Ari é um homem triste

52 anos é uma vida completa. Muitos não chegam lá, poucos ultrapassam em muito. Com 52 anos, uma pessoa comum já brincou de ciranda, dançou nas baladas, beijou, trabalhou, teve um animal de estimação, viajou, sofreu decepções e alegrias. Poucos foram aqueles que viveram o que Ari Friedenbach têm vivido nos últimos 9 anos dos seus 52 de idade. O homem de semblante sério, com traços de quem sofreu com o bullying na escola se confunde com a atitude de quem levou um chute no útero da vida. Não existe mais palavra estremecida, não existe mais incertezas, a futilidade essencial para a felicidade de cada um que nasceu e cresceu em São Paulo, ali não se encontra mais. Ari não é mais Ari. Ari agora vive com o que restou de Ari.

Nasceu e cresceu dentro da exclusivíssima sociedade judaica de São Paulo. “A melhor recordação da minha juventude, foi a oportunidade de morar 1 ano em Israel, um Kibutz, sendo independente, em outro lugar…” Sua vida sempre tão normal, o preparou para a mais normal das vidas. Casou, teve filhos, um casal, e virou se para a inércia do trabalho. Abriu seu escritório de advocacia e buscava o sustento e a vida sossegada de sua família. A vida parecia perfeita. A angústia de todos estava ali, mas sua vida era realmente perfeita. O tipo de perfeição que apenas se vê depois de se perder. Outubro de 2003 poderia nunca ter acabado aquele ano, assim, Liana, a filha mais velha de Ari não teria viajado com o namorado, Fellipe, escondida dos pais. Se aquele Outubro nunca tivesse terminado, Ari viveria o resto da vida como sempre viveu. Mas o tempo não parou, e Liana se mandou em um ônibus para Embu-Guaçu, interior paulista. Naquele mesmo dia, 1 de Novembro, Ari se mandou da inércia em que vivia.

Ari possui uma daquelas vozes que não mostram firmeza, é meio embargada, anasalada, insegura. Sua aparência de paizão da meia-idade não mostra nada de incomum. Algumas pessoas se tornam referência por grandes aptidões, por talentos para a liderança, por quesitos físicos. Ari não possui nada disso, mas virou referência. É difícil imaginar que alguém como Ari, barrigudo e quase careca, um dia se levantaria e faria fazer valer suas ideias. Sua vida, aparência e atitudes comuns viraram resquícios do homem que ali habita. São quase 10 anos desde que deixou de ser pai de família. Hoje, ele é um homem ocupado e procurado, sua vida tem novo sentido. “Jamais serei completamente feliz, existe um vazio dentro de mim”.

Certas pessoas possuem uma áurea em volta de si que é simplesmente impossível de se tirar. As celebridades possuem uma áurea de mentira, como se não existisse realmente, e quando a vemos pessoalmente, parece que são pessoa de mentira. Os padres, rabinos e sacerdotes (em sua maioria) possuem uma áurea de boa pessoa, a quem se pode confiar. Um ex-presidiário, carrega sempre consigo uma áurea de perigo de malandro, independente do tipo de pessoa que ele é hoje. Ari também carrega consigo uma dessas áureas. “O peso que carrego todos os dias por escolher o tipo de vida que escolhi é enorme” A voz embargada fica ainda mais pesada, a ponto de soar como um choro quando ele fala do caminho que escolheu. Sua áurea é feita sobre medida, e possui camadas. A primeira, a mais forte entre elas, desperta um sentimento de pena em que está a sua volta. A segunda é um alerta, medo. Poucos tem coragem de bater de frente. E por último, a camada mais confusa. Exatamente pelo tortuoso caminho que escolhera, a política. Essa camada desperta certo desdém em alguns, por usar o que aconteceu em sua vida para alcançar cargos políticos. Em outros, causa grande admiração, por usar o que aconteceu em sua vida para alcançar cargos políticos. Para Ari, as pessoas que criticam seu caminho, não merecem atenção. “Não me importo com essas pessoas, são pessoas pequenas, mesquinhas,ruins”.

