Uma história de fé

Foi em uma missa de terça-feira, na Catedral da Sé, que conheci Maria da Silva Brito. Baiana de 78 anos que mudou-se para São Paulo aos quinze.Trouxe na bagagem sonhos e crenças de sua terra natal.
Seus cabelos grisalhos e suas rugas demarcadas me chamaram a atenção. Parecia alguém com muita história de vida e sim, com muitas mágoas. Rezava seu terço, curvada de joelhos, escorava seus cotovelos no banco da frente levando suas mãos à testa para que assim pudesse se apoiar e rezar como uma cristã que lamentava algo. Pareceu-me que sua “força” ao rezar, percebida pela expressão de sua testa enquanto seus olhos estavam intensamente fechados, era algo a mais que fé. Era sim uma oração por um milagre. Mais tarde descobri que era exatamente isso que ela estava fazendo.
Quando me aproximei ela não hesitou em conversar comigo. Era tudo o que ela procurava: alguém para ouvir suas lamentações. E como ela mesma expôs, parecia que Deus não queria ouvi-la.
Dona Maria, como gosta de ser chamada, segue uma rotina. Acorda muito antes que o sol desperte, prepara o café da manhã e às quatro e meia acorda seu filho Amarildo, que trabalha como servente de pedreiro. Enquanto seu marido Luis, senta-se na varanda e ouve seu radinho de pilha, Maria limpa todos os cantos de seu apartamento e quando termina essa tarefa começa a fazer o almoço. Prepara em grandes quantidades para que sempre sirva bem a marmita de seu filho do dia seguinte.
Deixa sua casa pontualmente às onze e meia e caminha por oito quarteirões até chegar a Catedral. Senta-se na primeira fileira por acreditar que assim, os sermões do cônego Walter soam melhor em seus ouvidos. Reza todas as orações, canta todos os cânticos, tudo está gravado na sua memória. Dona Maria é analfabeta.
Logo que acaba a missa começa a rezar seu terço. “Tenho sete filhos, treze netos e oito bisnetos. É muita gente para quem eu tenho que rezar. Mas graças a Deus são todos abençoados e só um filho que me preocupa”, lamenta.
Esse filho é o único que mora com ela até hoje. Amarildo, 37 anos, alcoólatra. Ela própria conta a história do filho que se repete por 15 anos: “Ele era tão bonito, tinha uma vida tão boa. Conheceu uma mulher, que foi o grande amor da vida dele. Ela engravidou e tirou o bebê sem a permissão dele, depois desse dia ele nunca mais parou de beber”.
Até hoje Dona Maria reza pela alma do bebê e para que seu filho possa se perdoar e deixar o vício para trás. A única coisa que ela ainda pode fazer é lamentar esse passado e rezar para que algo mude. Amarildo não quer seguir esse caminho trilhado por sua mãe em todas as orações. Mas pelo bem ou pelo mal, Dona Maria acredita que só está viva até hoje por causa deste filho. “Já era pra eu ter morrido faz muito tempo por tudo que eu já passei nessa vida. Fui doméstica a vida inteira e até hoje lavo roupa pra quem precisa, mesmo sem ter força. Só que se eu não cuidar desse filho quem é que vai? Ninguém tem essa obrigação e ele depende de mim. Ah! O dia que Deus me ouvir e meu filho viver melhor, eu morro feliz”, comenta com lágrimas nos olhos.
Maria da Silva Brito cativa qualquer pessoa. Não se preocupa com seu jeito de se vestir. É uma senhora baixa, usa os cabelos presos em um coque e tem tantas rugas, que é impossível dizer se já foi bela um dia. Mas sua história de vida, mais que isso, de luta, com certeza é admirável. E quem a conhece, reza ao mesmo tempo para que sua graça seja ouvida.

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