A sorte está lançada

      Todo mundo que já teve seus dezessete dezoito anos passou por uma fase que marca para o resto da vida, o vestibular. Durante grande parte da escola a grande preocupação é apenas passar de ano, como não importa, já no ultimo semestre do terceiro colegial parece que o universo conspira e você só ouve uma palavra: vestibular.

            Não está sendo diferente para os três amigos: Caio, Daniel e Pedro colegas durante todo o colégio chegam a tão temida hora de escolher uma profissão, com perfis e comportamentos distintos.

Era o dia antes das inscrições, chovia tanto que as roupas colavam no corpo de Pedro e Daniel reclamava de ter esquecido o guarda chuva do lado da porta. O único aparentemente mais calmo era Caio, todo organizado estava vestindo capa de chuva além do minúsculo guarda- chuva preto que mal lhe cobria a cabeça. Enquanto estavam na fila, para passar o tempo, uma conversa animada mas, um pouco nervosa, acontecia, Pedro começou:

- Vou escolher engenharia civil, me dei bem em exatas na escola, e até que curto a profissão.

Parece que essa declaração não espantou os colegas já que o pai de Pedro é engenheiro civil, nada mais normal do que o filho seguir a carreira do pai.

A fila andava lentamente, quase parando, e a chuva continuava forte encharcando as roupas e cabelos dos desavisados e pingando insistentemente nos guarda – chuvas enfileirados formando um teto de cores sobre os estudantes.

- Já eu vou prestar medicina – conta Caio com sua habitual segurança – Sempre quis ser dentista quando pequeno, mas essa vontade mudou para medicina agora na adolescência quando virei fã de House! Adoro esse seriado! Quero ser que nem ele! – empolga-se o menino com um sorriso de orelha a orelha.

- Hermann (como Daniel é conhecido entre os amigos), e você? O que pois na ficha?

- Admistração – disse inseguro. – Na verdade, só decidi por ADM agora no ultimo ano, porque nunca soube o que queria e essa profissão é bem ampla e é o ramo do meu pai.

A essa altura a fila já andava mais rápido e logo os três conseguiram fazer as devidas inscrições e cedinho no dia seguinte já estavam na escola.

O dia parecia se arrastar, o calor não ajudava e a hora não passava era assim que os estudantes se sentiam nas classes. O interesse nas aulas parecia evaporar já que depois de começarem o cursinho eles perceberam que sim, é possível uma aula de literatura ou de química ser cativante e produtiva. Mas, nem tudo são flores, a empolgação no cursinho também acaba e se torna cansativa, e era justamente esse o assunto na van a caminho da segunda rodada de aula:

- Hoje vai ser revisão de química para primeira fase né? – relembra Caio com a voz cansada e a cabeça apoiada no encosto do banco e com os olhos fechados.

- É, e logo depois intensivo de matemática! Não aguento mais musiquinhas para decorar fórmulas! – completa Pedro com seu vozerão agitando as mãos e bagunçando os cabelos na tentativa de esvaziar a mente e se acalmar.

Daniel estava caladão, no fundo da van olhando pela janela, com o olhar perdido alheio a conversa, mas pensativo. Estava preocupado com o resultado do simulado de 4 horas feito no dia anterior.

Agora com cerca de um mês e meio para a tão esperada prova, as emoções se misturam, alivio, ansiedade e principalmente cansaço apesar disso tudo, o que ainda prevalece é a esperança de realizar um sonho buscado com muito esforço. Um futuro engenheiro, um futuro médico e um futuro administrador de empresas não sabem o que a vida lhes reserva, inseguros mas crentes de um possível sucesso caminham para uma nova fase de suas vidas. A sorte está lançada!

Uma tarde com a Chef

Vestida com seu chapéu de chef de cozinha branco com detalhes azuis e um avental branco com os mesmos detalhes azuis, Teka Borba parecia impaciente. Em frente ao fogão prata da Escola de gastronomia Atelier Gourmand, Teka mexia delicadamente sua colher de plástico de cor amarela na panela onde se encontrava o recheio do bem casado, que mais tarde serviria de demonstração para sua aula sobre doces.
Sua impaciência logo deu lugar a um longo sorriso. Ela me olhava por debaixo de seus óculos de armação preta, com um olhar de indagação, já que eu estava lá para entrevista-la e perguntar sobre sua vida.
A cozinha da escola de gastronomia era bem grande. No canto encontram-se armários com vários utensílios que são utilizados nas aulas de culinária, havia também três pias grandes. No canto central do cômodo uma enorme escultura retangular de pedra levava o nome e o desenho da escola. E no meio havia uma grande bancada branca e preta com cadeiras e com o fogão onde se encontrava a chef. Sentei ao seu lado, e observava seu movimento com a colher. “Menina, pode começar quando quiser” ela falava. “Não quero te atrapalhar, Teka” retruquei. Ela olhou-me e falou com seu jeito simpático: “Não atrapalha, vai fazendo as perguntas e eu vou respondendo”.
Imediatamente peguei o gravador e a folha com as perguntas, entreguei a ela, pois seria mais fácil para ela ler e responder, já que estava concentrada para não queimar a panela.
Ela mesma leu as perguntas e respondeu:

-“Como comecei a cozinhar? Ah, eu estudava em uma escola de freiras, e você sabe como é né, rígido. E lá tínhamos que fazer alguma coisa, e eu ajudava na cozinha fazendo balas.” Respondeu com olhar pensativo e continuou: “Eu peguei o gosto por cozinhar, comecei a fazer cursos, trabalhei em muitos lugares como a garoto. Sempre gostei de fazer doces.”

Teka não parava de mexer a colher na panela e quando começava a ler a próxima pergunta parava um pouco e continuava:

-“Olha, tudo o que eu tenho hoje em dia, meu carro, minha casa foi pela cozinha. Eu sempre fiz encomendas de bolos, tortas, frango assado. Quando eu e meu marido estávamos numa fase ruim, o que nos reergueu foi isso aqui. Porém você deve sempre fazer as coisas com amor e dedicação e gostar do que faz que assim, tudo dá certo.” Explicou a chef com um olhar de felicidade e de quem estava tentando relembrar o passado.

Fomos interrompidos por quatro pessoas que entraram na cozinha. Uma moça loira com olhar de cansada, uma ruiva que parecia estar com pressa e um moço moreno que carregava um saco preto: “Eles querem encher as bexigas para o evento que terá no Atelier, mas vai fazer muito barulho.” Explicou a moça que trabalhava na escola. As bexigas seriam cheias com a máquina de ar, então nossa entrevista com a chef teve que ser encurtada.

-“Só um momento” pediu Teka ansiosa. “Aqui já está acabando”. E continuou: “Quando eu vi que estava cansada de trabalhar para os outros, resolvi montar meu próprio negócio, a chocolateria. (Teka sempre gostou de mexer com doces). Eu vi que eu podia. Minha vida é cozinhar, tem vezes que eu deito para dormir e acordo no outro dia com uma receita nova na cabeça, eu tenho facilidade nisso.”

Mas uma vez fomos interrompidas pela funcionária, que impaciente, disse que não tínhamos mais tempo.

Para finalizar, pedi a Teka que contasse algo engraçado que ocorreu com ela na cozinha:

- “Uma vez a receita pedia dois ovos inteiros, minha aluna foi lá e colocou os ovos com casca e tudo na receita” Explicou Teka, e todos que estavam na cozinha riram.

E assim, a entrevista teve que terminar. Agradeci a Teka, que com um longo sorriso convidou-me a ir pra casa dela em Joinville, deu seu cartão da chocolateria e por fim agradeci pelo tempo concedido pra entrevista-la.

Em poucos minutos, os balões coloridos começaram a ser cheios pelos funcionários. Um barulho infernal começava na cozinha, e a Teka continuava a mexer a sua colher delicadamente para seu bem casado sair perfeito.

Mais um dia em um ônibus

Mais uma manhã de segunda-feira chegava e eu, novamente, no ponto de ônibus. Quando avistei o Liberdade – 314v para os mais chegados – dei o sinal, e, curiosamente, percebi que neste dia haviam acentos vazios. Sentei-me no penúltimo acento, próximo a porta, pois, sabia que logo o corredor estaria lotado.
Tenho o habito de reparar nos outros usuários do transporte público. Um tiozinho que estava ao meu lado, por exemplo, com sua cor de jambo e um chapéu azul, – que parecia ter sido cortado com uma faca sem corte – me deixou curioso sobre sua vida, sobre os lugares por onde passou e as histórias que, certamente, tem. Ele tinha umas pálpebras inchadas que não me permitiam dizer ao certo se ele estava acordado ou dormindo.
Mas, uma voz, próxima a catraca, começou a me incomodar, dizendo: “Vendo deliciosas balas, chocolates “Hercheis”, chicletes com sabor de hortelã…”. E um infindado discurso sobre como a vida é injusta e como ele poderia estar seguindo outro caminho e chegando com uma arma – aquele mesmo discurso irritante.
Finalmente avistei quem é o vendedor ambulante. Um homem com seus 20 anos, cabelos escuros, roupas simples de lã, e uma cara estranhamente familiar. Assim que o discurso acabou, ele começou a distribuir os doces, de mão em mão. Reparei que as pessoas, em sua maioria, não recusavam e o jovem parecia estar contente por ter entrado naquele ônibus.
Ao se aproximar de mim, ele me encara por certo tempo, o que me incomodou profundamente. Após alguns segundos ele diz: “não vai querer nenhum Daniel?”. Olho para ele com uma cara abismada e me pergunto: de onde este cara me conhece? Quem é esta pessoa?
Envergonhado – por não saber quem ele era –, cumprimentei com uma balançada na cabeça e um sorriso discreto. Mas, ele foi logo se apresentando. “Sou o Renan, do Prudentão! Num lembra?”. E ao ouvir essas palavras comecei a reconhecer seu rosto, e seu nome me veio a mente: Renan Pacheco. O Prudentão, que ele se referiu, era o colégio onde cursei o ensino fundamental. Escola municipal Presidente Prudente de Morais, localizada em um bairro simples da zona leste de São Paulo.
- Quanto tempo, mano. Tá indo trampar? – pergunta meu velho colega de colégio
- Indo para faculdade – respondo.
Ainda meio constrangido com a situação, começo a reparar como o rosto dele está melhor das espinhas. Antigamente, seu apelido era pipoca, pois, seu rosto era repleto de acnes. Claro que ainda se nota alguns buracos e saliências, mas, nada comparado ao que era em sua adolescência.
– Você ainda estuda? – pergunto curioso.
- Ainda tô no Prudente. Voltei esse ano pra cursar o supletivo. Tenho que terminar, porque agora eu sou pai, mano. – responde com um sorriso no rosto.
- Que legal! Eu conheço a mãe? – replico.
- Claro! É a Iris, amiga da Bia. – disse com a certeza de que eu conhecia.
Não fazia a menor ideia de quem eram essas pessoas, mas, consenti com a cabeça para não decepcioná-lo. Não faria diferença conhece-las ou não. O que me deixou chocado foi o fato de nossas vidas terem seguido rumos tão opostos. Durante a escola, ele sempre foi um aluno mais dedicado que eu, suas notas eram acima das minhas, ele se dava bem com os professores. O que teria acontecido na vida deste homem? Poderia ser eu nesta situação. Esse pensamento não saia da minha cabeça.
Quando fui questioná-lo sobre o fato de ter largado a escola ele assoviou para o motorista, que abriu a porta. E num pulo ele desceu do ônibus, dizendo: “Bom te ver Daniel, até a próxima rapá”.

Marley e nós

Chamo-me Sonia Ducatti, 60 anos. Meu marido, Norberto Zago, 59 anos. Tenho 10 filhos de quatro patas. Ele, uma filha de duas pernas. Juntos, construímos o império do fracasso do relacionamento: a falta de compreensão. Conhecemo-nos ainda jovens. Vim do interior de São Paulo, com meu corpo esbelto e cabelos loiros que se constratavam com meus olhos azuis. Norberto era ato, bom de papo, sabia encantar uma mulher. E encantou. Há cerca de 40 anos atrás nos conhecemos, namoramos, casamos e formamos uma família. Quer dizer, uma quase família. Norberto sonhava com o modelo de família tradicional “Quero ter pelo menos dois filhos”, dizia no auge de sua juventude. Eu queria apenas amar e ser amada. Os filhos normais sempre ficaram em segundo plano e foram substituídos por cachorros, afinal, quando me casei não tinha estabilidade econômica nem psicológica para ter filhos. O tempo foi passando, a idade chegando. Ganhei um cachorro filhote de um amigo e foi amor à primeira vista. Sem dúvidas meus cachorros substituem um filho. E eu os trato como se fosse um.

 

Uma questão tão simples quando se é jovem e ainda acredita na teoria do “amor e uma cabana” foi tornando-se um problema.

- Sonia, escolha: ou nossos filhos, ou os cachorros.

E eu escolhi. Separamos-nos por 6 anos, tempo suficiente para Norberto cessar seu desejo de filhos de verdade. Durante uma visita a Belo Horizonte, conheceu Emília. Namoraram, não casaram, mas tiveram Mariana. Hoje com 20 anos, a menina vive longe do pai e detesta sua madrasta. Madrasta? Sim, eu e Norberto reatamos tempos depois. Em São Paulo, construímos uma empresa juntos. Enriquecemos. Engordei 25 kilos. Norberto 18. Já estávamos velhos, ultrapassados segundos a medicina para terem filhos. Chance perfeita para a minha argumentação:

- Amor, um parto na minha idade é perigoso. Posso morrer. Fiquemos então com nossos cães!

Norberto concordou. Já havia matado seu desejo. Mas me aconselhou a  frequentar uma terapia, pois “não é normal uma mulher não ter vontade de filhos. A mulher nasceu para procriar”, explicava, com todo machismo embutido em suas palavras.

 

Em um pequeno consultório em Higienópolis, a psicóloga Karina me recebeu. Conversamos sobre amenidades, rotinas, até chegarmos ao assunto principal. Com os olhos lacrimejados, eu disse:

- Eu vim até aqui para tentar entende e explicar ao meu marido a minha falta de vontade por filhos.

 A psicóloga, já habituada com a frequente visita de mulheres que quebram padrões de família na qual todos estão acostumados, respondeu quase que a defendendo.

- Entendo que, se a substituição do animal pelo filho é consciente, com a pessoa sabendo os reais motivos de preferir o contato animal ao contato humano, não há prejuízo psicológico. Hoje em dia tem-se visto com frequência essa preferência, e acredito que se deva muito a correria do dia a dia, a uma maior preocupação em como o futuro filho irá se comportar na adolescência e na vida adulta. Todos têm o direito e a liberdade de buscar o que é melhor para si, e sendo que essa busca do melhor é algo individual, seu marido deve respeitar suas escolhas, sem criticá-la por ser diferente das escolhas e padrões de épocas anteriores.

 

Voltei para casa aliviada. Não era doente, não tinha problemas. Entreguei o cartão da psicóloga para Norberto, recomendando-lhe uma consulta. Quem havia de entender o comportamento alheio era ele, não eu. Nunca mais voltei às consultas. Há alguns anos, Norberto frequenta o consultório. Já está menos machista. Comprou um cachorro e adotou outros abandonados. Visita sua filha com certa frequência em Belo Horizonte. O melhor de tudo, é que se sente um garotão vivendo um relacionamento considerado moderno. Nós e os cachorros vivemos felizes, e esperamos que para sempre!

 

A última visita

Feriado de finados, o sol aparecia ainda meio tímido por trás das nuvens. Com destino à Caraguatatuba segue o neto mais velho de uma senhora de 84 anos, com um objetivo, o de visitar a sua avó.

Everton estava apreensivo, pois não se tratava de uma visita qualquer, era uma missão, tanto como um neto que fazia tempo que não via sua avó, como também um médium.  Porque além de engenheiro elétrico, em uma multinacional, ele trabalha em um centro espírita, oferecendo passes às pessoas que freqüentam, e onde faz o curso para “despertar” a sua mediunidade. “Todos nós somos médium, só que alguns precisam aprender como controlar e usar, por isso há cursos para “despertar” essa sensibilidade. ”- comenta.

Depois de quase duas horas de viagem, enfim chega à cidade litorânea, cansado e com fome passa na casa de sua tia, com quem sua avó mora. Durante a pausa para o descanso e almoço, ela comenta com o sobrinho sobre o estado de saúde de sua avó, os dois muito emocionados, se abraçam, sua tia pergunta se está preparado para visita, ele responde que sim e lhe conta que quando estava em sua casa já havia feito uma oração em que seu avô e seu tio, filho que sua avó perdeu há trinta anos, apareciam para ele com a mensagem de que todos estão prontos para ajudá-la se ela viesse a desencarnar.

Everton, parece entender melhor como funciona a morte, não, que ele não sofra com a perda, mas entender sobre o que se passa após essa passagem o ajuda muito. Ele se prepara para a visita, pega seu livro “O Evangelho”, de Allan Kardec, da um breve tchau para sua tia e segue a caminho da Santa Casa de Caraguatatuba.

Quando chega ao hospital, que estava cheio devido ao horário de visitas, pede informação para um assistente. “Por favor, onde fica a UTI?” – Após a resposta ele seguiu  um corredor em direção à UTI.

Ele se identifica e diz o nome do paciente para o enfermeiro, que pede para que ele aguarde ser chamado para entrar. Enquanto isso permanece concentrado de olhos fechados segurando seu livro.

“Pode entrar o visitante da paciente Maria José.” – chama o enfermeiro

Respirou fundo, abriu os olhos e caminhou até a porta, fez a higienização e colocou um avental azul. Lá estava ela, da porta já dava para ver aquela que por diversas vezes correu e gritou atrás dele dando broncas, preocupada.

Ele a cumprimenta, passa a mão sobre seu rosto com os olhos marejados e comenta baixo: “Vai ficar tudo bem”. Os olhos dela ainda fechados começam a mexer, como se ela tivesse acordada, mas apenas isso se mexia. Os batimentos cardíacos estavam fracos, pois seu coração só estava funcionando por causa dos remédios, os outros órgãos, como, pulmão e rins estavam em péssimas condições. Respirar por aparelhos ajuda o paciente a não sofrer tanto, como disse o posteriormente médico ao neto da dona Maria.

Enquanto ele rezava, ele olhava para o rosto dela, e os olhos dela continuavam a mexer fechados, parecia que ia chorar, mudou a expressão do rosto ficou vermelha, mexeu muito pouco a cabeça, mas não acordou. Feliz, por sentir a sua presença ele continuou a rezar.

“Acabou o tempo, senhor” – disse a enfermeira

Fez que sim com a cabeça, e começou a se despedir de sua avó.

“Vó,  siga o caminho de luz, sentirei a sua falta…” – cochichou em seu ouvido.

De volta a casa de sua tia, ele muito pensativo com a cena que não sairia tão cedo de sua cabeça, sua avó mexendo os olhos e a sua expressão de choro, não aconteceu isso com nenhum dos outros netos e nem visitantes. Apesar da dor de saber que sua avó estava para morrer, ainda sim estava feliz, pela experiência de estar presente em seu leito, passando todas suas energias e palavras boas. Ele sentiu que ela se emocionou ao vê-lo ali e se sentiu segura, pois confiava muito em seu neto.

Três dias depois, ele recebe a notícia de que sua avó havia falecido. Infelizmente não pode ir ao seu enterro, pois estava fora do Brasil a trabalho. Ele sabia que aquela visita era a última vez que iria vê-la em vida.

Sobre os que já se foram

Sobre os que já se foram, diria que não podemos dizer que nossa cultura regada por elucubrações científicas, hipóteses materialistas de um mundo que só sabe olhar para o próprio umbigo (o mundo ocidental), possa se vangloriar de prestar alguma homenagem a eles – os que vieram antes de nós; nossos antepassados, incontáveis almas (palavra essa que pode acarretar demissão, se publicada por um jornalista desprestigiado) responsáveis pela nossa estadia mundana.  Talvez, o que melhor resuma nossa atitude pretensiosa e provinciana – já que um não caminha sem o outro – seja a frase que ouvi de um amigo meu alguns dias antes do último dia 2/11: “Não entendo a necessidade desse dia, deste feriado. Afinal de contas, já estão todos mortos, mesmo!”. E por aí vai.

Para a Igreja Messiânica Mundial, crença fundada por Mokiti Okada, ou “Meishu Sama (senhor da luz)”, no Japão da primeira metade do século XX, Finados constitui a data mais importante a ser celebrada anualmente. No último dia 2/11, para se ter uma ideia, estiveram reunidas no Solo Sagrado de Guarapiranga – um dos maiores templos messiânicos no mundo – em torno de 40 ou 50 mil pessoas (estimativa minha, baseada na lotação do Morumbi e do Pacaembu) entre membros e visitantes.

