever. “Ele dava aulas particulares em um quarto lá de casa e eu assistia a tudo pela fresta da porta”, contou orgulhosa e revelando um tanto de decepção depois de dizer que as aulas só aconteciam nos dias que a porta ficava entreaberta.

Anos depois, já adulta, casada e com dois filhos, Maria da Conceição Souza desceu de um pau-de-arara em São Paulo, onde “tudo era tão grande e confuso”.

Sua vida continuou se resumindo em trabalho, a maternidade e… sofrimento. O marido, alcoólatra, descontava suas frustrações com socos e pontapés desferidos contra ela e sua prole. José Antônio, covarde, chegava a esperar os três filhos mais velhos irem à escola noturna, aumentava o volume da televisão e fechava as janelas para começar com o ritual ultra-violento. Foi ao me contar esse caso, e somente ao falar no nome dos filhos que ela perdeu as primeiras e únicas lágrimas.

Hoje, “livre do Zé há três anos”, Maria da Conceição Souza Araujo segue trabalhando para vencer a batalha diária. Alimenta a alma na igreja, mas sempre soube que não se enche barriga de seis filhos de oração e não atribui tudo que conquistou a Jesus. Seu maior sonho é comprar uma casa para viver sem a insegurança de não conseguir pagar as contas.

O 2010 é todo reestilizado

 – Oi, bom dia.

– Bom dia, posso ajudar?

– Vocês têm algum Jimny usado?

– Hum… deixa eu verificar com o setor de vendas. Fique à vontade… Aceita um café, uma água?

– Não obrigado

A recepcionista dá lugar a William, um vendedor da concessionária

– O senhor que queria ver um Jimny usado?

– Eu mesmo

– Qual seu nome?

– Victor

– Prazer, William.

– Me acompanhe que a gente tá com uma promoção fantástica no 2010.

– não tem nenhum usado? O “zero” é muito caro pra mim, obrigado. Eu queria ver algum na faixa de uns 30 ou 35 mil

– Depois que eu te mostrar a linha 2010 você vai ver que vale a diferença, o carro foi todo reestilizado pela Suzuki

– É mesmo?

– Tudo, tudo, tudo diferente, desde o motor, acabamento interno, suspensão, autonomia. O visual ficou mais “aventura” com esses pneus de perfil maior, né?

– Com certeza (nem sabia que pneu tinha perfil, ainda mais um que fosse aventura)

– Esse jipinho aqui é um sucesso no mundo todo, o 4×4 mais acessível e econômico do mundo. Essa nova linha 2010 faz de 15 a 17 quilômetros com um litro de gasolina.

– E as mais antigas?

– Não dá nem pra comparar com esse aqui. Motor de alumínio 1.3 de 85 cavalos de potência. Suspensão helicoidal independente.

– Nossa (heli o quê?). Mas qual a diferença?

– Deixa eu te mostrar, senta aí “Victôr”

– Pô, valeu cara, mas eu só dei uma passadinha mesmo pra ver se tinha algum usado. Não tenho grana pra esse aí.

– Mas você vai ver que vale a pena, não tem nem comparação com os mais antigos. Tanto que esse tá vendendo muito. Semana passada mesmo fechei sete vendas nele.

– Qual carro você tem? Dá pra envolver na troca, pagamos bem!

– Um Polo 2007, mas…

– Tá com ele aí? Tá lá fora?

– Isso

– Vou lá avaliar e já volto. Fica à vontade, toma as chaves dele, sente o motor…

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– Victôr, falei com nosso avaliador e a gente dá 28 mil no seu carro.

– É William, né?

– William

– William, valeu cara, mas não posso nem pensar em pagar 56 mil num carro agora. Parei mais por curiosidade. Não vou falar que não gostei do carro…

– Vem cá que eu to com um prata lindo lá fora pra você dirigir e sentir o o 2010.

– Ah… beleza, “vambora”

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-Vai, pode acelerar

– Até que anda bem…

-Eu já te falei que ele faz 17 quilômetros com um litro de gasolina? Esse jipinho é sucesso de vendas no mundo todo.

-Muito legal mesmo, bem macio.

-Vai, pode passar varado nessa lombada

-Sério? (nunca pensei que fosse ouvir isso num test-drive)

-Vai fundo!

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– E então, como vamos fazer?

– Williâm, vamos fazer assim: me dá um cartãozinho seu que eu ligo. O problema é que, como já te disse, não tenho dinheiro.

– Aqui está. Me deixa seu telefone que eu vou conversar com o gerente pra melhorar esse negócio. Se parcelarmos em 24x, fica XXX reais por mês. É o 2010, Victão (Victão?), todo reestilizado pela Suzuki. Não tem nem comparação com o antigo!

-Beleza cara. Volto aqui no final de semana, então.

-Volta sim, nem que seja pra tomar um cafezinho.

– Fechado. Até mais, abraço!(Eu me pergunto se existe alguém que vai a concessionárias de carros que não vão comprar, em pleno sábado, só para tomar um cafezinho).

-Se imagina dentro desse carro que ele vai vir.

– Tomara (Aí não, William, partir pro exoterismo já é demais)

Aplausos, aplausos

Mudei de posição no assento e só confirmei que postura errada conseguida ao longo de 24 anos quando tenta ser corrigida só piora. À frente uma poltrona no lugar que deveria pertencer ao meu joelho e, para piorar, alguém teve a idéia de colocar um corrimão cheio de aço no parapeito da platéia superior que bloqueava a visão, onde eu estava. Não diria que estava com sono, mas os olhos pesavam e a minha miopia não tratada fazia crescer a ardência ocular.

