Gersão! Esse é o cara.

Eram mais ou menos 12 horas quando recebemos uma ligação de Mariana Guedes convidando-nos para um almoço em resposta ao meu pedido de encontrar seu pai, Gerson. Tudo passava pela minha cabeça, um nervosismo me consumia, as perguntas ecoavam em minha mente.  Será que posso perguntar isso, ou aquilo? Iria saber dali meia hora quando chegássemos ao restaurante. O lugar era muito simples, em um dos bairros mais humildes de Araraquara, esperava ver a familia Guedes já nos aguardando sentados à mesa, pois chegamos um pouco atrasados, por volta das 13 horas. Engano meu! A sobrinha do candidato estava sentada sozinha no local e logo que nos viu, cumprimentou-nos e, já esbaforiu uma bronca nos Guedes e na filha por terem deixado-a esperando algum tempo.

Aos poucos foi chegando o pessoal. Achava que ia ser um almoço “sério”, “politico”, no máximo para cinco pessoas. Por volta das 13:10, a Mariana chegou acompanhada de mais 3 pessoas: dois primos e mais uma amiga. O primo, olhando a mesa já exclamou: “Gente, essa mesinha não vai dar pra todo mundo não!”. A mesa já tinha cinco ocupantes e logo foram citando quem estaria para chegar e pediram ao garçom que colocasse pelo menos mais seis lugares para o pessoal que estava a caminho. O garçom, um senhorzinho que tinha cara de vovô, perguntou à Mariana: “Má, cade o Gersão ein? Mudou pro mundo da política e esqueceu da gente?”. Naquele momento meu estomago esfriou, porque até agora a mesa estava quase que completa com primos, amigos e sua filha, mas nada de o personagem principal chegar. Mariana, no mesmo momento, com um tom simpático e confortante disse: “Que é isso! Está saindo da farmácia e jajá chega por aqui com a minha mãe”. Eram 13:30 quando os ocupantes da outra mesa que tínhamos juntado começaram a chegar. Um casal de primos e o marido de uma das moças que já estava no local. Todos faziam a mesma pergunta: Ué, cade o Gersão? E seguia-se a mesma resposta: jajá chega com a dona Sirley.

Os pratos eram pedidos de acordo com o gosto do anfitrião do encontro, mas nada de frescura… Todos já iam almoçando enquanto ele não chegava. Minha primeira impressão era de que iria passar fome naquele lugar, onde a comida parecia ser farta, mas sem um gosto especial. Estava com vontade de ir embora e meu apetite já tinha se esvaido há algum tempo, o nervosismo juntou-se com aquele garfo sujo e me pedia para sair correndo. Tudo ficou mais ameno quando ouvimos alguém animado chegando ao recinto. Olhando do fundo do salão, aquele personagem calvo, de estatura baixa, camisa social de manga curta, calça jeans e tênis, mal tinha entrado no restaurante do “Cidinho” e já tinha cumprimentado pelo menos 10 pessoas. Desde o dono do recinto que estava no caixa, suas ajudantes, o faxineiro do lugar e um gari que estava limpando a beira da calçada que ficava na frente do local. A frase “Faaaala Gersão” repetiu-se inúmeras vezes pelo grande salão, que ainda estava cheio para o almoço por volta das 14:10. Chegou à nossa grande mesa e falou em tom de brincadeira: “Eita Mariana, não sabe fazer nada sem ter festa! Olha o almocinho que você me apronta”.  Ele e sua mulher cumprimentaram cada um que fazia parte daquelas mesas remendadas, e o Gerson fazia um cumprimento especial a cada um. Ora era “Ô meu querido, como vai?” sintonizado com um abraço e batidas no ombro dos homens. Nas meninas, dava um beijo na cabeça e repetia “Ô fia, tudo bem?”. Sentou-se ao lado do sobrinho mais velho que estava acompanhado por sua esposa e já logo foi perguntando o que pediram de bom pro almoço. A mesa estava tão recheada de pratos e travessas quanto de pessoas, fartura era pouco! O bife à milanesa recheado de presunto e queijo com batatas fritas era o prato mais requisitado, e claro que foi o que o Gerson pediu, referindo-se àquilo como “maravilha divina”. A outra opção do cardápio estava em uma panela de barro, era mais light, filé ao molho madeira com muito champignon (e era tudo especialmente muito gostoso). Ao terminar o farto prato de bife à milensa recheado, aquela figura de braços, pernas e rosto finos, mas com uma barriguinha bem avantajada pediu-me para servir-lhe do que tinha naquela panela marrom. “Ô fia, poe pro tio desse negócio ai faz favor!”. Prontamente atendi ao seu pedido que requisitava arroz com muito “molhinho” e pouco cogumelo.

