Ari é um homem triste

52 anos é uma vida completa. Muitos não chegam lá, poucos ultrapassam em muito. Com 52 anos, uma pessoa comum já brincou de ciranda, dançou nas baladas, beijou, trabalhou, teve um animal de estimação, viajou, sofreu decepções e alegrias. Poucos foram aqueles que viveram o que Ari Friedenbach têm vivido nos últimos 9 anos dos seus 52 de idade. O homem de semblante sério, com traços de quem sofreu com o bullying na escola se confunde com a atitude de quem levou um chute no útero da vida. Não existe mais palavra estremecida, não existe mais incertezas, a futilidade essencial para a felicidade de cada um que nasceu e cresceu em São Paulo, ali não se encontra mais. Ari não é mais Ari. Ari agora vive com o que restou de Ari.

Nasceu e cresceu dentro da exclusivíssima sociedade judaica de São Paulo. “A melhor recordação da minha juventude, foi a oportunidade de morar 1 ano em Israel, um Kibutz, sendo independente, em outro lugar…” Sua vida sempre tão normal, o preparou para a mais normal das vidas. Casou, teve filhos, um casal, e virou se para a inércia do trabalho. Abriu seu escritório de advocacia e buscava o sustento e a vida sossegada de sua família. A vida parecia perfeita. A angústia de todos estava ali, mas sua vida era realmente perfeita. O tipo de perfeição que apenas se vê depois de se perder. Outubro de 2003 poderia nunca ter acabado aquele ano, assim, Liana, a filha mais velha de Ari não teria viajado com o namorado, Fellipe, escondida dos pais. Se aquele Outubro nunca tivesse terminado, Ari viveria o resto da vida como sempre viveu. Mas o tempo não parou, e Liana se mandou em um ônibus para Embu-Guaçu, interior paulista. Naquele mesmo dia, 1 de Novembro, Ari se mandou da inércia em que vivia.

Ari possui uma daquelas vozes que não mostram firmeza, é meio embargada, anasalada, insegura. Sua aparência de paizão da meia-idade não mostra nada de incomum. Algumas pessoas se tornam referência por grandes aptidões, por talentos para a liderança, por quesitos físicos. Ari não possui nada disso, mas virou referência. É difícil imaginar que alguém como Ari, barrigudo e quase careca, um dia se levantaria e faria fazer valer suas ideias. Sua vida, aparência e atitudes comuns viraram resquícios do homem que ali habita. São quase 10 anos desde que deixou de ser pai de família. Hoje, ele é um homem ocupado e procurado, sua vida tem novo sentido. “Jamais serei completamente feliz, existe um vazio dentro de mim”.

Certas pessoas possuem uma áurea em volta de si que é simplesmente impossível de se tirar. As celebridades possuem uma áurea de mentira, como se não existisse realmente, e quando a vemos pessoalmente, parece que são pessoa de mentira. Os padres, rabinos e sacerdotes (em sua maioria) possuem uma áurea de boa pessoa, a quem se pode confiar. Um ex-presidiário, carrega sempre consigo uma áurea de perigo de malandro, independente do tipo de pessoa que ele é hoje. Ari também carrega consigo uma dessas áureas. “O peso que carrego todos os dias por escolher o tipo de vida que escolhi é enorme” A voz embargada fica ainda mais pesada, a ponto de soar como um choro quando ele fala do caminho que escolheu. Sua áurea é feita sobre medida, e possui camadas. A primeira, a mais forte entre elas, desperta um sentimento de pena em que está a sua volta. A segunda é um alerta, medo. Poucos tem coragem de bater de frente. E por último, a camada mais confusa. Exatamente pelo tortuoso caminho que escolhera, a política. Essa camada desperta certo desdém em alguns, por usar o que aconteceu em sua vida para alcançar cargos políticos. Em outros, causa grande admiração, por usar o que aconteceu em sua vida para alcançar cargos políticos. Para Ari, as pessoas que criticam seu caminho, não merecem atenção. “Não me importo com essas pessoas, são pessoas pequenas, mesquinhas,ruins”.

Palavras fortes e uma posição de quem nada tem a perder o fizeram vencer pela primeira vez na política. Ari, pouco antes de perder Tod, o labrador preto, companheiro, que estava ao seu lado quando falou com sua filha pela última vez, morreu no dia 24 de Outubro, para ele, Novembro nunca chegou. Assim, como ele não estará mais ao lado de seu dono quando, em 2013, tomar posse de sua cadeira como vereador da cidade de São Paulo. Essa não foi a primeira tentativa de Ari. Depois de Novembro de 2003, ele decidiu lutar contra o bom mocismo da lei quanto a penalidade de crimes para menores. “Faço o que faço para que não aconteçam com os seus filhos o que aconteceu com a minha filha.” A frase, que um dia já foi dita com mais emoção, ganha tons de slogan político pelas repetidas vezes que a teve de falar em frente as câmeras e microfones, que hoje se amotinam a sua volta.

“Como vereador, pouco posso fazer em relação as leis, mas é um passo importante para chegar aos cargos maiores, vou trabalhar muito agora para ajudar no que posso.” Ari nunca quis entrar na política, e depois do que aconteceu, pra ele pouco importa esquerda, direita, juros, assistência social… Tudo que existe, é uma revisão sobre a maioridade penal, é a reestruturação do sistema carcerário, é a segurança pública. Nas últimas eleições, em meio a alta violência paulistana, e o sentimento de insegurança, ajudou a Elegê-lo com pouco mais de 22 mil votos. Ao seu lado, Masataka Ota, pai de Ives Ota, assassinado aos 8 anos. “Conheço ele a muito tempo, e ele e sua esposa conversaram muito comigo depois da morte de Liana, vamos fazer um bom trabalho, com certeza”.

Perto de enfrentar pela primeira vez, um cargo político, e poder de fato fazer alguma diferença, Ari, que já havia se acostumado a dar entrevistas e contar a história de sua filha, viu o assédio aumentar. “Vendo o tamanho da repercussão que o caso da Liana deu em todo o país, minha única opção, até mesmo em nome da minha filha, era ir a luta. Meu luto virou luta”. Luta contra a pequena memória do brasileiro, e contra a desorganização política que permite erros catastróficos de uma polícia despreparada, que permite a menores ter direito a visita íntima, mas que podem cometer crimes hediondos sem pagar um grande preço por isso.

Ari não superou nada, ele se transformou para sobreviver. Seu caráter, sua personalidade e todas as suas vivências o levaram a se transformar nessa figura complexa, de corpo exausto, onde seu interior se inflama a cada discussão em busca de justiça. Ari também não se encaixa mais na inércia da sociedade comum. Seus olhos vermelhos que gritavam inicialmente por vingança, agora, depois de descobrir muitas histórias que jamais chegaram aos jornais, clamam por justiça, por um local seguro, aonde seu filho Ilan possa construir uma família. Por pouco não desistiu, quando em 2009, entraram em seu apartamento, de arma em punho e renderam toda a sua família. Pensou em sair do país. “Não sou mais garotão pra ficar lavando prato no exterior, tenho uma carreira, uma família, até vimos de nos mudar, mas não tinha como.” “O melhor foi ficar e lutar.”

