Noites paulistanas

Pedro Ortiz

 Uma anã. A principal atração dentro do salão é uma pequena mulher. Descontrolada. Seu rosto mistura insanidade e embriaguez. Enquanto corre no meio de corpos seminus, se joga nos braços e no colo de rapazes que se divertem com a situação. A cena parece saída de um filme de Fellini. Seria uma versão pornô de As Noites de Cabíria?

O onírico é rotineiro no centro de São Paulo. De forma endógena ou exógena. Zona, boca, quebrada, inferninho, biqueira. Nomes variados para o mesmo lugar. Um zoológico com fauna ímpar. Uma galeria de figuras humanas, quase arquetípicas. No frio da noite, transitam os personagens desta história. É este o mundo de Geraldo, Vanessa, André. Entre eles caminha este repórter. No fio da navalha entre a diversão e o trabalho. A noite é fria. Os boêmios saem para a rua. Na mesa dos fundos do boteco, um grupo de africanos conversa em idioma natal. Falam alto, dão risadas. Parecem cantar, trazem na voz a musicalidade do continente de origem. Os donos do bar são chineses, mal falam o português. Nada do que é falado ao redor pode ser entendido. Na TV, o Jornal Nacional mostra os gols da rodada. Por um instante todos olham para o aparelho televisivo. Ásia e África celebram o futebol brasileiro.

 Na minha frente, Vanessa acende um cigarro. Ela usa uma blusa vermelha, calça jeans apertada em generosas pernas e uma sandália com salto plataforma. De seu ombro desce uma série de pegadas tatuadas que se estendem até o meio das costas descobertas. A garota é baixa, não muito magra, pele bem morena. Seu cabelo é liso e preto, como seus olhos. Estes são levemente puxados, denunciam uma ancestralidade indígena ou oriental. Não é atraente, tampouco feia. Na mesa repousam seus pertences, uma bolsa de couro, um maço de Marlboro Light, óculos escuro. Faz programa há dois anos, em média três por dia. Não aluga seu corpo por menos de R$ 150 por hora. O faturamento mensal gira em torno de R$ 4 mil. Perto dos 30 anos, se diz feliz com a “eterna adolescência “ de sua vida. Ao nosso lado, o velho boêmio chegou cedo. Bêbado, com pouco dinheiro. O suficiente para uma cerveja e uma dose de pinga com mel. O violão nas suas mãos é desafinado. A voz não acompanha a melodia, tropeça em si própria. O som de “Oceano” toma o bar por mais de uma hora. A repetição é desagradável. Definitivamente, o Ébrio paulistano não é Vicente Celestino.

Nas esquinas, os primeiros travestis se juntam ao redor dos postes de energia como as mariposas em uma lâmpada, diria o centenário Adoniram Barbosa. O engravatado passa, faz um gracejo. O taxista moralista observa ao fundo, despreocupado. Seriam elas ou eles? Não sei, mas há muitos (as) nos semáforos do centro. O porte físico intimida, desencoraja agressões. Para Vanessa é difícil ficar nas ruas. O lugar das mulheres é dentro das boates, mais seguras. Lá, há poucos transexuais. Talvez seja o machismo, talvez o mercado do sexo funcione assim mesmo.

As viaturas diminuem, o movimento aumenta. A mesma polícia que atrai multidões na Virada Cultural, espanta a fina flor da boemia. Enquanto Geraldo se prepara para a noite, Nenê e Toninho fecham seus estabelecimentos. A madrugada avança, o ritmo acelera. Garotas com rostos fechados e roupas abertas. Homens com pulseiras de prata e correntes de ouro. Nas vias públicas, trabalhadores, noiados, moradores e casais buscam diversão. Na calçada, André assume seu posto. Na rua, muitos carros para serem guardados. No chão, bitucas de cigarros e tampas de garrafa. Não dá pra negar, o lixo é um personagem na região central. Problema que aumenta durante a Virada Cultural, “os moradores reclamam do lixo e da segurança, dizem que o efetivo não é grande e falta limpeza”. É o que afirma Adroaldo Carrilho, dono de uma banca de jornais na rua Araújo desde 1999.

A manhã se aproxima, a noite esquenta. Sorrisos escondidos se revelam após doses de cerveja. Os olhares tornam-se mais intensos. Dentro ou fora das casas noturnas funcionam as mesmas regras. Elas olham, eles iniciam a conversa. Há um ou dois uniformes padrões para as garotas de programa. O mais tradicional envolve calça jeans muito justa, miniblusa e alguma forma de salto nos pés. Variações envolvem minisaias e vestidos que revelam tanto quanto escondem . Em geral, quanto mais “quente” o inferninho, menores serão os trajes. Todas, com muita maquiagem.

