Pés pequenos, botas grandes

Com um jeito humilde e tranquilo, ele se sentou à mesa e ficou olhando meu caderno. Por um momento vi uma sombra de preocupação em seu rosto e me perguntei o que havia ali que o preocupava. Então reparei para onde apontavam seus olhos, agora tristes: “Victor Junior – Partido Trabalhista Nacional – 226 votos”. No alto de seus 22 anos, aquele número incomodava. Incomodou tanto que o faz pensar em nunca mais voltar à vida política. “Não dessa forma, pelo menos. Fiquei muito exposto… foi uma decepção muito grande”.

Desde bem jovem, Victor percebera as falhas políticas em relação a educação e saúde em Santana de Parnaíba, cidade onde nasceu e se candidatou. Essas preocupações parecem ter permeado toda sua juventude, de forma a moldar, de certa forma, a pessoa que é hoje. Victor não sabe o que é não ser engajado. Fato curioso, mas não isolado: o gosto pelas questões sociais tem origem muito bem fundamentada na família. “Não foi do nada! Só sou assim por causa do meu pai. Calcei as botas dele na política”.

O pai de Victor, que sempre trabalhou com política e já foi duas vezes candidato a vereador da cidade, foi grande influência na vida do menino. Aos quinze anos, quando começou a perceber certos problemas na sociedade, como falta de opções públicas para praticar esporte, foi que surgiram ideias a respeito de uma possível vida política. Hoje, anos depois, o foco de Victor é outro, mas a essência de lutar por uma vida melhor permanece dentro dele. “Na época, eu ficava preocupado com coisas para adolescentes fazer. Muitos lugares, como praças e campos de futebol, são ocupadas por delinquentes. Isso era o que mais me incomodava. Hoje, me preocupo com saúde, moradia, pessoas miseráveis…”. De alguma forma, crescer com uma pessoa em casa que se envolveu tanto na política foi um dos maiores incentivos que Victor poderia ter para começar e se preocupar com tais questões. “Todo mundo queria uma quadra pra jogar bola, mas ninguém queria ir lá arrecadar dinheiro pra construir uma”. E é analisando esta sua força de vontade que o menino percebe porque nenhum de seus colegas seguiu seus passos. “Mas eu não estava sozinho. Por coincidência, essa foi uma eleição de muitos jovens. Mas, infelizmente, nenhum entrou”.

Certo dia, cansado de ouvir o filho reclamar sobre o quanto a organização da cidade estava errada, seu pai lhe disse que, se era tão incômodo assim, que entrasse na política e fizesse alguma mudança. “Ele disse que se eu quisesse mudar, então eu devia entrar e fazer diferente. Acho que é isso mesmo, só tem direito de reclamar quem mostra que sabe fazer melhor”. E foi assim que novas preocupações começaram a surgir na vida de Victor, questões que não faziam parte de seu dia a dia – campanha, eleitores, propostas, convencer, convencer, convencer. “Mas em nenhum momento eu tentei impor minha ideia, só queria mostrar que o vereador é fundamental e que as pessoas têm que saber votar no certo”.

Mas o dia a dia de um político não é simples, muito menos para alguém que ainda não se formou na faculdade. O caminho até a eleição é longo, as lutas são muitas. Alguns jogam sujo, outros nem jogam – só colocam seus nomes e saem de mansinho, tentando não chamar muita atenção. A política é um campo perigoso e cheio de artimanhas. É preciso saber brincar. Nesse caminho, Victor sempre entendeu que a transparência é o melhor negócio. “A maioria dos eleitores não me conheciam, então eu tinha que me mostrar”. Nada fácil, mas ele conseguiu se virar com as cartas que tinha na manga. Victor acredita que alguns de seus talentos ajudaram nessa subida até a eleição. “Fui de casa em casa, fiz uma campanha sem promessas, explicando o que de fato um vereador faz. Afinal, o vereador não é executivo, ou seja, ele não tem como fazer nada sozinho. Também usei redes sociais, placas e reuniões”. Nesta parte, a juventude ajuda. “Pude fazer muita coisa sozinho, principalmente na internet. Muita gente contrata empresas pra isso e perde dinheiro com coisa boba”.