Os amigos de sua filha Mariana contavam das inúmeras aventuras alcoólicas que tinham passado, das quais o “Gersão” teve que cuidar das consequências. “Glicose, pra lá, soro caseiro pra cá…”. Alguns desses porres tinham acontecido nos famosos churrascos que a família Guedes promovia. Fartura é a palavra que define os sábados calourentos! Tanto de carne quanto de cerveja, diga-se de passagem.

Ouvia-se da outra ponta da mesa: “E!!! Gersão vai pagar o almoco para todo mundo com o cartão corporativo que agora ele é importante!”

Aos poucos o assunto político foi tomando conta da mesa e o Gerson, descontraido, passou a falar um pouco mais baixo sobre algumas tropeçadas dos bastidores políticos de Araraquara. O prefeito eleito, Marcelo Barbieri, é de seu partido, o PSDB, ele contava que algum membro da câmara, insatisfeito com o prefeito, tinha feito uma fofoca estrondosa. “O Marcelão não pode nem ver ele na frente”. O Seu Gerson tinha se candidatado à vereador pela primeira vez no ano de 2012, recebeu mais de 1300 votos e por pouco não foi eleito. Detalhe: ele não gastou um tostão com marketing político. O candidato conta que foi incentivado principalmente pelos seus clientes da farmácia DrogaVen que fica na Vila Xavier em Araraquara, conta que não considerava a possibilidade de entrar efetivamente na carreira política. “Meus clientes me incentivavam falando: Gerson porque você não se candidata a vereador? Isso aconteceu durante vários anos, mas eu não cogitava esta possibilidade.

Filiou-se ao PMDB há 20 anos ainda em sua cidade natal, Três Lagoas no Mato Grosso, mas até então nunca havia participado ativamente do partido. Em 1992, quando mudou-se para Araraquara começou a cogitar a possibilidade de ter uma participação política mais ativa na cidade que tanto gostava, com o estopim causado pelos “clientes amigos”. A simplicidade do candidato a vereador com certeza foi um fator determinante para o sucesso em sua primeira candidatura. Durante o almoço, cumprimentava todos os garcons que passavam por nossa mesa, não só isso, mas sabia o nome dos filhos, da esposa. Principalmente, perguntava se haviam melhorado daquela gripe, ou qualquer outra ocorrência, que os tinha levado até a farmácia dias atrás. Araraquara é conhecida por ter uma populacao dividida por panelinhas. O pessoal nasce junto, cria intriguinhas com outro circulo e morre com os mesmos amigos. O jeito do candidato a vereador colocou em questão essa caracteristica marcante, pois ele já tinha conquistado mais da metade do pessoal, desde a Vila Xavier até a Fonte Luminosa. Vestiu a camisa da cidade, decidiu que entraria na briga para desenvolver o enorme potencial da Morada do Sol. Segundo o farmacêutico, seus planos, se for eleito daqui algum tempo, são, além de desempenhar seu papel com maxima honestidade e simplicidade e seriedade, propor projetos que busquem melhorar a saúde e educação araraquarense. “Quero propor leis sobre assuntos de interesse local que criem benfeitorias, obras e serviços para o bem-estar da vida da população em geral”.

Na hora de pagar, a mesa em coro começou com o papo: “Ê Gersão, cade o cartão corporativo? Paga tudo pra gente aí… ou marca na conta do Barbieri, Cidinho!”. Ele apenas gargalhava. O caminho até a saída foi um tanto demorado. O pessoal que estava almoçando cumprimentava-o de longe e ele fazia questão de parar para um aperto de mão e para trocar algumas palavras. Assim, Gerson deixou o restaurante do mesmo modo como entrou: sorridente, simpatico, humilde e cativante. “Boa tarde proceis molecada, sábadão tem churrasco em casa!”.

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