Mais um Coronel para a Bancada

Passava das oito horas da noite quando uma Captiva Preta, por sinal muito suspeita, se aproximou do número 54 da Rua Nino Crespi ,no bairro de Interlagos. Com uma São Paulo que atualmente se assemelha a Faixa de Gaza, fiquei na espreita aguardando a movimentação do indivíduo que ocupava o banco do motorista. Afinal de contas, aquela rua nunca foi tão segura mesmo.

Ao longe avistei uma faixa pendurada na esquina que dizia “A Associação dos Moradores do Bairro Jardim Satélite agradece o empenho e dedicação dos profissionais militares em sua atuação para proteção e segurança da comunidade”.

Repentinamente, ouço a campainha tocar e um homem vestido de preto acena do portão de alumínio. Era Álvaro, mais conhecido como Coronel Camilo, um dos nomes que ocupará em 2013 a famosa “Bancada da Bala” na Câmara dos Vereadores da cidade, junto com outros célebres tenentes da Polícia Militar do Estado.

Assim como eu, ele também avistou a faixa com os dizeres em homenagem a seus colegas de trabalho. Olhou para baixo e logo em seguida para cima, mais especificamente para o céu, o qual parecia estar enfurecido com raios ao longe. “Eu não consigo acreditar que tantos deles já morreram em busca de paz”.

Ao caminhar para dentro daquela pequena e humilde residência, Álvaro revelou que essa profissão sempre o cativou de alguma forma. “Venho de uma família de policiais militares. Me espelhei em meu pai e meu irmão, aqueles que me inspiraram e incentivaram a seguir carreira nessa área. Entrei na Academia do Barro Branco e me formei oficial em 1981. Continuei me aperfeiçoando para exercer melhor a minha profissão, mas nunca imaginei que iria chegar ao posto que atingi e permaneci até o ano passado”.

Na saleta a mesa já estava posta. Pudim, quindim, frios, pães e refrigerantes. “A tia IêIé nunca me recebe de mãos abanando”. Depois de se sentar diante do banquete dos Deuses preparados pela matriarca da Família Freitas, o Coronel botou reparo no enorme quadro com fotos disposto na parede esquerda do ambiente monocromático. Com tímidas lágrimas nos olhos, se recordou da época em que seu pai Abel era vivo. “Esse sim deixou saudades”.

Álvaro mal encostou na espátula para se servir do creme de leite condensado que Dona Maria, sua tia, começou a chuva de perguntas e indagações sobre sua posição na PM e sua atuação nas Eras Serra e Alckimin e sua aspiração política.

– Por que justo você, um homem correto, honesto, foi se envolver com essa bandidagem da política Álvaro?

– Com 30 anos de carreira nas costas, aprendi que o mais importante na vida são os estudos e o respeito às pessoas. Por essa razão, sempre pautei o meu trabalho na valorização do ser humano. Ouvindo meus comandados e colaboradores, assim como as pessoas da comunidade, compreendi os amigos da comunidade, compreendi e reafirmei os valores de que o mais importante é o ser humano. E com a política eu ganho voz ativa para propor projetos voltados para eles tia.

– Mas você é um homem de estudo, não precisava disso para conseguir seus objetivos.

– Como Comandante Geral da PM trabalhei para a valorização dos policiais militares, para melhoria das condições de trabalho e principalmente, pela interação com a comunidade, dentro da filosofia de polícia comunitária. Ouvindo as pessoas e construindo juntos, polícia e a comunidade podem melhorar a qualidade de vida e a segurança na cidade de São Paulo.

Ao tocar nesse assunto durante o diálogo, um ar de desconforto e de incomodo tomou conta do ambiente. Todos ali presentes sabiam da boa atuação do sobrinho como Comandante da PM e estavam conscientes de que quando ele  solicitou a aposentadoria o que realmente aconteceu foi que pediram a aposentadoria dele. “Vocês sabem que o caso do Pinheirinho e da Cracolândia prejudicaram meu desempenho no cargo. Na minha época não era tão complicado como hoje”.

Num breve silêncio durante a conversa, ouviu-se um estalo. Seria um tiro, um rojão ou o escapamento de um veículo que transitava na viela naquela hora? O que se sabe é que Álvaro, após ter sido eleito vereador suplemente pelo Estado de São Paulo com mais de 26.900 votos, quer realizar junto com os antigos parceiros de Polícia Militar e atuais colegas da “Bancada da Bala” uma modificação drástica e efetiva nas leis, principalmente naquelas que asseguram benefícios para menores infratores.