Entre as pessoas que visitou fazendo sua campanha, muitas continuaram em contato e são amigas até hoje. Isso é importante para ele, que, mesmo, sem saber se seguirá carreira política, pretende colaborar, de alguma forma, com a comunidade onde vive. “Tem que falar com as pessoas pra saber o que elas querem. Agora eu falo muito mais do que falava antes da campanha”. E com a formação quase completa em Publicidade com Habilitação em Marketing, o menino era, na verdade, um boa aposta do partido. Campanha, imagem, propaganda, tudo isso se mistura às propostas na hora de aparecer para o público eleitor. “Acho que ajudou bastante, mesmo. O curso foi uma grande base para mim”.

Seus sonhos políticos nunca foram excessivamente ambiciosos. A ideia era simples: parar de gastar dinheiro criando coisas novas e investir na melhoria de tudo aquilo que já existe. “É saúde e educação que precisam ser melhoradas com urgência. Não é construir mais postinhos ou mais escolas, é melhorar o que já temos, qualificar e intensificar o que já existe lá”. Simples. Talvez se ele se arriscar mais uma vez, dentro de alguns anos, no mundo da política, essa ideia possa conquistar um número um pouco maior de pessoas do que conquistou até agora. O amadurecimento de Victor será o de sua campanha e de seus ideais. Assim como de todos nós.

Ao ver os olhos do menino se arregalarem ao falar de política, fica claro que a vontade e a garra para vencer sempre foram muito fortes. Mas as botas que tentou calçar, talvez, fossem um pouco grande demais para seus pés. E o tropeço foi doloroso. A evidência de tal dor ficou marcada em nosso segundo encontro, em um bar de Higienópolis. Victor me esperava em uma mesa com o copo de cerveja na mão. Depois que me sentei, começamos uma conversa sem graça sobre o tempo e o vento, tentei contar uma piada, ele fingiu que entendeu. Quando comecei a fazer algumas perguntas um pouco mais jornalísticas, percebi que ele olhava, quase que mecanicamente, para a tela do celular. A cada dois segundos. Não quis perguntar, mas achei estranho. Ele parecia muito mais tenso que na primeira vez que nos vimos e a conversa não estava fluindo. Percebi que minha única chance ali seria aproveitar aquela distração para tentar conseguir alguma resposta – a pergunta? Não tinha. O que me importava era a resposta. E esta me veio rapidamente, sem muito esforço jornalístico. “Não estou distraído, só pensando. Ela não me ligou hoje”, começou a explicação. Da mesma forma que começam explicações de tantas pessoas daquela idade. Namoro, algo estranho, silêncio, medo.

Essa, segundo Victor, foi uma das maiores sequelas da campanha: dificuldades no namoro. “Acho que antes de eu ter várias responsabilidades, era mais fácil. Aí depois da campanha veio o TCC… nem sei o que dá mais trabalho”. A conversa seguiu leve, com um tom mais melancólico, sobre os planos para o futuro. Os meus são poucos e muito dependentes de circunstâncias externas. Os dele seguem um caminho bem diferente. “Vou abrir uma empresa, trabalhar com publicidade, investir mais no namoro, construir minha vida”. Em Santana de Parnaíba, onde mora hoje com os pais, ele pretende, um dia, morar com a família que virá a construir. Mas os olhos no futuro não deixam de transparecer um certo saudosismo de tempos mais simples. “Mas lá era bom de viver quando a gente andava por aí sem se preocupar com nada. Hoje pra mim aquilo já é quase uma cidade grande. Tipo, estressante”.

E o saudosismo marca o próximo tom do diálogo. A vontade de saber o que acontecerá se mescla com o desejo de voltar um pouco atrás. Tudo aquilo que Victor deixou para trás na tentativa de percorrer o caminho de seu pai foi para sempre perdido no passado (o futebol, a namorada, a família)  para que ele pudesse se dedicar de corpo e alma à campanha. Como está sua vida hoje? “Ainda não me recuperei da campanha. Estou ocupado demais com os trabalhos da faculdade que deixei de lado. Mas consigo jogar meu futebol e passar os fins de semana com amigos, namorada e família. Só não dá pra recuperar o tempo perdido”. Sábias palavras para descrever aqueles projetos de vidas nos quais todos nós, em algum momento, nos afogamos sem nem mesmo uma garantia de que darão frutos. O importante, no entanto, é poder chegar ao fim com uma coisa: a vitória de ter dado uma chance.