 

Ari é um homem livre das amarras sociais, não precisa mais agradar ninguém, diz o que quer, do jeito que acha melhor. Não se preocupa mais em ter uma grande carreira na advocacia e nem com as coisas do dia a dia. Ari é um homem com um sentido, uma razão, e todas as suas células exalam isso. Seus 52 anos na verdade, deveriam ser colocados como 9 d.L (depois de Liana) e tudo o que vem antes, deveria aparecer com um a.L (antes de Liana). Antes, Ari tinha medo de morrer, e deixar sua família, hoje, ele anseia por um reencontro. A pessoa mais comum de todas, vive a vida incomum de um pai de uma filha assassinada, estuprada e torturada por um menor de idade. Seu mundo de criança, em que tudo era colorido, já era meio cinza quando tudo aconteceu. Hoje ele vive sobre a negritude de saber que o mundo é um lugar perigoso e impiedoso.

Ari é um homem triste, movido a combustão de indignação e saudades. Sua áurea inabalável se prepara para enfrentar a gigante burocracia da política, sua sede de justiça e paz vai bater de frente com os interesses pessoais, os iates e clubes de golfe. Sua luta agora entra em um novo estágio, e o coração esmigalhado de Ari se reconstrói na esperança dos 22 mil votos que recebeu. 

Usando a versatilidade na política

Feriado, 10 da manhã, uma chácara situada na periferia de Sorocaba. Cidade grande, com jeitinho de cidadezinha, com gente que puxa o “R” e fala “pare!” e “lêitê quêntê”. Eu cresci naquela “chacrinha” (como a gente sempre chamou), tive pelo menos uns três aniversários comemorados ali, passei algumas viradas de ano e comi inúmeros churrascos no mesmo lugar em que me encontrava naquela hora. Toquei a campainha, perto do poste onde vi o primeiro acidente grave, com ambulância, da minha vida. Ela veio abrir a porta do mesmo jeito que sempre fez, desde os meus poucos anos de idade: “Jessiquinhaaaa!”. Eu dei risada, falei com os pais dela, que me chamam pelo mesmo apelido e com os irmãos, que me chamam de roque azul (nós até tentamos nos lembrar do porquê desse apelido, mas não conseguimos). Depois de responder “A família tá ótima, tá todo mundo bem! Sim, o Lucas é lindo!” para absolutamente todos os convidados, pergunto se ela pode conversar naquela hora e enquanto uma das crianças a puxa para brincar na casinha da árvore ela diz: “Posso, mas você tem que vir junto!” e aponta a cabeça em direção à criança. O resultado é óbvio: não fizemos a entrevista, só conversamos, colocamos assuntos em dia.

Depois do almoço, eu tento novamente. Finalmente nos afastamos da festa e sentamos em volta de uma das mesinhas. No segundo em que tiro o meu caderno da bolsa, ela abre um sorriso e solta um gritinho “AHH! Minha primeira entrevista!!”. Eu dou risada, pergunto se é sério e com a resposta positiva penso com os meus botões: “tadinha”. Muito perspicaz – como sempre foi -, ela nota minha expressão, pega no meu braço e diz “Tudo bem! Me saí melhor do que esperava! Daqui quatro anos eu consigo!” e dá uma piscadinha.

“Então, me conta… Como começou tudo isso?” – eu mal fiz a pergunta e ela já começa a rir. Eu pergunto se está tudo bem  e ela responde “Tá! É que eu não to acostumada a ver você assim, crescida!”. É compreensível. A Daniely me conhece desde que eu mesma me conheço por gente, e desde que nos mudamos para São Paulo, perdemos o contato. Ela sempre trabalhou muito, em absolutamente tudo. “Qual é a sua última empreitada mesmo?” e a resposta vem seguida de pulos e gestos efusivos, como se fosse uma garota de 15 anos: “Eu crio cavalos! Você precisa conhecer meu potroooo! Estou estudando agronegócios também, mas meu potro é o mais empolgante, no momento! Te levo pra conhecer, depois que a gente terminar aqui”. “Você não sossega, Dany?” – “Você sabe que eu não sei ficar quieta, né, Jessiquinha!”.

Dany – A “faz de tudo um pouco”

Daniely Toassa, de 35 anos, começou a trabalhar com fotografia, junto com sua família. Depois se formou em Engenharia, e começou a “rodar” o mercado de telecomunicações desde operadoras telefônicas até fabricantes chineses. “Comandei instalações, manutenções, vendi, estabeleci parcerias, abri mercados. Por fim, tive o privilégio de ser do time de controladores de uma empresa multinacional espanhola gigantesca, onde eu cuidava do planejamento orçamentário de cerca de 400 projetos que somavam R$2,2 bilhões de investimentos anuais. Esse valor é R$500 milhões maior que o orçamento de Sorocaba. Você sabe que planejamento e fiscalização é uma das principais funções da Câmara de Vereadores, né?” – “Sei, mas peraí que eu não peguei todos os números!” – e com toda a paciência do mundo, ela me explica tudo de novo.

Fora esses grandes feitos, Daniely já estudou muito. Além de Engenharia, é formada em Direito e é mestre em Administração. “Estudar é algo que realmente me agrada! Se tem algum assunto que não domino, vou atrás para aprender! Agora estou mergulhando na área do agronegócio, por exemplo”.

Uma das características engraçadas de Dany é que ela faz absolutamente tudo. Cada vez que aparecia em casa, contava sobre algum projeto novo que estava começando. Entre eles estão incluídas a plantação de milho e a criação de cavalos: “É sério, eu amo meu cavalinho e meu potrinho. Me achei, fazendo isso”.

“Faz de tudo um pouco inclui política”

Como conheço a figura há anos, não me surpreende que ela tenha entrado no ramo político, mas ainda me intrigava e queria saber o porquê dessa decisão. “Em meados de setembro do ano passado, fui tomar um chocolate quente na Real (a melhor padaria do mundo, com a melhor coxinha de frango e catupiry do universo), e numa conversa descontraída com conhecidos, um deles me surpreende com uma pergunta: ‘você não gostaria de sair candidata a vereadora!?’ Nem sei se pensei pra responder, mas disse que sim!”. Eu dei risada. “Pois é, nunca ambicionei cargos, títulos e muito menos uma carreira pública! Mas esse convite me despertou para quanto de bom pode ser feito para a cidade e quantas necessidades do povo ainda existem para serem atendidas! Eu amo Sorocaba e quero ajudar, de verdade”. A candidata conta que sempre “causou” nas lideranças estudantis e religiosas que participou desde a juventude: “Se algo precisava ser implementado, fazia acontecer. Se algo nunca havia sido tentado, encontrava o caminho. Se alguma coisa era impossível, dava um jeito! Nunca fui de me conformar com ditos do tipo: ‘foi sempre assim que se fez por aqui’. Ah, como eu já incomodei bagunçando a ‘perfeita ordem natural das coisas’ com novas idéias e novos limites!”.

