Usando a versatilidade na política

Feriado, 10 da manhã, uma chácara situada na periferia de Sorocaba. Cidade grande, com jeitinho de cidadezinha, com gente que puxa o “R” e fala “pare!” e “lêitê quêntê”. Eu cresci naquela “chacrinha” (como a gente sempre chamou), tive pelo menos uns três aniversários comemorados ali, passei algumas viradas de ano e comi inúmeros churrascos no mesmo lugar em que me encontrava naquela hora. Toquei a campainha, perto do poste onde vi o primeiro acidente grave, com ambulância, da minha vida. Ela veio abrir a porta do mesmo jeito que sempre fez, desde os meus poucos anos de idade: “Jessiquinhaaaa!”. Eu dei risada, falei com os pais dela, que me chamam pelo mesmo apelido e com os irmãos, que me chamam de roque azul (nós até tentamos nos lembrar do porquê desse apelido, mas não conseguimos). Depois de responder “A família tá ótima, tá todo mundo bem! Sim, o Lucas é lindo!” para absolutamente todos os convidados, pergunto se ela pode conversar naquela hora e enquanto uma das crianças a puxa para brincar na casinha da árvore ela diz: “Posso, mas você tem que vir junto!” e aponta a cabeça em direção à criança. O resultado é óbvio: não fizemos a entrevista, só conversamos, colocamos assuntos em dia.

Depois do almoço, eu tento novamente. Finalmente nos afastamos da festa e sentamos em volta de uma das mesinhas. No segundo em que tiro o meu caderno da bolsa, ela abre um sorriso e solta um gritinho “AHH! Minha primeira entrevista!!”. Eu dou risada, pergunto se é sério e com a resposta positiva penso com os meus botões: “tadinha”. Muito perspicaz – como sempre foi -, ela nota minha expressão, pega no meu braço e diz “Tudo bem! Me saí melhor do que esperava! Daqui quatro anos eu consigo!” e dá uma piscadinha.

“Então, me conta… Como começou tudo isso?” – eu mal fiz a pergunta e ela já começa a rir. Eu pergunto se está tudo bem  e ela responde “Tá! É que eu não to acostumada a ver você assim, crescida!”. É compreensível. A Daniely me conhece desde que eu mesma me conheço por gente, e desde que nos mudamos para São Paulo, perdemos o contato. Ela sempre trabalhou muito, em absolutamente tudo. “Qual é a sua última empreitada mesmo?” e a resposta vem seguida de pulos e gestos efusivos, como se fosse uma garota de 15 anos: “Eu crio cavalos! Você precisa conhecer meu potroooo! Estou estudando agronegócios também, mas meu potro é o mais empolgante, no momento! Te levo pra conhecer, depois que a gente terminar aqui”. “Você não sossega, Dany?” – “Você sabe que eu não sei ficar quieta, né, Jessiquinha!”.

Dany – A “faz de tudo um pouco”

Daniely Toassa, de 35 anos, começou a trabalhar com fotografia, junto com sua família. Depois se formou em Engenharia, e começou a “rodar” o mercado de telecomunicações desde operadoras telefônicas até fabricantes chineses. “Comandei instalações, manutenções, vendi, estabeleci parcerias, abri mercados. Por fim, tive o privilégio de ser do time de controladores de uma empresa multinacional espanhola gigantesca, onde eu cuidava do planejamento orçamentário de cerca de 400 projetos que somavam R$2,2 bilhões de investimentos anuais. Esse valor é R$500 milhões maior que o orçamento de Sorocaba. Você sabe que planejamento e fiscalização é uma das principais funções da Câmara de Vereadores, né?” – “Sei, mas peraí que eu não peguei todos os números!” – e com toda a paciência do mundo, ela me explica tudo de novo.

Fora esses grandes feitos, Daniely já estudou muito. Além de Engenharia, é formada em Direito e é mestre em Administração. “Estudar é algo que realmente me agrada! Se tem algum assunto que não domino, vou atrás para aprender! Agora estou mergulhando na área do agronegócio, por exemplo”.

Uma das características engraçadas de Dany é que ela faz absolutamente tudo. Cada vez que aparecia em casa, contava sobre algum projeto novo que estava começando. Entre eles estão incluídas a plantação de milho e a criação de cavalos: “É sério, eu amo meu cavalinho e meu potrinho. Me achei, fazendo isso”.