Anúncios

A morte do ‘soy latte’

O carro sacudia pela estrada esburacada. No banco de trás, me sentia uma criança chorosa, um adolescente rabugento, um velhinho dependente. Alguma coisa dentro de mim havia desaparecido nesse último passeio de família, talvez fosse um pedaço do coração, do fígado, do pulmão. A cabeça girava pela força com que eu tentava pensar. Na rádio, a música Drops of Jupiter, da banda Train.

– Anda, Luiz. Fala, o que você achou?

Meus pensamentos gritavam tão alto que nem me preocupei em dar uma resposta. A menina era minha paixão de infância e revê-la daquela forma, depois de sua longa estadia na Suíça, me deu uma sensação de fim. Fim do que? Não sabia dizer. Anos atrás, ela costumava correr ao meu redor cantando cantigas folclóricas brasileiras, as quais eu, com meu antepassado lusitano, não costumava ouvir em casa. Lembro-me de compará-la a um pássaro, piando e pulando de um lado para o outro. Essa nova versão da menina me afligia. Calada, taciturna, com roupas pretas e maquiagem escura nos olhos. Uma tatuagem de caveira se esgueirava por dentro do decote profundo e o olhar era duro, tão duro que me abateu de choque. E o cantor se esgoelava na rádio, jogando em mim as imagens que não queria ver. “Did you miss me while you were looking for yourself out there?”. Logo eu, que sempre acreditei nos bons valores da minha família, cheguei lá esperando encontrar um velho amor e, ao contrário, me deparei com algo quase morto, um corpo meio vazio. “Now that she’s back in the atmosphere, with drops of jupiter in her hair…”.

Minha posição infantil no banco de trás do carro me protegia dos olhares adultos (não que eu não seja adulto, mas, naquele momento, me sentia uma criança indefesa). Minha garganta estava apertada, mas não havia vontade alguma de chorar, apenas de gritar, a qual era reprimida pelos músculos do meu pescoço. O peito estava tão dolorido que, a cada buraco da estrada, parecia inflamar e sacudir dentro de mim.

Was it everything you wanted to find? And did you miss me while you were looking for yourself out there?”.

Pensar demais ou pensar de menos? Refletir excessivamente sobre um assunto sempre foi a minha melhor solução, minha fórmula secreta para evitar erros. É assim que eu ajo, penso quarenta vezes antes de fazer qualquer coisa. Mas, dessa vez, pensar fazia tudo doer.

O carro continuava a sacudir pelo caminho. Na rádio, a música interminável. E, em minha cabeça, um único pensamento: por que um dia cheguei a pensar que cantaria o verso mais bonito dessa música para ela? “The best soy latte that you ever had… and me”.

 

Quando te falta o ar

O sol já estava alto no céu quando chegamos à ilha. Levemente enjoadas por causa do passeio de barco pelo infinito lago Titicaca, tudo que queríamos fazer era arranjar um bom hotel e dormir por algum tempo. Mas, como havíamos percebido desde nossa chegada à Bolívia, no dia anterior, as coisas não se resolvem por ali com a velocidade que vemos em terras paulistas. A Isla del Sol, em minha visão cansada da viagem, se resumia a uma montanha tão alta quando a Cordilheira dos Andes, que brilhava, branca, ali do lado. Crianças corriam ao nosso redor, pedindo para nos acompanhar até o topo daquele suplício. Com suas perninhas finas e chinelos gastos, elas corriam para cima e para baixo, me fazendo sentir uma certa vergonha antecipada pelas dores que, sem dúvida, sentiria depois da subida.

Um menininho, não me lembro o nome dele, chegou com a cara mais chorosa, implorando para nos acompanhar, prometendo nos levar ao melhor hotel do lugar. Sua pele estava queimada pelo sol e castigada, talvez, pela poeira constante, dando ao seu rosto um aspecto velho, quase rugoso. Seguimos o menino com muito esforço, lutando contra o peso das enormes mochilas e da falta de oxigênio, que ficava mais escasso a cada passo. O menino, empolgado, corria à nossa frente e voltava, gritando para irmos mais rápido. Logicamente, não há hotéis na Isla del Sol, apenas albergues sujos e simples que não são nada mais que as casas do moradores e seus quartos empoeirados. Ovelhas gordas comiam a grama dos quintais das pequenas casas, enquanto burros levavam móveis e outros objetos para cima e para baixo da ilha. Diversas vezes, tivemos que parar para retomar o fôlego e percebi, com um leve desespero, que não deveria haver ar nenhum lá em cima. Aquelas crianças eram mutantes, sem dúvida, porque ninguém é capaz de puxar o ar naquele lugar. Com a cabeça rodopiando mais e mais a cada passo, vendo estrelas coloridas piscar à minha frente, segui as meninas. Segundo aquela criança mutante que não parava de gritar e correr, os melhores hotéis ficavam no topo. Para minha grande felicidade.