A Messiânica, e outras religiões orientais como o Budismo, acreditam no que constitui o princípio da metafísica: o que nós fazemos no mundo material reflete no mundo espiritual, e o que acontece no mundo espiritual reflete no mundo material. Se fôssemos hierarquizar os três mundos, os três planos existentes, em primeiro lugar viria o Plano Divino – habitado por Deus e alguns espíritos superiores – ,o Plano Espiritual – habitado pelos outros espíritos desencarnados, e dividido em camadas em ordem de importância (como em “A divina comédia”) – e o Plano Material – habitado por nós, espíritos encarnados ou reencarnados.

Finados é, aos messiânicos, o único dia do ano em que todas as camadas do Plano Espiritual são abertas por Deus, possibilitando o encontro e a comunhão de todos os espíritos entre si e com o Plano Material, se lembrados e ritualizados por nós. Esta é a importância da data, assim como dos ritos messiânicos diários e preparativos especiais para esse culto.

Ainda em atividade

Na época, a imponência da Praça Roosevelt escondia a porta da pequena charutaria, incrustada entre teatros alternativos e um supermercado. Entro. Os móveis de madeira tornam o ambiente escuro e só a iluminação que vem de fora permite a visibilidade no interior da loja. As vitrines por trás do balcão dividem espaço com uma barbearia aos fundos. O cheiro forte de tabaco logo na entrada lembra um avô sentado na cadeira de balanço em um final de tarde qualquer.

- Se eu posso responder algumas perguntas? É sobre o teatro? Espera aí, não comece ainda não. Ô Renato, vem cá que a menina quer saber sobre o Cultura Artística.
Dona Gilda Orbetelli permanece por trás do balcão como se eu fosse a próxima cliente a pedir um charuto.

- Minha sobrinha tem o mesmo nome que você. É muito bonito.
Agradeço enquanto um senhor grande e simpático se aproxima.
- Eu sou dono dessa loja há 40 anos, e lembro da época em que o Cultura Artística foi utilizado pela TV Excelsior; com o teatro o movimento era maior, até o Fagundes costumava comprar aqui – diz orgulhoso o senhor Orbetelli.

A entrevista para. Um morador de rua, comum nas proximidades da Praça Roosevelt, tenta entrar na loja e assusta o casal.
- Hoje não tem nada não, pode sair. – e o seu Renato continua após a saída do convidado indesejado – Viu só?! Quando o teatro funcionava a gente podia ficar aberto até de noite, os guardas permaneciam na região. Agora não dá mais. Até durante a Virada Cultural a gente fica preocupado.

Pergunto sobre a importância do teatro. O marido fala sobre o alto padrão do espaço e sua importância para o comércio. A esposa é naturalmente mais poética:
- O teatro era vida, sem ele o bairro fica morto.
Anoto a frase.
- Não, não coloca isso no seu texto não. Que vergonha, coloca algo mais importante e bonito.
Dou risada: a frase ficaria perfeita na matéria.

Estou para ir embora quando os papeis se invertem e quem precisa responder a perguntas sou eu:
- Quando o teatro ficará pronto?
- A previsão é que em 2012 ele seja reinaugurado – respondo.
- Puxa, ainda temos que esperar três anos – lamenta a senhora Gilda.

2012 já está chegando. Durante estes anos a Sociedade Cultura Artística continuou com suas temporadas de concerto em outros teatros da cidade, enquanto esperava sua casa definitiva ser finalizada. A região também sofreu grandes mudanças: a Praça Roosevelt foi derrubada e agora o que se vê são tapumes e a espera de sete anos por uma reforma do local parece ter chegado ao fim.
A região central, no passado símbolo de glamour da cidade de São Paulo, já não é mais a mesma e continua mudando. São tantas transformações desde a época da TV Excelsior até o incêndio e atual reforma do Cultura Artística que parece que o único resquício do tradicionalismo se encontra na porta desta charutaria. Podem vir novos teatros e novas Praças Roosevelt, o casal Orbetelli continua por lá.

Um pouco de Havana e Zurique, mas ainda São Paulo

Havana é a capital da socialista Cuba. Havana também dá nome a um local na cidade de São Paulo. Mais precisamente a um edifício da Rua Helvétia, no centro da capital paulista.

Ah, Havana! Dos longínquos anos 50, mesma época da revolução do local de onde herdou o nome. Seus nove andares, compostos por meia centena de apartamentos repletos de pessoas, viram de camarote as construções do Elevado Costa e Silva, ou Minhocão para os íntimos, e ganharam facilidades como a vizinha estação de metrô.

Mudanças que alteraram aquela zona de Santa Cecília. Antes repleta de boutiques ‘classudas’, lojas de grife e de finesse social.

- A São João de ontem era a Paulista de hoje.

A frase é da Dona Sueli. Sueli Garcia que tem 65 anos, 53 desde o primeiro passo em direção a parte interna do edifício, é a moradora mais antiga. Sueli que viu toda a transformação de um cenário, inclusive da própria moradia.

Mudanças que alteraram o interior daquele prédio. Antes cobiçado devido ao ponto nobre, virou uma espécie de trampolim, segundo Sueli:

- Era um local muito familiar. Aí as pessoas começaram a ganhar mais dinheiro e querer lugares melhores, maiores.

A cobiça, que não era tolerada em Cuba, deu o tom da Havana da pauliceia. A partir daí, a possibilidade de locação dos apartamentos foi tornando a rotatividade ainda maior no prédio, às vezes atraindo pessoas que não condiziam com a moral do edifício quando concebido. Garotas de programa? Brigas? Aqui não, obrigado.

A suspeita fez com que a entrada de novos residentes fosse cada vez mais analisada. A fresta ficou mais fechada, assim como vista naquele país da América Central governado por Raul, pegando o lugar do irmão Fidel.

E como em Cuba, a Havana paulistana também precisa de um líder para manter tudo em ordem. E este é Gildeon Gomes de Oliveira ou, simplesmente, Gil.

Apartar brigas porque um pouco de água escorreu pela janela e atingiu a varanda do vizinho, manter a decência graças à bitucas de cigarro e, por incrível que pareça, até combater o capitalismo eram deveres de Gil. Capitalismo? Este até tomou parte do espaço físico do prédio:

- No tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, o hotel vizinho tomou as garagens do prédio e ainda cobrou um vazamento que prejudicou o espaço.

Maldita busca pelo lucro. Lucro que não evitou a falência do hotel. Ponto para o destino.

O mesmo destino que colocou Maurício Achiles dentro do apartamento 51 e, seis meses depois, já vai tirá-lo. O que começou com a namorada conhecendo um morador que precisava dividir as contas, terminou com a falta de dinheiro de Maurício, também conhecido como Calvin.

As suas coisas vão retornar da onde vieram. As suas roupas farão partes das lembranças de Havana.

- Espero achar um lugar tão tranquilo como aqui.

Com a saída de Calvin, mais um pedaço de Havana muda. Muda como a cidade homenageada nos dias atuais. E parece que o prédio ainda tem muitos contos pela frente.

A moral da história? Não existe. São apenas relatos que podem ser encontradas em diversos condomínios por São Paulo, Brasil e mundo afora, mas o único com uma pitada cubana.

Um inesperado pedaço do país latino dentro da rua Helvétia, nome inspirado na rica e europeia Suíça. Porém, para não nos esquecermos da onde estamos mesmo com toda essa influência estrangeira, ao extremo norte da mesma reta em que se instala o edifício Havana, uma das paisagens mais paulistana de todas – a Cracolândia.

Colorindo as cinzas

As ruas cinzas de São Paulo, encobertas por carros e construções, pichações e pobreza, trazem um ar de angústia e desgosto com a  situação em que a cidade se encontra. Entretanto, algumas características positivas ainda existem e muitas delas passam despercebidas, devido a suas distinções urbanas.

 

Vivenciando intensamente o dia a dia da cidade, o grafitti passa despercebido, ou apenas como mais uma pichação da grande cidade. Ao atravessar a Rua Maria Antônia, na esquina com a Consolação, deparei-me com um novo grafite, que de uma maneira espetacular soube exemplificar a construção de usina de Belo Monte com a imagem de um índio vestido a costume, dando a entender que essa comunidade está acabando.

Carlos Tavares, 30, morador de Higienópolis passa por esse trajeto todos os dias e confessa que não havia percebido a existência da obra de arte. “Achei esse grafite interessante e bem trabalhado, mas devido a correria do dia a dia eu não percebo essas coisas, ou senão, confundo com pichação”.

 

Em  contraponto, conversei com Marcio Penha, mais conhecido como Presto, grafiteiro não por profissão e sim por amor a arte, como ele mesmo define. “Na verdade graffiti não é trabalho. Eu pinto na rua desde 1996, mas é algo que faço por realização pessoal. Minha motivação é transformar a frieza do concreto, mostrar que a cidade é algo vivo e que tem que ser das pessoas e não do poder público”, comenta ele, analisando intensamente o que ele define  como obra de arte.

 

Em uma agradável tarde de sábado, Presto relata que sempre viveu da arte, porém foi nas ruas que encontrou o trabalho que  o impulsiona e que o deixa feliz. “Ver pessoas comuns apreciando o seu  trabalho é gratificante, pois essas pessoas não querem te julgar ou elogiar, nem querem saber quem pintou e isso que me atrai, pois como sou tímido, não pretendo aparecer, o que eu quero que apareça é a arte que faço”.

 

O que entristece Presto é que ele e seus companheiros de trabalho ainda são vistos  como marginais por grande parte da sociedade “Existe preconceito em tudo, mas o que me intriga é o cidadão comum, que está amedrontado com a cidade, acostumado a não refletir sobre as coisas, trancado dentro de um carro e que julga as coisas sem realmente conhecer”.

 

O sol já estava baixando, quando encontramos uma senhora de 70 anos. Dona Rosaria, moradora do centro desde pequena, deu sua opinião sobre essa obra de arte. “Pra ser sincera eu não gosto dessas coisas na parede, mas algumas são bonitas. Gosto muito daquelas que representam as pessoas na vida real”.  Disse a senhora rapidamente.

 

 

Desde desse dia eu percebo a cidade com outros olhos, as cinzas me dão ideia de lugares para serem grafitados e os muros antes sem significados, agora representam todo um trabalho, que despercebido, procura colorir as cinzas da metrópole.  

 

Sobre viver

Pouca gente tem a oportunidade de renascer em si mesmo. Menos gente ainda reserva um segundo do dia para agradecer por todos os outros que já viveu. Quase ninguém consegue perceber em cada som o prazer de ouvir, em cada imagem a graça de ver e em cada dia a chance de viver.

Aos 17 anos, Mariana descobriu que não poderia fazer a viagem de formatura que tanto queria. Tinha insistido tanto, argumentado tanto, mas não era fácil para seus pais liberá-la de uma vez. Era sua formatura no Ensino Médio. Queria viajar para Porto Seguro e se divertir com os amigos do colégio.

Seus pais acabaram cedendo e os carnês começaram a chegar.

- Eu tavasuper animada. Todo mundo tava. Foram dois anos tentando convencer meus pais a deixarem eu ir.
- Você já tava com tudo pronto?
- Já. Mala pronta, roupa comprada. Tudo pago. Aí em julho, eu fui viajar com a minha família pra Itanhaem. Meu pai trabalha no Banco e eles têm uma colônia de férias lá e a gente sempre ia. Era divertido. Foi no finalzinho de julho e eu ia viajar pra Porto em outubro. Foi lá que eu comecei a tossir sem parar. Chegava a doer o abdômen de tanto tossir.

Enquanto a gente conversava, ventava bastante e os cabelos de ninguém estava muito penteado. Ela estava sentada de costas para o vento e por mais que tentasse, com os dedos, colocar as mechas atrás das orelhas, elas voltavam a incomodar e bater na frente do rosto.

- Fui ao médico e ele disse que era minha bronquite. Ele me atendeu ‘tão bem’ que me deu remédio de asma e não de bronquite. Eu não tomei.

A tosse continuava. O médico é que mudava. Até que uma doutora pediu que ela fizesse um raio X. Assim que saiu o resultado, Mariana foi internada. Uma mancha assustou. Foi fazer exame por causa de uma tosse e, no mesmo dia, descobriram a mancha e a encaminharam para a biópsia.

- Eu fiquei muito assustada. Minha mãe tava comigo. Eu fiquei internada, esperando o resultado. Acho que nunca senti uma agonia tão grande. Do nada a médica entrou e eu lembro direitinho dela falando “É um tumor maligno”. Olhei para ela, olhei para a minha mãe. Comecei a chorar. A gente se abraçou e começou a chorar junto. Nem sei por quanto tempo. Por muito tempo.

Era câncer. O tumor estava no mediastino, um canal que liga os dois pulmões. Logo depois da descoberta da doença, Mariana e a família começaram a procurar o lugar onde o tratamento seria feito. Ela escolheu o Hospital do Câncer de São Paulo. Se sentiu bem lá, acolhida, confiante.

A quimioterapia não demorou muito para começar. Na primeira semana de setembro ela já começou o tratamento. Na segunda, os cabelos já começaram a cair.

- Eu sempre fui muito vaidosa com o meu cabelo. Mas entendia que iam cair e não tinha o que fazer. Só que incomodava demais. Eu estudava em colégio militar, tinha que usar uma malha branca. Os meus cabelos caíam e ficavam presos na malha. Às vezes, eles caíam no chão e eu tinha que abaixar para pegar. Aquilo me incomodava muito. Marquei de raspar a cabeça logo e comecei a pesquisar umas perucas. Coloquei uma prótese. Ela não soltava, ficava grudada, não saía do lugar. Escolhi e coloquei. Custou dois mil reais. Todo o dinheiro que eu tinha recuperado do que já tinha pago da viagem. Na hora era um sonho que tinha acabado do nada.

A quimioterapia continuava. De 14 em 14 dias, um total de oito sessões .

- Eu ficava cada vez mais debilitada. Antes de cancelar cheguei a perguntar para o médico se poderia viajar. Ele disse que eu podia viajar, mas não podia pegar sol, fazer esforço, subir escada, me machucar, não podia nada. Na verdade, a quimioterapia mata as células ruins, só que acaba matando as boas também. Por isso, os cabelos caem do corpo todo, a gente fica com a resistência baixa. Eu tinha que tomar cuidado com o que comia, não podia ficar em nenhum lugar com ar condicionado, não podia nem ficar na cozinha da casa com a luz acesa! A luz fluorescente podia me dar câncer de pele.
- Muita coisa mudou, então? A rotina mudou.
- Muita coisa. Eu dormia na cama alta da treliche em casa, mas como não podia me machucar, nem fazer esforço, minha irmã quis trocar comigo e eu passei para baixo. Todo mundo ficava cuidando de mim.

Normalmente, o ser humano deve ter 250 mil plaquetas. Mariana chegou a ter apenas 1500. Com a imunidade muito baixa, quase nada era permitido. Ela ia menos a escola. Mas as suas boas notas no começo do ano compensaram a ausência. Ela entregava trabalhos de substituição, mas, mesmo assim, estudava e ia nos dias de provas, não para fazê-las, mas para dar uma mãozinha aos colegas.

O tempo passou mais depressa do que ela imaginava. Ficava muito no hospital, fez muitos amigos. Jogava baralho, brincava com todos. Chegava a discutir o modelo e a cor do vestido que usaria na formatura. Sempre acompanhada da mãe ou do pai, recebia os remédios da quimio na veia. Cada um deles tinha um efeito diferente. Um deixava a urina vermelha, outro dava muito sono, outro ainda causava uma insuportável dor na região do nariz e da testa e a luz e o barulho ficavam quase insuportáveis.

Andando pelos corredores e visitando outros pacientes, Mariana encontrou mais motivação para continuar lutando. Crianças que precisavam entender a razão de estarem ficando sem cabelo, ou que não podiam correr, não podiam brincar como tantas outras. Idosos, homens, mulheres, adolescentes. Todos em busca de uma única coisa: viver.

- Às vezes eu me sentia muito mal. O tratamento é complicado. Mas eu não tinha o direito de reclamar. Eu tinha que pensar positivo. Tinha que tentar. Todas as vezes que ia fazer um exame, entrava rezando. Podia ser um exame de sangue! Eu abria com expectativa e comemorava cada etapa. Assusta muito. Mas eu não queria que a minha família sofresse como quando a minha tia ficou doente. Eu me esforçava por mim e por eles, sabe? Vi gente sem nariz, sem boca, tumores visíveis. Gente sem poder falar, sem poder andar, crianças que não podiam ser crianças, e eu ia reclamar de uma dor de estômago? Um enjoo? Eu não tinha esse direito. Minha viagem, meu cabelo… tudo tão pequeno. O mundo é tão maior do que isso.

Uma menina de 21 anos, falando com sabedoria de anciã.

E o vento não dava trégua. O cabelo teimava em ir para frente. Dessa vez, alguns fios ficaram presos na boca. Tirou com as mãos. Descobriu os olhos. Falava com os três.

- Minha cabeça mudou muito em relação a vida. Eu tinha só 17 anos, mas cresci muito, passei a ver a vida de outro jeito, a dar mais valor pra tudo. Cada momento que eu tava vivendo. Cada dia era um dia. Na verdade, eu não sabia o dia de amanha. Talvez não desse certo e eu ficasse internada. Mas não queria pensar em nada disso… pensava no melhor… eu passei a viver mais a vida, sei lá, queria viver minha vida, ver a vida, passar mais tempo com quem eu gosto, conhecer lugares novos, aproveitar cada momento… Eu fico guardando foto de lugares que eu quero conhecer, e eu vou logo. A gente nunca sabe o dia de amanhã.

O último dia de quimioterapia foi 2 de dezembro de 2008. Um exame determinaria a necessidade, ou não, da radioterapia. Um envelope trazia muito mais do que um resultado.

- Eu chorava muito. Lembrava de tudo que tinha acontecido, das pessoas que estavam comigo, de tudo.

Era o fim e um novo começo, melhor ainda… era só o começo. A quimioterapia teve o resultado esperado. E era tudo que queríamos ouvir. Depois de toda a história e mesmo sabendo que ela estava ali, na nossa frente, saudável, foi ótimo ouvir dela própria que tudo estava bem de verdade. A frequência dos exames que ela tem que fazer é cada vez menor e dizem que depois de cinco anos, a chance do câncer voltar é muito pequena. Que seja nenhuma.

Assim como depois da doença, depois dessa conversa, a reflexão é inevitável. Deixando de lado as resistências, talvez seja um bom momento para refletirsobre o óbvio: estamos todos “sobrevivendo” enquanto estamos vivos. A verdade é que quase ninguém percebe que cabe a nós muito mais do que sobreviver.

Mariana ganhou novos ouvidos – que escutam com muito mais prazer – novos olhos – que enxergam muito além do que enxergavam os antigos – novos braços para ajudar os outros no que pode e novos ânimos para lutar pela vida.

Ela vive e, sobretudo, sobrevive. De fato, todos estão sobrevivendo. Só que é preciso se dar conta do que isso significa. E, depois disso, é preciso viver.

A vida de quem salva vidas

Já passava das sete da manhã de uma terça-feira de manhã nublada e chuvosa, podia-se ouvir perfeitamente passos fortes descendo a escada de madeira da casa. O dia apenas estava começando. Levar as filhas para a aula era a primeira tarefa do dia, então lá vai ele tomar seu rápido leite e tirar os carros da garagem. Primeiro ele levaria uma e depois de duas horas voltaria a sair para levar a mais nova.

Fazer isso é sagrado, todos os dias vai e volta com o maior prazer e com um bom humor indescritível. Buzinou e logo a menina saiu de casa e entrou no carro, lá se foi ele e a filha conversando sobre futebol e o Santos, seu time do coração. Foi esse o assunto do caminho todo e pelo visto diário também, é sobre o que mais gostam de falar.

Deixou-a na faculdade e voltou então para casa. Ao som de suas músicas sertanejas, já que veio do interior e tem gosto por esse gênero musical ele lida com o trânsito matinal que as vezes chega a ser insuportável. Já em casa senta em sua mesa, liga o computador e começa suas pesquisas médicas. Sai então de cena o pai e entra o médico. Quando o relógio o avisa que está na hora de levar a outra filha ele para seu trabalho e lá vai para a segunda rodada de trânsito. Assim que faz isso ele vai para o hospital e coloca o médico novamente em cena.

Lá atende suas pacientes, conversa com seus colegas médicos e marca suas novas cirurgias. Naquele dia ele iria atender somente três pacientes marcadas pelo convênio que atende. Marcou uma cirurgia para a semana seguinte: uma mulher grávida que estava com câncer de mama.

Esses casos o fizeram atrasar e então foi direto para casa almoçar com a família, outra coisa que ele e sua mulher fazem questão de que aconteça todos os dias. Comeu, lentamente enquanto conversava sobre como tinha sido a manhã de todos e a sua. Após o almoço sentou-se em em sua poltrona preferida para ler o jornal, terminando com o caderno de esportes.

Subiu as mesmas escadas que pela manhã desceu fortemente, se arrumou para a segunda parte do seu dia profissional. Colocou camisa, gravata, pegou seu jaleco branco e foi para o seu consultório atender as pacientes particulares. Mais um tempo de trânsito e logo ele entrou no prédio que fica localizado seu consultório na Avenida Angélica. Subiu e foi se preparar para atender suas quatro pacientes do dia.