Apesar de todo o entusiasmo e propostas aparentemente decentes e plausíveis, que incluem o bilhete único na cidade, projetos para saúde e educação bilíngue para crianças, Daniely conseguiu apenas 367 votos. Ela não se preocupa: “Meu caráter se molda nos princípios cristãos e procuro fazer aos outros exatamente aquilo que gostaria que fizessem a mim. Sou do tempo em que a palavra valia um contrato! É assim que trato todos meus negócios. Procuro fazer sempre o que é correto, não importa o preço. Até brinquei que nestas eleições, preferia perder sabendo que joguei limpo, do que ganhar às custas de propagandas irregulares, favores, ‘puxadas de tapetes’ dos concorrentes e/ou todas as ‘pequenas irregularidades’ que nós brasileiros estamos cansados de ‘ouvir dizer’ que existem por aí”. A candidata também conta que o Facebook foi uma ferramenta importante na divulgação da campanha, espaço onde conseguiu expor suas ideias e propostas: “Meu irmão fez um grupo, criou vários eventos, marcou reuniões… Enfim, encheu o saco de todo mundo por lá” – “É, eu sei. Ele me colocou no meio disso também” comentei num tom educado, mesmo sabendo que só tinha permanecido no grupo por pura educação, para não fazer desfeita.

Mesmo não sendo eleita, Daniely conseguiu alcançar a 3ª melhor votação das mulheres do PMDB. Apesar de não ser o foco da campanha, ela postou uma vez em sua página do Facebook: “nunca me posicionei como ‘candidata pelas mulheres’… Eu sei que explorar esse marketing poderia me dar uma certa vantagem competitiva, já que muitas mulheres gostam de votar para mulheres e se sentem mais resguardadas sendo representadas por outra mulher…

Também não pedi seu voto “por ser mulher”, que alcançaria outro grupo de eleitores (sim… inclusive homens) que prefere candidatas mulheres porque reconhece que, assim como no mundo dos negócios, as mulheres vêm se destacando como fantásticas líderes, com pulso firme, moral e sensibilidade na condução do coletivo…SIM!!! VOU LUTAR PELAS MULHERES!!! E pelos homens também!
SIM!!! VOTE EM UMA MULHER!!! Mas que tenha a qualificação e preparo para te representar!”
Aparentemente, deu certo, né?!

 

E agora?

“Jessiquinha, você tem quatro anos pra mudar seu título de eleitor pra Sorocaba e convencer seus pais e família inteira a fazerem a mesma coisa!”. Falando meio séria e meio que brincando, ela promete que vai se candidatar de novo e pede ajuda: “eu ganhei 400 votos. Se cada pessoa que votou em mim chavecar mais 10 pessoas, na próxima eu ganho fácil!”. Brincadeiras à parte, ela parece confiante de que daqui quatro anos as coisas vão melhorar e que consolidará sua candidatura.

“Minha família e eu ficamos muito felizes com o apoio que recebemos dia após dia! É realmente surpreendente o quanto de gente que nos recebeu, felizes pela notícia e ainda mais impressionante o tanto de gente que nos procurou em aprovação! É, já teve gente até correndo atrás de carro adesivado pra pedir ‘santinho’! Fizemos uma campanha fantástica lado a lado com a nossa família e amigos! Esse apoio dos amigos e dos amigos dos amigos é o que já fez valer a pena esta candidatura!”

Mais um Coronel para a Bancada

Passava das oito horas da noite quando uma Captiva Preta, por sinal muito suspeita, se aproximou do número 54 da Rua Nino Crespi ,no bairro de Interlagos. Com uma São Paulo que atualmente se assemelha a Faixa de Gaza, fiquei na espreita aguardando a movimentação do indivíduo que ocupava o banco do motorista. Afinal de contas, aquela rua nunca foi tão segura mesmo.

Ao longe avistei uma faixa pendurada na esquina que dizia “A Associação dos Moradores do Bairro Jardim Satélite agradece o empenho e dedicação dos profissionais militares em sua atuação para proteção e segurança da comunidade”.

Repentinamente, ouço a campainha tocar e um homem vestido de preto acena do portão de alumínio. Era Álvaro, mais conhecido como Coronel Camilo, um dos nomes que ocupará em 2013 a famosa “Bancada da Bala” na Câmara dos Vereadores da cidade, junto com outros célebres tenentes da Polícia Militar do Estado.

Assim como eu, ele também avistou a faixa com os dizeres em homenagem a seus colegas de trabalho. Olhou para baixo e logo em seguida para cima, mais especificamente para o céu, o qual parecia estar enfurecido com raios ao longe. “Eu não consigo acreditar que tantos deles já morreram em busca de paz”.

Ao caminhar para dentro daquela pequena e humilde residência, Álvaro revelou que essa profissão sempre o cativou de alguma forma. “Venho de uma família de policiais militares. Me espelhei em meu pai e meu irmão, aqueles que me inspiraram e incentivaram a seguir carreira nessa área. Entrei na Academia do Barro Branco e me formei oficial em 1981. Continuei me aperfeiçoando para exercer melhor a minha profissão, mas nunca imaginei que iria chegar ao posto que atingi e permaneci até o ano passado”.

Na saleta a mesa já estava posta. Pudim, quindim, frios, pães e refrigerantes. “A tia IêIé nunca me recebe de mãos abanando”. Depois de se sentar diante do banquete dos Deuses preparados pela matriarca da Família Freitas, o Coronel botou reparo no enorme quadro com fotos disposto na parede esquerda do ambiente monocromático. Com tímidas lágrimas nos olhos, se recordou da época em que seu pai Abel era vivo. “Esse sim deixou saudades”.

Álvaro mal encostou na espátula para se servir do creme de leite condensado que Dona Maria, sua tia, começou a chuva de perguntas e indagações sobre sua posição na PM e sua atuação nas Eras Serra e Alckimin e sua aspiração política.

– Por que justo você, um homem correto, honesto, foi se envolver com essa bandidagem da política Álvaro?

– Com 30 anos de carreira nas costas, aprendi que o mais importante na vida são os estudos e o respeito às pessoas. Por essa razão, sempre pautei o meu trabalho na valorização do ser humano. Ouvindo meus comandados e colaboradores, assim como as pessoas da comunidade, compreendi os amigos da comunidade, compreendi e reafirmei os valores de que o mais importante é o ser humano. E com a política eu ganho voz ativa para propor projetos voltados para eles tia.