Acredito que eu tenha desmaiado em algum momento, mas meus passos estavam tão robotizados que continuei andando. Sei que, de alguma forma, todas chegamos lá, apesar de não me lembrar muito mais do caminho. “Lá” era um mini-hotel, com quatro quartos, além dos quartos do moradores, a famosa “agua caliente” (quando um lugar avisa que tem água quente, na Bolívia, é porque não tem. E os donos raramente se importam com a mentira) e uma mini-cozinha-restaurante. Negociamos um preço em meio a puxadas desesperadas de ar, pegamos as chaves e tropeçamos até os quartos. Eram dois, ou seja, duas meninas em cada quarto. Jogamos as mochilas no chão e nos jogamos nos colchões duros e poeirentos. Não sei dizer quanto tempo se passou. Minha cabeça rodava com tanta força, agora, que comecei a delirar e acreditar que tinha bebido demais e estava prestes a passar mal.

Algum tempo depois, quando a respiração pareceu um pouco mais normal e a cabeça já não doía tanto, me levantei e fui até a mochila pegar o saco de folhas de coca. Dei algumas para a minha prima e mascamos as folhas em silêncio, sentindo a boca anestesiar e as dores desaparecerem aos poucos. Isso aprendemos logo no início da viagem: para o “soroche” (o “mal da altitude”, como falam por lá), nada melhor que algumas folhas de coca bem mascadas. Abri a porta com cuidado, esperando que o ar não sumisse de repente. E foi aí, só aí, que entendi onde eu estava. E percebi que poucos lugares que eu visitasse na vida me tirariam o fôlego (não literalmente, também) como aquele lugar. Isla del Sol, no meio do Lago Titicaca, com vista para os Andes, onde o sol bate na água faz o azul ser mais azul, onde ruínas incas pipocam pelo morro eterno, onde o tempo parece ter parado para os camponeses / índios / mutantes que vivem com suas ovelhas e burrinhos e se vestem como em um filme medieval. Fui tomada por uma calma muito grande, como se, simplesmente por estar ali, eu também fizesse parte da história daquele lugar. Cuspi as folhas na grama e chamei as meninas, pronta para dar uma volta e conhecer outros mochileiros. Mal sabia eu que aquela tinha sido a primeira das nossas muitas caminhadas em busca do “fôlego ideal”.

O Poeta dos Jardins

As ruas ao redor, iluminadas e cheias de lojas, dão ao espaço um ar descontraído. A casa, lacrada pela prefeitura, é como uma mancha de tristeza em meio ao redemoinho de sacolas de compras, sorrisos, fofocas. Entre as ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, em um centro de compras de luxo, o local destoa em sua imundice. Moradores de rua se revezam em uma dança de invasão, a qual é seguida pela constante aparição da polícia. Entre estes, o que mais se destaca é um senhor, que talvez tenha cinqüenta, talvez noventa anos. Anda pela rua em frente a casa com sua longa barba branca, recitando poemas que ele mesmo inventa. Nas costas de seu casaco estão bordadas as palavras “Poeta dos Jardins”. Este, dizem os taxistas da região, expulsa todo e qualquer morador que tenta viver na casa por mais de uma semana.

As paredes cobertas de musgo e o chão coberto por potes de comida e papéis de embrulho dão uma cara de abandono, apesar do morador constante. A medida em que o dia dá lugar à noite, a aparência passa a ser de um lugar mal assombrado. As sombras projetadas pelas barras das janelas, a placa de alumínio que tampa parcialmente a porta de entrada, os arbustos que se espalham aleatoriamente pelo chão, tudo faz com que a casa não pareça um lugar agradável de se morar. Mas quando chega a manhã e o sol ilumina os cantos escuros e sujos, aquele passa a ser apenas mais um lugar semi-destruído da cidade de São Paulo. Com ou sem moradores, a casa é apenas mais uma e a sujeira se empilha, dia a dia, da mesma forma que ocorre em tantos outros lugares.

