Um dia no Presídio

Até aquela viagem para fazer um trabalho da faculdade, eu duvido que qualquer um de nós quatro imaginava entrar em um presídio. Foram alguns meses planejando e desejando que desse certo a visita. Mas quando chegou a hora era impossível esconder a tensão. Não sabíamos o que iríamos encontrar lá dentro.

Do lado de fora da penitenciária de Las Rosas, em Maldonado, distrito de Punta Del Leste, no Uruguai, aqueles muros altos com arames enfarpados e grandes portões, na verdade não tão grandes assim, mas eram portões de cadeias. A horta que havia na frente do presídio chamava atenção, não apenas por ser uma horta, mas por ter presos morando e trabalhando do lado de fora do cárcere.

Tivemos que esperar algum tempo até que nossa entrada fosse libera. Deixamos nossos documentos, assinamos uma lista e pudemos passar, a única revista que fizeram foi perguntar se estamos portando algum tipo de câmera e a resposta para os agentes penitenciários foi negativa. Fomos encaminhados até a sala do diretor do presídio, homem grosso, nojento e metido como já havia nos avisa Ana Juanche, coordenadora do Serpaj, movimento internacional de direitos humanos.

Enquanto aguardávamos a chegada do diretor, o Lucas nos chamou de canto e mostrou algo que tinha bolso do casaco, uma câmera fotográfica. Ficamos excitadíssimos, era a nossa chance de tirar alguma foto de dentro do presídio, mas precisaríamos ser discretos.

Quando o diretor chegou, nos recebeu muito bem, comentou que conhecia algumas cadeias brasileiras, mas gabou-se de que as uruguaias eram melhores. Logo quis começar a mostrar o presídio. Começaríamos pela ala feminina.

Assim que a porta de ferro se abriu algumas dezenas de mulheres estavam do outro lado nos olhando. O diretor entrou primeiro nos apresentando e logo foi bombardeado com muitos requerimentos. Ele saiu de perto e pudemos ficar mais a vontade com elas. Tinha, pelos menos, quatro mulheres dormindo em mesmo quarto, cheio de coisas espalhadas. Elas vinham e nos abraçavam, queriam mostrar tudo, nos contar tudo. Surpreendemos-nos quando vimos um bebê lá dentro. Em outro quarto havia um banheiro bem sujo, só o vaso sanitário, uma pia e um chuveiro. O Lucas foi ligeiro e pediu que uma das presas mostrasse a comida que era servida para ele fotografar.

Hora de ir para a ala masculina. Antes de sair muitos beijos, abraços e algumas promessas de entrevistas mais tarde. A porta fechou, olhamos em volta e estava faltando a Annelise, falamos para o diretor esperar, pois ela não estava com a gente. Então ele pediu que uma das carcereiras fosse buscá-la. Assim que ela voltou comentou descontraída que havia engatado uma conversa com uma das presas e nem nos viu saindo. “Ok Anne, mas presta atenção, estamos em uma cadeia e temos andar nós quatro juntos”, advertiu o Lucas bravo com ela.

Para entrar na parte dos homens o diretor chamou dois policiais para nos acompanhar. Eles foram andando na frente. Lucas, eu, Mari, Anne e Ana Juanche seguimos atrás. Ana nos avisou que iríamos encontrar mais ou menos 50 homens em cada setor, para ficarmos juntos e perto dos policiais.

Passamos por um portão e na nossa frente havia um corredor. Quanto mais andávamos mais água tinha no chão e ficava cada vez mais forte o cheiro de esgoto. A impressão era de estar andando em cima de fezes e urina. Aquele cheiro quase me fez passar mal, então coloquei a mão sobre meu nariz para amenizar o odor. “Tira essa mão do rosto. Eles vão se ofender”, disse o Lucas para mim. “Eu não consigo, o cheiro está muito ruim, se eu tirar eu vou passar mal”, eu retruquei. Ana Juanche veio até ao lado e perguntou se eu estava bem, disse que eu quisesse poderia esperar do lado de fora. Mas a minha curiosidade era muito maior que aquele cheiro, então tirei a mão do rosto e aguentei firme.

Antes de entrar no setor, um dos policiais bateu na porta de ferro. Então o diretor gritou que estava com quatro moças e queria todos com suas camisetas. Só entramos depois que os homens se vestiram. Lá dentro, fomos surpreendidos com 50 pares de olhos nos desejando. Pareciam leões famintos na frente de pedaços de carne. Todos eles queriam falar, mas falavam em um espanhol muito rápido e enrolado, difícil de entender.

Começaram a caminhar pelo setor para nos mostrar as condições em que estavam vivendo. Um corredor que mais parecia um poleiro, várias cabines com três camas de concreto, uma em cima da outra, em um espaço de menor do que dois metros quadrados. O banheiro tinha um vaso sanitário sem parede nenhuma protegendo. No chuveiro era a mesma coisa. A pia cumprida estava cheia de água, pois havia um racionamento no presídio. Tudo era sujo, mas incrivelmente limpo para um ambiente que viviam 50 homens.

Mudamos de setor masculino. Novamente 50 pares de olhos nos observando de uma maneira agressiva, mas na segunda fez já estávamos mais a vontade. Andamos um pouco mais soltas, sempre com um dos policiais por perto. Outra vez, os presos quiseram mostrar tudo e falavam muito rápido. Nesse setor nos separamos, andamos cada um para canto diferente, com curiosidades diferentes. Conversamos, ouvimos as reclamações.

Bem visita feita, hora de ir embora. O diretor nos chamou e ficamos todos parados em frente à porta de ferro esperando o policial abrir. Eu olhei ao redor e cutuquei a Mari, “cadê o Lucas?”. “Nossa é verdade, onde está o Lu”, ela me respondeu.Em seguida, perguntamos para a Anne se ela havia visto o Lucas, mas a resposta dela foi negativa. Falamos para Ana Juanche que o Lucas não estava ali e logo ela avisou o diretor que estava faltando um de nos. O diretor deu uma olhada em volta e também não o viu. Perguntou para alguns presos se haviam visto o Lucas, todos responderam que não.

Nesse momento o desespero começou a tomar conta da gente. Não sabíamos onde estava aquele menino. Fomos para o Uruguai para fazer uma matéria de jornalismo internacional para a faculdade e voltaríamos sendo a notícia, “Estudantes brasileiros vão ao Uruguai visitar presídios e acabam como reféns”. O diretor gritou uma vez “Lucas”, e ninguém respondeu. Gritou duas vezes “Lucas”, novamente ninguém respondeu. Gritou pela terceira vez, e nessa instante eu já estava pensando em que desculpa dar para os pais dele aqui no Brasil. Até que ele voltou com um grupo de, mais ou menos, cinco presos, pediu desculpas e saímos.

No corredor mal cheiroso fomos as três para cima dele. “Você está louco?”. “Quer matar a gente do coração?”. “Não foi você que brigou comigo dizendo que era para ficarmos juntos?”. “Eu já estava pensando o que falar para seus pais!”. Então ele virou para nós e disse, “Por um momento achei que eu ia morrer. Eu sozinho com quase 10 presos, andando em um corredor que não acaba mais, um lugar feio. Mas eles foram me mostrar que gostam de happer brasileiro e ainda consegui tirar duas fotos, só que saíram tremidas”.

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