– Mas você é um homem de estudo, não precisava disso para conseguir seus objetivos.

– Como Comandante Geral da PM trabalhei para a valorização dos policiais militares, para melhoria das condições de trabalho e principalmente, pela interação com a comunidade, dentro da filosofia de polícia comunitária. Ouvindo as pessoas e construindo juntos, polícia e a comunidade podem melhorar a qualidade de vida e a segurança na cidade de São Paulo.

Ao tocar nesse assunto durante o diálogo, um ar de desconforto e de incomodo tomou conta do ambiente. Todos ali presentes sabiam da boa atuação do sobrinho como Comandante da PM e estavam conscientes de que quando ele  solicitou a aposentadoria o que realmente aconteceu foi que pediram a aposentadoria dele. “Vocês sabem que o caso do Pinheirinho e da Cracolândia prejudicaram meu desempenho no cargo. Na minha época não era tão complicado como hoje”.

Num breve silêncio durante a conversa, ouviu-se um estalo. Seria um tiro, um rojão ou o escapamento de um veículo que transitava na viela naquela hora? O que se sabe é que Álvaro, após ter sido eleito vereador suplemente pelo Estado de São Paulo com mais de 26.900 votos, quer realizar junto com os antigos parceiros de Polícia Militar e atuais colegas da “Bancada da Bala” uma modificação drástica e efetiva nas leis, principalmente naquelas que asseguram benefícios para menores infratores.

“Junto com os vereadores e militares Paulo Telhada e Conte Lopes vamos trabalhar firme para conter as ações do PCC. Somos três alvos em potencial desses bandidos, mas vamos propor a retomada das Leis Brasileiras que desfavorecem esses indivíduos”.

Álvaro, em seu mandato, propôs a troca de todos os carros disponibilizados para os policiais realizarem buscas em suas forças-tarefas. “O governo toma decisões erradas. É inadmissível aceitar que os bandidos andem de Camaro enquanto nós andamos de Brasília. Fui criticado por isso e muito mais e o que eu queria era melhorar a situação da polícia de São Paulo”. E por estar na carreira há tanto tempo, ele tem consciência de que o que realmente precisa mudar é a postura das pessoas que comandam e organizam essa estrutura.

“Já trabalhei em várias áreas na Polícia Militar. Atuei no Policiamento, no Corpo de Bombeiro, na Área de Tecnologia, no Estado-Maior, na Área de Inteligência. Quando houve a promoção a Coronel, fui selecionado para comandar a região Central da cidade de São Paulo, onde fiquei de 2007 a 2009. Finalmente, em abril de 2009 assumi o Comando Geral da Polícia Militar, cargo que exerci a até o último mês de Abril. Como vereador quero fazer valer tudo o que aprendi durante a minha experiência na área”.

Depois de mais algumas palavras, alguns goles de Tubaína e outras mordidas no sanduíche de queijo e presunto, o celular do eleito tocou e, de maneira sigilosa, foi atendê-lo no lado externo da casa.

Ao retornar para a mesa disse que precisava seguir viagem, pois os compromissos com o PSD, partido pelo qual se candidatou nas eleições desse ano, continuavam a todo o vapor. “Preciso ir embora agora, mas agradeço pela oportunidade de visitar vocês, meus tios queridos, e de conversar com essa jovem jornalista que está aqui ao meu lado”. E finalizou “espero que o meu trabalho e de todos aqueles que lutam por uma cidade mais justa e tranquila. Utopia para muitos e uma realidade muito próxima para mim”.

Álvaro se levantou da cadeira de madeira marfim, se despediu de mim e de seus tios. Pegou seu casaco preto e seguiu em direção à saída. Quando foi entrar no carro, dois homens em uma moto passaram acelerando pela rua.

Rapidamente o coronel assumiu seu posto, fez sinal para que entrássemos, e saiu em arrancada em seu carro. Após retornarmos para dentro da residência, o telefone tocou e se ouviu a frase: “Fiquem tranquilos. Está tudo sob controle”.

Será que é possível viver em paz em São Paulo? Só nos resta acompanhar o trabalho da “Bancada da Bala” e cobrá-los para que eles também não atirem em seus próprios pés.

Tentando fazer a diferença

Cheguei ao local por volta do meio dia, para esperar o candidato para vereador do PSB Marcelo Russo, 31. Ele é formado em direito na FMU, solteiro, possui dois filhos, e recebeu 276 votos, que não foi suficiente para ganhar. Atualmente ele trabalha como empresário na sua empresa de franquia, Jadlog.

Pedi para a recepcionista chamá-lo, e então esperei ansiosamente. Depois de mais ou menos uns cinco minutos, ele apareceu na recepção e então minha ansiedade diminuiu. Marcelo era um moço comum, de aparência jovem e despojada. Enquanto eu estava de trajes sport fino, ele estava vestido de maneira normal e o que me chamou a atenção foram suas tatuagens no braço, já que eu também sou simpatizante dos desenhos na pele. Simpaticamente ele me cumprimentou, e nós fomos almoçar.

No caminho para o restaurante japonês, andamos conversando sobre a faculdade. Enquanto eu contava para ele sobre o meu curso ele se lembrava dos tempos em que ele ainda estudava. “Sempre fui um aluno dedicado, na média, às vezes a gente escorregava né, mas eu me esforçava bastante e toda dúvida que eu tinha, eu perguntava, não importa quantas vezes fosse, o professor ia ter que esclarecer [risos]”.

O restaurante era pequeno, com de assoalhos de madeira por dentro, tinha pouca claridade, e havia um incenso em cada mesa, e outros detalhes típicos de um restaurante japonês; nós sentamos em uma pequena mesa e fizemos os pedidos. Ele comentou que adorava comida japonesa, e me apresentou vários pratos no qual eu não conhecia (apesar de eu gostar também, meu conhecimento alcança até o temaki).

Enquanto almoçávamos me concentrava com as perguntas para saber um pouco mais sobre ele. Comecei então a perguntar sobre a política, e a sua ideologia. “Bom, nos comentários de um site que fala sobre minhas propostas, fui classificado pelas pessoas como o mais radical [risos]”. “Eu não sou contra o capitalismo, mas sou contra o capitalismo desenfreado que nós vivemos hoje. Também não sou de extrema esquerda; acho que o problema tem que ser resolvido primeiramente pela educação”.

