A última visita

Feriado de finados, o sol aparecia ainda meio tímido por trás das nuvens. Com destino à Caraguatatuba segue o neto mais velho de uma senhora de 84 anos, com um objetivo, o de visitar a sua avó.

Everton estava apreensivo, pois não se tratava de uma visita qualquer, era uma missão, tanto como um neto que fazia tempo que não via sua avó, como também um médium.  Porque além de engenheiro elétrico, em uma multinacional, ele trabalha em um centro espírita, oferecendo passes às pessoas que freqüentam, e onde faz o curso para “despertar” a sua mediunidade. “Todos nós somos médium, só que alguns precisam aprender como controlar e usar, por isso há cursos para “despertar” essa sensibilidade. ”- comenta.

Depois de quase duas horas de viagem, enfim chega à cidade litorânea, cansado e com fome passa na casa de sua tia, com quem sua avó mora. Durante a pausa para o descanso e almoço, ela comenta com o sobrinho sobre o estado de saúde de sua avó, os dois muito emocionados, se abraçam, sua tia pergunta se está preparado para visita, ele responde que sim e lhe conta que quando estava em sua casa já havia feito uma oração em que seu avô e seu tio, filho que sua avó perdeu há trinta anos, apareciam para ele com a mensagem de que todos estão prontos para ajudá-la se ela viesse a desencarnar.

Everton, parece entender melhor como funciona a morte, não, que ele não sofra com a perda, mas entender sobre o que se passa após essa passagem o ajuda muito. Ele se prepara para a visita, pega seu livro “O Evangelho”, de Allan Kardec, da um breve tchau para sua tia e segue a caminho da Santa Casa de Caraguatatuba.

Quando chega ao hospital, que estava cheio devido ao horário de visitas, pede informação para um assistente. “Por favor, onde fica a UTI?” – Após a resposta ele seguiu  um corredor em direção à UTI.

Ele se identifica e diz o nome do paciente para o enfermeiro, que pede para que ele aguarde ser chamado para entrar. Enquanto isso permanece concentrado de olhos fechados segurando seu livro.

“Pode entrar o visitante da paciente Maria José.” – chama o enfermeiro

Respirou fundo, abriu os olhos e caminhou até a porta, fez a higienização e colocou um avental azul. Lá estava ela, da porta já dava para ver aquela que por diversas vezes correu e gritou atrás dele dando broncas, preocupada.

Ele a cumprimenta, passa a mão sobre seu rosto com os olhos marejados e comenta baixo: “Vai ficar tudo bem”. Os olhos dela ainda fechados começam a mexer, como se ela tivesse acordada, mas apenas isso se mexia. Os batimentos cardíacos estavam fracos, pois seu coração só estava funcionando por causa dos remédios, os outros órgãos, como, pulmão e rins estavam em péssimas condições. Respirar por aparelhos ajuda o paciente a não sofrer tanto, como disse o posteriormente médico ao neto da dona Maria.

Enquanto ele rezava, ele olhava para o rosto dela, e os olhos dela continuavam a mexer fechados, parecia que ia chorar, mudou a expressão do rosto ficou vermelha, mexeu muito pouco a cabeça, mas não acordou. Feliz, por sentir a sua presença ele continuou a rezar.

“Acabou o tempo, senhor” – disse a enfermeira

Fez que sim com a cabeça, e começou a se despedir de sua avó.

“Vó,  siga o caminho de luz, sentirei a sua falta…” – cochichou em seu ouvido.

De volta a casa de sua tia, ele muito pensativo com a cena que não sairia tão cedo de sua cabeça, sua avó mexendo os olhos e a sua expressão de choro, não aconteceu isso com nenhum dos outros netos e nem visitantes. Apesar da dor de saber que sua avó estava para morrer, ainda sim estava feliz, pela experiência de estar presente em seu leito, passando todas suas energias e palavras boas. Ele sentiu que ela se emocionou ao vê-lo ali e se sentiu segura, pois confiava muito em seu neto.

Três dias depois, ele recebe a notícia de que sua avó havia falecido. Infelizmente não pode ir ao seu enterro, pois estava fora do Brasil a trabalho. Ele sabia que aquela visita era a última vez que iria vê-la em vida.

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