Faça-me rir

“E eu lá vou cobrar a água para um palhaço? Dá logo pra ele” bradou um vendedor de bebidas na festa dominical de 183 anos de Parelheiros. A atitude surpreendeu e não foi, por incrível que pareça, ofensiva. A ordem que o senhor deu a seu ajudante veio acompanhada de um pedido para que eu pusesse no nariz a bolinha vermelha que me acompanhava feito um colar junto ao pescoço. Com um telefone celular que tira fotos, o vendedor passou a sorrir e apertar um botão que fazia o aparelho emitir um som baixo, que imitava o barulho de uma dessas câmeras digitais modernosas. “Posso usar?”, perguntou. Com minha resposta afirmativa, virou a tela do celular para me mostrar o enquadramento que deu ao meu rosto palhaçal.

Passei um final de semana atípico. Duas noites em regime militar num Retiro de Palhaço, com cinco pessoas em um sítio, dormindo, comendo, alongando, meditando e vivendo grandes saias justas juntos.

O combinado era que nos encontrássemos às 23h da sexta-feira nas catracas do metrô Santa Cruz para que então partíssemos de carona com a organizadora do retiro, Ciléia Biaggioli. Esse era o acordo, mas acabamos por chegar em Parelheiros às 4h do sábado. Tudo graças a um rombo no pneu do fusca que nos levaria até lá e a alguma pane ainda não identificada no queridinho do ex-presidente Itamar Franco. A solução foi a providencial carona do providencialíssimo namorado de uma das participantes, o Douglas, que lotou seu carro popular com compras de mercado, mochilas e malas de pessoas que acabara de conhecer.

Fomos recebidos a farejadas, lambidas e barrentas patadas de seis cachorros que vivem no sítio do retiro e acolhidos com uma sopa preparada por Ciléia em incríveis cinco minutos, cheia de vegetais e de gosto peculiar. Estávamos, eu, Carla – namorada de Douglas – e Paula, exauridos, afinal era sexta-feira, dia oficial do sono acumulado.

Depois de prepararmos os colchões esfarrapados pelo uso com dezenas de cobertas, veio a ordem de Ciléia para que sentássemos em roda. Nada de dormir, tínhamos de nos apresentar uns aos outros formalmente, pois de nada valiam os descontraídos papos durante o trajeto de 1h20 de carro até lá. Finda a pequena reunião, nos soterramos sob os cobertores, esperançosos de que o fogo da lareira fosse outro trunfo para combater o frio de bater os dentes que fazia em Parelheiros.

Eu particularmente nunca pensei em ser um artista, quanto mais um palhaço. Quando me interessei pelo retiro, foi com o estreito intuito de escrever uma reportagem. Não sabia em que terreno estava pisando e permaneceria com esse ponto de interrogação enorme povoando a mente até o fim da experiência. Sei que agora concordo com o gênio Frederico Fellini em sua definição de que o palhaço “é uma caricatura do homem como animal e criança, como enganador e enganado. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê sua imagem torpe”.

No retiro, percebi também que a opinião do não menos genial Jimi Hendrix de que o palhaço é o último a ir pra cama faz muito sentido…

“Acorda, é hora de dar bananas aos macacos”. Eram oito da manhã, três horas e pouquinho desde a deitada de cabeça no travesseiro e eu esfregava os olhos como responsável por despertar o grupo. A frase aparentemente sem nexo na linha de cima foi minha saída à ordem de Ciléia para “acordar os outros de forma inusitada”. Foi então que percebi que outras duas moças haviam se juntado a nós: Laudicéia e Julia. A primeira é uma jovem índia guarani de 16 anos, da tribo Tenonde Porã, aluna de Ciléia num curso de teatro em Parelheiros. A segunda é a filha da organizadora, de apenas 12 anos.

Apresentados, semidespertos e instigados, depois de um café da manhã ‘natureba’ – nada de frios, açúcar refinado ou derivados de carne, leite e ovos –  já era hora de começar a primeira atividade: o alongamento. Músculos desses que a gente nem sabe da existência, quando flexionados, pareciam estar a ponto de romper a qualquer momento. Alongamento de ator que mais parecia tortura. O mais curioso era um em que, apoiado todo o peso do corpo sobre o pescoço e a nuca, joga-se as pernas e pés para trás, ficando com o tórax junto ao queixo. Esse dói uma barbaridade

Entre uma puxada daqui e uma cara de dor dalí, Ciléia tomava alguns minutos para explicar, sempre com uma consistente base teórica, alguma teoria sobre a importância da respiração e da postura. Eis que então mantras começaram a sair de sua boca, encoberta pelas pernas em mais uma tentativa de fazer borracha do corpo humano.