Palavras fortes e uma posição de quem nada tem a perder o fizeram vencer pela primeira vez na política. Ari, pouco antes de perder Tod, o labrador preto, companheiro, que estava ao seu lado quando falou com sua filha pela última vez, morreu no dia 24 de Outubro, para ele, Novembro nunca chegou. Assim, como ele não estará mais ao lado de seu dono quando, em 2013, tomar posse de sua cadeira como vereador da cidade de São Paulo. Essa não foi a primeira tentativa de Ari. Depois de Novembro de 2003, ele decidiu lutar contra o bom mocismo da lei quanto a penalidade de crimes para menores. “Faço o que faço para que não aconteçam com os seus filhos o que aconteceu com a minha filha.” A frase, que um dia já foi dita com mais emoção, ganha tons de slogan político pelas repetidas vezes que a teve de falar em frente as câmeras e microfones, que hoje se amotinam a sua volta.

“Como vereador, pouco posso fazer em relação as leis, mas é um passo importante para chegar aos cargos maiores, vou trabalhar muito agora para ajudar no que posso.” Ari nunca quis entrar na política, e depois do que aconteceu, pra ele pouco importa esquerda, direita, juros, assistência social… Tudo que existe, é uma revisão sobre a maioridade penal, é a reestruturação do sistema carcerário, é a segurança pública. Nas últimas eleições, em meio a alta violência paulistana, e o sentimento de insegurança, ajudou a Elegê-lo com pouco mais de 22 mil votos. Ao seu lado, Masataka Ota, pai de Ives Ota, assassinado aos 8 anos. “Conheço ele a muito tempo, e ele e sua esposa conversaram muito comigo depois da morte de Liana, vamos fazer um bom trabalho, com certeza”.

Perto de enfrentar pela primeira vez, um cargo político, e poder de fato fazer alguma diferença, Ari, que já havia se acostumado a dar entrevistas e contar a história de sua filha, viu o assédio aumentar. “Vendo o tamanho da repercussão que o caso da Liana deu em todo o país, minha única opção, até mesmo em nome da minha filha, era ir a luta. Meu luto virou luta”. Luta contra a pequena memória do brasileiro, e contra a desorganização política que permite erros catastróficos de uma polícia despreparada, que permite a menores ter direito a visita íntima, mas que podem cometer crimes hediondos sem pagar um grande preço por isso.

Ari não superou nada, ele se transformou para sobreviver. Seu caráter, sua personalidade e todas as suas vivências o levaram a se transformar nessa figura complexa, de corpo exausto, onde seu interior se inflama a cada discussão em busca de justiça. Ari também não se encaixa mais na inércia da sociedade comum. Seus olhos vermelhos que gritavam inicialmente por vingança, agora, depois de descobrir muitas histórias que jamais chegaram aos jornais, clamam por justiça, por um local seguro, aonde seu filho Ilan possa construir uma família. Por pouco não desistiu, quando em 2009, entraram em seu apartamento, de arma em punho e renderam toda a sua família. Pensou em sair do país. “Não sou mais garotão pra ficar lavando prato no exterior, tenho uma carreira, uma família, até vimos de nos mudar, mas não tinha como.” “O melhor foi ficar e lutar.”

 

Ari é um homem livre das amarras sociais, não precisa mais agradar ninguém, diz o que quer, do jeito que acha melhor. Não se preocupa mais em ter uma grande carreira na advocacia e nem com as coisas do dia a dia. Ari é um homem com um sentido, uma razão, e todas as suas células exalam isso. Seus 52 anos na verdade, deveriam ser colocados como 9 d.L (depois de Liana) e tudo o que vem antes, deveria aparecer com um a.L (antes de Liana). Antes, Ari tinha medo de morrer, e deixar sua família, hoje, ele anseia por um reencontro. A pessoa mais comum de todas, vive a vida incomum de um pai de uma filha assassinada, estuprada e torturada por um menor de idade. Seu mundo de criança, em que tudo era colorido, já era meio cinza quando tudo aconteceu. Hoje ele vive sobre a negritude de saber que o mundo é um lugar perigoso e impiedoso.

Ari é um homem triste, movido a combustão de indignação e saudades. Sua áurea inabalável se prepara para enfrentar a gigante burocracia da política, sua sede de justiça e paz vai bater de frente com os interesses pessoais, os iates e clubes de golfe. Sua luta agora entra em um novo estágio, e o coração esmigalhado de Ari se reconstrói na esperança dos 22 mil votos que recebeu. 