Muito pontual, não tinha pressa em quanto tempo demoraria cada consulta e por isso pede que sua secretária nunca marque mais do que quatro pacientes por dia. Assim ele pode dedicar pelo menos uma hora para cada, já que os casos são na maioria das vezes complicados e que merecem uma atenção maior.

Quando a última paciente saiu o relógio já marcava quase 19:00, pegou suas coisas e dispensou a secretária para ir para casa também. Chegou em casa e sua mulher o aguardava para o jantar, pois sempre fazem isso só os dois. Subiu as escadas, mas agora o passo era lento e leve de alguém já cansado. Tomou banho e colocou o pijama já. Quando desceu seu jantar já estava pronto e então comeu sossegado, pois sua fome era grande.

Como de costume, por sua mulher ter feito o jantar o combinado era ele fazer o café para ela tomar após comerem, então lá foi ele prepará-lo. Tomaram juntos e foram assistir televisão. Viram o jornal juntos e depois enquanto ela assistia a novela, ele foi para sua mesa escrever sua próxima aula que daria no começo da próxima semana. Ele  utiliza dois dias de sua semana para escrever essas aulas e pesquisar coisas para colocar nelas e nos finais de semana com a ajuda de uma de suas filhas ele faz a montagem do que será exibido em aula.

Perto da meia noite, ele faz o último café para sua mulher e então vai dormir. Cansado ele sobe as escadas pela última vez naquele dia e logo que entra no quarto e deita na cama já se desliga do mundo e dorme sem pensar que em menos de sete horas ele estará levantando para levar as filhas para a aula.

 

A sinceridade de um homem do campo

Sempre falando calmamente, de maneira tão única que passava a tranquilidade daquelas pessoas que nunca foram muito de sair daquele mundo rural que o rodeava no interior das montanhas mineiras.

Seu rosto era marcado por riscas de rugas de uma pessoa que trabalhou a vida inteira no campo. As mãos ásperas e a pele de um tom em marrom que praticamente entregavam que a maior parte de seu trabalho havia sido feito debaixo de sol escaldante durante anos a fio. Os olhos praticamente falavam por si. Eram profundos e vivos em um tom de verde atípico dos normais.

Era um homem feliz. Um homem de felicidade tipicamente bucólica, inocente, simples. Não tinha o sonho que a maioria de seus filhos tinha de um dia morar na cidade grande, deixar seu cavalo, o trovão, para trás. Só queria uma coisa. Ver a felicidade daqueles que ele havia criado em meio as árvores, plantações de milho e feijão e um pequeno riacho que passava a maior parte do ano quase seco no pequeno sítio que ele havia nascido.

Um dos poucos momentos de tristeza que ouvi falar daquele homem foi quando viu três de seus quatro filhos trocando aquela vida pacata e tranquila pela correria da cidade grande. Entretanto, era claro pra mim que quando um desses filhos chegava àquela bonita casa de cor azul claro no meio do mato, sua felicidade era totalmente completa.
Era tudo muito fácil de compreender ao ver as lágrimas sinceras descendo de seu rosto e sentir, mesmo que não em mim, o abraço que meu pai recebia. Presenciei muitas vezes essa cena. Poucas foram as vezes que pude ver tão verdadeira sinceridade entre duas pessoas.
 

Chopp com Escamas

Quatro pessoas de um lado.

Na escuridão, duas armas colocaram-se entre o medo e a curiosidade.

Quatro pessoas na outra extremidade.

Não era uma dança, no entanto a insegurança se divertia acompanhada pela incerteza em uma performance única. Eles não se conheciam, não sabiam os nomes uns dos outros. Eram todos personagens de um conto de má sorte.

Longe de casa, em uma cidade vizinha, avistamos o lugar. Um bar conhecido que parecia animado. Música alta, pessoas dançando do lado de dentro, de fora. Ainda era cedo, próximo da meia noite, mas aquela parecia ser a escolha certa, e lá resolvemos ficar.

Sem muitas opções de estacionamento, optamos por parar em uma rua em frente ao bar, onde ainda haviam algumas vagas.

Um Golf prateado andava lentamente em nossa frente, procurava por um lugar, calmo e atencioso. Não queria correr o risco de que qualquer outro encontrasse antes. Mas tão concentrado estava o motorista em sua meta, que não percebeu o buraco que se aproximava da roda de seu carro.

O Golf atolou, nós seguimos.

A rua próxima ao estabelecimento formava uma elevação de terreno asfaltada. Ela era responsável por fazer a ligação daquele pedaço de lugar com a estrada principal. Geralmente, por ser um lugar movimentado, e principalmente, por ser o estabelecimento de um oficial da polícia militar, uma viatura no início da subida era presença garantida. Mas não naquela noite.

Sem a companhia dos policiais, além de nós, apenas carros vazios e as árvores que se perdiam em uma pequena mata, preenchiam a escuridão daquele buraco negro, mas estávamos acostumados. Paulo Victor não estava e insistiu mais de uma vez, “Vocês tem certeza que esse lugar não é perigoso?”. Cada uma de nós assentiu, não havia perigo algum.

Todos desceram.

Quatro portas bateram marcando o início de uma lúgubre melodia. Uma voz tremula gritou, enquanto outra, mais áspera, preferiu xingar.

Sem entender todo o barulho, continuei a descer a rua, mas um som de gatilho sendo puxado deu seu estalo, tudo que se ouvia era silêncio.

Quando dos quatro vultos que surgiram, dois deles tentaram me fazer voltar para o carro, é difícil dizer quantos foram os pensamentos que conseguiram passar por minha cabeça. Em tão poucos segundos, pensei em correr, gritar, lutar… de formas variadas, combinadas, absurdas. Mas quando uma das armas encontrou o conforto ao se apoiar na cabeça de minha prima, tantas ideias criativas pareciam apenas inúteis.

Oito pessoas dentro de um carro, oito pessoas assustadas. Eu pude ver atrás da arma que me observava, uma mão que tremia tanto quanto a minha.

Aos gritos seguimos em rumo ao incerto.

Um deles ainda fez questão de ressaltar, “A gente já tinha planejado tudo para os caras do Golf, mas o carro atolou e vocês foram os sortudos que passaram”

Inexperientes, nem mesmo eles se entendiam. Após uma longa discussão do que seria feito, resolveram assaltar apenas nossa casa de praia. Havíamos os convencido de que do litoral até São Paulo levaríamos ao menos 7 horas, o que os fez desistir do plano inicial.

Ao nos aproximarmos do condomínio resolveram nos dividir. Apenas quatro entrariam. Os outro esperariam na praia. Fiquei no grupo da praia.

Nos separamos e a ansiedade pela primeira vez começou a me perturbar. Entre a rua e a praia existia um corredor, de madrugada não havia iluminação alguma. Com medo da escuridão, sem pensar, me segurei em um deles. Com a arma em sua mão, ele se divertiu com a situação, “não precisa ter medo”.

Atravessando o longo corredor, observei ao fundo a luz de um poste que iluminava a areia. Ironicamente a luz no fim do túnel parecia um tanto reconfortante naquele momento. Seguimos.

Chegando à praia, talvez por medo, talvez por curiosidade, comecei a falar. Um deles, o que eu havia me segurado, parecia bem receptivo, logo se apresentou como “Maradona”. Começamos então uma conversa que poderia ter durado segundos ou horas, não saberia dizer, a percepção de tempo era algo que eu já não tinha mais. Meu amigo e o outro participavam com pequenos comentários, mas pareciam mais ansiosos para que tudo terminasse logo.

Maradona me contou sobre outros assaltos, sequestros… sobre quando esteve preso e sobre o seu filho que havia nascido há algumas semanas atrás. Quando seu celular tocou e a notícia de eles haviam terminado chegou, tudo estava certo. Conforme o combinado logo seríamos amarrados e deixados na praia.

Era só esperar pelos outros e logo o fim teria início.

Mas não.

Eles chegaram, e aquele que se intitulava líder havia mudado os planos. Nós não iríamos mais ficar. Seríamos levados com eles para o Guaruja. Em tom baixo, Maradona me disse, “Não precisa ter medo, vai ser melhor para vocês, não vão ter que ficar aqui amarrados. E também, tenho certeza que vão adorar conhecer o Guaruja”, ele realmente acreditava no que dizia.

Enquanto entrávamos no carro, um deles riu, “Agora quando perguntarem para vocês, podem contar que isso foi um sequestro…”

 

(…)

Ato nº 2

Foi assim, como de costume, doce e áspero.

A luz quebrava o tom acinzentado de seu quarto, dourando os corpos soltos na cama, presos pelo sono, presos no lençol. Você ainda respirava baixo e ritmado, quase como se cantasse em sonho. Eu revezava o movimento dos olhos entre os dois grande eventos que aconteciam simultaneamente, a canção suave que saia de você e o número de dança logo ao lado. No qual, iluminados por um dos feixes de sol, pequenos pontos de poeira remexiam e deslizavam de forma graciosa ao som de sua melodia.

Meu braço esticou procurando por um relógio, ou jornal, algo que me provasse que o tempo era real, que não havíamos sido devorados por uma espécie desconhecida de triângulo das ilusões ou tropeçado em um universo paralelo. Pensei melhor, se fosse, deveria deixar ser então. Eu não precisava do tempo, preferia seu oposto.

Você parecia também não se incomodar, dormindo, suspirou. Logo seus olhos abriram sorrindo.

Eu sorri.

Era só uma manhã de outono.

Era minha manhã de outono. E se eu dissesse que já havia assistido cada passo daquela representação, mentiria.

Você percebeu meus olhos e o que apreciavam curiosamente. Mas sem o maestro para guiá-las já não tinham a mesma sincronia.

Puxada para perto do seu peito, aconcheguei meu rosto e desliguei a mente. Sem ao menos pensar, palavras saíram.

“Quem é você?” – perguntei, sem ter certeza se eu mesma poderia responder, e insisti – “Saberia responder, sem devaneios, sem divagações. Sem medo, ou receio de deixar-se ver. Saberia responder tal pergunta?”

Ele parecia não entender, talvez fosse apenas uma brincadeira, mas não sabia ao certo qual resposta daria. Eu percebi sua incerteza, os olhos calmos pareciam apenas confusos. Ele arriscou.

“O que você quer dizer? Você sabe quem eu sou. Sabe quem eu fui e provavelmente quem posso um dia me tornar. Mas não é essa sua pergunta. O que você realmente quer?”

Me divertindo com a situação continuei.

“Eu sei bem quem é você e essa nunca foi a questão. Mas às vezes te vejo embarcando dentro de devaneios tão imensos, que temo que não encontre o caminho de volta.” – repensei a próxima frase, a ideia não era ofendê-lo ou ao seu trabalho, mas precisava seguir. – “Em alguns momentos consigo notar a essência de sua alma perder-se em meio a intensidade de seus personagens. Vejo cada feição desfigurar-se, tal como em uma face de metal, na qual seus olhos, seu sorriso, curvam-se de forma delicada, dando vazão à outras formas, que já não posso reconhecer.”

“Você consegue perceber o quão absurdo é o que está falando? Cada uma das palavras ditas até esse momento, essas sim são devaneios. Não posso entender seu medo” – suspirou antes de prosseguir – “Que eu me perco dentro de meus personagens? Mas é exatamente para isso que sou pago. É exatamente isso que me faz tão bom quanto sou. O que importa não é quem eu sou quando em cima de um palco, e sim, aquele que volta para casa ao término do espetáculo. Esse sou eu e você sabe muito bem. De onde vieram tantas dúvidas, receios?”

Ele não conseguiria entender. Talvez não fosse nem mesmo ele falando, talvez fosse apenas um de suas falas ensaiadas.

Tentei uma última vez.

“O que temo não o fato de que você vá, e sim de que você não volte. Uma vez que atravesse o espelho, pode ser o suficiente para querer lá permanecer. Já quase me perdi por esses mundos mais de uma vez, sei bem o quão fascinante são as razões para ficar e isso você não pode negar. Uma vida fácil, vivida por momentos de encenação… não minta dizendo que não é algo tentador” – podia perceber sua feição se desfazer novamente, dessa vez nascia um rosto sério, a luz já não nos iluminava mais. Seu olhar era tão sombrio quanto a verdade pode ser, quando arrancada de dentro de nós e exposta contra nossas vontades.

Ele tentou se defender, mas eu o interrompi.

“Ontem uma de suas cenas despertou algo em mim, o que me incomodava ganhou finalmente forma, e eu pude entender. Seu personagem andava de um lado para o outro divagando sobre a verdadeira essência de cada ser. Mas aquele não era o personagem, aquele era você”

Sem argumentos para contestar, preferiu relembrar uma das falas do personagem a que me referia.

“Recita melodia branda, preenche toda a sala com teu som/ Despretensiosas palavras, desfazem-se em sílabas/ Exalam dos seus lábios, umedecem os meus/ Teus sentidos, esses fazem razão/ O tecido desliza, dança, assente à resposta certeira/ Convictos, satisfeitos, os corpos continuam o diálogo/ Já não há mais o que falar.” – ele sabia o que estava fazendo, melhor que lutar contra a realidade, era me dar apenas a resposta que eu precisava ouvir – “Você mesma disse, se aquele era eu, essas palavras pertencem também a mim. Se era o que você queria saber, esse então sou eu. Sem medo, ou receio de deixar-me ver, eu sou ele, sou aquele, sou cada um deles que subo ao palco. Se for para me perder, me perderei dentro de mim mesmo, mas isso todos fazem, você faz. Não há medo.”

Satisfeita, respirei fundo. E com a cabeça ainda apoiada em seu peito, deixei que as partículas dançantes guiassem meus olhos às profundezas do sono novamente. Não havia nada mais para se fazer. Era apenas uma manhã de outono.

O som do coração

Arte. Passatempo. Profissão. Cada um utiliza a música da forma que melhor lhe cabe, ou então, da maneira que melhor sabe. Afinal, apesar de ser um sonho comum a muitos, trabalhar com tal ofício é algo para poucos, o que os torna tão especiais. “Quando você me ouvir cantar, venha não creia eu não corro perigo. Digo não digo não ligo, deixo no ar. Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar”, confessou um dia, em forma de canção, Caetano Veloso. E é pela sua exclusividade e importância que a cada ano, no dia 22 de novembro, é comemorado o Dia do Músico, dia também de Santa Cecília, a nomeada santa protetora dos músicos.

E foi exatamente no bairro batizado com o nome da padroeira dos músicos, que me deparei  com a história de duas curiosas personagens da noite paulistana, que explicaram que optar por seguir tal profissão nem sempre é apenas uma questão de querer, a determinação e o talento são fundamentais. Paulo Rodrigues foi o primeiro a se aproximar, considerado a atração principal do Bar do Nelson, era notável o peso que o ar de arrogância causava, destoando de seu terno branco. Rosto fechado, mão inquietas. Elas se acalmaram ao encontrar refugio no bolso de Paulo. Bastou apenas uma pergunta, e a máscara de estrela se desfez, revelando um simpático artista, ansioso por dividir suas histórias.

“Eu canto desde os 6 anos. Nas casas das minhas tias, onde fui criado, ouviam muito a Rádio Nacional. Todo dia as seis horas da tarde começava um programa que apresentava grandes cantores. Foi cantando com eles que aprendi”, Paulo fechou os olhos por alguns segundos, como se assim pudesse encontrar suas memórias mais distantes, mais antigas, logo prosseguiu, “Eu nunca pensei que seria cantor, minha tendência era ser algo mais relacionado a repórter policial, ou então advogado, mas a vida acabou me levando para o lado da música”. O artista que com 14 anos de idade era locutor em um parque de diversões, viu o início de sua carreira deslanchar ao ser convidado para abrir um show de circo em que Nelson Gonçalves também estaria presente, “Quando eu estava cantando ‘A Deusa da Rua’ ele se aproximou, me abraçou e cantou comigo. Ele me indicou para o Noite Ilustrada e a partir dai comecei a cantar em bares”. Com o tom de voz reduzido, o cantor se aproxima, como se não quisesse que os outros músicos pudessem ouví-lo,  “Fundamental mesmo, não é o talento, e sim a personalidade”, com o peito cheio de orgulho a voz voltou ao normal, “Com Cauby Peixoto eu aprendi a me vestir, com o Nelson Gonçalves aprendi a cantar e com o Roberto Luna aprendi a ter caráter, ser uma pessoa honesta. A partir daí, criei minha personalidade própria, não se pode ficar imitando os outros o tempo todo, pega mal. Eu acho que é por isso que eu ainda faço um pouco de sucesso,as pessoas sabem que o que eu faço é natural, é autêntico”

Inquieta, Lucinha Alves não se conteve em apenas observar. Fazia de longe pequenas observações, gracejos. Ao ser chamada, caminhou como uma verdadeira estrela em dia de estreia. Sorria e acenava aos colegas e frequentadores do bar que já a conheciam, desculpou-se com um dos cantores que a chamou, “agora não posso, tenho uma entrevista”. Finalmente se sentou, pronta a dividir um pouco da história de Lúcia Alves. Hoje com 60 anos, a artista começou sua carreira aos 6, “ eu cantava em circos e programas infantis de rádio, mas minha paixão por cantar era tanta que cheguei a discutir com meus pais inúmeras vezes, afirmando sempre minha vontade de mudar meu nome de Lúcia para música. De tanto que eu gostava, eu achava que a música era eu”, relembra a cantora, que apesar de acreditar em seu dom, deparou-se com diversos obstáculos durante o percurso, “Meu sonho sempre foi este. Eu busquei muitos anos, muito tempo, mas talvez de forma errada, cantava talvez no lugar errado com as pessoas erradas”, mas apesar das dificuldades impostas ora pela industria musical, ora pelos maridos que cruzaram seu caminho insistindo sempre em vetá-la, Lucinha não pensou nem por um segundo em abandonar seu sonho, “Eu saí uma vez de uma gravadora quebrando meu disco, despedaçando e chorando. Estava decepcionada, eles queriam comprar meu trabalho e lançar uma cantora de Mato Grosso em meu lugar. Ela tinha todo o dinheiro necessário para bancar a distribuição. Eu saí pensando que não ia conseguir nunca dinheiro pra bancar isso, então é complicado, esta foi a maior decepção na minha carreira”, ainda completa, “Mas nunca pensei em desisitr, eu até deixei adormecer em alguns momentos. Períodos de gravidez, períodos em que tive que me dedicar ao meu filho… Deixei adormecer só, desistir nunca. Eu sabia que não estava desistindo”

Vivendo diariamente essa paixão em comum, mais do que sonhos, medos e histórias similares, os dois entrevistados mostraram também um mesmo sentimento. Ao serem interrogados sobre o significado da música em suas vidas, a mesma resposta foi dada por cada um deles, “O que significa música para mim? Tudo. Eu sou o tipo de pessoa que acorda cantando e dorme cantando”, Lucinha Alves complementa, “acho que se um dia tentassem analisar meu DNA, encontrariam na verdade notinhas musicais em seu lugar”.

Ah, Heloísa…

Ela é linda. A mais Linda que já conheci. Tem olhos redondos e escuros, como duas bolinhas de gude. Que me olham e enfeitiçam! Ela olha tudo ao seu redor, como que com se possuísse um fascínio da vida, a cada instante. Ela transmite alegria pelo modo como mexe as mãos. Pego-a em meus braços e nada mais sinto nesse mundo. Beijo-a e meu mundo parece parar. Quando ela está por perto, nada, nada mais importa, de nada mais eu necessito.
Tudo nela é lindo, tudo que ela faz é bom. Tem dedos finos, mãos delicadas. Seu corpo é leve e suave. Os cabelos lisos e escuros, os mais macios que já toquei… Ela só faz o bem e só transmite paz. As pessoas, sejam elas quais forem, querem ficar ao lado dela. Sua presença é necessária e sua vida traz alegria às outras vidas. Seu abraço é disputado por muitos, sua atenção é dividida por poucos – privilegiados estes.
Ela pouco faz, mas muito encanta. Ela nem precisa fazer muito mesmo para que encante… basta apenas sorrir! Eu não sei como pude e não consigo imaginar minha vida antes dela, antes de conhecê-la. O que mudou para mim? Absolutamente nada. O que mudou em mim? Absolutamente tudo.
Hoje eu vivo pensando nela, eu faço o que faço por ela, quero estar ao lado dela, necessito do cheiro dela. Sou a mesma pessoa por fora. Mas a vida dela tornou o meu coração um lugar melhor. Penso num bem mais precioso que possuo e logo me lembro dela. Mesmo sem a possuir…
Seu nome? Heloísa. Assim mesmo, forte e doce ao mesmo tempo. Como ela. Daria minha vida por sua vida, sem hesitar. Essa é minha única certeza. Não tenho mais nenhuma outra. Ela ainda é muito, muito jovem. Não sei o que pensa ou acha de mim, nem ao menos quais sentimentos nutre no seu coração a meu respeito. Mas ela terá muito tempo para descobrir e, claro, me mostrar.
Ela tem  dois anos de vida. E sua vida já enlouquece a minha.