Outra norma da vida noturna diz respeito aos gringos. Se você quer as melhores mulheres por perto, esteja ao lado de um deles. São disputados por roupas coladas, perfumes fortes e danças sensuais. A esperança de uma noite que valha por muitas embala os sonhos dos anjos noturnos.

Há uma série de leis não escritas na noite. No chão, uma garota treme, pálida. Um segurança observa ao mesmo tempo que esconde. Se você passa por ela, você não viu nem ouviu nada. É assim que funciona. Tudo que é visto e ouvido, não é dito. Identidades verdadeiras não passam de utopia. O universo boêmio segue um fluxo próprio. Constante. Todos as noites do ano. Apenas em um final de semana esta rotina é quebrada.

 “É uma noite maravilhosa, de nível internacional. Melhor que Amsterdam, Nova York. O problema é que confundem cultura com bebum”, diz o videomaker Geraldo. O evento causa impacto na vida dos moradores e freqüentadores da região central paulistana. E o que pensam eles? O excesso se traduz em lucros ? Ou a presença de muitos olhos e ouvidos atrapalha o andamento dos negócios?

A Virada Cultural é o momento do ano em que os olhos de toda a metrópole se voltam para o centro de São Paulo. Os holofotes iluminam a multidão. O espetáculo rouba o glamour do bas fond. Para as garotas de programa, a noite é sinônimo de dinheiro na bolsa. “Em uma noite, fiz a sexta, o sábado e o domingo”, comemora Vanessa. Para ela a renda aumentou na quantidade e no preço cobrado por cliente. Ela afirma não ter saído com ninguém por menos de R$200.

Mesmo quem vende seu produto pelo preço habitual consegue lucrar. Antônio Alberto, o Toninho, celebra o sucesso da festividade. Dono de um café na Avenida Ipiranga, ele diz que o faturamento dobrou em relação aos sábados habituais. “Nós fechamos meia noite e meia todo dia, esse ano fomos até as cinco horas da manhã. O pessoal vem, conhece e depois volta”. A mesma realidade vivida pelo flanelinha André, seu trabalho começa diariamente às 22 horas. Mesmo com o uso maciço de transportes públicos, ele garante que “é a melhor noite do ano”.

 “Há uma injeção grande de faturamento. Não só pra mim, mas também bares, restaurantes. Os caras viram 24 horas e faturam muito”, confirma Adroaldo Carrilho. Apesar disso, este ano a banca do seu Nenê não funcionou fulltime , ao contrário de anos anteriores. Ele é um entusiasta do evento. Nunca teve problemas com vandalismo ou violência. Isso, apesar dos lamentos que constantemente chegam aos seus ouvidos.

 De fato, é difícil dormir com imensos amplificadores ligados no talo e uma multidão ensandecida por lazer. Isso tudo na porta de casa. Barulho que incomoda mesmo os boêmios mais fanáticos. Ainda que os motivos sejam diferentes. O volume da cacofonia incomoda Geraldo Mello. Não atrapalha seu sono, mas incomoda sua curtição. “O som é muito alto, distorcem tudo. É destruir o que tem de bom na música”.

 Por causa de sua fisionomia, ele é apelidado de Jack Nicholson. Baixinho, grisalho, falante. Muito acelerado. Talvez seja uma simbiose entre o ator de O Iluminado e Joe Pesci. Seja noite, seja dia usa óculos escuros e roupas pretas. Uma marca registrada. É uma enciclopédia da boemia paulistana, desde os tempos do lendário bar Riviera. A insegurança é um problema para Jack. “ A segurança é uma merda, quebraram garrafas, mais de 2 mil celulares foram roubados”, afirma com conhecimento de causa. Durante a Virada, seu aparelho de telefone móvel sumiu misteriosamente de seus bolsos.

Em um ponto, todos os entrevistados concordam. O acontecimento melhora a imagem da região central paulistana. “É um puta incentivo para os moradores de São Paulo virem pra cá. Dizem que o centro tá degradado, muito mendigo na rua. É uma oportunidade para conhecerem melhor”. Geraldo enxerga uma função social no evento. “A mistura de públicos é positiva, o pessoal dos jardins encontra o povo da periferia, os mauricinhos perdem o medo e vêm pra cá. Tem gente que nem conhece o centro”. No entanto, o medo dos “playboys” tem sua dose de razão. “ O medo procede, nos dias normais depois de um certo horário aumenta a insegurança”, desabafa Toninho. Vanessa também protesta, “tenho medo de noite, as ruas mais pra dentro são escuras, tem muito doido por aí”. Ela que mora perto da maioria das atrações da festa, sente-se mais protegida pelo reforço policial. “ Tem muita gracinha, um fala daqui, outro fala dali, é difícil acontecer alguma coisa violenta”

 A maioria dos entrevistados comemora a existência da Vira Cultural. A injeção financeira, o movimento cultural , a imagem do centro. Histórias de uma noite em que os segredos do centro se revelam para a maior parte da população paulistana.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s