“Junto com os vereadores e militares Paulo Telhada e Conte Lopes vamos trabalhar firme para conter as ações do PCC. Somos três alvos em potencial desses bandidos, mas vamos propor a retomada das Leis Brasileiras que desfavorecem esses indivíduos”.

Álvaro, em seu mandato, propôs a troca de todos os carros disponibilizados para os policiais realizarem buscas em suas forças-tarefas. “O governo toma decisões erradas. É inadmissível aceitar que os bandidos andem de Camaro enquanto nós andamos de Brasília. Fui criticado por isso e muito mais e o que eu queria era melhorar a situação da polícia de São Paulo”. E por estar na carreira há tanto tempo, ele tem consciência de que o que realmente precisa mudar é a postura das pessoas que comandam e organizam essa estrutura.

“Já trabalhei em várias áreas na Polícia Militar. Atuei no Policiamento, no Corpo de Bombeiro, na Área de Tecnologia, no Estado-Maior, na Área de Inteligência. Quando houve a promoção a Coronel, fui selecionado para comandar a região Central da cidade de São Paulo, onde fiquei de 2007 a 2009. Finalmente, em abril de 2009 assumi o Comando Geral da Polícia Militar, cargo que exerci a até o último mês de Abril. Como vereador quero fazer valer tudo o que aprendi durante a minha experiência na área”.

Depois de mais algumas palavras, alguns goles de Tubaína e outras mordidas no sanduíche de queijo e presunto, o celular do eleito tocou e, de maneira sigilosa, foi atendê-lo no lado externo da casa.

Ao retornar para a mesa disse que precisava seguir viagem, pois os compromissos com o PSD, partido pelo qual se candidatou nas eleições desse ano, continuavam a todo o vapor. “Preciso ir embora agora, mas agradeço pela oportunidade de visitar vocês, meus tios queridos, e de conversar com essa jovem jornalista que está aqui ao meu lado”. E finalizou “espero que o meu trabalho e de todos aqueles que lutam por uma cidade mais justa e tranquila. Utopia para muitos e uma realidade muito próxima para mim”.

Álvaro se levantou da cadeira de madeira marfim, se despediu de mim e de seus tios. Pegou seu casaco preto e seguiu em direção à saída. Quando foi entrar no carro, dois homens em uma moto passaram acelerando pela rua.

Rapidamente o coronel assumiu seu posto, fez sinal para que entrássemos, e saiu em arrancada em seu carro. Após retornarmos para dentro da residência, o telefone tocou e se ouviu a frase: “Fiquem tranquilos. Está tudo sob controle”.

Será que é possível viver em paz em São Paulo? Só nos resta acompanhar o trabalho da “Bancada da Bala” e cobrá-los para que eles também não atirem em seus próprios pés.

O Caso dos Dez Livrinhos

Tudo estava tranquilo. Uma manhã de segunda-feira típica de verão. O sol refletia nos espelhados vitrais do Reverendo Wilson. Os coqueiros espalhados pelo pequeno jardim, localizado em frente ao Centro de Rádio e Televisão, sacolejavam com o bater do vento.

Depois de exercer a minha função de chefinho na primeira aula, precisava passar na biblioteca para devolver o livro de jornalismo literário, indicação do Serginho, meu professor chumba.

Aproveitando que estava com tempo de sobra até a próxima aula, fui até a Boulevard, fiz uma boquinha – comi um delicioso croissant de frango com catupiry, ao som de jazz, acompanhado por uma “sucuzinho” de uva –  e lembrei de que havia anotado no meu papel de recados localizado sempre no bolso traseiro, do lado direito, da minha calça jeans, o nome de um livro da Ágatha Christie que eu ainda não tinha lido.

Assim que cheguei no prédio 2 e abri aquela estreita e pesada porta de madeira dos tempos da renascença, senti que algo maléfico havia acontecido ali, na residência preferida dos maiores intelectuais da história.

Quando fui ultrapassando os rústicos degraus protegidos por uma longa capa vermelha com canudos dourados decorativos, minha ansiedade por chegar no segundo andar só aumentava. O que queria mesmo era descobrir se as preciosas relíquias de Ágatha ainda estavam guardadas na sétima fileira da estante da esquerda do décimo box.

