Rebelião da Ilha Anchieta

“300 presos dominam a guarda e fogem armados para o litoral!

Cerca de trezentos detentos do presídio da ilha Anchieta, rebelaram-se na manhã de ontem, por volta das 8h30. Segundo plano previamente traçado, os presos, uma vez distribuídos no campo para as tarefas diárias, assaltaram os guardas, tomaram-lhe as armas e os dominaram. Um grupo de presidiários, que ficara de sobreaviso, logo que se estabeleceu a confusão se apossou do deposito de armas e munições, conseguindo dessa forma elementos para, em poucos minutos, subjugar toda a guarda. Senhores da situação, os amotinados conseguiram lanchas e outros barcos, com que se fizeram ao mar, todos armados.
Alem de outras armas, que poderiam ter conseguido, apoderaram-se de todas as dos soldados de guarda e do deposito, isto é, quatro metralhadoras e oitenta fuzis.
As primeiras notícias, transmitidas de Ubatuba, adiantavam que alguns presos, que de armas na mão permaneceram na ilha, protegendo a retaguarda dos que embarcavam, foram enfrentados por alguns soldados, verificando-se ligeiro combate. Dois soldados e alguns detentos teriam sido feridos.”

-      Folha de São Paulo (21 de Junho de 1952)

***

Apesar da pouca distância que separa Ubatuba da Ilha Anchieta, é conveniente escolher um dia de maré tranquila e céu azul para garantir que não haja dificuldades em trafegar. Os passeios turísticos são feitos em escunas, mas você pode chegar lá em cerca de dez minutos por meio de um barco ou mesmo de um bote salva-vidas, saindo do Saco da Ribeira. Ou por meio de canoas ou mesmo à nado, como foi o caso dos detentos sobreviventes que abandonaram a ilha no ano de 1952, durante aquela que veio a ser conhecida como a maior rebelião da história carcerária do planeta. As águas esverdeadas nos dias de sol são um reflexo opaco da mata atlântica, que torna 80% da cidade uma área de preservação ambiental, e ao longo do trajeto não é difícil flagrar os pescadores trabalhando na região costeira ou partindo para alto-mar.

Após 8km você aporta em um cais de pedra desgastada cujo esqueleto, feito de barras de ferro retorcidas em ferrugem, é o prenúncio da história que nos mostram as ruínas do presídio, cerca de 200 metros adiante. Ao chegar lá você repara que a água não é mais apenas verde, mas também cristalina, e, com alguma sorte, notará pequenos saguis e esquilos passeando pelo gramado diante do cais e fugindo para a mata quando se surpreenderem com sua presença. A área do local é de 17km de costa, ou o equivale a 800 campos de futebol.

Pelos tempos do descobrimento do Brasil, a Ilha Anchieta era habitada pelos índios Tamoios e Tupinambás. Os contatos iniciais com os colonizadores foram pacíficos graças à atuação do cacique Cunhambebe. O tratado de Iperoig, que marca um acordo entre o cacique e os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, é comemorado em Ubatuba no dia 14 de setembro, e, na orla da praia do Iperoig, há uma estátua do padre que, já sem a vareta que tinha em mãos na escultura original, escreve uma mensagem de paz.

A história da rebelião não começa em 1952, mas sim com sua transformação em instituto correcional no ano de 1902. Muitas famílias francesas e holandesas, entre outras, inclusive indígenas, que habitavam a ilha, foram desapropriadas, num total de 412 pessoas. O presídio foi, ate seu primeiro fechamento em 1914, um receptáculo dos presos do município de Taubaté, para então, em sua reabertura catorze anos depois, receber os presos políticos do regime Vargas. Os tempos de paz da Ilha Anchieta começavam a se deteriorar bem naquele ponto, quando começava a florescer a população dos mais perigosos presos do Estado de São Paulo.

***

Ao descer do cais e cruzar a entrada do presídio, você se vê diante de um grande terreno aberto, quase do tamanho de um campo de futebol, ladeado por pequenos chalés em ruínas, dentro dos quais ficavam situados os detentos. À direita há uma trilha de cerca de 300 metros que culmina no Morro do Papagaio, onde ficava localizada a sala de armas, das quais os presos se apropriaram no dia da fuga. Os pavilhões propriamente ditos são espaços de paredes esverdeadas, cujas pedras e telhas frequentemente desabam. Espaço e silêncio. Grades de ferro corroídas de cima a baixo, e inscrições nas paredes, uma porção delas, das quais algumas ainda são bastante visíveis. A solitária do local, por exemplo, possui uma caveira inscrita no chão. Abaixo dela, o nome de um dos participantes da rebelião, que mais tarde veio a participar de um incêndio na penitenciária de Taubaté, para onde fora transferido após a rebelião.

