MMA além da ‘violência’

O vale-tudo, atualmente chamado de MMA (Mixed Martial Arts), é um esporte que sofre muito preconceito por ser uma luta vista como violenta. Violenta, por ser livre em seus ataques e defesas, já que abrange todas as lutas marciais, desde boxe até jiu-jitsu. Por causa desse empecilho, apenas os principais campeonatos são televisionados e divulgados, o UFC e o Strike Force. No último dia 11/04 foi divulgada uma matéria sobre o deputado de José Mentor (PT – SP) dar a proposta para um projeto de lei que proibiria a exibição das lutas na televisão, alegando que os combates são uma violência gratuita.

Kleber Seiichi Hissomura, 33 anos, treinador e atleta começou a lutar com cinco anos por influência do pai. Formou-se nas faculdades de fisioterapia e educação física, viajou para a Tailândia em busca de melhorar suas técnicas, e depois de 28 anos, ele é treinador, está gerenciando uma equipe e continua sendo atleta. Já participou de três grandes campeonatos, sendo dois nacionais e um mundial. “Acordo às 6h. O dia começa às 6h e acaba às 22h. Acordo, saio treinar, me exercitar e, às vezes, correr.  Comecei no Muay Thai, passei para o Jiu-Jitsu e depois para Boxe Tailandês. Fui pra Tailândia estudar essas duas modalidades Participei de três grandes  campeonatos, em 95 e 98 nacionais e em 2005 foi o mundial”.

Mas, como todo ser humano, Kleber tem uma vida e gostos pessoais. Namora há três meses, gosta de sair fim de semana, e, sempre que pode, visita os pais. Sua estética não demonstra que é um lutador. Apesar de seu físico definido, seu olhar e sua voz são dóceis, procurando sempre ser educado e usar as palavras certas. Por ser um atleta e ter uma vida saudável aparenta ter uma idade bem menor. Ele tem 33 anos, mas parece que é 25. “Ela se chama Vanessa. Eu fico com ela alguns dias da semana e fim de semana. Sempre que posso, né?!”, conta ele sorrindo.

Quando questionado sobre o projeto de lei que proíbe a divulgação do MMA na televisão, ele não demonstra raiva ou rancor, como o esperado por mim, mas fala com calma e chega a mostrar compreensão.  “Acho que esse deputado tem que se informar mais. Os campeonatos de MMA que são mostrados na televisão são muitos seguros, com muita estrutura, tem equipe médica. Pode-se pensar que o futebol é um esporte mais violento que o MMA. Pois os jogadores jogam com o corpo, se machucam, podem quebrar a perna e não tem a mesma estrutura, acompanhamento e equipe médica de MMA. Então, esse deputado tem que se informar mais. Não é bem do jeito que ele está pensando. Não o culpo, porque, realmente, não há muita divulgação e, logo, não há informação sobre a luta. Claro que esses campeonatos clandestinos são diferentes. Esses, sim, podem ser proibidos de fato. Quando não se tem estrutura, não tem discussão. Os atletas podem se machucar, e não há médicos estruturados para primeiros socorros. Fora que, a maioria dos que fazem campeonatos clandestinos não são profissionais. Eles podem, realmente, machucar o adversário. Mas, quanto a ser passado na televisão, o MMA sofre muito preconceito ainda e deve ser mostrado sim. Para quem se interessar ir atrás e ver que a luta é um esporte como outro qualquer, que respeita o adversário…ele, realmente, tem que se informar”.

Foi perguntado ao mestre, o porquê de o MMA não ser considerado uma “luta marcial. Kleber diz que, independente de qualquer consideração e opiniões, é uma luta marcial. “Não é vista como artes marciais, mas é sim. Isso apenas é questionado, porque, você não precisa utilizar uma luta específica, e sim, qualquer tipo de ataque ou defesa, chão ou ar. Como o antigo nome dizia, “vale-tudo” não é apenas uma categoria, você pode usar qualquer soco, chute… Mas, é sim uma luta marcial”.

Lucian Elentuch de Andrade luta há três anos. É apenas um menino de 17 anos, estudante do primeiro ano de psicologia. Trabalha aos fins de semana, sexta e sábado à noite, como garçom em um restaurante de sushi. Ele possui uma vida normal de quem acaba de entrar na faculdade. Gosta de sair para bares à noite, mas diminui o ritmo desde que começou a trabalhar no restaurante, no início do ano. “Eu faço muitas coisas. Estudo psicologia, trabalho fim de semana como garçom em uma casa de sushi. E gosto de sair para bares no fim de semana, mas estou meio preso por causa do trabalho. Tenho que sair, né? Sou solteiro”.

 Mesmo possuindo estilo discreto, rosto, aparentemente, bravo e voz grossa, é muito educado nas palavras e as procura usar formal e corretamente. Ele conta que tem muitos amigos no Muay Thai e Jiu-Jitsu, sendo que não é o único estudante de psicologia que luta, e diz que adora tanto a psicologia quanto lutar. Quanto aos colegas, ele diz que nenhum é violento em sua vida pessoal. “Tem bastante gente que eu conheço que luta, na verdade mais o pessoal da academia, tem também alguns amigos da faculdade, uns quatro. Todos são tranqüilos, nenhum é violento. Aqui é aqui, lá fora é lá fora, ninguém mistura as coisas e guarda algum rancor porque se machucou, ou coisa assim. Aliás, alguns lutadores são até bonzinhos demais”, ele fala dando risada.  “Adoro psicologia. Só não seria psicólogo se conseguisse atuar como lutador profissional, ganhando dinheiro, o que é muito difícil”.