Sem que me desse conta ou me esforçasse, já estava repetindo aquelas palavras que não me faziam sentido semântico algum. Um destes mantras ficou registrado em meu gravador, levado ao banheiro numa escapulida sorrateira. “Oh dé, oh dé, oh dé, Ode Arerê, oh dé. Dé, oh dé, o dé, Ode Arerê…”. Na volta, o grupo já estava em outra música, a qual não registrei e nem fixei mentalmente, mas que falava algo sobre um tal de Henrique, creio. Pela primeira vez na vida pratiquei conscientemente a meditação, pois percebi que sai do ar por algum tempo.

Era hora então de confeccionarmos a menor máscara do mundo: o nariz de palhaço. O procedimento é bem simples, mas recomenda-se a supervisão de um palhaço responsável, como Ciléia. Ela é palhaça de carteira assinada há 15 anos, casada com um palhaço e que dirige uma Kombi. Mais clichê, impossível. Se não a conhecesse, talvez ficasse ressabiado, imaginando se ela faria parte da quadrilha de palhaços ladrões de órgãos infantis dos quais tanto se comentava durante meus anos no primário.

Já com o instrumento de trabalho pronto, começou atividade seguinte, o ‘Faça-me rir’. Com um nome destes, explicações são desnecessárias.

Se o conceito é simples, fazer a mini platéria rir não é. Arrancar gargalhas é doloroso, desgastante e sincero. Explico: não há gancho, não há contexto, assunto ou qualquer situação de onde se possa tirar inspiração. As pessoas não necessariamente têm carinho ou admiração por você e pouco conhecem o calibre de seu senso de humor. Eu fui vítima de mim mesmo ao tentar ser engraçado. Fiz acrobacias, contei piadas, histórias e senti como é péssima a sensação de olhar para o público com esperança e ter como troco o olhar nada atraído da platéia. Foi aí que, numa tentativa de cambalhota mal executada, ouvi de Ciléia que a única coisa engraçada em mim era meu ‘cofrinho’.

Pronto, não pensei duas vezes antes de declarar que usaria a informação privilegiada a meu favor. Abaixei mais um pouco a calça jeans e comecei a conversar com eles como se nada tivesse acontecido, exibindo despreocupado o vão entre a calça e o vinco em meu quadril nada atraente. Aleluia, eles riram, e bastante. Ufa, já podia me sentar, era a vez do próximo palhaço.

O segundo demorou a apresentar-se, pois o medo causado pela reação do público – ou melhor: da não reação do público – foi paralisante. Mas a próxima a se apresentar, a Carla, tomou coragem e ficou de pé a poucos metros de nós para seu ato. Ela rompeu em prantos no meio, mas assim como os demais conseguiu a duras penas fazer rir.

Hugo Passolo, diretor, autor, ator, jornalista, roteirista, crítico de espetáculos e PALHAÇO criador dos Parlapatões (famosos artistas teatrais de São Paulo) é direto e reto ao falar de uma de suas atividades: “Para ser palhaço, é preciso fazer rir. Se não fizer rir, não é palhaço”.

O exercício seguinte foi mais enigmático. Tratava-se de falar sobre si mesmo ao falar unicamente o próprio nome. Paula Marcelle, Paula Marcelle, Paula Marcelle. Pa-u-la Mar-ce-lle, PaulaMarcelle. Todos escaparam ilesos e o relógio, o único da casa, já indicava que era hora de jantar.

Com a barriga tão cheia quanto a vontade de ir para a cama, ainda tínhamos uma última tarefa: dar um beijo na(s) parte(s) do corpo que escolhemos como mais bonita(s) de cada um e que havíamos escrito em pequenos pedaços de papel antes de sabermos do propósito. Recebi estalinhos nos ombros, olhos e bochechas (dois), além dos de boa noite.

No domingo, último dia do retiro, a intimidade entre os participantes era grande e o clima de descontração, notório. Logo de manhã, a pedido da Ciléia, fizemos massagens uns nos outros e pelo corpo todo. Recapitulando: domingo, em um retiro de palhaços em Parelheiros, 7 da manhã, gente apertando as nádegas de quem há dois dias era um completo estranho.