“Sempre tive vontade de participar do processo político, dês de criança assistia ao horário eleitoral, e não aguento mais ver as mesmas caras fazendo as mesmas promessas, por isso ano passado resolvi me filiar ao PSB com intenção de ser candidato a vereador. Então a minha ideia era renovar o jeito de fazer política em São Paulo, porque não posso mais aceitar de braços cruzados o que acontece, aliás, o que não acontece em nossa cidade. As crianças saem da escola sem saber ler e escrever, a saúde pública jogada as traças… sei que uma andorinha só não faz verão, [risos] mas tenho que pelo menos tentar. Quem sabe consigo outras andorinhas para começarmos alguma coisa [risos]. Hoje em dia o cenário político é vergonhoso. Para exemplificar, o que esperar de um deputado federal que em sua campanha dizia: “Vote no Tiririca, pior do que tá não fica”, e é aí que o povo se engana, pior do que está fica sim, se colocarmos pessoas despreparadas no comando do país fica pior sim, e pode ficar muito pior”.

Enquanto nós conversávamos sobre o assunto, muitas das nossas ideias eram semelhantes, como por exemplo, a questão da pena de morte. “Eu sou a favor, dependendo do caso”. Ele também se posicionou contra a legalização da maconha, “drogas comigo não tem vez, sou totalmente contra; eu vivia perto da periferia então as drogas sempre estiveram em paralelo na minha vida, e eu sempre tive a cabeça no lugar para não me envolver nisso, além disso meus próximos respeitavam minha posição então ninguém me oferecia, porque sabiam que era oferecer para perder minha amizade no mesmo instante.”

Nossa próxima pauta foram as eleições de São Paulo, e do partido do PT. “Eu não consigo votar no Serra”, foi quando a gente entrou em convergência. E ele começou a me explicar os seus motivos e a sua visão, enquanto isso eu esperava ele terminar de falar para perguntar, já que sua ideologia era esquerdista. “Você acredita que o PT é um partido de esquerda?”, perguntei. “Na teoria sim, na prática, não mais. E eu também não concordo com a ideia do assistencialismo deles, precisa oferecer emprego para as pessoas.”

Concordando novamente com a sua opinião, eu finalizei o tema política optando por fazer uma pergunta sobre um fato que acontece nas eleições que me incomoda muito. “O que você pensa sobre o “lixo eleitoral” no dia das eleições? – aqueles ‘santinhos’”. “Penso que é totalmente desnecessário, isso não convence ninguém, aliás pelo contrário, você acaba perdendo votos por conta disso.” E eu concordei dizendo que meu voto é um dos perdidos quando um político tem essa atitude. “E como você fez sua campanha?”. “Eu fiz 50% na internet, em redes sociais, 30% foi com materiais de publicidade e propaganda: faixas, adesivos de carro, santinhos distribuídos através de amigos e funcionários, e os outros 20% eu rodei a cidade distribuindo os santinhos pessoalmente.”

No decorrer do almoço, ele declarou sua paixão por animais de estimação, futebol e tatuagens. Eu reparei que sua tatuagem no braço direito era um desenho, e, no esquerdo eram nomes – são os nomes dos meus filhos – disse ele. “Eu adoro crianças, adoro meus filhos. Sempre que eu posso eu sento com o mais velho para jogar vídeo game. A gente fica jogando Fifa, que é o nosso favorito.”. Quando ele falou de futebol, contou como adorava o esporte e ainda ressaltou ser um corinthiano fanático. “Bom, mas o cara que fez minha tatuagem manda bem, eu nunca tive problemas, e dificilmente eu preciso retocá-las. Se você quiser, depois eu te passo o telefone dele.”

Voltamos a falar de futebol, e ele contava que desde pequeno sempre gostou de todos os esportes, ai eu perguntei por que ele não tentou fazer alguma coisa na área de esportes. “Sendo bem realista, eu sou adoro futebol, mas não tinha vocação para ser jogador [risos]; mas eu quis fazer faculdade de educação física, mas na época meu pai não deixou. Depois escolhi economia e ele também ‘bateu o pé’, ai a gente entrou em um consenso com o direito. Mas eu não me arrependo em ter feito direito; alias, acho que algumas matérias que eu vi na faculdade deveriam ser obrigatórias no colégio, porque as pessoas precisam saber até que ponto as leis são favoráveis a elas.”

Ao refletir suas palavras, tirei a conclusão de que o Marcelo, por fim acertou em sua carreira, de um modo torto (já que seu pai não aceitou o curso de educação física), mas acertou. Em seguida conversamos sobre sua outra paixão: bichos de estimação. Falamos bastante sobre nosso gosto por cachorros, mas novamente ele me surpreendeu quando disse que tinha vários animais em sua casa. “Tenho gato, cachorro, peixe, no meu escritório tem um aquário enorme de peixes, tenho ramster, que inclusive me deu um trabalho essa semana porque ele saiu da gaiola e eu não o achava de jeito nenhum, acabei encontrando, depois de um tempo que eu já tinha procurado, atrás do sofá [risos]. Acho que não falta nenhum bichinho [risos].”.

Havíamos terminado de almoçar, e voltamos o caminho conversando um pouco mais sobre política e sobre seu carinho pelas crianças. “Eu moro do lado de um orfanato, e eu sempre ajudei as crianças de la, mesmo antes de me envolver na política. Eu e minha mãe realizamos festas em datas comemorativas, ai ela faz o bolo e eu entro com os quitutes e os presentes. Recentemente nos comemoramos o dia das crianças, e ai eu fui comprar esfihas para a festa porque a encomenda que eu tinha feito não tinha ficado pronta. Quando cheguei no Habbibs, o dono estava la e me viu comprando todas aquelas esfihas e veio conversar comigo. Contei a ele sobre a minha contribuição para aquelas crianças, e ele se interessou dizendo que também queria participar; ‘no natal, traz as crianças aqui que eu vou ceder o espaço e as esfihas’. Eu achei bem legal.”.

Admirei aquela historia, sobre as crianças, e principalmente sobre o dono do Habbibs, e me alegrou saber que existem pessoas solidarias tão próximas e nós nem nos damos conta. Nas eleições futuras, Marcelo Russo terá meu voto como vereador.

Uma eterna apaixonada

Dora Maria.

Quando a vi para nossa entrevista, vestia um terno azul marinho de crepe, camisa branca de algodão e colar de perolas, sua aparência traduzia o perfil de uma mulher pronta para assumir o poder, seja na nação, da sua própria casa ou ate mesmo no sentido da sua vida.

Sua pontualidade já demonstrou a seriedade para com seus compromissos, mostrando assim seu preparo para qualquer tipo de situação. Quando cheguei ela já estava sentada tomando um suco de cor rosada, devia ser de morango ou frutas vermelhas, já me sentei pedindo desculpas pelo meu atraso e ela sem o menor problema e cara estranha, balançou a cabeça positivamente falando que não havia problema algum.

Me sentei um pouco esbaforida e ansiosa para começar logo com as perguntas, afinal, a fiz me esperar por pelo menos uns quinze minutos. Comecei com as perguntas mais ligadas e relacionadas à política para já demonstrar que aquilo realmente era sério.