Terça-feira estive no teatro. Nem me lembro há quantas terças-feiras que não fazia isso.  Aliás, não me lembro sequer de ter sido platéia em tamanho dia morno. Quem me deslocou até o teatro Paulo Autran, no SESC Pinheiros, foi meu amigo Willians, que atuaria naquela noite, na estréia da peça.

A fila para os bilhetes, gratuitos para convidados, era grande o suficiente e servia como uma ampulheta para ditar o ritmo dos presentes e evitar uma fila maior na hora de entrar na sala, que ficava no andar de baixo. Paralelo à fila estava Marcelo Rubens Paiva, com um copo de plástico metade cheio de cerveja e com uma cara sem expressão alguma. Pensei em falar com ele, dizer que havia lido recentemente seu livro “Feliz Ano Velho” e que o encontro com ele ali me fez lembrar de uma ex-namorada, a quem pertencia o livro, que eu seqüestrei. Não tive coragem e nem teria pernas, caso decidisse seguir sua cadeira de rodas elétrica, espantosamente rápida.

Tenho de admitir que a expectativa de minha parte quase não existia. Recebi um flyer virtual na quinta, por e-mail, mandei uma listinha de nomes próximos na sexta e só.  No próprio dia da peça, tive de ser lembrado em duas vias de mensagens de texto. Creio que as duas vias tenham sido bastante elucidativas da confiança que meus amigos depositam em meu honrar de compromissos em meio de semana.

O cenário montado no palcoera curioso e, pelo menos pra mim, aqueles tapumes pintados em cores puxadas para o cinza, de alturas variáveis e sempre altas, dispostos formando um “U” ao contrário pareciam querer representar uma cidade ou uma indústria. Não dividi minha impressão com ninguém que me acompanhava, mas creio que ouviria opiniões visuais bastante diferentes umas das outras, já que o cenário era muito subjetivo. Revelou-se, logo nos primeiros minutos da peça, que  a ambientação representava  uma clínica psiquiátrica.

De interessante, a peça tinha muito, pena que eu não sei muito sobre psicologia e sempre me esqueço o que aprendi sobre amnésia.  Mas melhor de tudo, sem dúvidas, foi assistir ao meu amigo roubar a cena, e ele a tomou de assalto! Seu nome aparecia em sexto lugar, de sete, no tal flyer que recebi. Eu sinceramente não sei como se dá a ordem do nome elenco no cartaz, sei que não é por ordem alfabética, acho que é por fama, senioridade… só sei que não condiz com o papel e nem com a atuação dele.

O pescoço já não doía mais e o parapeito mal planejado nem mais parecia atrapalhar a visão.  De madeira dura e em forma de concha, o encosto do assento frontal não tinha mais nada, pelo menos não para meus joelhos grudados a ele. Os dentes não se continham dentro da minha boca e na testa o franzido constante era de surpresa e ficou assim até o apagar das luzes.

Que continuem contrariando meus sentidos

Minha paixão pela noite me faz passá-la desperto. Na madrugada, eu leio, escrevo, produzo sons, escuto música, saio pelas ruas e reflito muito. Observações também estão no leque das coisas que faço enquanto os outros sonham. Segue abaixo uma delas, em forma de relato/história, de certe forma relacionada à profissão que escolhi seguir:

Já chegou o jornal, posso ver do alto da varanda. E não só para mim, para os meus vizinhos e para os vizinhos dos meus vizinhos, de porta, andar ou edifício, sempre pouco depois das 3 da manhã.

O ritual é sempre o mesmo: o entregador, invariavelmente homem, abre a porta do carro, sai andando e assovia para o dormido porteiro, que acorda, responde o ruído com “bom dia” e recebe os exemplares. Quando o entregador não assovia, é porque o porteiro está desperto e de pé.  A Folha e o Estadão predominam, sei pois assino os dois e acompanho a rotina da entrega deles ao menos uma vez por semana, quase que toda semana, desde 1997.

Anos atrás as coisas eram diferentes. A porta do carro, por exemplo, não abria, por dois motivos. Primeiro: não era um carro, mas uma Kombi, tanto para o Grupo Estado como para a Folha. Além disso, a Kombi já vinha com a porta deslizante aberta. De dentro saía o rapaz, andando ou correndo – o compasso dependia do horário – e despejava o jornal no além grade do condomínio, às vezes precisando de duas viagens entre a van e o portão.

Tal  recorrência poderia parecer forte indício do declínio da venda de jornais. Em tempo de vacas magras (ou seriam leitores duros? desinteressados? Seduzidos pela web?), já vi os jornais chegando em motocicleta. Do torrencial ao perene em menos de 15 anos, pelo menos em minha rua, no bairro de Santana, na Zona Norte.

A venda dos jornais, contrariando minha percepção notívaga, só faz crescer. No ano passado, a alta da tiragem dos jornais pagos foi de 5%, o que me leva a concluir, sem maior aprofundamento,  que os periódicos citados acima deixaram de ser lidos por muitos de meus vizinhos de classe média e classe média alta e ganharam novos leitores de menor poder aquisitivo. Aliás, é essa a tendência. O que dizer do popularíssimo mineiro Super Notícia, vice-líder em tiragem nacional, com 303.087* exemplares/dia (A líder Folha de S. Paulo tem 311.286*)? Não surpreende também o Extra, já terceiro colocado, à frente inclusive do “irmão” mais tradicional, O Globo, com média diária de 287.382* vendidos.

Este texto de entrada do meu blog foi escrito entre as 3h e 4h30 da manhã, como não poderia deixar de ser.

*média diária de exemplares em 2008 medida pelo IVC