“Faz de tudo um pouco inclui política”

Como conheço a figura há anos, não me surpreende que ela tenha entrado no ramo político, mas ainda me intrigava e queria saber o porquê dessa decisão. “Em meados de setembro do ano passado, fui tomar um chocolate quente na Real (a melhor padaria do mundo, com a melhor coxinha de frango e catupiry do universo), e numa conversa descontraída com conhecidos, um deles me surpreende com uma pergunta: ‘você não gostaria de sair candidata a vereadora!?’ Nem sei se pensei pra responder, mas disse que sim!”. Eu dei risada. “Pois é, nunca ambicionei cargos, títulos e muito menos uma carreira pública! Mas esse convite me despertou para quanto de bom pode ser feito para a cidade e quantas necessidades do povo ainda existem para serem atendidas! Eu amo Sorocaba e quero ajudar, de verdade”. A candidata conta que sempre “causou” nas lideranças estudantis e religiosas que participou desde a juventude: “Se algo precisava ser implementado, fazia acontecer. Se algo nunca havia sido tentado, encontrava o caminho. Se alguma coisa era impossível, dava um jeito! Nunca fui de me conformar com ditos do tipo: ‘foi sempre assim que se fez por aqui’. Ah, como eu já incomodei bagunçando a ‘perfeita ordem natural das coisas’ com novas idéias e novos limites!”.

Apesar de todo o entusiasmo e propostas aparentemente decentes e plausíveis, que incluem o bilhete único na cidade, projetos para saúde e educação bilíngue para crianças, Daniely conseguiu apenas 367 votos. Ela não se preocupa: “Meu caráter se molda nos princípios cristãos e procuro fazer aos outros exatamente aquilo que gostaria que fizessem a mim. Sou do tempo em que a palavra valia um contrato! É assim que trato todos meus negócios. Procuro fazer sempre o que é correto, não importa o preço. Até brinquei que nestas eleições, preferia perder sabendo que joguei limpo, do que ganhar às custas de propagandas irregulares, favores, ‘puxadas de tapetes’ dos concorrentes e/ou todas as ‘pequenas irregularidades’ que nós brasileiros estamos cansados de ‘ouvir dizer’ que existem por aí”. A candidata também conta que o Facebook foi uma ferramenta importante na divulgação da campanha, espaço onde conseguiu expor suas ideias e propostas: “Meu irmão fez um grupo, criou vários eventos, marcou reuniões… Enfim, encheu o saco de todo mundo por lá” – “É, eu sei. Ele me colocou no meio disso também” comentei num tom educado, mesmo sabendo que só tinha permanecido no grupo por pura educação, para não fazer desfeita.

Mesmo não sendo eleita, Daniely conseguiu alcançar a 3ª melhor votação das mulheres do PMDB. Apesar de não ser o foco da campanha, ela postou uma vez em sua página do Facebook: “nunca me posicionei como ‘candidata pelas mulheres’… Eu sei que explorar esse marketing poderia me dar uma certa vantagem competitiva, já que muitas mulheres gostam de votar para mulheres e se sentem mais resguardadas sendo representadas por outra mulher…

Também não pedi seu voto “por ser mulher”, que alcançaria outro grupo de eleitores (sim… inclusive homens) que prefere candidatas mulheres porque reconhece que, assim como no mundo dos negócios, as mulheres vêm se destacando como fantásticas líderes, com pulso firme, moral e sensibilidade na condução do coletivo…SIM!!! VOU LUTAR PELAS MULHERES!!! E pelos homens também!
SIM!!! VOTE EM UMA MULHER!!! Mas que tenha a qualificação e preparo para te representar!”
Aparentemente, deu certo, né?!

 

E agora?

“Jessiquinha, você tem quatro anos pra mudar seu título de eleitor pra Sorocaba e convencer seus pais e família inteira a fazerem a mesma coisa!”. Falando meio séria e meio que brincando, ela promete que vai se candidatar de novo e pede ajuda: “eu ganhei 400 votos. Se cada pessoa que votou em mim chavecar mais 10 pessoas, na próxima eu ganho fácil!”. Brincadeiras à parte, ela parece confiante de que daqui quatro anos as coisas vão melhorar e que consolidará sua candidatura.

“Minha família e eu ficamos muito felizes com o apoio que recebemos dia após dia! É realmente surpreendente o quanto de gente que nos recebeu, felizes pela notícia e ainda mais impressionante o tanto de gente que nos procurou em aprovação! É, já teve gente até correndo atrás de carro adesivado pra pedir ‘santinho’! Fizemos uma campanha fantástica lado a lado com a nossa família e amigos! Esse apoio dos amigos e dos amigos dos amigos é o que já fez valer a pena esta candidatura!”

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