 

O Rei do Bacalhau

São quase cinco da tarde e o movimento começa a diminuir. Carrinhos-de-mão passam de um lado para o outro, uns vazios, outros carregados, caixas, frutas, fechos… está na hora de encerrar.

Mais um dia de trabalho está chegando ao fim no Mercado Municipal de São Paulo, mais um dia de trabalho cumprido. Com essa mesma sensação – e não sem a mesma correria – encontro Marcelo. Um homem simpático e ágil, explicando com detalhes e maestria tudo que continha em sua loja e que com facilidade retirava de uma das inúmeras prateleiras e entregava às mãos do último cliente do dia, tão bem atendido quanto o primeiro.

Marcelo falava com tanta satisfação, propriedade e se movimentava de uma forma, que parecia fazer com que não existissem os outros três ou quatro funcionários que rodeavam o box de um lado ao outro. Afinal, ele conhecia muito bem aquilo tudo.

O Empório Luso Brasileiro, ou mais conhecido somente como O Rei do Bacalhau, já é famoso no Mercadão, muitos por ali passam e se cumprimentam ou conversam ao longe como velhos amigos – o que realmente são – o corredor D já é quase como que o nome de sua rua, afinal, para estes, lá já é a extensão de sua casa.

Para Marcelo, mais do que um trabalho como outro qualquer, em que ele começa o expediente no início da manhã e termina ao cair da tarde, estar no Mercadão o proporciona a satisfação pessoal de estar com pessoas. Assim ele faz há muito tempo. O Empório existe desde 1958, quando foi fundado por seu pai e hoje, Marcelo cuida com muito carinho do local, em parceria com sua irmã, Manuela.

 O relacionamento com cada um que por ali passa, os laços de amizade e vínculos criados com o passar de tantos anos, já se tornaram essenciais para ele. “O diferencial aqui é a proximidade”, diz ele. Quando algum daqueles clientes semanais não aparece, é de se estranhar, no próximo reencontro sempre é lembrado e questionado pela falta. Nada mais ali é por acaso ou automático.

A agilidade e rapidez que o mundo moderno nos proporciona acabam deixando o ser-humano cada vez mais independente e autossuficiente. Compras rápidas, pela internet, em fast-foods, drive-thrus ou qualquer uma dessas novas ferramentas que facilitam sim a vida da modernidade, pode acabar por aniquilar certos costumes que aqui no Mercado fazem toda diferença. “As coisas estão muito rápidas hoje em dia. Infelizmente, é uma tendência do ser-humano se distanciar cada vez mais. Às vezes, você nem sabe direito o que está comprando ou nem parou pra ver quem é o ser-humano que está te atendendo do outro lado do balcão”, conta Marcelo. “Isso você encontra aqui e, pra mim, isso é que faz diferença”, diz ele.

Todos que resolverem passar pelo Rei do Bacalhau, serão atendidos com muita atenção e só sairão de lá, quando estiverem realmente satisfeitos com tudo que está dentro de sua sacola. E aqueles que já fizeram da loja um costumeiro ponto de passagem, não foi à toa, sabem, assim como Marcelo, o porque de ali estarem ao invés de escolher qualquer outro empório, loja ou supermercado. “O público daqui é bem específico. Porque pra vir até aqui, tem que ter coragem, enfrentar trânsito, estacionamento, perder tempo. Eles vêm porque gostam de estar aqui.”, Marcelo lembra o quão a relação se torna gratificante para ambos os lados.

Sem resposta

De repente, um sobressalto a acorda. Levanta assustada, agitada, ofegante, um choro insiste acontecer. Outra vez. Mais um pesadelo. E ela não gostava dessa sensação…

O dia corria – razoavelmente – bem após aquela noite conturbada, até que, no fim da tarde, Isabela recebe uma ligação. Ela sabia. Ela, infelizmente, já sabia que aqueles sonhos não são – nunca – só pesadelos. O Juninho estava desaparecido em outro país.

João Carlos do Nascimento Junior, 17 anos. Foi em viagem com uma turma de amigos ao Peru. Nada poderia interromper a empolgação e a curtição do fim de suas férias. Ele queria, podia – e precisava – aproveitar. Um jovem alegre, bonito, brincalhão, benquisto por todos. Com planos e sonhos, como qualquer outro que possui a mesma – pouca – idade.

Mas não foi só um pesadelo e a voz de sua mãe do outro lado da linha dizia que seu primo havia desaparecido há dois dias após um passeio pela praia. Bel – como gosta de ser chamada –  lembrava de Juninho – como ele gostava de ser chamado – desde criança. Os primos brincavam juntos pelo quintal da avó e essas e outras lembranças não lhe saíam da cabeça, em meio aos tormentos das lembranças do pesadelo da noite passada que parecia já avisá-la do que estava por vir.

Dona Mariazinha e Tio João não se conformavam. Seu único filho, como podia ser?! A essa altura, os pais de Juninho se dividiam entre incredulidade e fiapos de esperança.  O pai, desconsolado, repetia incessantemente que agora a vida não fazia mais sentido e que logo daria um jeito, ele mesmo, de “ir embora” para ficar junto com o filho. A mãe, com uma fé quase cega, até o último segundo esperou pela notícia de encontrarem seu filho, ainda com vida.

Já se passava quase uma semana daquela noite tão negativamente inesquecível e Juninho não aparecia. Dessa vez não ligou, não avisou, não deu tchau, não deu o beijo na mãe. Não surgia nenhum sinal de vida, nem sequer encontravam corpo algum. Enquanto isso, o desespero, aflição, esperança incerta, fé cega, só aumentavam. E a angústia no peito de Bel também.

Mensagens de apoio, confiança e solidariedade não paravam de chegar no Facebook de Juninho. Mesmo que ele não pudesse ver, a mãe tinha assumido esse lugar após descobrir a senha da rede social do filho por meio de sua namorada. As palavras de fé e motivação e o contato com os amigos dele a ajudavam a [sobre]viver aqueles dias de espera.

Um mês depois e agora Bel não alimentava mais esperanças de que encontrassem seu primo com vida. O pai dele já havia perdido esta a algum tempo também. A mãe não acreditaria nisso até que visse seu filho, seja lá como fosse. E assim foi. Alguns dias depois, mais uma ligação do Peru invade a agoniante espera de Dona Mariazinha: encontraram um corpo e ela precisaria fazer o reconhecimento. Neste momento, ela nem pensa. Simplesmente embarca no mesmo momento.

Ninguém consegue e jamais conseguirá explicar o que pode ter passado no coração daquela mulher. Principalmente, quando Bel recebe a ligação de sua mãe com a notícia de que era Juninho que Dona Mariazinha, com a dor que ninguém jamais saberá, conseguiu confirmar por alguns poucos sinais ainda reconhecíveis do filho que ficara pouco mais de um mês ao mar.

Tudo que Bel gostaria era poder entender algum porquê em toda aquela história. Queria agora imaginar o que o primo teria ido fazer no mar num frio de oito graus. Queria saber como ficariam seus tios. Queria conseguir tirar aquela dor pasma de dentro do seu coração. Queria mesmo saber porque ela tinha que sentir sua falta depois, durante e até antes de sua morte.

Mas agora, ela não entenderia nada. E a única coisa que ela realmente queria conseguir fazer, era esquecer.

Um refúgio no Jardim Tonato

A água fervendo; o molho de tomate temperado com a ajuda da filha; o frango quase ao ponto. Tudo preparado com muito esforço e cautela, afinal, as mãos já não são ágeis como há 10 anos, elas tremem. Cebolas, alhos, coentro. Todos os temperos utilizados por Dona Maria são cortados com muito sacrifício, isso quando ela mesma os corta.

O cuidado e a atenção com os movimentos tornaram-se parte de sua rotina, assim como o olhar alerto, carregado de emoções. Aos 49 anos, Maria Clara Dias anda com dificuldade e calcula, milimetricamente, cada ação que realiza.  Cozinhar, que era um hábito fácil e tranquilo, tornou-se uma barreira a ser quebrada diariamente a cada refeição que serve.

O motivo?  Aneurisma cerebral, diagnosticado precisamente em 2009, após uma crise. O aneurisma cerebral, uma doença genética, é a dilatação anormal em uma artéria cerebral que, quando rompe, chega a matar. O Dr. Drauzio Varella explica em seu site que “a pressão normal do sangue dentro da artéria força essa região menos resistente e dá origem a uma espécie de bexiga que pode ir crescendo lenta e progressivamente,” e que o maior risco que isso pode causar é exatamente a ruptura da artéria, hemorragia ou compressão das outras áreas do cérebro. O risco de morte é iminente, mas, quando o paciente consegue sobreviver a uma crise, retém as sequelas para sempre.

Dona Maria mora em uma comunidade carente do município de Carapicuiba, Jardim Tonato. A comunidade se constituiu em um terreno da empresa Savoy, o que, durante muitos anos foi um pesadelo: a ameaça de remoção das casas de lá fazia dona Maria dormir todas as noites na dúvida do que a esperaria amanhã.

A vida é regrada e cheia de impossibilidades por causa da doença; a esperança de conseguir um avanço, ou quem sabe um milagre, não existe mais. Talvez, o passado triste e difícil fez com que Maria perdesse todo o encanto na vida. Ou quem sabe, a falta de progresso, de possibilidade, atenção. A cura para sua doença não há. Além disso, apesar de sofrer crises constantes, como o hospital lhe deu alta, não consegue mais retirar os medicamentos gratuitamente, ou se apostar por invalidez.

Cozinhar é uma das formas que ela encontra para demonstrar o amor que tem pela família, pois o próprio foi esquecido há anos.  Na cozinha, apesar das limitações,  ela esquece os males que a vida lhe causou, todas as contas a pagar e os problemas a resolver. A cozinha é um refúgio, uma fuga perfeita do mundo real.

Maria cozinha para cessar a fome dos netos, da filha e do genro. Para saciar o desejo de vida que ela tem; vida esta que lhe foi tirada.

que bom seria se sempre fosse natal

Emília é artesã de sonhos. Fabrica árvores da natal, papais- noéis, guirlandas e trenós capazes de fazer brilhar os olhos de adultos e crianças como brilha os pisca-piscas que enfeitam a cidade durante o fim de ano. É baixinha, uma senhora de inquietude juvenil, quase infantil. Poderia ser facilmente confundida com um duende, desses que ajudam o bom velinho na produção dos presentes, se a imaginação adulta não tivesse tantas amarras. Todo mês de dezembro transforma sua casa em uma fábrica de criatividade: Torce o arame, dobra o veludo, dá laço na cordão dourado e faz surgir formas e personagens que transportam para a infância. Emília faz de sua vida, e da vida daqueles que convivem com ela, um natal permanente. Transforma tudo em arte. Se encontrar uma pinha no chão, no instante seguinte pinta de dourado e a transforma em um lindo objeto de decoração. Sabe que a linha que costura, une diferentes sentimentos. Por isso se esmera ao juntar folha, com conta e tecido. É sabia ao harmonizar cores, juntar tecidos. Sabe como reproduzir no presente os tons da memória. Mora em Brasília e é nessa época do ano que acha sua cidade mais bonita. Engana-se quem pensa que é por causa do espírito natalino que toma conta da todo o canto. Para ela, a coisa mais linda é ver sua cidade vazia, livre dos políticos que nessa época do ano voltam para suas terras de origem, e deixam a capital livre para que papai-noel estacione o seu trenó onde bem entendEmília é artesã de sonhos. Fabrica árvores da natal, papais- noéis, guirlandas e trenós capazes de fazer brilhar os olhos de adultos e crianças como brilha os pisca-piscas que enfeitam a cidade durante o fim de ano. É baixinha, uma senhora de inquietude juvenil, quase infantil. Poderia ser facilmente confundida com um duende, desses que ajudam o bom velinho na produção dos presentes, se a imaginação adulta não tivesse tantas amarras. Todo mês de dezembro transforma sua casa em uma fábrica de criatividade: Torce o arame, dobra o veludo, dá laço na cordão dourado e faz surgir formas e personagens que transportam para a infância. Emília faz de sua vida, e da vida daqueles que convivem com ela, um natal permanente. Transforma tudo em arte. Se encontrar uma pinha no chão, no instante seguinte pinta de dourado e a transforma em um lindo objeto de decoração. Sabe que a linha que costura, une diferentes sentimentos. Por isso se esmera ao juntar folha, com conta e tecido. É sabia ao harmonizar cores, juntar tecidos. Sabe como reproduzir no presente os tons da memória. Mora em Brasília e é nessa época do ano que acha sua cidade mais bonita. Engana-se quem pensa que é por causa do espírito natalino que toma conta da todo o canto. Para ela, a coisa mais linda é ver sua cidade vazia, livre dos políticos que nessa época do ano voltam para suas terras de origem, e deixam a capital livre para que papai-noel estacione o seu trenó onde bem entender.

Do céu a terra

“Uma vez escutei alguém falar assim: eu faço, sempre, uma poupança de bons momentos. Então, quando eu recordo estou aumentando minha poupança de bons momentos.”

Estatura média, cabelos na altura do ombro, roupas simples e um sorriso interminável. Logo à primeira vista, Maria Barreto já me parecia alguém excepcional, daquelas que você conhece e não se esquece de que um dia conheceu alguém assim.  Talvez seja pelos seus pontos de vista, ou pelo seu modo de vida.

Maria Barreto Zerwas começou ainda muito jovem sua carreira nos ares. Aos 22, em 1968 ela entrava na Vasp, como comissária de bordo. “Viajar não é somente você ser transportado pro outro lado, viajar é você perceber tudo em volta de você. As mudanças que têm – físicas, cultura, pessoas -… isso é viajar. Não é só conhecer, só ver o externo. É você pegar o ônibus e ir pra alguns lugares não só como turista”, explicava como quem sabia bem do que estava falando.

Um carro simples, branco, com o nome do jornal que criou há 7 anos: “Meio Ambiente & Animais”. Era um desses carros estilo “Saveiros”, com caçamba e cabine simples. Do Sesi de Carapicuíba, onde nos encontramos, iríamos juntas até a Câmara Municipal de São Paulo, onde participaríamos do I Seminário sobre Políticas Públicas, Direitos e Bem-Estar Animal. Ao abrir a porta do carro pilhas de jornais em cima do banco e no chão fizeram com que eu me sentisse prestes a, definitivamente, me inserir na vida da minha perfilada. “Me desculpe, eu estava entregando alguns jornais. Mas fique a vontade!”, pediu gentilmente enquanto colocava mais alguns jornais atrás do banco do passageiro.

Já aposentada, em 1998, aos 52 anos, Maria Barreto reuniu um grupo de protetores independentes e fundou a APAC (Associação Protetora de Animais de Carapicuíba). No ano seguinte, montou uma clínica veterinária para cuidar de animais de rua e os da população carente. A clínica sobreviveu por cinco anos e, sem recursos ou apoio municipal, fechou as portas em 2004. Em 2001, lançou o Jornal Meio Ambiente & Animais com o objetivo de educar a população, com mensagens positivas sobre a causa que luta. Ainda hoje, para imprimi-lo usa o dinheiro da aposentadoria. Provando eu ativismo na causa ambiental, não parou por aí, ainda montou pontos de reciclagem pelo município de Carapicuíba, passou a ministrar palestras educativas em escolas e, enfim, a dedicar grande parte da sua vida a 120 animais, entre cães e gatos que vivem em duas propriedades suas.

Mas essa é a vida dela agora, suas paixões de agora e suas futuras saudades. “Sinto saudade já, tenho certeza (eu não vou parar), desses momentos que estou aprendendo com os animais. Eles estão me ensinando. Eu ensinei tanto na aviação e agora os animais estão me ensinando”. E é essa aviação que ainda deixa saudade na vida de Maria Barreto.

Em meio a um trânsito absurdo na Marginal Pinheiros, ela trazia suas lembranças à tona, de maneira tranquila, profunda e apaixonada, mostrando a vida que costumava viver: “Eu recordo das minhas viagens. Tenho saudade de tomar um café, bater um papo legal, tomar uma cerveja, dos meus bons momentos. Pra mim saudade é viajar. É você conhecer novas pessoas, conhecer novos lugares. É gostoso sentir saudade, não é triste não, é alegria. Saudade pra mim não é aquele negócio de chorar, pra mim saudade é viver …Eu precisei fazer análise pra parar de trabalhar. Eu precisei me aposentar emocionalmente, porque eu amava minha profissão [de comissária de bordo], de atender, de ter contato com outras culturas, com outras cabeças”,

Maria deixou sua vida de comissária, basicamente, por três motivos: o primeiro era sua rotina, que por 25 anos a deixou ausente, em diversos momentos, de sua família, já que sua profissão fazia com que ficasse dias e noites fora de causa; a segunda razão foi a possibilidade de abrir novos caminhos para outros profissionais. “Na época em que me aposentei havia uma procura de emprego muito grande, eu sabia que ia dar oportunidade para que uma pessoa entrasse no meu lugar e fizesse algo maravilhoso, que é viajar”, comentou Maria; for fim veio a questão da idade para a profissão.

“Eu sinto saudade até do estresse. Não é como um escritório que você desce, sai e vai tomar um ar. Não. Você está numa situação difícil e vai continuar. Não tem escapatória. Não posso abrir a porta e ir lá fora tomar um ar. Tem uma situação de falta de ar, temos que resolver essa falta de ar aqui dentro mesmo, não é lá fora. Você entende? Isso dá uma aprendizagem, porque o ser humano é individual e cada um se apresenta de uma maneira”, declarava com um sentimento carinhoso que embalada sua voz.

No entanto, acostumada com o céu, ela via que existia a necessidade de passar por esse portal e conhecer a vida em terra firme. “Eu falo que nós éramos aeronautas. Eu precisava conhecer um pouco dos terráqueos, porque é completamente diferente. Quem entra na viação, a média pra alguém ficar são 5 anos. As pessoas entram na aviação com uma ilusão e depois percebem que não é só viajar. É horário, é compromisso, é o atendimento, o desgaste físico dentro de uma panela de pressão, porque é pressurizado. Sabe? É o ser humano, lidar direto, fechado, dentro daquele espaço de 12 hrs e ele estressado por vários motivos, é uma aprendizagem sem fim”, explicou.

A mudança do céu a terra foi algo extremamente marcante em sua vida, que, depois de viver em função das pessoas, passou a viver em função dos animais, do meio ambiente, da conscientização: “Servi 25 anos pessoas, não só servir de água, comida, palavra de incentivo, de tirar o medo, porque não é só fato de estar ali preenchendo o espaço. O serviço de bordo é isso, é preencher aquele vazio e o medo das pessoas. Agora, hoje, estou servindo aos animais. Eu acho maravilhoso. É rico até. Eu sinto assim: com essa experiência com o ser humano eu levei pros animais e eles estão me ensinando. Agora não sou eu mais que ensino ninguém. Hoje eu percebo que se eu tivesse esse conhecimento seria muito importante pra minha experiência com gente. Olha que incrível? Se eu tivesse feito invertido, o que não poderia porque a profissão exigia ser jovem. Mas se eu tivesse tido uma experiência de 10 anos, vamos dizer assim, dos 12 aos 22, com animais tenha certeza, eu tinha servido melhor ao ser humano”, apontava descrevendo o momento que ainda vive de maneira intensa.

Tendo a em vista a vida que ainda vive e aquela que pausou há alguns anos, Maria Barreto concluiu suas memórias de maneira simples: “Foi uma vida deliciosa. Eu estou com 65, mas com projetos voltados pra 100 anos. Parar é morrer. Então hoje eu sinto saudade, mas essa saudade não me impede de continuar.”

No meio das folhinhas de inverno

A antiga árvore de copa frondosa resiste ao tempo em frente à pequena casa branca. O muro baixo e o portão despretensioso destoam às muralhas da maioria das outras residências e prédios vizinhos.

Na tímida escada que liga a casa ao portão, uma senhora varre, concentrada varre as pequenas folhas que se acumulam no chão. A roupa confortável e a aparência despreocupada não indiciam a ocupação de professora universitária do curso de Direito. Naquele momento, o mais importante era reunir as folhinhas espalhadas na frente da casa.

- Eu molho sempre a árvore e junto folhas para adubo.

Parece que aquele espaço parou no tempo, esqueceu de se esconder atrás de muros e grades. Assemelha-se às cidades do interior do estado.

As plantas na frente da casa demonstram seu amor pela natureza. Pedaços de frutas se espalham pelo chão, e é possível ver alguns pequenos pássaros freneticamente em direção a eles. Todos os dias ela coloca um pedaço de mamão para que os sabiás, os bem-te-vis, as andorinhas e as maritacas venham comer.

- Aqui tem muitos pássaros por causa das árvores, isso é uma benção.

Convidada a me sentar, perto da porta em uma cadeira confortável de frente para minha anfitriã, passa a ser possível observar pelos vidros as estantes que vão de uma parede à outra, cobertas de livros. Ela se lembra de cada um deles, e os cita vez ou outra no meio da conversa:

- Eu sempre sorteio livros para meus alunos, para incentivar a leitura. Você já leu o livro “O direito à ternura”? É uma jóia.