Ela muito receptiva e calorosa falou que me responderia tudo com calma e com prazer, mas que antes eu retomasse a calma e descansasse da pressa com que cheguei, daí por diante ela já me conquistou pela sua simpatia, depois de dois copos d’água começamos a nossa entrevista/conversa pela política.

Para ela, a politica é mais do que discutir o poder, é acreditar no povo brasileiro, nas suas necessidades, na nação órfã de comprometimento dos governantes.

Durante toda a nossa conversa pude perceber como Dora e uma pessoa feliz, tem muitos sonhos e acredita fielmente que pode concretiza-los e não mede forças para realiza-los.

Leva a vida como uma musica, onde cada minuto é uma nova dança e uma historia a ser traçada, tem um ótimo humor e se realizada com poucas coisas. Se satisfaz com as coisas simples da vida, da muito valor aos amigos e familiares, nada é mais prazeroso do que passar um dia inteiro com sua filha e neta, são suas maiores paixões, tem orgulho de ser mãe e avó presente para as duas. É o que tem o maior e profundo prazer de fazer, ser avó e mãe, segundo ela” é a minha melhor profissão, que eu mais obtenho sucesso” e solta uma risada delicada e apaixonada.

 
Teve seu início na carreira política muito por acaso, iniciou sua carreira despretensiosamente, assessorando um ex-governante no Grunase – Grupo Nacional de Serviços.

Por meio de influencia do seu chefe que era ex-deputado, acreditou que o Brasil precisava de alguém que acreditasse na justiça, na necessidade dos mais oprimidos e na população mais carente.

Formada em Direito pela FMU acredita que o Brasil pode ser um pais melhor, com governantes honestos e capazes de governar com hombridade e eficácia um país tão desacreditado pela nação.

Divorciada, mãe de uma filha e avo de uma neta acredita em futuro melhor, onde o país não será carente de educação, de saúde, de transporte e amparo social para assim poder desenhar o futuro de um país brilhante e um pouco mais democrático para todos.

Para ela as pessoas devem se arrepender das coisas que não foram feitas, seu lema e não se arrepender do que foi feito.

Acredita que o importante na vida e sempre independente de qualquer coisa fazer o bem, pois assim como diz nossa entrevistada “Quem bem faz para si, é”.

Minha vereadora, se é que assim posso chamá-la, falo assim, pois nossa conversa foi tão íntima e prazerosa, que a considero como uma amiga próxima, para ela família significa origem é a partir dela que nos tornamos quem somos e quem nos tornaremos para o resto de nossas vidas.

 Não é muito adepta a falar sobre o futuro, pra ela o futuro a Deus pertence, não quis nem me soube falar sobre seus planos tanto pessoais quanto políticos.

Ela me diz que se fosse eleita uma de suas metas seria tirar os mendigos da rua, retornar o convênio Polícia & Trânsito, além de cadastrar os camelôs. Para Dora, política, nada mais é do que discutir o poder, para que possamos sempre manter a ordem e o progresso.

Sempre com um sorriso no rosto, muito simpática me conta que adora dançar, viajar e se divertir com seus amigos, são essas coisas que a faz feliz.

Pude perceber ao fim de nossa entrevista que a vereadora é apaixonada por tudo o que faz, e por tudo que fez, o que importa é viver da maneira que puder e der, sonhando que vamos levando a vida e lutando para realizar todos esses nossos sonhos. Posso dizer que aprendi muito com minha entrevistadora em como amar mais a vida e como viver é bom independente de qualquer coisa. Ela é uma eterna apaixonada.

Gersão! Esse é o cara.

Eram mais ou menos 12 horas quando recebemos uma ligação de Mariana Guedes convidando-nos para um almoço em resposta ao meu pedido de encontrar seu pai, Gerson. Tudo passava pela minha cabeça, um nervosismo me consumia, as perguntas ecoavam em minha mente.  Será que posso perguntar isso, ou aquilo? Iria saber dali meia hora quando chegássemos ao restaurante. O lugar era muito simples, em um dos bairros mais humildes de Araraquara, esperava ver a familia Guedes já nos aguardando sentados à mesa, pois chegamos um pouco atrasados, por volta das 13 horas. Engano meu! A sobrinha do candidato estava sentada sozinha no local e logo que nos viu, cumprimentou-nos e, já esbaforiu uma bronca nos Guedes e na filha por terem deixado-a esperando algum tempo.

Aos poucos foi chegando o pessoal. Achava que ia ser um almoço “sério”, “politico”, no máximo para cinco pessoas. Por volta das 13:10, a Mariana chegou acompanhada de mais 3 pessoas: dois primos e mais uma amiga. O primo, olhando a mesa já exclamou: “Gente, essa mesinha não vai dar pra todo mundo não!”. A mesa já tinha cinco ocupantes e logo foram citando quem estaria para chegar e pediram ao garçom que colocasse pelo menos mais seis lugares para o pessoal que estava a caminho. O garçom, um senhorzinho que tinha cara de vovô, perguntou à Mariana: “Má, cade o Gersão ein? Mudou pro mundo da política e esqueceu da gente?”. Naquele momento meu estomago esfriou, porque até agora a mesa estava quase que completa com primos, amigos e sua filha, mas nada de o personagem principal chegar. Mariana, no mesmo momento, com um tom simpático e confortante disse: “Que é isso! Está saindo da farmácia e jajá chega por aqui com a minha mãe”. Eram 13:30 quando os ocupantes da outra mesa que tínhamos juntado começaram a chegar. Um casal de primos e o marido de uma das moças que já estava no local. Todos faziam a mesma pergunta: Ué, cade o Gersão? E seguia-se a mesma resposta: jajá chega com a dona Sirley.

