A Leoa e suas faces mulher, filósofa, atrevida.

“Ela surgiu como uma surpresa entre os alunos do departamento de filosofia na Rua Maria Antônia. Destacou-se de tal maneira que logo se tornou uma candidata óbvia a uma bolsa de doutorado na França e a ser professora da casa. De fato, você chegou lá a tempo de pegar os eventos de 68 em Paris e de voltar a tempo para participar dos eventos na Maria Antônia. Pouco antes de seu mestrado sobre Merleau-Ponty, todos na banca falavam sobre os excessos de sua redação e suas ideias, reclamando por maior compreensão e acabamento. Só que esses são traços de uma personalidade intelectual que não é a sua. Ainda não se podia classificar um estilo Marilena Chauí. Mulher, filósofa e atrevida. Seu orientador, Prado de Almeida comentou: Marilena é uma leoa…”

Enquanto ouvia uma de suas melhores amigas relembrando sua trajetória de vida em meio a pequenos causos de bastidores, Marilena Chauí admirava suas mãos marcadas pelo tempo. Ela tentava entender como tudo tinha passado tão rápido, desde aqueles fatos até aquele minuto singular, onde estavam diante de si mais de 300 pessoas que a celebravam com o olhar.

Sua fala aconteceria dentro de poucos minutos, porém ainda pensava sobre o que seria interessante de se dizer para um público tão misto de amigos e estudantes. Estes até se aglomeravam pelo chão, em um início de noite de uma quinta-feira de novembro, naquele auditório na Casa da Cultura Japonesa, na Cidade Universitária. Lembrou-se de seu neto e resolveu começar por ele.

Eu não sabia o que falar. Disse para o meu neto Guilherme, acho que vou ficar em silêncio. E o Gulherme me olhou dizendo “improvisa, Lele!”.

Em pouco tempo de doce senhora, passou a mostrar seu atrevimento.

[sobre a opressão das classes dominantes que se torna falta de políticas públicas do Estado e de assistência do judiciário – em entonação ascedente] É dessa forma que as desigualdades entre homens e mulheres, brancos e negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos são considerados normais. A existência dos sem-terra, sem-teto e desempregados é atribuída à ignorância, a preguiça e incompetências desses desfamigerados. A existência de jovens de rua é entendida como tendência natural dos pobres a criminalidade. Os acidentes de trabalho são delimitados a incompetência e ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham, não sendo professoras ou assistentes sociais, são consideradas prostitutas em potencial, enquanto as prostitutas degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a santidade das elites.   

A fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT) e ex-secretária municipal de cultura durante a gestão Erundina conseguiu realizar uma fala inflamada e apaixonante sobre democracia, igualdade, liberdade e justiça social ao longo de uma hora e meia. Interrompida em vários momentos por aplausos, não poderia ter finalizado com saraivada de palmas de minutos, com todos os presentes de pé. Era a coroação da leoa.

Atualmente, Marilena Chauí é professora das áreas de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – a FFLCH-USP. Considerada um dos maiores expoentes do pensamento intelectual brasileiro é respeitada não apenas por sua obra acadêmica, mas também pela intensa e frequente ação no âmbito do pensar social e fazer político brasileiro.

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