No rosto, as marcas do tempo refletem seus setenta e quatro anos. Parte deles vividos como funcionária pública. Os olhos grandes contrastam com os cabelos castanhos de corte à altura das orelhas. Nunca deixa de se preocupar com a natureza. Uma de suas tristezas é a situação das árvores na metrópole.

- Elas estão comprometidas por cupins e precisam ser podadas, a gente enjoa de ligar para a prefeitura e nada.

Ah, as árvores. Centenárias e mal cuidadas a entristecem.

- A agonia das árvores é insuportável, incrível a resistência delas, a teimosia em resistir.

Os óculos passeiam dos olhos à mãos. A vassoura aguarda a hora de voltar ao trabalho, abandonado momentaneamente. Uma pilha de jornais velhos encostada está a espera da pessoa que sempre os leva à reciclagem.

- Falta às pessoas delicadeza, percepção, reflexão e poesia. Espera um pouquinho, vou te dar um presente de valor inestimável.

Devagar ela levanta, abre a porta de vidros basculantes, demora um pouco em meio a caixas e estantes cheias de livros, e volta com um pequeno volume entre as mãos.

- Toma, é uma cópia porque o livro está esgotado e eu só tenho um exemplar. Leia para entender como nossa sociedade está cheia de vários tipos de violência e com falta de consciência e amor. Você é uma gracinha. Tem uma caneta? Preciso registrar esse momento.

Pego a caneta, e ela escreve, uma dedicatória na capa do volume encadernado de “O Direito à Ternura”: Com admiração ofereço essa jóia! No meio das folhinhas de inverno…

Despeço-me. E posso ouvir enquanto me afasto que a velha vassoura voltou ao trabalho de reunir as folhas da centenária árvore, em frente à casa branca, na esquina de uma rua no bairro do Pacaembu.

O atual mais novo grande desafio de hoje

Às 04h30 a escada range e alguns passos sutis podem ser ouvidos indo em direção a cozinha. O corriqueiro café de manhã tem por obrigação um copo de leite com cereais e às vezes uma fatia de pão ou bolo. Nada mais que isso. Até que o ônibus passe às 5h para pegá-la nada de mais interessante acontece. Ela alterna entre a cadeira da cozinha e o sofá da sala, a fim de espantar o sono que nos primeiros anos a corrompia. Nilda Fernandes de Barros faz parte do imenso grupo de pessoas que conseguiu se estabelecer na capital paulista graças ao fordismo.

Durante 25 anos, ela trabalhou arduamente em uma das maiores montadoras de automóveis do mundo, a Volkswagen. Por lá pode subir de cargo conforme sua qualidade e esperteza eram notadas. Iniciou como auxiliar na montagem de portas dos automóveis e terminou ganhando o quíntuplo do que ganhava no começo, agora como chefe e fiscal do setor de montagens. Nilda sempre primou pela perfeição do seu trabalho, mesmo não possuindo um curso superior nem nada que justificasse seu aprendizado. Em seu 1,65m cabia muita força de trabalho.

Era, às vezes, sobre um caixote que Nilda podia acompanhar alguns discursos – os primeiros – do longo período de militância do atual presidente da república dentro daquela metalurgia. Lula, segundo ela, não trazia coisas boas em dia de discursos. “Era tudo muito subjetivo. Quando eu via, todos já estavam em volta do palanque ou banqueta, que era armado por ele [Lula]. Eu, pessoalmente, não nutro por ele qualquer admiração. Era um bom criador de discursos, todos bem objetivados e pertinentes aos problemas que nós metalúrgicos estávamos enfrentando nas semanas que antecediam aos discursos. Sempre foi um homem situacionista e persuasivo. Nada mais que isso.” Por um instante, ela para e sorri sutilmente. Ao perguntar o porquê do riso ela logo me responde. “Costumava ser tachada de burguesa por minhas amigas na fábrica só porque não gostava dele. Quem dera fosse.”

Mas, quando saiu, com dois de seus 15 irmãos, do interior e se mudou para perto da capital,em Santo André, não tinha qualquer pretensão. Pensava em ficar alguns meses, conseguir um dinheiro e voltar pro interior. Obviamente, não foi isso o que aconteceu. Nilda mora por aqui desde quando conheceu seu marido e hoje eles mantêm um sólido casamento há mais de 30 anos. Em casa, ele é considerado o seu pilar durante esse quarto de século em que trabalhou. Como saía às 5h e só chegava às 16h da tarde, não havia quem fizesse o almoço e cuidasse do casal de filhos que não seu companheiro. E na necessidade de acordar tão cedo ela sempre dormia às 20h, pontualmente, como tudo o que faz na vida. Logo, houve uma inversão de papéis e seu marido era quem cuidava da casa e dos filhos, quase que permanentemente. Não era de se espantar se durante uma semana inteira Nilda não tivesse contato com seus filhos, que estudavam à tarde.

Enquanto falava sobre sua vida, Nilda não deixava de lado a vaidade que traz consigo desde sempre. Ora prendia o cabelo, ora levava a franja atrás da orelha. E não ouse perguntar a idade. Nem seus filhos sabem ao certo. Na bolsa de apostas deles, aproxima-se dos 55 anos.

Indiferentemente da idade ou qualquer outra coisa, algo é certo: seu trabalho foi a base de tudo. Com ele adquiriu imóveis, automóveis – os quais, por ser funcionária, tinha vantagem de comprar direto da fábrica, sem impostos -, e pode hoje garantir uma vida digna a seus filhos que se formaram em Marketing e Publicidade e Propaganda. Nada em seu temperamento tranquilo e perspicaz ajudou mais que seu controle sobre o dinheiro que recebia. Sempre pode contar com economias, as quais possibilitavam nunca passar sufoco. Hoje, diz que se não fosse sua visão de futuro, dentro da fábrica e na própria vida, não estaria tão bem.

Com a aposentadoria obtida no começo de 2007, ela considera que sua vida teve muitos altos e baixos, mas atualmente ela opta, e opta sempre pelo melhor, que deixe a família feliz. Vai ao menos uma vez por semana a São Vicente, na sua casa de praia, ou a uma chácara que possui em Limeira, interior de São Paulo. Quando não está viajando, está em casa, enfrentando o seu mais novo desafio: a cozinha.

Nilda é uma daquelas mulheres que trabalham e cuidam da casa a vida inteira. A diferença é que ela fez um, agora se arrisca no outro.

 

 

 

 

Para que venham as Joaninhas

Cabelos bem branquinhos e brilhantes, rugas que expressam uma longa jornada de vida e ao mesmo tempo deixam a pele e a aparência terna e “fofa”, um par de óculos redondos que acentuam sua aparência de vovó, e uma postura, repousada em seu 1,50 m, um pouco curvada, que já resultou em algumas quedas típicas do corpo e da falta de atenção de pessoas dessa idade.

A última delas aconteceu na calçada do importante centro financeiro de São Paulo. “Sou chique, caí na Avenida Paulista”, disse dona Joanninha Santoro, a avó que peguei por empréstimo nos últimos três ou quatro anos.

Moro em sua casa, com meu namorado, desde quando me mudei para São Paulo, no início da faculdade. Pretendia ficar um mês, mas o aconchego de vó me fez ficar um pouco mais.

Desde então, passei a conhecer sua história pessoal, de seu nascimento, no bairro da Casa Verde, passando por sua infância —ao lado do pai, um carpinteiro italiano que a amava, e da mãe, uma alemã que falava pouco e cozinhava muito bem—à sua vida adulta: o crescimento ao lado da irmã, o casamento que terminou, a vinda para a Barra Funda, os quatro filhos, os muitos netos…

Joanninha, mais conhecida por dona Joana, teve uma vida de privações, segundo suas próprias palavras: não estudou, pois o pai não deixou e, ao registrar a si mesma em cartório, nem o próprio nome pôde escolher. “Não tinha certidão de nascimento e me registrei depois de crescida. Chegando no cartório, disse meu nome: Geovanina, escolhido por meu pai. O escrivão disse que eu não podia ter nome estrangeiro e me batizou de Joanninha, não abri a boca para falar um A”, relembra.

Das  vezes que, segundo ela, conseguiu ‘abrir a boca’, Joanninha se orgulha. “Meu pai não me deixou estudar, mas sobre minha irmã mais nova, essa eu falei para ele: eu não fui para a escola, mas ela vai”.

A história de São Paulo e do mundo, também pode ser vislumbrada pelo passado de dona Joana. “Eu andava de bonde e vi tudo chegar: rádio, televisão, geladeira, carro”.

“Quando era criança”, conta, “quando as carroças vinham, corria para a janela para olhar os cavalos subirem a ladeira e observar o casco das suas patas soltarem faísca”, contou várias vezes, sempre nos fazendo vivenciar uma realidade que nunca experimentaríamos, não fosse por ela.

De uma vida de privações, dona Joana passou a ter uma velhice cuja agitação causa inveja a muito jovem. Trabalhou voluntariamente, três vezes por semana, na área de costura do hospital das clínicas, atividade que desempenhou ao longo da vida, fazia parte de dois ou três grupos de coral e jogava cartas com as amigas quase toda semana. “Os médicos sempre falavam para mim: para continuar com saúde, nunca pare de trabalhar”, conta.

Até broncas já levei. “Não entendo você e o Cauê, em vez de saírem no fim de semana, irem para o teatro ou para o cinema, ficam em casa…”

Sobre as adversidade da vida, sobre seu jeitinho de avó preocupada, às vezes até demais, dona Joana sempre deixou claro: ‘Faz parte do meu show!’, dizia, arrancando risos de quem estivesse por perto.

Em uma época típica de trabalho no Hospital das Clínicas, dona Geovanina adoeceu e inesperadamente se foi, há exatamente uma semana.

Mesmo sem a proximidade de avó e neta, fico feliz por ter tido a oportunidade de conhecê-la e usufruir de seu convívio. Aproveitei bastante o que me ofereceu, quase como uma neta: aprendi a jogar cartas, a fazer crochê, nunca me perdia em São Paulo e escutei boas histórias. Confesso que em passeios que pude fazer só com ela, como no Mercadão Municipal, que não conhecia, adorava fazer de conta que ela era a minha avó de verdade. (mas ela era!)

Em sua memória, uma amiga da família, paisagista, deu a ideia de retormarmos os planos de construir uma horta vertical, de presente para a dona Joana, ideia que, não sei por que motivo, adiamos. Agora estamos engajados na empreitada: construir no quintal horta vertical bem florida, para que assim, nos visitem as joaninhas.

Nova tecnologia garante pureza e bela estética na reciclagem de garrafas PET

  Chega ao Brasil, através da Global Pet, uma nova técnica de reciclagem que promete colocar o Brasil no mapa mundial da reutilização de garrafas PETs. Com essa nova tecnologia as garrafas de plástico de lixões e aterros sanitários poderão ser reutilizadas com altíssima pureza e estética semelhante à original.

                O grande problema com o processo antigo de reciclagem era a estética final. “As características químicas e mecânicas já se conseguem recuperar hoje, ou seja, voltam a ser as mesmas do material virgem, porém a aparência ainda é um grande desafio”, disse O PRIMO DA Arioaldo Peronti, 37, um dos fundadores da Global Pet. “O material é um termoplástico e em cada reprocessamento sofre degradação e amarelamento”, concluiu ele.

                O plástico dessas garrafas pode trazer problemas para o planeta. “Jogado no meio ambiente, esse material traria transtornos como entupimentos de bueiros, poluição de rios, dentre outros”, disse Fernando Meneses, 33, funcionário da Global Pet.

                Infelizmente no Brasil, a qualidade do material para reciclagem é péssima. Enquanto em diversos países da Europa as garrafas chegam através de um processo de seleção, em solo nacional o material que irá ser reciclado vem de lixões, aterros e depósitos. Isso torna o produto mais contaminado e consequentemente dificulta o processo de lavagem.

                O que preocupa em um caso como esse é a monopolização da tecnologia. “Não podemos deixar apenas que essa empresa desfrute desse processo. É algo muito interessante e que só tende a ajudar a todos nós”, disse Marcello Zaveri, 23, advogado. “Com diversas empresas reciclando juntas com essa técnica, a construção de PETs virgem será cada vez menor”, concluiu.

                Não é surpresa para ninguém que a reciclagem é uma das principais maneiras de tornar nosso mundo sustentável. A possibilidade de poder utilizar novamente garrafas de plástico que usamos diariamente, irá tirar do meio ambiente PETs que poderiam demorar até 250 anos no meio ambiente até se decompor.

Uma paixão verdadeira

Desde criança, Rafael tem gosto pela luta. Começou a fazer judô quando tinha apenas 5 anos. Fazia aulas extracurriculares na escola onde estudava.

Alguns anos depois, entrou em uma academia chamada Eikokan, que fica no bairro de Santo Amaro, mas resolveu inovar e entrou no Karatê.

Depois de um ano de treino e uma mudança de faixa, Rafa resolveu participar do Campeonato Paulista de Karatê ficando em oitavo lugar na colocação, na categoria peso pena.

Depois de ganhar a competição, o garoto se desinteressou pelo Karatê, “Karatê era muito sem graça, sem ação”. Então, migrou de luta e de academia- foi fazer Defesa Pessoal junto com Boxe. Um ano depois, seu professor foi demitido e, mais uma vez trocou de luta, dessa vez foi para o Jiu-Jitsu.

Então, quando Rafa estava com 14, teve sua vida abalada por completo devido à morte de sua mãe. Mas, apesar de todo o sofrimento, não desistiu da luta.

Fazendo aulas particulares por dois anos e meio, Rafa se inscreveu no Campeonato Internacional de Jiu-Jitsu. Com 16 anos, foi campeão na categoria peso pena juvenil, federado pela Companhia Paulista de Jiu-Jitsu.

Depois de sua evolução na luta, Rafa decaiu e entrou para o mundo das drogas e do tráfico. Mesmo com a família ao seu lado, dando todo o apoio necessário, ele recusava-se a aceitar o que tinha acontecido e se afundava cada vez mais em seu vício. Usava drogas pesadas todos os dias, o que prejudicou muito a sua vida.

Por conta da quantidade de drogas que utilizava, Rafa ficou muito doente. Além de problemas de saúde, seus estudos também acabaram ficando para trás.

Foi então que ele conseguiu enxergar o que estava fazendo com a própria vida. “Eu estava no fundo do poço”, disse ele. Assim, por vontade própria, resolveu sair do buraco no qual havia se colocado. Ele se converteu para o evangelismo encontrou mais força para sair dessa vida.

Hoje, Rafa está com 17 anos, conseguiu um emprego e voltou a lutar Jiu-Jitsu. Está terminando o terceiro ano e prestando vestibular para Engenharia.

Rafa teve a luta presente em todos os momentos de sua vida. Nos momentos felizes o preparava e servia como base. Nos momentos tristes, estava lá para dar o suporte que estava precisando. Enfim, era uma criança que foi obrigada a amadurecer de um dia para o outro e escolheu a luta como seu refúgio.

A arte de efeitar a casa para o Natal!

Não que tenhamos uma tradição natalina. Na verdade, sempre senta uma com paciência e arruma os enfeites, sozinha. Nesta família ninguém tem muita paciência para o Natal. Come, distribui presentes, dorme. Comentei que queria aproveitar o feriado para arrumar dessa vez.

Como se fosse um milagre de natal, ou não, minha irmã veio comentar que o namorado dela ficou depressivo quando ela contou da minha vontade. “Não comemoram na casa dele”, me contou ela com pesar.

“Eu vou montar ela hoje, só preciso ir à Americanas comprar uns enfeites baratinhos e mais bonitinhos, tem uns muito velhos aqui em casa”, completei.

Que fique claro que o milagre não é a falta de comemoração na casa dele. O milagre foi como essa declaração afetou nossa casa. Minha irmã e minha mãe logo estavam arrumadas para irmos à loja, apesar da chuva torrencial que caia em Poços. Empolgadas, escolhemos tudo juntas, das bolas vermelhas e douradas, a um novo estilo de guirlanda. Luzinhas de árvore: fazia tempo que não eram vistas; foram quatro caixas.

Quando chegamos a casa, minha outra irmã já havia chegado de São Paulo. Sentamos na sala e ficamos esperando o namorado da mais velha. 10 minutos… 20 minutos… meia hora… 2 horas… Mesmo conversamos, estávamos cansadas de esperar. Havíamos comprado muitas coisas. Percebendo nossa ansiedade, minha vó desceu de sua casa e se juntou na sala conosco. Pela primeira vez, sentamos as cinco e arrumamos o Natal. Quem imaginaria…

Sentei no chão arrumando a árvore, Tatiana arrumava as velas e Patrícia arrumava as cortinas com festão. Minha mãe palpitava e ria das piadas de minha vó. Tatiana se concentrava nos laços e para não pensar besteira quando Dona Dilce dizia para arrumar a “vela com duas bolinhas, vai ficar bonitinho”. Patrícia era acusada de ladra de bolinhas. Eu deixava espaços vazios na árvore.

Por fim, quando o namorado chegou, estava tudo praticamente pronto. Minha vó, esperta que só vendo, pediu para ele ajudar nos festões com Patrícia.

“Sou professor de educação-física, não decorador”, explicou de forma sarcástica Wagner. Dona Dilce não deixou passar e logo disse que também não era decoradora. Ele levantou e subiu na cadeira para ajudar minha irmã. Depois disso, a velhinha sacaneava com ele direto.

“Oh, senhor professor de educação física… faz isso… faz aquilo…”.

Pela primeira vez, as cinco estavam montando o natal e realmente se divertindo com aquilo. Ele pode não comemorar na casa dele, mas na nossa fazemos questão!

Dores de Menina

O cheiro de comida e o barulho da máquina de lavar acompanham seu dia – dia. Na cozinha quente, embaçada pela fumaça da panela de pressão, é onde Vilma passa a maior parte do seu tempo. Suas mãos rachadas esfregam uma bucha esfarelada em movimentos contínuos e circulares para lavar os pratos. De repente já são duas da tarde, mas ainda falta lustrar o chão de tacos e espanar as persianas frágeis que sacodem e assobiam comandadas pelo vento.

Ela sempre está atrasada e coordenada pelo tic tac do relógio. O telefone, posicionado ao lado dos retratos de família, toca. Vilma não atende, está atrasadíssima e além do mais ela detesta falar ao telefone.

As cinco e meia da tarde costuma ir a Igreja Coração de Maria, localizada próxima a Avenida Angélica no bairro Higienópolis. Para chegar lá anda exatamente três quarteirões. Antes de sair sempre fala: “Deus te abençoe meu filho”, e o porteiro responde: “Amém”. Logo que sai do prédio, cumprimenta o chaveiro gordo, anda mais um pouco e acena para Tereza, cabeleireira da rua . Chega à porta da Igreja e, antes de começar subir as escadas, faz o sinal da cruz.

Sobe as escadas, entra, se ajoelha e reverencia o altar. Senta no segundo banco perto do pilar, ao lado do coral, e reza o terço. Durante a missa seu pensamento viaja de São Paulo para Curitiba onde está sua filha e netos. A saudade aperta seu coração. Mas imediatamente se concentra na “Ave Maria”.

O que mais deixa Vilma em pânico, por incrível que pareça, não são os sete pecados capitais, mas sim, temporais e raios! Durante as chuvas não liga o secador ou qualquer tipo de aparelho eletrônico. A empregada doméstica, Vilma Alves, perdeu seu pai com um raio na cabeça. Talvez isso tenha relação, não?

Na cabeceira ao lado de sua cama vemos uma barbie que conforta a falta de brinquedo em sua infância. Quando criança suas bonecas eram tocos de árvores, e por uma triste ironia do destino, foram os mesmos tocos que atraíram um raio para cabeça de seu pai.

Depois de noventa anos, o grito de “é campeão” sai da garganta dos torcedores lusitanos.

Demorou, mas o grande dia chegou! Pela primeira vez em sua história a equipe da Portuguesa comemorou um titulo de expressão nacional. A série B, do campeonato brasileiro de 2011, vai ficar para sempre na memória do torcedor lusitano.

A equipe chegou desacreditada ao Brasileirão, sua torcida estava desesperançada devido a péssima campanha no campeonato estadual, o Paulistão.  Para piorar a situação, a diretoria repatriou Edno, jogador que saiu do time em 2008, brigado com a torcida e a diretoria.

Logo na primeira partida, a Lusa, como é conhecida carinhosamente, fez quatro a um sobre a equipe do Náutico, no Canindé. O público pagante da partida não chegava nem a dois mil torcedores.  Foi o primeiro passo! A torcida não sabia, mas a partir desse momento a Portuguesa não sairia do G4 até o final da campeonato.

A cada jogo que se passava, a equipe se mostrava mais entrosada dentro de campo,  o futebol era ofensivo e muito disso se deve ao técnico Jorginho, que desde o inicio dizia que a equipe estava na competição para ser campeã. Pouco a pouco, o time caia nas graças da temerosa e impaciente torcida Leões da Fabulosa.