O Homem-Menino

Com os olhos piscando rapidamente, Mário tenta arrumar os papéis sobre sua mesa. As mãos parecem tremer um pouco e ele pede desculpas, com um jeito acanhado, e explica que o dia está muito cheio e não conseguiu arrumar a papelada. Os cabelos loiros, muito lisos, caem sobre os olhos enquanto ele olha para baixo, fazendo com que as piscadelas se tornem ainda mais frequentes. Limpa a garganta com uma tossida, respira fundo com os olhos fechados e, após alguns segundos, me encara. As bochechas estão vermelhas. Quando passo os olhos por seu rosto, tenho a impressão de que a pele é muito fina, quase transparente. Olheiras arroxeadas lhe dão uma aparência levemente doentia. Mas aí olho para seus olhos e me vejo ali, refletida naquele verde brilhante, um brilho quase infantil.

– Ah, Ana. Não sou bom pra ser entrevistado – diz ele com um sorriso amarelo. Explico que não é ume entrevista, só preciso escrever um pouco sobre ele para uma aula. Minha explicação parece não tê-lo acalmado, mas continuo a conversa. Se ele olhou em meus olhos, acredito que já fizemos algum avanço.

Em uma conversa que seguiu aos trancos, fomos começando a nos entender. Mário Travaglini (“meus avós nasceram na Itália, né… como os avós de todo mundo”) tem o cargo de menino-de-recados de uma grande empresa de combustíveis, chamada BP. Sua grande decepção, no momento, não está relacionada a complicações amorosas, ao trânsito que enfrenta diariamente ou ao cotidiano corrido que tem na empresa. Não, sua maior decepção é o nome do cargo que exerce.

– Tenho vinte anos. Você tem quase a minha idade, sabe do que estou falando. Eu me sinto adulto, sabe? Olha o que eu faço todos os dias. E faço trabalhos assim desde os dezesseis. Sei que não sou adulto há muito tempo, mas sou, mesmo assim.

Enquanto fala, Mário adota uma feição tão indignada que sinto vontade de rir. Sou mais velha que ele e não me incomodo que me chamem de menina, mas, para ele, o cargo que exerce é quase uma ofensa.  Quando tivemos o primeiro contato para este perfil e falamos rapidamente sobre a questão do nome de seu emprego, imaginei que iríamos dar risada da situação e tudo acabaria como uma grande piada. Mas, ao longo da conversa, o jeito quase infantil e tímido de Mário começa a ser deixado de lado e é substituído por um ar briguento, quase agressivo.

– Um dia vou falar com a Alessandra e pedir pra mudar isso. – A voz, mais grave que o normal, parece tremer levemente ao dizer o nome de sua chefe. Os olhos varrem a recepção, como que procurando por alguém que tenha ouvido a declaração, mas o local está vazio, exceto por nós dois. Respirando aliviado, ele baixa os olhos novamente. Um leve vermelho volta às suas bochechas e ele pede desculpas, dizendo que precisa continuar a ser o menino-de-recados.

– Pelo menos por enquanto – acrescenta quase em um sussurro enquanto eu me viro para ir embora. – Um dia vou ser o presidente daqui.

Realizações juvenis

Um jovem um tanto quanto atípico para a sua idade, Luis Eduardo Pessoa, 20 anos, é estudante de Arquitetura da Faculdade Presbiteriana Mackenzie – localizada no bairro Higienópolis, no centro de São Paulo – e sonha em retribuir toda a dedicação que seus pais tiveram para com ele desde a sua infância. Diz que não precisa de mais nada para ser feliz, “minha vida está repleta de tudo aquilo que desejo”. Nascido em Salvador, se entusiasma ao falar de sua cidade natal, relatando que o calor paulista o faz ficar mais próximo de suas lembranças.

Como todo morador da grande São Paulo, seu cotidiano é repleto de atividades: ensaia e faz shows com sua banda de reggae, estagia em uma empresa de arquitetura e trabalha em seu próprio bar, em Pinheiros.  Um sonho não realizado? Levar a faculdade a sério, passar sem ficar em recuperação e, ao mesmo tempo, manter sua banda e seu bar, sendo autônomo e mantendo a arquitetura como um hobby. No futuro, Luis se vê ainda no Brasil, pois para ele o importante é ficar aqui e tentar melhorar o país.