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Olhos muito estreitos para ser compreendida

Meu nome não importa, meu caráter simplesmente não tem validade. Tudo o que já fiz ou faço em minha vida muitas vezes fica de lado. Tudo isso só pelo simples fato de ter olhos puxados.

Não lembro qual foi a primeira vez que aconteceu, provavelmente nem a última. Mas houve uma vez, em que me lembro bem e jamais esquecerei.

Acordar com passarinhos em São Paulo é privilégio de poucos, e a tranquilidade fria daquele dia morno começava de um jeito estranho

– Vamos, Fernanda! Vou ter que te deixar no ponto de ônibus, porque alguém jogou uma pedra no vidro do carro!

Era muita informação para quem estava apenas meio-acordada.

Mecanicamente, vesti meu uniforme e me arrastei para fora de casa, e só acordei realmente quando vi o estrago que a pedra arremessada tinha causado no carro de minha mãe, um Gol vermelho. Mas não tinha tempo para muitas perguntas e logo estava no ponto de ônibus.

– Filha, hoje é um dia daqueles. Toma cuidado, por favor…. – disse minha mãe com uma expressão de dó e preocupação

– Sem problemas, mãe. Tome cuidado você também…

Ao ver minha mãe andar com passos apressados no caminho de volta para casa, senti como se todas as outras pessoas do ponto olhassem para mim, mas quando me virei e olhei de relance, vi apenas um senhor muito magro e de feições brutas me olhando fixamente. Esperei que ele desviasse o olhar, mas ele não o fez, então eu cedi. Muito desconfortável com a situação, puxei meu ipod da bolsa e quando estava para colocar os fones de ouvido, senti uma mão áspera segurar meu pulso com firmeza, mas com uma certa delicadeza ao mesmo tempo.

– Você não devia estar aqui. – disse o homem que me olhava segundos antes

Baixei os braços, esquecendo o que estava fazendo com eles meio levantados e olhei de boca aberta para o senhor. Agora de perto, ele parecia ainda mais estranho, mas não despertava medo. Apenas cautela. Não consegui responder nada.

– Esse é o meu ponto.

– Desculpa, mas eu só preciso pegar um ônibus para ir para a escola.

– Você pode fazer o que quiser, mas esse é meu ônibus e você precisa pedir minha permissão para usá-lo.

Nesse momento, uma senhora bem gordinha e baixinha, que escondia uma leve sombra de bigode debaixo de um grande nariz se intrometeu:

– Cala a boca, vagabundo. Deixa a menina em paz!

Com um sorriso malandro, o senhor se afastou dizendo:

– Pô, só estava tentando descolar um pouco de cortesia japonesa, talvez um presente pela visita!

Achei incrível um morador de rua conhecer algo da cultura de meus bisavós. Não estava esperando algo assim, aquilo parecia muito fora da realidade para se aceitar, não sabia o que sentir. Mas a senhora fez questão de me ajudar.

– Não liga pra ele não, viu? Ele tá sempre aqui.

– Ah… ok, obrigada.

– Então, posso fazer uma pergunta?

– Claro.

– Você tem um pedaço daquele rolinho de arroz lá, que vocês comem? Esqueci o nome… Sodu, Midu, Sifú…. como é mesmo?

– Tofu? – respondi já torcendo para que meu ônibus chegasse logo. Ou ele, ou um meteoro, qualquer um dos dois faria o serviço.

-Isso! Você pode me dar um pouco, pra eu mostrar pra minha colega que disse que não dá pra fazer quadradinho de arroz.

– Desculpa, mas não tenho…

– Que feio menina, eu sei que todos vocês andam com esses bolinhos na bolsa, que custa? Pensei que seu povo fosse generoso com os outros que ajudam. Só porque eu sou meio mulatinha você acha que não devo comer sua comida, é?

– Não, senhora. Eu realmente não tenho nada aqui comigo.

Enquanto a senhora falava sem parar, meu ônibus chegou. E passou direto, estava lotado. Decidi ir para a casa, contei tudo a minha mãe. Que me contou que junto da pedra havia um bilhete:

“Eu odeio Tofu”