A Portuguesa jogou o futebol mais redondo do Brasil durante o campeonato nacional, prova disso é o fato da imprensa chegar a comparar a equipe com o Barcelona da Espanha, considerado atualmente o melhor time do mundo. Nesse momento nascia a Barcelusa, liderada por Lionedno Messi, trocadilho ,também feito por jornalistas, entre o nome de Edno, atacante da Lusa e Lionel Messi, atual melhor jogador do mundo, que atua na equipe do Barcelona e na seleção Argentina.

A partida contra o Sport de Pernambuco sacramentou o titulo da equipe paulista, com quatro rodadas de antecedência. Nesse dia o Canindé estava em festa, o estádio estava ocupado por mais de vinte mil torcedores.  Dentro de campo, apenas um empate, mais nada que colocasse água no chope português.

Esse Brasileirão não sairá tão cedo da cabeça dos torcedores, esse time guerreiro, de futebol rápido e ofensivo marcou uma geração. Essa é a prova que dentro de campo que se conquista uma torcida, ora pois!

Terra do Nunca

Pulou. Correu. Saltou no bloquinho – caiu uma moeda. Saltou no bloquinho – caiu outra moeda. Correu, subiu no bichinho verde, pulou a flor assassina, comeu o outro animalzinho marrom com a língua do bichinho verde, tudo isso incentivado aos gritos de João, que controlava o seu Super Nintendo:

- Vai Mário, vai seu cretino!

Quando, foi interrompido pelo som ecoado vindo da cozinha:

- Joããããão…Hora do almoço!

- To indo mãe, só mais essa fase!

A fase durou mais 45 minutos, o que fez com que João tivesse que esquentar sua comida no microondas.

- Mãe, não gosto de feijão.

- Mas você tem que comer, isso faz bem para você.

- Mas eu não quero.

- Dane-se.

Como um cão com o rabo entre as patas, acatou o pedido da mãe e fez cara feia. Terminou a comida e foi para a internet. Esqueceu-se da lição de casa. Lembrou da lição de casa. Não fez a lição de casa. Preferiu entrar na sua fazendinha virtual, em seu computador estampado com adesivos de desenhos animados. Conectava-se e perdia a noção do tempo. Olhos vidrados na tela, mão direita no mouse e cabeça completamente em outro mundo.

Quando menos percebeu, já eram 21 horas e percebia-se a luz dos faróis virados para a garagem – papai havia chego. Cansado, já preparava-se há anos para se aposentar. Mas não conseguia.

João colocou seu boné para trás e foi para a sala conversar com a família. Não falava muito, apesar de entender o que sua mãe e seu pai discutiam. Voltou para seu quarto.

- Levanta essa calça, menino – dizia o pai

- Ah pai, não enche.

Calças caídas, camisetas enormes e cabelo desarrumado. As unhas desgastadas de coçar a cabeça cheia de piolhos só deixavam o aspecto de João mais de vagabundo ainda. Seu quarto, cheio de pôsteres de filmes e animês. Na estante, o boneco do Batman encabeçava uma seqüência de colecionáveis que João mal lembrava de ter comprado. O cheiro, característico, era uma mistura de meias, cuecas, roupas sujas, com salgadinhos e bolachas que comera na noite anterior antes de dormir.

O pijama, era de ursinho, com uma mancha vermelha – de ketchup, na altura do umbigo. Antes de deitar, o ritual: ligava o videogame pela última vez para tentar passar aquela fase do Mário.

Dormiu, mas acordou cedo. Por que João, com seus 36 anos de idade, precisava procurar emprego no dia seguinte.

Um brasileiro vencedor

Em um espaço cultural repleto de lazer, cultura e entretenimento, provavelmente, poucos param para reparar em um sujeito de modos muito peculiares. Um homem de traços nordestinos, vestido de terno e gravata, com cabelos e olhos pretos, estatura média, pele morena e marcas de uma vida sofrida no semblante. Essa é, certamente, a primeira impressão que podemos tirar do gerente da lanchonete Grafiti, localizada no Centro Cultural da Vergueiro.

Aproximando-se dos 35 anos, no auge de sua carreira como microempresário, tem em sua história de vida uma narrativa que se alicerça em grandes dramas humanos, como a infância na roça, a adolescência a frente de uma pequena mercearia, a perda trágica de uma irmã, a rotina, o desgaste dos relacionamentos, a amizade culminando com a separação de tudo isso e a decisão mais importante: a vinda para São Paulo. Um enredo tecido com as demandas íntimas mais corriqueiras do ser humano, mas sob uma ótica pessoal e transformadora.

Esta é a história de vida de um homem que na busca por um ideal acaba por encontrar a si mesmo. Esse é um dos treze filhos – dos quais oito já morreram – de dona Conceição e senhor Patriarca, nascido na cidade de Aracarú, no estado do Ceará, em novembro de 1977. Sua infância foi marcada pelo aprendizado do manuseio da roça, a alimentação, o sustento com frutos da terra e, junto com seus irmãos, a lida no mar como pescador.

Teve uma adolescência bem dura, pois acordava, ainda com a noite alta, para dar início aos trabalhos da terra. Quando o dia clareava, caminhava muito até chegar à escola, afinal não havia estrada, nem transporte. Mais velho, iniciou o comércio de uma mistura de bar com mercadinho, enquanto seus outros irmãos migravam para a capital de São Paulo, aventura essa que em nada lhe seduzia. Nesse seu mundo ele tinha a proximidade dos pais e da irmã, era muito disputado pelas moças da região e era tido como um próspero comerciante.

Com a trágica morte da irmã, com a qual tinha mais afinidade, passou a ter uma idéia fixa, uma obsessão de desligar-se de tudo o que o fizesse lembrar dela. Imediatamente aceita o convite do irmão mais velho e decide vir se juntar a ele em São Paulo. Tal como os outros irmãos, tem neste mais velho a figura de pai e na cidade grande, tudo que decide fazer, submete-se a avaliação e aprovação do próprio.

A princípio tem a idéia de ficar apenas por um ano, onde juntará dinheiro para pode montar uma bicicletária (transporte mais moderno na época da região), mas os meses se passam e ele desiste de voltar. Deixa em definitivo seu pequeno comércio para sustento de seus pais.

Aqui em São Paulo foi contratado como garçom para prestar serviços no bar café da Sala São Paulo, situada na Estação da Luz. Ocupou inúmeros cargos sempre se destacando pela sua dedicação, assiduidade, freqüência e responsabilidade. Conta, orgulhoso, que nunca adoeceu a ponto de precisar faltar no serviço. Tornou-se gerente na lanchonete Graffite, onde veio com a missão de “colocar a casa em ordem”.

Autor de várias mudanças promoveu o saneamento financeiro, modificou a logística dos ambientes, introduziu a racionalidade nos custos, administrando tudo isso com um grupo de 21 empregados. Dedica-se de 12 a 15 horas por dia e está presente nos dois turnos dos funcionários. Apesar de ser austero na administração da lanchonete, ao mesmo tempo é um chefe camarada e querido pelo grupo de servidores. Também é respeitado e prestigiado pelos usuários do estabelecimento.

Rápido no raciocínio, apesar de não ter completado o ensino médio, é imbatível em qualquer cálculo. Centralizando tudo se preocupa em ampliar as oportunidades, principalmente, para as pessoas de meia idade, pois avalia que os jovens de hoje não tem muito interesse e empenho.

Todas as noites busca sua esposa na faculdade, retornando para casa por volta da 1h. Às 5h30 já esta pronto para a nova jornada.  Tem como lema que é preciso trabalhar firmemente para melhorar a vida.

Afirma que o trabalho é um instrumento fundamental para o desenvolvimento econômico e social para qualquer pessoa. Almeja a compra de outras casas para alugar e também trocar de carro todos os anos.

Visitou recentemente sua cidade natal e constatou que, de algumas décadas para cá, houve muito progresso, mas ainda oferece uma vida tranqüila e pacata na qual é preciso pouco para se viver bem.Rompendo com as fronteiras de tempo e local, ele se permitiu ampliar consideravelmente o acesso a uma vida melhor.

Sustentado por sonhos

Acorda as 7:00 da manhã com o despertar do rádio relógio. A rotina é sempre mesma , beija a mulher ao lado e toma sua ducha matinal .No café não come nada , só bebe meio copo de suco de acerola e sai depressa .

No trajeto de casa para o trabalho , ele ouve seus mais preferidos CDs do Iron Maiden , se estressa com o trânsito , e xinga baixo alguns motoristas descuidados.Veste sua famosa camiseta larga ,calça jeans ,tênis de skatista , boné ,óculos de grau ,e muitos colares , brincos e anéis .No trabalho é sério e compenetrado , fala ao telefone , conversa com a estagiária e verifica minuciosamente suas obras de arte.

Cristiano Miranda , mais conhecido como Chrys, é um mineiro de 35 anos , que hoje é dono de uma das mais importantes oficinas de customização de motos do país , a Garagem Metálica. A sua rotina é frenética e sem muitos descansos , isso tudo para proporcionar um produto de qualidade para seus consumidores.

Saiu de Três Pontas , Minas Gerais pela primeira vez com 12 anos ,para conhecer várias cidades brasileiras, se aventurando em ônibus e trens , sozinho sem auxilio de nenhum adulto.Com 14 anos vez sua primeira tatuagem e aos 15 seu primeiro piercing.Três anos mais tarde , agora adolescente , o mineiro do interior , resolve procurar algum propósito para sua vida , e decide ir para Israel , no qual morou em kibutz durante um ano.

Dois anos mais tarde ,não satisfeito com sigo mesmo em relação a uma formação profissional,ele decide viajar novamente e encontra nos Estados Unidos , mais precisamente em São Francisco , sua profissão.Lá fez um curso na fábrica da Harley-Davidson , no qual trouxe para o Brasil a arte da customização. Viveu na América do Norte por mais de 8 anos , e foi lá que conheceu sua esposa , amigos , e principalmente tudo que sabe sobre motos .Além disso Chrys se aventurou na arte corporal , e fez um curso de tatuagem e de piercing .

Mas depois de oito anos , a saudade falou mais alto , e a falta do seu país e familiares vez com que ele retornasse ao Brasil ,ao lado de sua esposa Daniella Pizetta , e com um sonho de abrir o seu próprio negócio.

Entretanto , seus sonhos acabaram sendo adiados, pois por problemas familiares , ele teve que trabalhar em um escritório , para ajudar a família . E foi nesse momento que ele perdeu um pouco da sua personalidade , pois o coturno , a calça larga ,e os cabelos compridos ao vento que faziam parte da sua vida, tiveram que ser trocados por terno e gravata , sapato bem ilustrado ,e cabelo presos empastados de gel .

Alguns anos mais tarde ele deixou o cabelo empastado,e abriu um negocio de sociedade , com o que tanto sonhava ; motos . E foi daí pra frente , que tudo deu certo para o menino diferente que saiu do interior. Hoje ele é proprietário da Garagem Metálica , organiza concursos de skate , e faz parte de encontros de motos pelo mundo inteiro.

As pessoas que conheceram o Cristiano , na infância , sabiam que o menino do interior , certamente iria virar o menino do mundo , pois era claro que ele se sobsaia entre os outros , que suas idéias eram diferentes ,e que seu jeito de pensar e de vestir chamavam a atenção.

E mesmo hoje, com um pai que desapareceu, uma mãe que sofre problemas psicológicos, e irmãos que se perderam no mundo, ele sabe e tem a certeza, de que ele realizou apenas um de seus sonhos, e que muitos outros ainda viram.

O Cristiano de hoje é o mesmo de vinte anos atrás, tirando algumas marcas de expressões do tempo , só que agora um homem ao invés de um menino , um homem que não largou o tênis , a calça larga , e o jeito rebelde , um homem que sonha , e luta por seus ideais , um homem que sofre preconceito por ter pelo corpo mais de 25 tatuagens, e um homem que é exemplo para muitos outros.

A Leoa e suas faces mulher, filósofa, atrevida.

“Ela surgiu como uma surpresa entre os alunos do departamento de filosofia na Rua Maria Antônia. Destacou-se de tal maneira que logo se tornou uma candidata óbvia a uma bolsa de doutorado na França e a ser professora da casa. De fato, você chegou lá a tempo de pegar os eventos de 68 em Paris e de voltar a tempo para participar dos eventos na Maria Antônia. Pouco antes de seu mestrado sobre Merleau-Ponty, todos na banca falavam sobre os excessos de sua redação e suas ideias, reclamando por maior compreensão e acabamento. Só que esses são traços de uma personalidade intelectual que não é a sua. Ainda não se podia classificar um estilo Marilena Chauí. Mulher, filósofa e atrevida. Seu orientador, Prado de Almeida comentou: Marilena é uma leoa…”

Enquanto ouvia uma de suas melhores amigas relembrando sua trajetória de vida em meio a pequenos causos de bastidores, Marilena Chauí admirava suas mãos marcadas pelo tempo. Ela tentava entender como tudo tinha passado tão rápido, desde aqueles fatos até aquele minuto singular, onde estavam diante de si mais de 300 pessoas que a celebravam com o olhar.

Sua fala aconteceria dentro de poucos minutos, porém ainda pensava sobre o que seria interessante de se dizer para um público tão misto de amigos e estudantes. Estes até se aglomeravam pelo chão, em um início de noite de uma quinta-feira de novembro, naquele auditório na Casa da Cultura Japonesa, na Cidade Universitária. Lembrou-se de seu neto e resolveu começar por ele.

Eu não sabia o que falar. Disse para o meu neto Guilherme, acho que vou ficar em silêncio. E o Gulherme me olhou dizendo “improvisa, Lele!”.

Em pouco tempo de doce senhora, passou a mostrar seu atrevimento.

[sobre a opressão das classes dominantes que se torna falta de políticas públicas do Estado e de assistência do judiciário – em entonação ascedente] É dessa forma que as desigualdades entre homens e mulheres, brancos e negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos são considerados normais. A existência dos sem-terra, sem-teto e desempregados é atribuída à ignorância, a preguiça e incompetências desses desfamigerados. A existência de jovens de rua é entendida como tendência natural dos pobres a criminalidade. Os acidentes de trabalho são delimitados a incompetência e ignorância dos trabalhadores. As mulheres que trabalham, não sendo professoras ou assistentes sociais, são consideradas prostitutas em potencial, enquanto as prostitutas degeneradas, perversas e criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar a santidade das elites.   

A fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT) e ex-secretária municipal de cultura durante a gestão Erundina conseguiu realizar uma fala inflamada e apaixonante sobre democracia, igualdade, liberdade e justiça social ao longo de uma hora e meia. Interrompida em vários momentos por aplausos, não poderia ter finalizado com saraivada de palmas de minutos, com todos os presentes de pé. Era a coroação da leoa.

Atualmente, Marilena Chauí é professora das áreas de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – a FFLCH-USP. Considerada um dos maiores expoentes do pensamento intelectual brasileiro é respeitada não apenas por sua obra acadêmica, mas também pela intensa e frequente ação no âmbito do pensar social e fazer político brasileiro.

A história de um homem invisível

Entre uma conversa simpática, um simples “não” e um desanimador balanço horizontal com a cabeça, um homem aparece, pela Rua Higienópolis, carregando sua carroça, ocupada por caixas e pedaços de papelão, um balde de plástico e alguns jornais. Nada de anormal, perto dos tantos outros carroceiros que passam pelas ruas da região.

Sua aparência também não desperta atenção. O senhor de 62 anos, com cabelo grisalho, barba por fazer, e com alguns dentes ausentes, é mais um dentre tantos outros que sobrevivem através do garimpo pelas ruas da cidade de São Paulo, exceto quando conduz a palavra para quem o ouve. José Roberto Luis Caetano não é um daqueles gênios incompreendidos perdido pelo anonimato das calçadas; longe disso, mas a sua consciência parece ser diminuída e desperdiçada no ambiente insólito que vive.

Zé Roberto nasceu na divisa de Minas Gerais com São Paulo. Não poderia ser diferente. “Minha família é um saco de gato. Minha mãe era do Rio, meu pai de Minas. Só não nasceram no Paquistão porque não deu tempo pra chegar lá”, brinca.

Mineiro de nascimento, mas paulistano de criação, Zé Roberto cresceu em uma casa conservadora de classe média, ditada por regras e costumes, que iam de encontro ao seu espírito rebelde, contaminado pelo final da década de 60. Próximo a sua maioridade, com 17 anos, ele começou a conhecer a vida que acontecia do lado de fora dos portões de casa. “Comecei a beber. Bebia cachaça com os carroceiros”.

O cenário da época, com movimentos estudantis por todo o mundo, influenciou muito Zé Roberto nessa época. O desencontro com a postura de sua família conservadora o fez se alistar no exército em 1968, na busca de “explicações e respostas”.

Após trabalhar com argamassa, na construção civil e até de taxista, Zé aumentou o número das estatísticas de pessoas em situação de rua. Morou entre as calçadas e viadutos da região central de São Paulo por dez anos. E foi lá que encontrou as respostas de assuntos que tanto o afligiam na época da adolescência: o comportamento humano. Convívio com outros moradores de rua o fez construir um estudo antropológico, mas que ele ainda não sabe. “Nós (humanos) já somos violentos por natureza”. Assim ele explica a principal dificuldade em se morar na rua. “O pior de morar na rua é conviver com o próprio morador de rua. Ele põe fogo na sua carroça, te dá uma facada pra conseguir algo”.

Com o mesmo descontentamento que ilustra a triste violência das ruas, ele enxerga, com empolgação, a mais pura cordialidade no morador de rua. “Onde eu trabalho, aqui na rua, eu vejo qualidade, respeito, um sentimento mais nobre no cara que está na rua, drogado. Eles têm valores”.

Alcançando os 60 anos, Zé Augusto deixou de lado os caprichos que levava desde a adolescência. A rejeição de ordens e limitações de horários, que até então o afastava dos albergues, teve de ser acatada pela limitação física que a idade carrega. Desde o aniversário sexagenário, ele vive em um abrigo para idosos no Brás, Rua Assunção, número 480.

Sobre a assistência social dada às pessoas em situação de rua, Zé Augusto elogia o atual prefeito, Gilberto Kassab. “Por mais defeito que tenha, reconheço que ele tem feito alguma coisa para nos favorecer”. A Casa de Simeão que ele utiliza para dormir e realizar suas necessidades higiênicas, onde é capaz de atender 180 idosos, é um dos mais de trinta abrigos espalhados pela cidade de São Paulo. “Tem um monte de gente que vive na rua porque quer. Se alguém disser que está desalojado é história”. Para ele, o motivo é o mesmo: “o estabelecimento de regras”.

Onda verde contamina argentinos

Faz calor na Argentina. Não é difícil caminhar pelas praças e parques e ser pego por um cheiro de algo parecido com mato queimado. A marola está a solta no país de nossos hermanos. Esse cenário, entretanto, seria impensado na mesma época, há cinco anos.

Em 2006, cinco jovens foram presos por portarem três cigarros de maconha, o equivalente a cinco gramas da erva. À época, a punição aplicada era de dois anos, no entanto, a absolvição dos garotos pelos juízes deu margem para uma discussão acalorada sobre a droga no país. O caso Arriola serviu como base para que, em 2009, a Suprema Corte argentina declarasse descriminalizado o porte em pequenas quantidades da droga, assim como o consumo em ambientes fechados. Se em 2007, quinze pessoais saíram presas da primeira Marcha da Maconha realizada no país, com pouco mais de um mil manifestantes; neste ano 15 mil pessoas foram às ruas de Buenos Aires gritar pela “Legalización”.

O debate acerca do assunto parece caminhar cada vez mais rápido à regulamentação da maconha no país. Pelo menos é o que espera a contadora Laura Fazzini, 30 anos, autodenominada “careta”. A moradora de Rosário acredita que “há coisas piores e que são legalizadas, como o cigarro e bebidas alcoólicas”. Para Laura, mesmo com a ampla discussão que o assunto tomou nos últimos anos, as leis continuam confusas. “Acredito que o país não saiba lidar muito bem com proibições. É proibido o consumo livre da maconha, mas facilmente você encontra alguém fumando na rua. E se a polícia pega, o comportamento varia em cada caso”, afirmou ela.

É justamente essa contradição que a estudante de jornalismo Olivia Papa, de 20 anos, reprova. Segundo ela, há dentro da sociedade uma troca de valores, que torna as leis igualmente atrapalhadas. “O tráfico é mais organizado que o próprio governo. Há quem defenda a lei do usuário, mas se ele está em posse de algo é porque alguém o forneceu”, disse a jovem estudante de jornalismo. Olivia não acredita no argumento de que a maconha não é prejudicial à saúde. “Se não fizesse mal, não seria chamada de droga. A maconha pode servir de incentivo e atalho para as pessoas experimentem coisas mais pesadas”, concluiu.