Os pratos eram pedidos de acordo com o gosto do anfitrião do encontro, mas nada de frescura… Todos já iam almoçando enquanto ele não chegava. Minha primeira impressão era de que iria passar fome naquele lugar, onde a comida parecia ser farta, mas sem um gosto especial. Estava com vontade de ir embora e meu apetite já tinha se esvaido há algum tempo, o nervosismo juntou-se com aquele garfo sujo e me pedia para sair correndo. Tudo ficou mais ameno quando ouvimos alguém animado chegando ao recinto. Olhando do fundo do salão, aquele personagem calvo, de estatura baixa, camisa social de manga curta, calça jeans e tênis, mal tinha entrado no restaurante do “Cidinho” e já tinha cumprimentado pelo menos 10 pessoas. Desde o dono do recinto que estava no caixa, suas ajudantes, o faxineiro do lugar e um gari que estava limpando a beira da calçada que ficava na frente do local. A frase “Faaaala Gersão” repetiu-se inúmeras vezes pelo grande salão, que ainda estava cheio para o almoço por volta das 14:10. Chegou à nossa grande mesa e falou em tom de brincadeira: “Eita Mariana, não sabe fazer nada sem ter festa! Olha o almocinho que você me apronta”.  Ele e sua mulher cumprimentaram cada um que fazia parte daquelas mesas remendadas, e o Gerson fazia um cumprimento especial a cada um. Ora era “Ô meu querido, como vai?” sintonizado com um abraço e batidas no ombro dos homens. Nas meninas, dava um beijo na cabeça e repetia “Ô fia, tudo bem?”. Sentou-se ao lado do sobrinho mais velho que estava acompanhado por sua esposa e já logo foi perguntando o que pediram de bom pro almoço. A mesa estava tão recheada de pratos e travessas quanto de pessoas, fartura era pouco! O bife à milanesa recheado de presunto e queijo com batatas fritas era o prato mais requisitado, e claro que foi o que o Gerson pediu, referindo-se àquilo como “maravilha divina”. A outra opção do cardápio estava em uma panela de barro, era mais light, filé ao molho madeira com muito champignon (e era tudo especialmente muito gostoso). Ao terminar o farto prato de bife à milensa recheado, aquela figura de braços, pernas e rosto finos, mas com uma barriguinha bem avantajada pediu-me para servir-lhe do que tinha naquela panela marrom. “Ô fia, poe pro tio desse negócio ai faz favor!”. Prontamente atendi ao seu pedido que requisitava arroz com muito “molhinho” e pouco cogumelo.

Os amigos de sua filha Mariana contavam das inúmeras aventuras alcoólicas que tinham passado, das quais o “Gersão” teve que cuidar das consequências. “Glicose, pra lá, soro caseiro pra cá…”. Alguns desses porres tinham acontecido nos famosos churrascos que a família Guedes promovia. Fartura é a palavra que define os sábados calourentos! Tanto de carne quanto de cerveja, diga-se de passagem.

Ouvia-se da outra ponta da mesa: “E!!! Gersão vai pagar o almoco para todo mundo com o cartão corporativo que agora ele é importante!”

Aos poucos o assunto político foi tomando conta da mesa e o Gerson, descontraido, passou a falar um pouco mais baixo sobre algumas tropeçadas dos bastidores políticos de Araraquara. O prefeito eleito, Marcelo Barbieri, é de seu partido, o PSDB, ele contava que algum membro da câmara, insatisfeito com o prefeito, tinha feito uma fofoca estrondosa. “O Marcelão não pode nem ver ele na frente”. O Seu Gerson tinha se candidatado à vereador pela primeira vez no ano de 2012, recebeu mais de 1300 votos e por pouco não foi eleito. Detalhe: ele não gastou um tostão com marketing político. O candidato conta que foi incentivado principalmente pelos seus clientes da farmácia DrogaVen que fica na Vila Xavier em Araraquara, conta que não considerava a possibilidade de entrar efetivamente na carreira política. “Meus clientes me incentivavam falando: Gerson porque você não se candidata a vereador? Isso aconteceu durante vários anos, mas eu não cogitava esta possibilidade.

Filiou-se ao PMDB há 20 anos ainda em sua cidade natal, Três Lagoas no Mato Grosso, mas até então nunca havia participado ativamente do partido. Em 1992, quando mudou-se para Araraquara começou a cogitar a possibilidade de ter uma participação política mais ativa na cidade que tanto gostava, com o estopim causado pelos “clientes amigos”. A simplicidade do candidato a vereador com certeza foi um fator determinante para o sucesso em sua primeira candidatura. Durante o almoço, cumprimentava todos os garcons que passavam por nossa mesa, não só isso, mas sabia o nome dos filhos, da esposa. Principalmente, perguntava se haviam melhorado daquela gripe, ou qualquer outra ocorrência, que os tinha levado até a farmácia dias atrás. Araraquara é conhecida por ter uma populacao dividida por panelinhas. O pessoal nasce junto, cria intriguinhas com outro circulo e morre com os mesmos amigos. O jeito do candidato a vereador colocou em questão essa caracteristica marcante, pois ele já tinha conquistado mais da metade do pessoal, desde a Vila Xavier até a Fonte Luminosa. Vestiu a camisa da cidade, decidiu que entraria na briga para desenvolver o enorme potencial da Morada do Sol. Segundo o farmacêutico, seus planos, se for eleito daqui algum tempo, são, além de desempenhar seu papel com maxima honestidade e simplicidade e seriedade, propor projetos que busquem melhorar a saúde e educação araraquarense. “Quero propor leis sobre assuntos de interesse local que criem benfeitorias, obras e serviços para o bem-estar da vida da população em geral”.

Na hora de pagar, a mesa em coro começou com o papo: “Ê Gersão, cade o cartão corporativo? Paga tudo pra gente aí… ou marca na conta do Barbieri, Cidinho!”. Ele apenas gargalhava. O caminho até a saída foi um tanto demorado. O pessoal que estava almoçando cumprimentava-o de longe e ele fazia questão de parar para um aperto de mão e para trocar algumas palavras. Assim, Gerson deixou o restaurante do mesmo modo como entrou: sorridente, simpatico, humilde e cativante. “Boa tarde proceis molecada, sábadão tem churrasco em casa!”.

Pés pequenos, botas grandes

Com um jeito humilde e tranquilo, ele se sentou à mesa e ficou olhando meu caderno. Por um momento vi uma sombra de preocupação em seu rosto e me perguntei o que havia ali que o preocupava. Então reparei para onde apontavam seus olhos, agora tristes: “Victor Junior – Partido Trabalhista Nacional – 226 votos”. No alto de seus 22 anos, aquele número incomodava. Incomodou tanto que o faz pensar em nunca mais voltar à vida política. “Não dessa forma, pelo menos. Fiquei muito exposto… foi uma decepção muito grande”.

Desde bem jovem, Victor percebera as falhas políticas em relação a educação e saúde em Santana de Parnaíba, cidade onde nasceu e se candidatou. Essas preocupações parecem ter permeado toda sua juventude, de forma a moldar, de certa forma, a pessoa que é hoje. Victor não sabe o que é não ser engajado. Fato curioso, mas não isolado: o gosto pelas questões sociais tem origem muito bem fundamentada na família. “Não foi do nada! Só sou assim por causa do meu pai. Calcei as botas dele na política”.

O pai de Victor, que sempre trabalhou com política e já foi duas vezes candidato a vereador da cidade, foi grande influência na vida do menino. Aos quinze anos, quando começou a perceber certos problemas na sociedade, como falta de opções públicas para praticar esporte, foi que surgiram ideias a respeito de uma possível vida política. Hoje, anos depois, o foco de Victor é outro, mas a essência de lutar por uma vida melhor permanece dentro dele. “Na época, eu ficava preocupado com coisas para adolescentes fazer. Muitos lugares, como praças e campos de futebol, são ocupadas por delinquentes. Isso era o que mais me incomodava. Hoje, me preocupo com saúde, moradia, pessoas miseráveis…”. De alguma forma, crescer com uma pessoa em casa que se envolveu tanto na política foi um dos maiores incentivos que Victor poderia ter para começar e se preocupar com tais questões. “Todo mundo queria uma quadra pra jogar bola, mas ninguém queria ir lá arrecadar dinheiro pra construir uma”. E é analisando esta sua força de vontade que o menino percebe porque nenhum de seus colegas seguiu seus passos. “Mas eu não estava sozinho. Por coincidência, essa foi uma eleição de muitos jovens. Mas, infelizmente, nenhum entrou”.