Brincar de esconde-esconde era nossa próxima tarefa. Só que não era a brincadeira convencional, na qual uma pessoa vai à procura das outras e, se as achar, transfere a responsabilidade do posto para elas. No esconde-esconde proposto, apenas um se escondia e, na medida em que as pessoas iam encontrando o escondido, se juntavam a ele. Bem lúdico, para descontrair mesmo.

Para descontrair à primeira vista, a atividade seguinte mostrou-se bastante agressiva. Com a ponta de uma corda presa ao batente de uma das duas portas da sala onde passamos 90% do tempo – inclusive nas poucas horas de sono que tivemos – Ciléia ordenou que fizéssemos fila  para pular corda. Ela fazia movimentos circulares com as mãos para centrifugar a corda e um a um tínhamos de entrar e pular a quantidade de vezes que ela determinava. Chegamos a estar os 5 palhaços no mesmo compasso e pulando simultaneamente a corda 20 pulos seguidos. Sincronia foi a chave para a atividade que durou pouco mais de 40 cansativos minutos.

Em seguida fomos ao centro de Parelheiros, que completava 183 anos com uma festa singela, porém aconchegante. Em frente a um palco aparentemente montado às pressas, o público não devia ser de mais de 3 mil pessoas, incluindo as crianças que ligavam mais para as brincadeiras na pracinha cheia de espaço. Havia alí por volta de 15 barraquinhas de comerciantes locais que vendiam guloseima, roupas e serviços, como o de massagem rápida, que pareciam não estabelecer concorrência direta entre si. Quem vendia bebidas, só vendia bebidas. A microdoceria, a pastelaria e a pequena tenda de bolsas seguiam o mesmo código.

Lá se apresentou Laudicéia, a indiazinha que vivia a experiência no retiro. Na peça, cantou uma canção indígena de cadência e ritmo muito suaves e bonitos pelo sepultamento de uma árvore. A finada era o tema central da peça de cunho ambiental mas sem pieguice, que até então era a atração que mais cativara o público. Em segundo lugar nesse quesito vinha um rap em homenagem a um garoto da comunidade que morrera recentemente de forma violenta, chamado Jeremias.

Com o fim do espetáculo, vestimos nossas máscaras – que devem ser colocadas de costas ao público e não devem nunca ser tocadas pelos dedos – e fizemos uma pequena intervenção urbana ao interagirmos com o povo na rua. As reações eram diversas, partiam indagações sobre o que fazíamos, acenos, gritos indecifráveis e desvios de olhar. Fizemos perguntas simples, como de onde saia o ônibus para Marcilac e que horas eram.

Nas ruas de Parelheiros, a quantidade de igrejas pentecostais é enorme. Seus principais adversários na guerra pela alma do homem, os bares, estão enfraquecidos na região, mas àquela noite reuniam quantidade considerável de etílicos ruidosos.

A volta ao sítio foi para palavras finais de Ciléia que agradeceu a colaboração e a resistência de nós todos, vindos de origens tão distintas. Nenhum de nós pretende ser palhaço. Paula é formada em filosofia e trabalha em um centro cultural, Carla é advogada do TRF e Laudicéia ainda tem dois anos para completar o ensino médio e eu, bem, eu pretendo prosseguir minha carreira como jornalista. Nunca se sabe agora que já passamos por uma prova de fogo e perdemos parte da inibição e da vergonha.

Anúncios

6 respostas em “Faça-me rir

  1. Parabéns, Victor
    Relato em primeira pessoa bem escrito. Ótima escolha para descrever uma experiência pessoal como essa. Ao passar os olhos pelo texto, pessoas não identificadas com a profissão se sentirão atraídas pelo retiro.

  2. Victor,
    Não me surpreendeu seu belo texto, mas fiquei curioso em saber que partes das colegas Você acabou beijando. Brilhante seu texto neste ponto também.
    Curioso, que fiquei com vontade de passar por esse retiro também, não pela vocação ou particular aspiração para ser palhaço, mas pelo fato de a estória contada ser bem atraente.
    saudações palestrinas !
    Abel

  3. Adorei a relação bar/igreja. Foste buscar essa ao fundo do bau. Muito bem…
    A primeira vez que vi o Alexandre com um nariz de palhaço, que eu agora possuo, dei logo risada, isso quer dizer que ele é um bom palhaço?

    Otimo artigo!
    Parabéns

  4. Idem ao comentário precedente.
    Muito bom texto. Me fez lembrar dos tempos em que ficar preso no trânsito com meu carro era agradável simplesmente porque usava um nariz de palhaço enquanto conduzia.
    Parabéns Victor!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s