Mais uma manhã de segunda-feira chegava e eu, novamente, no ponto de ônibus. Quando avistei o Liberdade – 314v para os mais chegados – dei o sinal, e, curiosamente, percebi que neste dia haviam acentos vazios. Sentei-me no penúltimo acento, próximo a porta, pois, sabia que logo o corredor estaria lotado.
Tenho o habito de reparar nos outros usuários do transporte público. Um tiozinho que estava ao meu lado, por exemplo, com sua cor de jambo e um chapéu azul, – que parecia ter sido cortado com uma faca sem corte – me deixou curioso sobre sua vida, sobre os lugares por onde passou e as histórias que, certamente, tem. Ele tinha umas pálpebras inchadas que não me permitiam dizer ao certo se ele estava acordado ou dormindo.
Mas, uma voz, próxima a catraca, começou a me incomodar, dizendo: “Vendo deliciosas balas, chocolates “Hercheis”, chicletes com sabor de hortelã…”. E um infindado discurso sobre como a vida é injusta e como ele poderia estar seguindo outro caminho e chegando com uma arma – aquele mesmo discurso irritante.
Finalmente avistei quem é o vendedor ambulante. Um homem com seus 20 anos, cabelos escuros, roupas simples de lã, e uma cara estranhamente familiar. Assim que o discurso acabou, ele começou a distribuir os doces, de mão em mão. Reparei que as pessoas, em sua maioria, não recusavam e o jovem parecia estar contente por ter entrado naquele ônibus.
Ao se aproximar de mim, ele me encara por certo tempo, o que me incomodou profundamente. Após alguns segundos ele diz: “não vai querer nenhum Daniel?”. Olho para ele com uma cara abismada e me pergunto: de onde este cara me conhece? Quem é esta pessoa?
Envergonhado – por não saber quem ele era –, cumprimentei com uma balançada na cabeça e um sorriso discreto. Mas, ele foi logo se apresentando. “Sou o Renan, do Prudentão! Num lembra?”. E ao ouvir essas palavras comecei a reconhecer seu rosto, e seu nome me veio a mente: Renan Pacheco. O Prudentão, que ele se referiu, era o colégio onde cursei o ensino fundamental. Escola municipal Presidente Prudente de Morais, localizada em um bairro simples da zona leste de São Paulo.
- Quanto tempo, mano. Tá indo trampar? – pergunta meu velho colega de colégio
- Indo para faculdade – respondo.
Ainda meio constrangido com a situação, começo a reparar como o rosto dele está melhor das espinhas. Antigamente, seu apelido era pipoca, pois, seu rosto era repleto de acnes. Claro que ainda se nota alguns buracos e saliências, mas, nada comparado ao que era em sua adolescência.
– Você ainda estuda? – pergunto curioso.
- Ainda tô no Prudente. Voltei esse ano pra cursar o supletivo. Tenho que terminar, porque agora eu sou pai, mano. – responde com um sorriso no rosto.
- Que legal! Eu conheço a mãe? – replico.
- Claro! É a Iris, amiga da Bia. – disse com a certeza de que eu conhecia.
Não fazia a menor ideia de quem eram essas pessoas, mas, consenti com a cabeça para não decepcioná-lo. Não faria diferença conhece-las ou não. O que me deixou chocado foi o fato de nossas vidas terem seguido rumos tão opostos. Durante a escola, ele sempre foi um aluno mais dedicado que eu, suas notas eram acima das minhas, ele se dava bem com os professores. O que teria acontecido na vida deste homem? Poderia ser eu nesta situação. Esse pensamento não saia da minha cabeça.
Quando fui questioná-lo sobre o fato de ter largado a escola ele assoviou para o motorista, que abriu a porta. E num pulo ele desceu do ônibus, dizendo: “Bom te ver Daniel, até a próxima rapá”.