Ao andar pelas ruas da capital argentina, basta ter um pouco de atenção para perceber a percussão que o tema tomou na sociedade portenha. Entre as esquinas de Buenos Aires, não é difícil encontrar os famosos growshops – existem 15 na cidade -, lojas que vendem qualquer tipo de coisa relacionada ao cultivo da maconha, exceto as sementes. Nas bancas de jornal, a planta é estampada em duas revistas especializadas, a THC e a Haze, que possuem tiragens mensais de 35 mil e 15 mil, respectivamente. As publicações trazem variados temas ao leitor, como dicas para o plantio, receitas gastronômicas, entrevistas com personalidades e até a marihuana na gravidez e na terceira idade.

O produtor musical Luis Fernando Medina, 25 anos, é colecionador da revista THC desde que se mudou para o país, há dois anos. Nascido na Venezuela, Luis Fernando é usuário de maconha desde os 17 e garante que o consumo regular da droga nunca o prejudicou, “sou perfeitamente normal, estudo para as provas, me esforço no trabalho, me dou bem com meus pais”, afirma ele. Luis acredita que o debate em torno da erva envolve muitos outros assuntos. “O trabalho que a polícia tem com os usuários poderia ser o mesmo para pegar os grandes traficantes. O dinheiro que corre na guerra contra o tráfico poderia ser usado para projetos de educação e saúde, por exemplo”, explica.

No caminho certo ou não, no quesito maconha, a Argentina está muito a frente em relação à maioria dos vizinhos sul-americanos. No Brasil, o tema começou a tomar proporções maiores somente esse ano, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se tornou um dos porta-vozes do assunto pelo mundo e a Marcha da Maconha em São Paulo foi notícia devido a pancadaria de manifestantes com policiais e algumas prisões. Já na Venezuela, a marihuana ainda é um tabu. “Há ainda muita ignorancia por parte das pessoas. Não há discussão sobre o assunto. Esses dias saiu a notícia de que um rapaz poderia pegar dois anos de prisão por portar algumas sementes”, afirma Luis Fernando, que não vê a hora de “colher os frutos” da planta que cultiva por dois meses em solo argentino.

Um grande garoto

Cinco homens ao redor de uma tela de computador, gritando. Com certeza você imagina duas coisas: mulher ou futebol. Não desta vez. O assunto era o surf. Naquela tarde, fãs da modalidade passaram por uma felicidade sem igual. Na tela do computador era a bandeira verde e amarela que estava nas mãos de Gabriel Medina, no lugar mais alto do pódio em uma das etapas do ASP Men’s Tour em San Francisco, Califórnia.

Não existe cenário melhor para contar a história deste garoto do que o surf. Atualmente, o surf mundial.

Tudo começou em 1993. Aos 8 anos tinha o sonho de ser jogador de futebol, assim como a maioria dos garotos, mas Gabriel criado nas ondas de Maresias não demorou muito para alcançar os campeonatos de elite.

Seu surf, técnica e estilo mostram que a vida o levou para o caminho certo. Aos 15 anos ingressou no circuito mundial de surf e passou a competir com grandes nomes da modalidade, como Kelly Slater.

Era segunda feira e começo de novembro, quando Medina fez uma apresentação de gala e conquistou mais um título para o surfista de apenas 17 anos. Foi a segunda vitória em quatro etapas como integrante da elite mundial.

Naquele dia, a felicidade no rosto de Medina era incontestável. Na água agiu como um homem e venceu de veteranos do surf. Mas em terra seus traços de moleque voltaram a ganhar força. Pele morena, olhos castanhos e aparelho no dente ele comentou sobre seus planos futuros e não deixou de sonhar alto, “estava focado em chegar aqui e agora quero ser campeão mundial no WT. Esse é o meu próximo desafio”.

Nas horas vagas, Medina afirma que gosta muito de mexer no Facebook e andar de Skate.

Os marmanjos que acompanharam Medina pela internet que se preparem porque  a partir do dia 12 de novembro, começa a fase final das competições do surf mundial.  Dois dias depois da última parada no Pipeline, no Hawai, Medina completará seus 18 anos de idade e corre atrás de um futuro promissor.

Para além do Olímpico

-Ei! Você não vai conversar comigo?Olha que isso é bullying  hein!

Confesso que fiquei curiosa em saber quem era aquela pessoa presente na maioria das entrevistas que realizei. Pensei que a oportunidade de conhecer aquela figura tão marcante  seria ao conversar com a treinadora, mas o convite veio antes, evidenciando minha inexperiência como jornalista. Em outra situação, a brincadeira sobre o bulliyng poderia soar como uma pessoa que se sente alvo de preconceito, algo totalmente quebrado pelos risos de todos que estavam na quadra.

Antes de realizar qualquer entrevista, a presença de Adriano Andrade já havia chamado minha atenção.Por causa da sua postura e interação com os demais, dando dicas de arremesso, posições de conforto, técnicas de como enquadrar o adversário e melhorar os resultados pensei que ele também fosse treinador. Quem vê aquele rapaz moreno, de cavanhaque bem feito, braços fortes, sentado em sua cadeira e bem humorado, não imagna que ele já tenha 35 anos nas costas. Alto, talvez pudesse ser jogador de basquete, mas o mesmo descarta qualquer possibilidade e diz que o único esporte que tinha contato, antes do acidente que o deixou tetraplégico, era o futebol. Tricolor roxo, comenta o sonho de um dia conhecer pessoalmente Rogério Ceni.

- Se um dia você entrevistar ele, não esquece de pegar um autografo pra mim.

Antes de continuarmos a conversa, ele elogia um arremesso de Josiane Batista, 28 anos, que conheceu a Bocha Paraolímpico por causa de Adriano. Não foi preciso mais nada para entender  porque o nome dele foi citado por diversas pessoas que ali estavam.

- Recebi vários convites de Adriano para conhecer o trabalho realizado pelo pessoal do Sesi aqui de Suzano, mas eu só pensava em estudar. Não imaginava que com meu problema – Josiane possui má formação no antebraço devido a paralisia cerebral – eu poderia praticar esporte.

Depois de bater a cabeça em um mergulho, perder os movimentos das pernas e a força nos braços, Adriano não se deixou vencer pelo desanimo e procurou meios de interagir com outras pessoas. Depois de todas as sessões de fisioterapia, quando se sentiu apto para voltar a vida social, resolveu que não ficaria em casa para cultivar amarguras e começou a trabalhar com bolsas artesanais. Assim como os demais atletas, Adriano também foi convidado a conhecer o Bocha por um convite. Por consistir em lançar as Bochas – bolas –  com a finalidade de situá-las o mais perto possível da bolinha branca chamada de Jack, ou Bolim, esse esporte é um exercícios que trabalha muito a concentração, coordenação e o raciocínio. Cada participante, ou dupla, tem o direito de lançar 6 bolinhas. No final, ganha quem tiver a maior quantidade de bolinhas próximas da branca.

- Aqui eu não só pratico esporte, melhoro meu condicionamento físico, como também mantenho contato com as pessoas,conheço gente nova. Não é porque eu não posso andar, que eu vou deixar de viver. Quando eu faço o convite para alguém que possui algum tipo de deficiência, quero mostrar que não precisamos nos fechar para o mundo.

Ao aceitar o esporte na sua vida, Adriano soube aproveitar as possibilidades que a vida lhe porporcionou. Antes de colecionar medalhas, ele escolheu colecionar vitórias!

A vida de um cão vale milhares de vezes mais do que a humana

A porta do elevador abre lentamente e mesmo fazendo o esforço necessário para que ela não faça barulho enquanto eu a empurro, o cachorro a escuta e sabe que estou prestes a adentrar seus domínios. Por trás da porta de madeira antiga do apartamento 123, a qual ele guarda, sem descanso, exageradas reclamações em forma de latidos esganiçados espocam.
Para quem nunca o viu ou o ouviu antes, não só os latidos mas também todo o conjunto formado por movimentações corporais parecem obra de um animal perturbado, e de fato o pobrezinho é – mas quem não é?
O seu timbre de latido surpreende aqueles que têm o “prazer” de conhecê-lo. “Abandonai toda a esperança vós que aqui entrais”. Sim, abandonem – sua estadia no território deste cachorro perturbado não será agradável. Ele manda por ali, suas manias são respeitadas como a de nenhum humano seria e seus desejos, ahh, seus desejos são ordens, irrefutáveis.
Seu lado paranóico parece ter explicação quando ouve-se que ele toma meio comprimido de Gardenal duas vezes ao dia – para controlar o emocional. Quem deveria tomar Gadernal era o dono, que é quem ouve essa sinfonia de rosnadas agudas intermináveis durante boa parte da via crucis que é sua vida.
Mas além da trilha sonora odiosa, o “canis familiaris perturbadão” é dado a ataques assustadores. Dependendo de seu nível de estresse, ele começa a caçar seu próprio rabo – quer mordê-lo, quem sabe arrancá-lo e dilacerá-lo com todos os requintes de crueldade do catálogo. Mas não consegue, para sua infelicidade, e para a minha também, pois imagino que se ele devorasse aquele cotoco preto, ele se calaria por alguns minutos ao menos.
Mas Spike é cachorro. “E uma vida canina vale milhares de vezes mais do que a de qualquer humano”, diz a dona, cônscia, ciente da imensa verdade que profere. Pois então há cinco anos ele ali está, perturbando, estressando, cultivando o mal-estar, mas, sendo cachorro, está tudo bem, e então lhe ofereço um pedaço de pão, o qual ele come, com os olhos a brilhar, e aí eu sorrio timidamente – quem é que não gosta de cães?

Criolo digno de ser doido!

Kleber Cavalcante Gomes nasceu em 1975, cresceu no morro do Grajaú no Rio de Janeiro, ouviu e viveu boa música. Em 1989 começou a cantar rap e com o tempo recebeu o nome artístico de Criolo Doido. Entretanto, o músico afirma preferir ser chamado apenas de Criolo. Em meio a risadas de canto de boca e um olhar baixo, demonstrando um certo ar de humildade, em entrevista a TV Cultura o cantor diz que “ser doido”  é uma característica muito gratificante para lhe ser atribuída. Segundo o músico, doido transcende um estado de espírito, patamar que ele ainda não alcançou. Modéstia sutil.

Segundo o Criolo Doido sua maior escola foi a comunidade Grajaú, onde cresceu e passou por dificuldades. Dificuldades estas que o fizeram enxergar o mundo de uma forma diferenciada. “Alguém que exerce psicologicamente a chibata no outro para se sentir melhor” é a forma como Criolo Doido descreve o paulistano. A sensibilidade do cantor é nitidamente passada através de suas músicas. Músicas-poesias engajadas ligadas à visível invisibilidade da sociedade.

“O meu berço é o rap, mas não existem fronteiras para a minha poesia”. Criolo Doido inovou em ‘Nó na Orelha’, trouxe uma mistura de estilos: soul, samba, reggae, bolero, canção romântica, funk, afrobeat e outros ritmos podem ser escutados nas faixas desse novo álbum. Será essa salada proposital? Não seria um tentativa de, através uma inspiração tropicalista, expressar que a música não tem preconceitos? Ou então, indo ainda mais longe… Não seria uma mistura que critica negativamente a sobrevivência de um preconceito? Preconceito esse que não morreu entre nós. Preconceito esse tão desprezado pelo Criolo Doido.

Lívia Bittetti, 21, valoriza esse novo som que ultrapassa um pré-estabelecido. “O Criolo conseguiu chegar em alguns degraus acima, justamente por não se fechar a mídia e conseguir integrar diversos estilos na sua música”.

Sorte tem os esclarecidos de bom ouvido, que daqui para frente poderão curtir e se sensibilizar com o som desse Criolo, definitivamente, Doido. “Tem que respeitar o cara!”, finaliza a moça Lívia, dos olhos azuis.

Mudança de vida

Maria Helena de Freitas Genovez tem 50 anos e é uma das donas da padaria Arealva, localizada no bairro do Limão, próxima ao jornal Estado de São Paulo. A proprietária divide a responsabilidade do comércio com o seu marido, Paulo Genovez, e eles administram o negócio desde 1994, quando ela foi inaugurada.

O cônjuge de Helena resolveu abrir a padaria quando perdeu o emprego. Com isso, utilizou o dinheiro do Fundo de Garantia para iniciar os trabalhos da panificadora. Por essa razão, Maria decidiu ajudar o marido no novo empreendimento, e, em 1994, largou o emprego em Recursos Humanos na Rede Manchete e mudou totalmente de carreira.

Porém, não foi parar de repente no “canal 9”. Helena trabalhou por 16 anos no RH do jornal DCI, mas quando o dono da empresa adquiriu a maioria das ações da Manchete, ela acabou sendo transferida, onde ficou por mais dois anos, mesmo após a Justiça concedendo novamente a frente do canal para a família Bloch.

A Arealva passou por dois endereços, no entanto, o espaço entre esses lugares é de alguns passos apenas. A mudança ocorreu pela necessidade física e que pudesse atender os clientes com mais conforto e praticidade. A ideia também era ampliar a padaria, oferecer mais produtos.

No primeiro endereço, a padaria permaneceu por oito anos, e no atual, está há dez, o que totaliza 18 anos de muito trabalho. Quando perguntada qual é a quantidade de funcionários que o comércio tem hoje em dia, Helena pensa, e demonstra um pouco de dúvida, mas diz que são 11 pessoas, mais os dois donos, no caso, ela mesma e o marido. A média de idade dos contratados está entre 27 e 40 anos.

Com tanto tempo de padaria, é muito perceptível a proximidade de Helena com os compradores. Ela pergunta como as pessoas estão, como anda a faculdade, a escola, se os pais de alguma jovem estão bem. A interação é muito grande. “São clientes de muito tempo”, explica Helena. “Eles acompanham a gente”, completa ela. A dona da Arealva conta para os clientes sobre o movimento daquele feriado da Proclamação da República, fala sobre o tempo, enfim, joga conversa fora.

O público consumidor da padaria vem dos prédios e sobrados que ficam no entorno do comércio. Na mesma rua, há uma grande praça, em que muitos moradores passam e acabam comprando algo na panificadora – que também aloja um minimercado e vende carrinhos e alguns jogos infantis bem simples.

A rua, onde está a praça, apesar de ter muitas casas e prédios, é relativamente calma. Tal tranquilidade atrai vários tipos de pessoas, desde as comuns, passando pelos usuários de droga e até os casais de namorados mais salientes, que adoram protagonizar cenas mais íntimas. A padaria era uma casa, que foi reformada para abrir o novo empreendimento. O portão, inclusive, é visivelmente de uma residência como outra qualquer das vielas próximas dali.

Passar pela Arealva traz a tímida sensação de estar em uma padaria do litoral ou do interior, onde as pessoas se conhecem, conversam entre si e já possuem laços que as unem.

Interpretação

“Quando, após passarmos por um estreito desfiladeiro, de repente emergimos num trecho de terreno elevado, onde o caminho se divide e as mais belas paisagens se desdobram por todos os lados, podemos parar por um momento e considerar em que direção deveremos começar a orientar nossos passos.”

Um clássico divã, não daqueles sofisticados que aparecem em filmes, esse possui personalidade, um pufe verde-limão, quadros e mais quadros, uma infinidade deles na parede, estrela de cristal pendurada em um dos lustres, um cômodo antigo com alguns enfeites e uma caixa de madeira branca com diversos tipos de chás, é um lugar que poder relembrar aquelas lojas de antigamente meio esotéricas só que mais aconchegante.

É um consultório fora do padrão tradicional, onde ela estará sentada diariamente em sua poltrona, de segunda a sábado, ouvindo dramas, agonias, júbilos, tudo isso às vezes em uma mesma sessão, dia após dia.

Talvez pelo cenário, ocorra a possibilidade de esperar ver alguém que tenha saído do filme Senhor dos Anéis, meio elfa, mas pelo contrário, apesar do cabelo loiro claro natural e os grandes olhos verdes, em poucos minutos a imagem de um personagem de Tolkien irá se dissolver, a fala é rápida e alta, as roupas são modernas e clássicas, engana-se quem pensa que faz a linha séria, aquele estereótipo frio e distante não faz parte dela, o sorriso é fácil, o sarcasmo está impregnado em suas frases, em apenas uma conversa logo nota-se que possui um vício: seriados americanos e filmes. Uma conversa costuma vir acompanhada de alguma referência: “Você já assistiu aquele filme…?”

Válvula de escape, essa é a sua, devido a sua profissão, a psicologia, esse recurso é mais que necessário, escutar todos os dias o problema alheio, algo que a irá fazer relaxar em casa após um dia que o sofrimento humano pode ter sido exposto a alguns palmos de suas mãos, é preciso desligar-se ao chegar em casa, é com a companhia de sua família, de cinco cachorros, livros, e um grande espaço para os dvds.  House é uma das séries preferidas, é desse modo que a Doutora Márcia Sarpi consegue deixar o peso que leva para seu lar se esvair.

Ter cinco cachorros, de várias raças, surpreende a qualquer um, o que é muito para alguns para ela ainda não é o suficiente, seus filhos reprimem o desejo de um schnauzer preto, a obsessão por cachorros torna-se clara devido ao comportamento animal.

“Cachorros são fáceis, não é necessário interpretar seus atos, é simples e leve, eles são objetivos no que sentem.”

Alguns que escolhem a psicologia como carreira por acreditarem possuir talento em escutar os outros, por alguma necessidade de ajudar o próximo, o fator principal que a puxou para essa vida, foram os sonhos. O interesse por eles era constante, já no primeiro ano do ensino médio se informou a respeito, não por acreditar que fossem premonitórios, mas sim por estar intrigada, queria saber mais sobre a atividade mental, o porquê eles apareciam nessas formas que costumam levar o ser humano a refletir sobre e querer interpreta-los.

E assim surgiu a admiração por ele, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, o livro Interpretação dos Sonhos, foi o caminho para a universidade, formada há 29 anos, esse encantamento jamais foi perdido.

Pequeno vencedor

Quem vê o rapaz alto, de barba e cabelos escuros, que entra nos ambientes cantarolando, com um sorriso no rosto e estalando os dedos, não imagina os problemas pelos quais Miguel Peres teve que passar durante sua infância.

Após alguns minutos de conversa, o garoto de 16 anos já quer mostrar fotos da nova namorada (cada mês é uma nova), mesmo gaguejando. Além disso, todas as atitudes erradas de Miguel são tratadas pelos pais com muita paciência, bem diferente do que acontece com o irmão mais novo.

Quando perguntado sobre o que se lembra dos momentos difíceis passados na infância, Miguel se mostra reflexivo, vira os olhos castanhos de um lado para o outro, como se tentasse mesmo se recordar de algum fato. Após certo tempo, ele diz :“não me lembro”. Mas essa não é a mesma frase dita pelos familiares.

Aos 7 anos de idade, Miguel sentia dores de cabeça insuportáveis. Nenhum remédio amenizava. Antes mesmo dos pais se preocuparem e o levarem para o hospital, já era tarde demais. As crises aumentavam cada dia mais, até que ele desmaiou quando fazia compras com a mãe no supermercado. Ao chegar no pronto socorro, os parentes imaginavam que aquilo não era normal, mas não de aquela era uma doença fatal.

O diagnóstico foi preciso após a realização de vários exames. A criança estudiosa, que já havia ganhado 3 medalhas em campeonatos de matemática e só dava motivos para os pais comemorem, estava com Encefalite.

Nenhum familiar sabia ao certo que doença era aquela. Então, para deixar as coisas mais claras, os médicos foram diretos: “seu filho está com uma doença muito grave no cérebro. Como se fosse uma meningite, que afeta a área mais frágil do ser humano naquele período de vida. Ele deve ter passado por algum transtorno psicológico muito sério. Acontece que Encefalite mata crianças. A cada 5 casos, apenas 2 sobrevivem, com sequelas neurológicas. Estejam preparados para tudo”.

Depois disso, Miguel entrou em coma. A única resposta encontrada para o transtorno psicológico que poderia ser responsável por desencadear a doença foi um assalto poucos meses antes do diagnóstico, quando Miguel e mais 26 familiares foram feitos de reféns em um pequeno quarto localizado em uma chácara em Elias Fausto, interior de São Paulo.

A situação de Miguel era grave, mas ninguém perdeu as esperanças. Miguel saiu do estado de coma um mês depois. Mas os médicos não pararam de alertar sobre as sequelas, mesmo que a criança se mostrasse forte. O choque de quem o revia era enorme. Ele não reconhecia quase ninguém, tinha perdido sua memória, perdido as atividades motoras, a capacidade de engolir saliva, além das convulsões.

Miguel era uma pequena criança. Era preciso reeducá-lo para sua nova vida. Foram muitos meses para que ele conseguisse se recuperar, mas o forte Miguel conseguiu, para espanto até mesmo dos médicos.

A partir de então, nem tudo voltou a ser como antes. Agora, Miguel tem dificuldades com matemática e teve muitos problemas para se readaptar a vida escolar. Também é epiléptico e enfrenta problemas de gaguez.