Certo dia, cansado de ouvir o filho reclamar sobre o quanto a organização da cidade estava errada, seu pai lhe disse que, se era tão incômodo assim, que entrasse na política e fizesse alguma mudança. “Ele disse que se eu quisesse mudar, então eu devia entrar e fazer diferente. Acho que é isso mesmo, só tem direito de reclamar quem mostra que sabe fazer melhor”. E foi assim que novas preocupações começaram a surgir na vida de Victor, questões que não faziam parte de seu dia a dia – campanha, eleitores, propostas, convencer, convencer, convencer. “Mas em nenhum momento eu tentei impor minha ideia, só queria mostrar que o vereador é fundamental e que as pessoas têm que saber votar no certo”.

Mas o dia a dia de um político não é simples, muito menos para alguém que ainda não se formou na faculdade. O caminho até a eleição é longo, as lutas são muitas. Alguns jogam sujo, outros nem jogam – só colocam seus nomes e saem de mansinho, tentando não chamar muita atenção. A política é um campo perigoso e cheio de artimanhas. É preciso saber brincar. Nesse caminho, Victor sempre entendeu que a transparência é o melhor negócio. “A maioria dos eleitores não me conheciam, então eu tinha que me mostrar”. Nada fácil, mas ele conseguiu se virar com as cartas que tinha na manga. Victor acredita que alguns de seus talentos ajudaram nessa subida até a eleição. “Fui de casa em casa, fiz uma campanha sem promessas, explicando o que de fato um vereador faz. Afinal, o vereador não é executivo, ou seja, ele não tem como fazer nada sozinho. Também usei redes sociais, placas e reuniões”. Nesta parte, a juventude ajuda. “Pude fazer muita coisa sozinho, principalmente na internet. Muita gente contrata empresas pra isso e perde dinheiro com coisa boba”.

Entre as pessoas que visitou fazendo sua campanha, muitas continuaram em contato e são amigas até hoje. Isso é importante para ele, que, mesmo, sem saber se seguirá carreira política, pretende colaborar, de alguma forma, com a comunidade onde vive. “Tem que falar com as pessoas pra saber o que elas querem. Agora eu falo muito mais do que falava antes da campanha”. E com a formação quase completa em Publicidade com Habilitação em Marketing, o menino era, na verdade, um boa aposta do partido. Campanha, imagem, propaganda, tudo isso se mistura às propostas na hora de aparecer para o público eleitor. “Acho que ajudou bastante, mesmo. O curso foi uma grande base para mim”.

Seus sonhos políticos nunca foram excessivamente ambiciosos. A ideia era simples: parar de gastar dinheiro criando coisas novas e investir na melhoria de tudo aquilo que já existe. “É saúde e educação que precisam ser melhoradas com urgência. Não é construir mais postinhos ou mais escolas, é melhorar o que já temos, qualificar e intensificar o que já existe lá”. Simples. Talvez se ele se arriscar mais uma vez, dentro de alguns anos, no mundo da política, essa ideia possa conquistar um número um pouco maior de pessoas do que conquistou até agora. O amadurecimento de Victor será o de sua campanha e de seus ideais. Assim como de todos nós.

Ao ver os olhos do menino se arregalarem ao falar de política, fica claro que a vontade e a garra para vencer sempre foram muito fortes. Mas as botas que tentou calçar, talvez, fossem um pouco grande demais para seus pés. E o tropeço foi doloroso. A evidência de tal dor ficou marcada em nosso segundo encontro, em um bar de Higienópolis. Victor me esperava em uma mesa com o copo de cerveja na mão. Depois que me sentei, começamos uma conversa sem graça sobre o tempo e o vento, tentei contar uma piada, ele fingiu que entendeu. Quando comecei a fazer algumas perguntas um pouco mais jornalísticas, percebi que ele olhava, quase que mecanicamente, para a tela do celular. A cada dois segundos. Não quis perguntar, mas achei estranho. Ele parecia muito mais tenso que na primeira vez que nos vimos e a conversa não estava fluindo. Percebi que minha única chance ali seria aproveitar aquela distração para tentar conseguir alguma resposta – a pergunta? Não tinha. O que me importava era a resposta. E esta me veio rapidamente, sem muito esforço jornalístico. “Não estou distraído, só pensando. Ela não me ligou hoje”, começou a explicação. Da mesma forma que começam explicações de tantas pessoas daquela idade. Namoro, algo estranho, silêncio, medo.

Essa, segundo Victor, foi uma das maiores sequelas da campanha: dificuldades no namoro. “Acho que antes de eu ter várias responsabilidades, era mais fácil. Aí depois da campanha veio o TCC… nem sei o que dá mais trabalho”. A conversa seguiu leve, com um tom mais melancólico, sobre os planos para o futuro. Os meus são poucos e muito dependentes de circunstâncias externas. Os dele seguem um caminho bem diferente. “Vou abrir uma empresa, trabalhar com publicidade, investir mais no namoro, construir minha vida”. Em Santana de Parnaíba, onde mora hoje com os pais, ele pretende, um dia, morar com a família que virá a construir. Mas os olhos no futuro não deixam de transparecer um certo saudosismo de tempos mais simples. “Mas lá era bom de viver quando a gente andava por aí sem se preocupar com nada. Hoje pra mim aquilo já é quase uma cidade grande. Tipo, estressante”.

E o saudosismo marca o próximo tom do diálogo. A vontade de saber o que acontecerá se mescla com o desejo de voltar um pouco atrás. Tudo aquilo que Victor deixou para trás na tentativa de percorrer o caminho de seu pai foi para sempre perdido no passado (o futebol, a namorada, a família)  para que ele pudesse se dedicar de corpo e alma à campanha. Como está sua vida hoje? “Ainda não me recuperei da campanha. Estou ocupado demais com os trabalhos da faculdade que deixei de lado. Mas consigo jogar meu futebol e passar os fins de semana com amigos, namorada e família. Só não dá pra recuperar o tempo perdido”. Sábias palavras para descrever aqueles projetos de vidas nos quais todos nós, em algum momento, nos afogamos sem nem mesmo uma garantia de que darão frutos. O importante, no entanto, é poder chegar ao fim com uma coisa: a vitória de ter dado uma chance.