Logo que alcancei o segundo patamar da biblioteca, passei rapidamente pelos outros livros numa mistura de mofo, poeira e vertigem por causa da altura de onde estava para o térreo.

Procurei rapidamente o interruptor para iluminar aquela terrível quimera preta que atormentava meus sonhos desde criança. Acendi a luz. Dei início então a uma intensa procura pelo alfarrábio de capa verde. Aliás, nesse momento pensei: “Alfarrábio é a palavra do dia”.

Voltando aos trabalhos, fiquei inculcado por não achá-los ali, no mesmo lugar de sempre. Desci as escadas e fui caminhando até o atendente.

– Moço, onde estão os livros da Ágatha Christie?

– Meu caro, os livros dela ficam no prédio 9!

Sai do prédio desolado.

Enfim, eu pensei, “Que Tapadinho Eu Sou”.

O País Mais Divertido do Mundo

Bon Bini (Bem-vindo)

Se você perguntasse até algum tempo atrás a minha graça tenho certeza  que responderia que sou Ana Carolina, cidadã de Hopi Hari.

Você pode até achar estranho e se perguntar: o que leva um ser humano dizer que seu país de origem é um parque de diversões?

Quando pequena, assim como qualquer outra criaturinha, sempre tive vontade de conhecer a terra onde os sonhos se tornam realidade. Mas, por falta de “Mickey Moneys” e “Pato Dólares” deixava sempre de lado o meu desejo.

Numa bela manhã de sábado, por volta de 1999, nos meus 12 e poucos anos, meus pais me acordaram e disseram que haviam comprado ingressos para conhecermos o mais novo parque de entretenimento do Brasil.

Não custou muito tempo para eu arrumar minhas coisas e colocar na mala todo a fantasia e imaginação de como seria esse lugar. Ainda recordo a cena que avistava pela janela do meu carro. Grandes árvores em meio ao descampado e o chão de asfalto recapeado. Eles também sentiam o misto de adrenalina que me fazia contar os minutos que antecediam o Km 72.

Logo que o carro parou e eu desci, só pude sentir a brisa do vento e escutar um hino que soava ao longe. Parecia que estava em outro universo fora da grande dimensão do meu quarto, afinal de contas, sempre fui uma criança tímida e tinha medo de mostrar quem realmente eu era. Mas acho que finalmente havia encontrado o meu lugar.

Com o passar do tempo, frequentando o parque praticamente uma vez por mês, o lugar tornou os meus sonhos possíveis. Os brinquedos não passavam de meros pretextos para encontrar com os meus verdadeiros ídolos.  Lá verdadeiras amizades foram conquistadas e amores forasteiros arrebataram o meu coração.

Foram 11 anos de pura diversão. A felicidade da emoção batia forte o meu coração.

Até que em fevereiro desse ano, um terrível acidente fez com que a desilusão tomasse conta de mim. Parece absurdo, mas tente aceitar, os heróis também podem sangrar. E foi assim que o meu protagonista se tornou vilão na história de um dia para o outro. Nem a Gabriela, muito menos seus pais poderiam pensar algum momento que existia alguém que, sem ao menos conhecê-los, sentiu a dor da perda. A perda de um grande amigo, a perda da segurança. Só de pensar que estive no parque na mesma semana da tragédia me traz um arrepio e uma sensação de impotência diante de uma situação que já era prevista por aqueles que conheciam os problemas do parque e toda sua liquidez.

Hoje tento encontra ânimo para voltar ao Hopi Hari. O que restou foram recordações dos melhores momentos da minha vida.

Danki de Tum Tum e Tchauí (Tchau).

O Cioran Paulistano

Com o passar dos anos, o tilintar das horas me transformaram, assim como o vai e vem das máquinas foram substituídos por tenros e arrebatadores pedaços de pernis.

Não é de hoje que recebo nova freguesia todos os dias, o dia todo. Afinal de contas, estou sempre perto de majores, escritores e de inconsoláveis consoladores.

Às vezes me pego pensando o que sou. Será que sou apenas mais um bar enfeitado com ladrilhos portugueses brancos e vermelhos, com um interminável balcão a disposição de famintos transeuntes e um mero expositor de placas de premiações gastronômicas?

Minha história não deixa negar a tradição do meu curioso olhar.