Nos tempos de verão você pode ter a sorte de chegar na Ilha e encontrar o Tenente Samuel de Oliveira, que escreveu o relato histórico mais famoso sobre o local. Apesar de já ter colhido os frutos do sucesso de seu livro “Ilha Anchieta: rebelião, fatos e lendas”, Samuel, que pesquisa o tema há mais de 30 anos, não parece inclinado a abandonar a história da Ilha Anchieta por qualquer razão que seja. Hoje cursando Letras na Universidade Anhanguera, recebe frequentes convites da imprensa ou de pesquisadores para esclarecer dúvidas sobre o local. Se há alguém que pode nos ajudar a entender o que foi a rebelião, essa pessoa é Samuel.

O Tenente diz que tomou conhecimento da rebelião da Ilha ao acaso. No 2º Batalhão de Choque Anchieta começou seu treinamento na Escola de soldados, ao término da qual iniciou um estágio no Batalhão que fazia guarda nas muralhas do Carandiru e também da penitenciária localizada no mesmo bairro. Mais tarde, trabalhou na Rádio patrulha do Capão Redondo, do Jardim Míriam e Santo Amaro, até ser finalmente transferido para a Zona Oeste. Lá, na biblioteca da PM, reparou, dentre milhares de livros, num cujo nome era “Motim da Ilha”, escrito por Benedito Gonçalves Dias em 1969.

Mais tarde transferido para trabalhar no Instituto de Reeducação de Tremembé, onde hoje estão presos Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, Samuel conheceu dois policiais que haviam participado da Guarda Militar da Ilha Anchieta, dentre outros funcionários que viviam no local antes da rebelião. E no ano de 1982 ele veio a conhecer sua mais importante fonte para a pesquisa histórica da Ilha: João Pereira Lima, o “Pernambuco”, líder executor da rebelião. Ao se aposentar como Tenente, Samuel iniciou uma reportagem para o jornal Notícias Policiais e para o Jornal da Cidade de Pinda. As reportagens não tiveram um ponto final, mas várias reticências que sempre levavam a alguma novidade. Ssegundo ele, desde que iniciou sua pesquisa, a história da Ilha nunca mais o abandonou.

***

Apesar de Pernambuco possuir a liderança sobre os presos, foi apenas a chegada de Álvaro da Conceição Carvalho Farto, o “Portuga”, que marcou o início dos planos de fuga. Detento persuasivo, descrito como “extremamente inteligente”, era formado em engenharia. Não demorou a articular os detalhes que tornam a fuga tão ousada quanto genial.

De uma hora para a outra, dentro das paredes do presídio, o clima hostil se amenizou. Na verdade, o ambiente era percorrido por uma harmonia que parecia tornar tudo mais simples. O comportamento dos detentos era exemplar: começou com uma ausência de tensões internas entre grupos rivais, para então uma atuação diplomática de favores e gentilezas com as famílias que viviam na ilha. Por fim, naquele jardim do éden desmatado, a paz parecia completa quando se via detentos e policiais acendendo os cigarros uns dos outros, se oferecendo para auxiliar em tarefas domésticas e considerando, por parte dos guardas, que o porte de armas o tempo todo era uma frivolidade desnecessária.

Entusiasta das práticas de tiro, o diretor da prisão recebeu com grande entusiasmo os pedidos do detento “Leitão” de vê-lo praticar sempre que possível, num morro não muito longe dali. Dia após dia, o barulho dos tiros, algo que antes poria as tropas em estado de alerta, tornou-se corriqueiro. Eram apenas Leitão e o diretor em um de seus passeios. Descontração.

Perto do Morro dos Papagaios, onde doze presos costumavam cortar lenha escoltados por dois guardas, o clima também era de confiança e descontração. Um preso destacado a ser barbeiro transferiu-se para a chamada barbearia das Praças, onde, muito descontraidamente, acompanhava a rotina diária do destacamento, as escalas e os guardas que por lá circulavam.

