Marley e nós

Chamo-me Sonia Ducatti, 60 anos. Meu marido, Norberto Zago, 59 anos. Tenho 10 filhos de quatro patas. Ele, uma filha de duas pernas. Juntos, construímos o império do fracasso do relacionamento: a falta de compreensão. Conhecemo-nos ainda jovens. Vim do interior de São Paulo, com meu corpo esbelto e cabelos loiros que se constratavam com meus olhos azuis. Norberto era ato, bom de papo, sabia encantar uma mulher. E encantou. Há cerca de 40 anos atrás nos conhecemos, namoramos, casamos e formamos uma família. Quer dizer, uma quase família. Norberto sonhava com o modelo de família tradicional “Quero ter pelo menos dois filhos”, dizia no auge de sua juventude. Eu queria apenas amar e ser amada. Os filhos normais sempre ficaram em segundo plano e foram substituídos por cachorros, afinal, quando me casei não tinha estabilidade econômica nem psicológica para ter filhos. O tempo foi passando, a idade chegando. Ganhei um cachorro filhote de um amigo e foi amor à primeira vista. Sem dúvidas meus cachorros substituem um filho. E eu os trato como se fosse um.

 

Uma questão tão simples quando se é jovem e ainda acredita na teoria do “amor e uma cabana” foi tornando-se um problema.

- Sonia, escolha: ou nossos filhos, ou os cachorros.

E eu escolhi. Separamos-nos por 6 anos, tempo suficiente para Norberto cessar seu desejo de filhos de verdade. Durante uma visita a Belo Horizonte, conheceu Emília. Namoraram, não casaram, mas tiveram Mariana. Hoje com 20 anos, a menina vive longe do pai e detesta sua madrasta. Madrasta? Sim, eu e Norberto reatamos tempos depois. Em São Paulo, construímos uma empresa juntos. Enriquecemos. Engordei 25 kilos. Norberto 18. Já estávamos velhos, ultrapassados segundos a medicina para terem filhos. Chance perfeita para a minha argumentação:

- Amor, um parto na minha idade é perigoso. Posso morrer. Fiquemos então com nossos cães!

Norberto concordou. Já havia matado seu desejo. Mas me aconselhou a  frequentar uma terapia, pois “não é normal uma mulher não ter vontade de filhos. A mulher nasceu para procriar”, explicava, com todo machismo embutido em suas palavras.

 

Em um pequeno consultório em Higienópolis, a psicóloga Karina me recebeu. Conversamos sobre amenidades, rotinas, até chegarmos ao assunto principal. Com os olhos lacrimejados, eu disse:

- Eu vim até aqui para tentar entende e explicar ao meu marido a minha falta de vontade por filhos.

 A psicóloga, já habituada com a frequente visita de mulheres que quebram padrões de família na qual todos estão acostumados, respondeu quase que a defendendo.

- Entendo que, se a substituição do animal pelo filho é consciente, com a pessoa sabendo os reais motivos de preferir o contato animal ao contato humano, não há prejuízo psicológico. Hoje em dia tem-se visto com frequência essa preferência, e acredito que se deva muito a correria do dia a dia, a uma maior preocupação em como o futuro filho irá se comportar na adolescência e na vida adulta. Todos têm o direito e a liberdade de buscar o que é melhor para si, e sendo que essa busca do melhor é algo individual, seu marido deve respeitar suas escolhas, sem criticá-la por ser diferente das escolhas e padrões de épocas anteriores.

 

Voltei para casa aliviada. Não era doente, não tinha problemas. Entreguei o cartão da psicóloga para Norberto, recomendando-lhe uma consulta. Quem havia de entender o comportamento alheio era ele, não eu. Nunca mais voltei às consultas. Há alguns anos, Norberto frequenta o consultório. Já está menos machista. Comprou um cachorro e adotou outros abandonados. Visita sua filha com certa frequência em Belo Horizonte. O melhor de tudo, é que se sente um garotão vivendo um relacionamento considerado moderno. Nós e os cachorros vivemos felizes, e esperamos que para sempre!

 

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