Ao acordar, visto meu tradicional avental azul, calça jeans e trabalho como a “tia da cantina”, preparando deliciosos lanches, dos mais diversos e inusitados sabores. Até porque se você se deparar com fatias de pernis acompanhadas de cebolas douradas; pimentões verdes e vermelhos; azeitonas pretas; embalados por um crocante pão francês, não irá resistir.

Quase todos os dias, no pôr do sol, vejo adentrar no meu recinto uma menina aparentemente no auge dos seus vinte e poucos anos, morena clara, dos olhos castanhos, cabelos escuros e levemente cacheados. Apesar dela não ter bom gosto para escolher suas vestimentas, fico amuado por ela nunca ter me dado bola. Mas o que eu posso esperar dela? Nasci em 68 e, a essa altura do campeonato, já estão pendurando as minhas chuteiras.

Logo que a noite cai e o frio desce, aparecem os meus melhores companheiros. Aqueles quem eu formei e logo depois fizeram de mim o melhor ponto de encontro desse maravilhoso estado de São Paulo. De alto ao baixo escalão, todos gostam de me visitar.

Como reduto dos Ciorans paulistanos, mantenho as portas de alumino abertas vinte e quatro horas por dia à espera de novas histórias, de palavras engolidas pela fome, de rabiscos manchados com pingos de óleo, em busca personagens diários da vida.

Antes eu era formador de opinião. Hoje eu opino sobre os formadores dela.

E assim a vida segue. De jornal a bar, começo mais um dia procurando sobre quem vou retratar.

A Manicure do “Divino”

“Rosa, Recepção, Rosa”

 Assim que escutou sua voz ser anunciada no microfone da Patrícia, quando o relógio atingia às 17h, Rosângela Souza tratou de buscar seu carro e o estacionou em frente à poltrona de vime, onde mais uma de suas clientes a esperava para vivenciar um típico momento da vaidade feminina.

Aos trinta e dois anos, em meio a lixas, algodões, removedores de esmalte, spray secante, verniz e muita cor, Rosa sabia que o que mais queria era se produzir, voltar para casa, ligar o televisor e se deparar com o glamour de uma novela das nove.

Nada melhor do que Avenida Brasil para fazer com que ela se recorde do tempo em que morava no nordeste. Vinda do Recife, ela nunca se esquivou de suas tradições. A manicura adora um exagero, típico da Monalisa: brincos grandes, maquiagem colorida e unhas artísticas. Mas a certeza de que existe uma Suelen por trás do seu jeito atirado vem quando Rosa se depara com braços torneados, lábios carnudos, camisas com a gola voltada para cima, calça de cintura baixa e moicano bem fixado. E aí que ela solta o seu tradicional bordão: “Ai ai ai ai ai ai, assim você mata a mamãe”

Seu sonho de morar na Zona Sul e ter seu próprio automóvel deixaria para trás as tristes lembranças de quando alugava uma humilde residência. E com os olhos a misturar lágrimas e rímel, confessou que o que mais sentiria saudade do Grajaú é de seu arrasta-pé, de dançar agarradinho o forrobodó e até quem sabe dos ensaios de kuduro. Seus Darksons não a teriam mais como acompanhante. “Dançar o Charme pra mim seria a coisa mais gostosa do mundo. Claro que se eu tivesse o Iran ou o Leandro do meu lado”.

Quanto aos seus relacionamentos amorosos, a manicura preferia não comentar, mas sempre deixava revelar algum detalhe ou quase todos de sua intimidade. “Minha vida tá que nem a do Cadinho, nunca chove na minha horta, mas quando vem, vem logo três de uma vez”.

Rosa sabia diferenciar a realidade da ficção, mas ela mesmo se confundia quando era perguntada sobre o bairro em que morava. A moça batia no peito com orgulho e dizia: “Aqui é 100% Divino”.

Quando João Emanuel Carneiro redigiu os capítulos desse folhetim contemporâneo, nunca iria imaginar que a quatrocentos quilômetros de distância, uma espectadora iria se aficionar tanto por seu emaranhado de núcleos, personagens e histórias, o que fariam de Rosa uma das maiores fãs de Avenida Brasil no momento.

Para ela, basta esperar o último capítulo e saber se quem vai servir será a patroa ou a empregada, a mocinha ou a vilã. “E quem será a próxima vítima da Nina?”.

 Essas são as cenas dos próximos dias em Avenida Brasil!

“Oi, Oi, Oi.”