Chegou o dia em que um dos presos desapareceu misteriosamente. Os detentos confiaram aos guardas a informação de que Dentinho vinha com ideias de fugir. Mobilizaram-se, então, as equipes de guarda para correr em busca do detento, que naquele momento encontrava-se morto e enterrado nos bananais não muito longe dali.

O plano entra em execução no dia seguinte. Quando um tiro é ouvido, ninguém dá atenção. No entanto, este é disparado por Pernambuco, que, após desarmar e render os dois que o escoltavam, acaba de vitimar um soldado. O disparo, apesar de não alarmar os guardas, sinaliza aos doze lenhadores do Morro do Papagaio o momento de usar os machados. Eles retornam, armados, para o quartel, onde o massacre se iniciou. Incapaz de chegar à sala das armas, a maioria dos soldados foi morta ou rendida.

A data da fuga, planejada para coincidir com a chegada do barco “Ubatubinha”, que trazia mantimentos para a Ilha, teria sido palco de um plano perfeito, mas… Um incêndio inesperado, provocado por alguns detentos dentro das celas, sinalizou aos tripulantes que voltassem para o continente e chamassem a polícia. Em canoas ou a nado, os fugitivos desapareceram da Ilha, e o paradeiro de muitos nunca foi descoberto.

Durante a conversa, Samuel me aponta para a importância acadêmica e cultural da rebelião: “Existem muitos TCCs feitos sobre o assunto. Tenho muita informação, informação de sobra sobre a Ilha. Lembro de um da Universidade Anhembi, da Zona Oeste… Todos tiraram nota maxima.um filme esta sendo feito baseado no meu livro. E do Dimas de Oliveira Jr., se chama Ilha dos Corpos. Isso alem do filme de 1954. Eles foram la [na ilha] fazer uma materia para o Biochanel, ai eu disse ‘por que nao faz um filme?’. Foi aí que começou”.

O primeiro filme sobre a rebelião foi produzido em 1954 e é chamado “Mãos Sangrentas”. Hoje em dia há apenas uma cópia disponível do filme na locadora 2001, localizada na Av. Paulista, em São Paulo, mas Samuel conseguiu uma cópia para si mesmo em DVD, de modo que insistiu que eu a usasse como referência em futuras reportagens.

Das famílias que viviam em volta do presídio, restam histórias a se contar. E é Samuel quem promove encontros anuais entre as pessoas cujas histórias estão, de uma forma ou de outra, atreladas à Ilha. O grupo se chama “Filhos da Ilha” e conta com 385 famílias. Trata-se, segundo Samuel, de um resgate “não só histórico, mas também espiritual”.

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8 respostas em “Rebelião da Ilha Anchieta

  1. bom visitei a ilha anchieta esse ano, tinhas alguns sobreviventes lá, como o conhecido como CHAGAS, ele me me contou tudo igualzinho ao texto, na época chagas estava na ilha como sentinela.

  2. Senhores, eu gostaria de visitar esta Ilha. É possível? Também gosto de escrever e guardar histórias.

  3. 25/01/2013 Acabei de ver no “Balanço Geral” da TV Record uma matéria a respeito da Ilha, com o Tenente Samuel. Adorei a matéria e pesquisei Google a respeito de mais matérias. É preciso mais reportagens sobre estes locais importantes para a Historia do Brasil. A proposito, gostaria de saber qual o preço do livro do Tenente e como consegui-lo. Poderiam me ajudar?

    PS: Ótima reportagem, precisaria de mais reportagens.

  4. Eu gostei deste depoimento deu bastante detalhes, sobre o que realamente aconteceu naquele dia de ruina, pensando em fazer um livro sobre está historia, e queria mas detalhes sobre como era a sobrevivencia dos presos no presidio, e queria a ajuda de vocês para isso, será que podiam me ajudar?

  5. Eu conheço o Tenente Samuel e confirmo o que foi dito acima: ele é uma pessoa que esclarece muita coisa sobre a rebelião, uma verdadeira porta de entrada para que nós nos aprofundemos no tema. Parabéns a Guilherme Carmona pelo belo texto.
    (Arthur Nehrer, Rio de Janeiro – pesquisador do assunto)

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