Sua família não o apoia como lutador. Ele diz que os pais são contra, porque acham violento. O que, segundo ele, é um preconceito que ele pretende mudar. “Meus pais são contra. Eles não conhecem a luta, então, ficam preocupados que eu me machuque. Minha mãe chegou até a dizer que nunca pretende me ver lutar. Um dia eu tento levá-los para assistir, ou na televisão, campeonato qualquer, para eles verem o que é a luta”.

Apesar dos bares aos fins de semana, Lucian diz que não sai de casa quando passa os campeonatos na televisão. “Ah, não. Quando os campeonatos estão passando, eu não perco por nada. Chamo os amigos e ficamos de madrugada lá em casa, na frente da televisão. É super importante, a gente aprende muito assistindo. Até para não cometer erros e machucar o adversário. É essencial para nós assistirmos”.

Sobre a possível proibição de exibir os campeonatos, Lucian tem a mesma posição de seu mestre. E, também, expõe com calma. Ele dá a idéia de criar uma federação, para que não existam campeonatos clandestinos e inseguros. “Acho que ser proibido televisionar os principais eventos, que são o UFC e Strike Force, não vai impedir de ter campeonatos clandestinos e que morram lutadores fazendo isso. O que eu acho que se deve fazer é, invés de proibir os grandes campeonatos, criar uma federação mais séria, que tivesse apoio do governo, para que todos os campeonatos sejam especializados. E, assim, tudo seja mais seguro e nenhum atleta saia prejudicado”.

Leonardo Bourroul é colega de Lucian na faculdade de psicologia. Ele também luta, mas em uma academia diferente de Lucian. Ele tem 20 anos, e está no terceiro ano da faculdade de psicologia. É um rapaz de família, seus pais são separados, ele mora com a mãe e fica na casa do pai aos fins de semana. Namora Jacqueline há três meses, possui estatura baixa, estilo reservado que nem o amigo, mas é muito simpático e sorridente. Fala alto e é muito bem articulado.

Ele conta que se formar a atuar com psicologia é a meta profissional de sua vida, mas que nunca vai deixar de lutar. “É muito difícil se profissionalizar e ganhar dinheiro no Muay Thai e no MMA. É claro que eu adoraria, quero me profissionalizar sim, mas também estou gostando muito de psicologia e quero atuar na área. O que é engraçado né? Você vai no teu psicólogo e o cara é lutador”, ele fala entre risadas.

Leonardo diz que sua família se divide quanto ao apoio para lutar. “Minha mãe não gosta de ver. Meu pai gosta, vai lá no treino aberto, filma, chama minhas tias. O bom foi que consegui carregar meu irmão mais novo nessa. Ele começou o Thai esse ano”, diz com um olhar de orgulho e bate no peito.

Sobre sua vida pessoal e o que ele faz aos fins de semana, fala que não trabalha. Por isso, tem mais tempo de treinar e estudar para a faculdade. Quanto aos fins de semana, ele divide entre a namorada e os amigos. Mas tem a mesma posição que Lucian, quando os campeonatos estão passando na televisão. “Fim de semana eu sempre durmo na casa do meu pai. Saio com a Jacque e com meus amigos. Não gosto de balada, prefiro bares… À tarde eu sempre treino, quando posso. Ou estudo pra faculdade. Não trabalhar ainda me favorece nesses aspectos”, ele se lembra. “Ah, sim. Quando tem campeonato eu não saio de casa”.

Sobre a proposta de lei, Leonardo foi o mais rigoroso em sua resposta, chegando a atacar o deputado responsável. “Eu achei completamente infundado… A desculpa do deputado é a mostra de ‘violência’, ‘violência gratuita’, coisa assim. Violência é ferir a democracia do jeito que ele feriu, um sujeito que estava envolvido no escândalo do ‘mensalão’ em 2005. O MMA é um esporte novo, tem regras, tem juízes… Se paga pra lutar, você não faz aquilo porque quer sem nenhum sentido pra você! Não se faz sem profissionalismo, aliás, a questão principal do MMA é profissionalizar o esporte, os campeonatos, alcançar espaço na mídia, ganhar patrocinadores. Não é uma briga gratuita, é um esporte como outro qualquer! Talvez, como o mestre disse, pode ser até menos violento que o futebol. Na história inteira da luta, apenas uma pessoa morreu, e já no futebol não. Já ocorreram mais casos, e não apenas por choque, mas por falta de acompanhamento”.

Foi perguntado aos meninos alunos, que acompanham as lutas pela televisão, se o atleta necessita da divulgação na mídia. A opinião de ambos foi a mesma. Não apenas o atleta, mas sim o esporte precisa, não necessariamente da mídia, mas sim de divulgação. “Não é que precisa da TV, mas é uma alavanca pra qualquer esporte”, diz Leonardo. E Lucian completa, “Não da ‘TV’, mas da divulgação. O MMA não é muito popular, sofre muito preconceito. Se não tiver divulgação, o atleta não tem patrocínio. E o atleta precisa desse patrocínio. Tanto de empresas de suplementos, como de material esportivo. Por exemplo, talvez com a divulgação, a Nike, que patrocina muitos times de futebol, queira entrar nisso também. Porque, atualmente, as empresas que patrocinam o MMA são empresas especializadas no MMA, ou saem e vão pro boxe, ou um luta marcial especializada”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s