O pequeno vencedor, que agora já está no auge de sua adolescência, não se abate quando lhe contam sobre sua doença, apesar de não lembrar. “Tenho muito orgulho de saber que venci, mesmo quando nem os médicos acreditavam na minha recuperação. Desde então, meus pais me ensinaram a viver e amar a cada momento intensamente”, diz Miguel sem se abalar. “É uma pena que muitas pessoas tenham que ficar entre a vida e a morte para aprender a valorizar o que tem hoje”.

Refém

Eu sabia que a Amanda Moura, minha melhor amiga, de Resende, que estuda Ciências Sociais na UFRJ e mora no Rio, fazia estágio na EPE (Empresa de Pesquisa Energética), órgão público vinculado ao ministério de Minas e Energia. Também soube, por ela, que ficou empolgada quando conseguiu o emprego, em meados de junho deste ano, que a EPE desenvolvia estudos e planejamentos para o setor energético e, o que me chamou a atenção, lidava com o licenciamento ambiental para a construção de hidrelétricas, dentre elas a polemizada usina de Belo Monte.

Segundo ela, quando me falou sobre a entidade, o principal trabalho desenvolvido por eles eram estudos de impactos ambientais e sociais de empreendimentos do setor; que os técnicos visitavam comunidades indígenas de todo o país; e que, além de Belo Monte, haviam muitas hidrelétricas a serem licenciadas e construídas no Brasil.

Amanda também me falou de seus chefes, entre eles, uma mulher, que quando a entrevistou para a vaga estampava no pulso uma tatuagem falsa, dessas de chiclete, e César, um sociólogo de 34 anos, que logo se tornou seu amigo.

Entre happy hours com César e o pessoal da empresa, Amanda de vez em quando me contava sobre seu relacionamento com os colegas de trabalho e com César.

Um dia, em uma chamada que pensei que seria mais uma de suas habituais ligações para o meu celular, eu atendo…

“—Izabelle, o César foi sequestrado por uma tribo indígena.”

E óbvio que a minha pergunta, acompanhada por um pensamento de desenho animado, em que índios canibais capturam o invasor e o jogam em um caldeirão – motivada mais por falta de contato com essa realidade do que por desrespeito – foi: “—Como assim Amanda??”

Em meio ao desespero, influenciada pelo clima de tensão que predominava entre os conhecidos de César, ela não sabia muito bem me explicar o que havia acontecido, apenas que ele e outro funcionário da EPE haviam feito uma viagem para o Mato Grosso, referente à construção da Usina Hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires.

“—Estou com medo de acontecer alguma coisa com o César, ele tem um filho de um ano.”

Na ocasião, em protesto contra a construção da usina, índios das etnias kaiabi, munduruku e apiaká, na divisa do Estado do Mato Grosso e Pará, mantinham como reféns desde a segunda-feira, 17 de outubro, dois funcionários da EPE – César Maurício Batista da Silva e Marcos Ribeiro Conde – além de cinco técnicos da Fundação Nacional do índio (Funai).

Os nativos também exigiam a demarcação de suas terras, como garantia de que a construção não as afetariam, a interrupção do processo de licenciamento ambiental da usina, que resultou no adiamento das audiências públicas, onde os seqüestrado atuariam, que aconteceriam na semana seguinte ao seqüestro, o comparecimento na aldeia de líderes do governo, para um acordo.

Em nossas conversas, Amanda tentava se convencer de que nada aconteceria, de que os índios só precisavam chamar a atenção para a sua causa, que era legítima, mas a falta de notícias sobre César fazia com que, muitas vezes, fosse conferida uma dimensão ainda maior sobre a intenção dos índios.

Ela comentou que a EPE ainda não havia divulgado um comunicado oficial sobre o ocorrido e que, por isso, nenhum jornal do sudeste havia publicado sobre.

Me senti egoísta por pensar no “furo de reportagem” que tinha mais ou menos na mão, mas logo desisti de divulgar qualquer coisa pela falta de possibilidade de contatar alguém para falar a respeito

Amanda me enviou uma das poucas notícias que conseguiu encontrar na internet, no site nortista ‘Nativa News’, que divulgou a fala de alguns dos índios envolvidos na situação.

“—Nossos parentes Munduruku e Apiaká, principalmente os Kayabi, tomo aqui muito revoltado por causa que ta muito próximo da nossa terra e nós não queremos a usina perto da nossa terra pra prejudicar essa natureza”, frisou João Kayabi, cacique da tribo.”

Um dos trechos contribuiu para a tensão geral sobre esse impasse, que a essa hora já me influenciava, ao registrar a ameaça presente na fala de uma das líderes.

“—Nó só vamos soltar eles quando o ministro vir aqui, as autoridade, enquanto isso ainda ninguém fez nada, mas a partir de hoje se eles não der nenhuma posição positiva, a gente vai fazer uma gaiola e fazer um fogo junto com os guerreiros e as guerreiras, nós vamos queimar eles. A nossa posição é essa, se eles não der nenhuma posição, não ficar acreditando em nóis índios, porque nóis somos valentes sim, porque antigamente os Munduruku era cortador de cabeça, e é isso que nóis vamos fazer agora, eu acho que eles não tão acreditando”, afirmou Rosenida Munduruku.”

No dia seguinte, as pessoas que trabalhavam com Amanda viram uma reportagem feita pela TV Record em que os índios também davam declarações a respeito. Nessa reportagem se via o retrato de uma manifestação amistosa e que a intenção dos índios era que suas reivindicações ganhassem atenção do governo e da sociedade, por meio da imprensa.

O vídeo deixou Amanda e o resto da equipe da EPE mais calmos. Os telefonemas deseperados para mim cercearam, até que Amanda me deu a notícia de quem em um domingo, pela manhã, os reféns haviam sido soltos e que César estava a caminho do Rio de Janeiro.

Segundo César, em entrevista via e-mail, assessorada por Amanda, essa foi sua terceira ou quarta visita à aldeia. “Mas esse projeto já promoveu por volta de seis visitas, desde2008”.

Sobre a legimidade dos motivos que motivavam aquele protesto, césar declarou que ele mesmo manfestaria apoio incondicional de primeira hora ao movimento. “Não fosse eu mesmo um refém neste instante”.

Em seu diário de cativeiro, indicado por ele como complemento à entrevista, César contou que o planejamento das atividades previam dois dias de reunião com as comunidades indígenas, na aldeia. De lá seguiriam para outras cidades, para realizar outras ações e para participarem da audiência pública.

No primeiro dia, por volta da cinco e meia da tarde, todos foram chamados à sala de reuniões.

“Um anúncio breve, porém contundente, a liderança Taravy Kayabi informou que nós estávamos, a partir daquele momento, na condição de reféns das comunidades das etnias kaiabi, munduruku e apiaká.
Encerrada a reunião e após alguns momentos para firmar entendimentos sobre a nova condição que começávamos a assumir, todos vestiram seus calções e calçaram suas chuteiras para uma partida de futebol, no campinho atrás da aldeia.”

Ele conta, que o seqüestro e as ameaças dos índios, inclusive a da construção de uma gaiola, não representaram momentos de terror, mas sim de muita tensão.

“—Não fomos agredidos fisicamente, muito embora ter sido pintado com extrato de jenipapo pode ser considerado uma agressão física. Houve ameaças de agressão, mas não foram levada as cabo, entre outras razões, pela divisão interna do movimento, que incluíram a discordância quanto ao “uso” dos reféns. Nesse sentido, foi importante a atuação de um contingente de kaiabis convertidos ao protestantismo. Em certo episódio, uma senhora impediu que um grupo de guerreiros nos levasse para sermos amarrados em troncos de árvores na beira do rio.”

Sobre as condições dos reféns, César as julgou, com bom humor, como cômodas.

“— Além de acesso ao telefone [nos primeiros dias], circulávamos na aldeia, nossos mantimentos eram fartos e as refeições saborosas. Para sorte do nosso paladar (e azar dos nossos endocrinologistas) a cozinheira compunha o grupo de reféns.”

Os reféns perceberam que a situação ficava cada vez mais complicada, principalmente após tentativas de acordo, propostas pela FUNAI, para a liberação dos reféns, que foram rejeitadas pelos índios que queriam a presença pessoal das autoridades do governo.

“—As comunidades indígenas não abriam mão da presença de autoridades na aldeia, para que as negociações fossem travadas às vistas de homens, velhos, mulheres e crianças, que deveriam presenciar, também, eventuais acordos firmados. Começávamos a perceber que a questão era ainda mais complicada do que podíamos supor nas horas iniciais de cativeiro.”

César avalia a situação daquelas comunidades, como um exemplo de exclusão dos povos indígenas de processos que dizem respeito a eles próprios.

“—Não pude deixar de notar que uma das principais exigências do movimento das comunidades indígenas foi a simples presença de autoridades do governo federal na aldeia. Esse fato, isoladamente, ilustra que a incapacidade de diálogo do governo federal contribui para que grupos sociais implicados por projetos de interesse governamental se percebam alijados dos processos, induzindo a situações críticas, como a que acabamos de experimentar.”

* A íntegra do diário de cativeiro de César, completamente literário, pode ser conferida no Blog do Arnaldo Bloch, em http://oglobo.globo.com/blogs/arnaldo/

Não são freiras, nem putas

Há um local dos sonhos para pais que mandam suas filhas para estudar na grande cidade: um local seguro, com horário de entrada, uma igreja logo embaixo e, o melhor de tudo: é proibida a entrada de homens. Tudo isso a um preço acessível, basta ser uma boa garota e estar na faculdade.
O tradicional Colégio Sion, em Higienópolis, é um prédio de mais de cem anos, com três andares: a igreja entre o primeiro e o segundo, e o terceiro com vários quartos para meninas universitárias, distribuídos em um grande corredor.

Percorrer esse enorme corredor pode se tornar uma aventura no meio da noite. O chão de madeira range mesmo com o par de Havaianas mais velho do armário. As portas grandes, e pesadas, de madeira separam os quartos, e cada uma delas possui um número e uma característica diferente, colocada pelas próprias moradoras. Há muito tempo fora instalado um elevador no prédio, facilitando o acesso também para as meninas, porém o caminho feito pelas escadas, quando a energia acaba, é bem mais divertido.

O hall de entrada deve ser o local mais fresco do Colégio. A Capela do Sion, logo no primeiro andar, é um dos locais mais concorridos para casamentos. Roberto, o segurança do turno da manhã, disse que há casamentos marcados até 2012. E todas as sextas-feiras e sábados é comum escutar o coral desses casamentos cantar as mesmas músicas: clássicos dos Beatles, Viva La Vida, de Coldplay, e alguns outros dos clássicos da Disney. Além disso, quem fica no Colégio nos fins de semana aprecia uma grande entrada pelo hall todo enfeitado, enquanto todos os convidados estão engomados para o casamento, meninas de calça jeans atravessam o salão em busca do elevador.
Ali, nos corredores cheios de quartos, cada sotaque tem seu destaque. Há meninas de todas as partes do Brasil: Maranhão, Itapira, Caraguatatuba, Rio Preto, Muriaé, Santos, Suzano, e muitas outras. Algumas se encontram mais, pelos horários das faculdades serem iguais, outras só se veem no fim do dia, quando jantam na cozinha comunitária. E algumas outras preferem nem se ver.

A cozinha é considerada o ambiente mais peculiar. Lá reside o mistério do aparecimento de sujeira e desaparecimento de muitas outras coisas. Salsichas, bolos e até garfos já tomaram vida para habitar em outros estômagos. Ou outros quartos.
No banheiro, calcinhas penduradas, meias encardidas deixadas (e esquecidas) de molho no sabão em pó, dois tanques instalados dão conta para aproximadamente vinte meninas, algumas ainda levam a roupa para lavar em casa. Há mais dois banheiros para as meninas usarem, um com toaletes, e outro com toaletes e chuveiros. Certa vez, a história do banheiro se tornou polêmica.

Numa manhã de quinta-feira, oito horas da manhã, quando as meninas ainda se levantam para lavar os rostos amassados de sono, encontram Helena terminando uns rabiscos em um quadro negro pregado no corredor, perto de uma mesa com um ferro de passar comunitário. Ela terminou sua frase e limpou as mãos do giz com toda a força. No quadro estava escrita a seguinte frase: “Já faz mais de 15 dias que encontro o banheiro sempre do mesmo jeito porque não dá a descarga. Não sou obrigada a aguentar isso”.
Helena é a segunda mãe das meninas. Ela quem limpa os quartos, banheiros e cozinha, leva as cartas e entrega a mensalidade para a irmã Iolanda, que cuida do pensionato. Ali todo mundo adora a moça, que todos os dias, com o pior dos resfriados, deseja um bom dia e aproveita para contar sobre o tempo em que trabalhou como faxineira no Estadão. O que levou Helena a escrever tanta indignação num quadro negro? Isso daria uma matéria de primeira página. Basicamente, uma das moças do Maranhão resolveu que importunar a pobre empregada seria a saída para as coisas erradas que andara fazendo – uma delas era pegar móveis de um lugar e colocar em outro, ou até mesmo tirar a louça das meninas do lugar, simplesmente por tirar.

No Colégio Sion as meninas têm horário para entrar. Onze horas ninguém mais entra, e ai de quem tentar passar pelo Sr. Antônio, o mais mau humorado dos seguranças. O prédio não possui internet, por isso é normal encontrar garotas andando por aí com notebooks, como se quisessem caçar um extraterrestre.

E em um prédio tão antigo, onde poucas garotas se encontram e conseguem colocar a amizade em dia, talvez o barulho mais familiar seja o das malas com rodinha às sextas-feiras de manhã.

Sente-se

Sentado na cadeira e apoiando os cotovelos na mesa de madeira armada na varanda. Era ali o melhor lugar para encontrá-lo. Principalmente de madrugada, onde a conversa fluía mais. Nem sempre a troca de palavras era freqüente. Geralmente apenas um falava. Era uma espécie de monólogo.

Mas ele gostava de sentar naquela cadeira. Apoiava o cotovelo esquerdo na mesa e deixava o braço direito caído, com a brasa do cigarro apontando para o chão cinza.  Alternava algumas tragadas. Carlton red. Só de aspirar a fumaça já dava pigarro.

Mas os cigarros pintavam em longos intervalos de tempo. O que não saia da mão mesmo era a latinha ou copo de cerveja. Era o combustível de horas e horas de debate. Geralmente não levavam a lugar algum. Mas ele gostava de falar. O momento em que mais se sentia a vontade era esse. Na cadeira de madeira.

Pela sua aparência até certo ponto conservada para um senhor de meia-idade, ninguém imaginaria os excessos que aquele corpo suporta. Ele conseguia pegar uns brotinhos de 20 e poucos anos. Só por lazer, ele dizia. O negócio mesmo eram as de 30 para cima. Nessa idade elas são mais fiéis, defendia

Ele gosta dessa vida. Já viveu o outro lado demais. Casa, mulher, filhos, pressão, bocha aos domingos. Parece querer lutar contra a praxe de que depois dos 50 anos, o que nos resta é fumar nosso cachimbo e olhar a rua da varanda. Sentados em cadeiras e mesas de madeira.

 

Animais

São cinco da manhã e a senhora de cabelos grisalhos já está acordada. Levanta-se cedo todos os dias, prepara o café matinal para ela e seu marido.

A cozinha abriga a fruteira, a mesa com seis lugares um fogão e a geladeira,  de onde tira o restos e mais restos de comida. Naquela disposição matinal ela começa a aquecer o alimento, em breve irá sair e levar a comida quentinha a animais de rua.

Um das situações que mais a incomoda é ver tantos animais abandonas pela cidade, ela sente a tristeza de cada um deles. Logo, sua caminhada começa, ela anda aproximadamente um quilômetro para alimentar seis famintos cães. A comida é divida pela caridosa senhora, e em instantes não há mais nenhum grão para contar história.

Ela decide ir embora, afinal, precisa seguir sua vida, mesmo que parte de seu coração fique com aqueles amáveis animais.

Seu amor por animais vem desde criança, de uma cidade pequena no interior de São Paulo, a senhora Elza sempre teve contatos com animais e na casa de sua família sempre havia um fiel companheiro.

Mesmo após ter vindo para a Capital, seu amor por animais aumentou. Quando não ganhava um animal, adotava um outro. Ela teve papagaio, diversos pássaros, cachorros e gatos. Resgatou diversos animais de situações adversas da vida.

Sua vida sempre segue, ela faz sua caminhada enquanto o dia vai amanhecendo, mas não deixa em nenhum momento de pensar nesses animais.

Logo está juntando comida, fritando alguns bifes. A alegria q ela sente em poder ajudar a nada se compara.

Ah é, amanhã é feriado!

As pessoas se atropelam como se estivessem uma manada. É um xingando o outro, uma maré de falta de educação. Amanhã é feriado, e é sábado. Achei estranho todo esse alvoroço em plena sexta a noite e para ser bem sincera nem lembrava do feriado.
Todos os guichês estão cheios e as filas se entrelaçando. Nada resta a não ser esperar. Nessas horas começo acreditar naquela frase famosa: “Brasileiro adora uma fila”. Sei que na verdade, nem é por mal, muitas coisas no Brasil são complicadas e só nos resta fazer fila.
Tá todo mundo cansado e desesperado para ir embora. Passaram apenas dez minutos e a fila só andou um pouquinho.
Começo a escutar umas reclamações. Primeiro uma senhora, bem arrumada, por volta dos 45 anos diz:
-Deveriam colocar mais gente para trabalhar hoje!”Onde” já se viu a maior rodoviária do Brasil estar assim?
Então, um senhor, com seus cabelos já brancos, que nem a conhece responde:
-Eles também merecem um descanso. Apesar de ser feriado, eles vão trabalhar amanhã.
- É. Pode ser – resmungou ao mesmo tempo que fazia uma careta.
- A senhora não acha que todos merecem um descanso?
- Sim. Mas ninguém merece ficar nessa fila kilomêtrica em plena sexta à noite.
- Logo, logo a fila acaba.É só ter um pouco de paciência. Afinal, todo mundo teve que esperar nove meses para nascer. Esperar vinte minutos não vai matar ninguém. – diz o senhor rindo.

Eu dou risada. Estou atrás do senhor na fila e na nossa frente tem dez pessoas. Pouca coisa. Acho que nem vinte minutos vai demorar.
É engraçado como para algumas coisas as pessoas não tem paciência. Quando se está dentro de um carro, confortável, aguentar o trânsito é “tranquilo”, mas agora esperar 20 minutos para pegar uma passagem é um grande sacrífico.
Feriado no Brasil causa tumulto e tumulto causa stress e mais cansaço. Ainda mais com essas filas enormes. Mas nada que não ter que fazer nada amanhã, não compense pelo menos uma parcela desse stress.

Hoje é dia de Maria

A música alta e os sorrisos gratuitos lhe corroíam por dentro, todos pareciam extremamente felizes, desde os manequins mal vestidos até a enorme foto da super modelo na parede. Mas de alguma maneira essa felicidade simulada enchia seu peito de ar.

Era jovem, 32 anos, tinha a pele boa, como diria minha avó, olhos cor de mel e os cabelos bem negros, Sônia Reis,seu nome na certidão, mas no seu bairro todos a conheciam por Maria.

Todo fim de ano a mesma coisa, com dois filhos, se dedicava ao lar, mas na época das festas de fim de ano trabalhava em uma loja de roupas femininas para conseguir um dinheiro extra e ajudar o marido com os gastos, que também aumentavam.

Tentava economizar ao máximo, levava marmita e como não havia geladeira, improvisava colocando a vasilha em cima das tubulações de ar condicionado. O problema é que muitas das vezes o ar estava quebrado e tratava de esquentar a comida e em certos dias chegava a congelar os grãos de arroz, ela nem percebia, não sabia porquê, mas a comida ficava especialmente deliciosa após subir e descer as escadas muitas vezes.

No adesivo da vitrine estava escrito: “Liquidação de natal, várias blusas  por 10 reais”. A loja estava lotada, as tais blusas eram daquelas: lavou, descosturou, encolheu, desbotou; não necessariamente nessa ordem, mas necessariamente esses verbos.

Não era boa em matemática, mas nem precisava muito para saber que vendendo uma blusa para cada cliente precisaria de dez clientes para conseguir míseros 100 reais, que lhe arrecadariam menos de um real de comissão! Odiava aquelas blusas com todas as suas forças e se indagava: “Quem foi o infeliz que teve essa ideia de gênio?”.

Foi então que a cliente entrou, e ela a essa altura no mais alto grau da desilusão, rudemente perguntou: “Quantas blusas da promoção vai querer?” Para sua surpresa, a cliente respondeu: “Na verdade eu vim comprar roupas para minha viagem”. O tempo parou, sua visão ficou turva durante um milésimo de segundo e em seguida seus olhos cresceram e sorriram de emoção.

- Oi querida, quer começar vendo o que?

- Vou passeando pela loja, preciso de tudo!

A moça passava pelos cabides e ia empilhando as roupas nos braços estendidos de Sônia:

- Vou levar esse aqui…segura, mais um vestido… aquele também…

A vendedora era franzina, mas naquele momento parecia ter a força de mil soldados, e carregava o monte de roupas como se fossem plumas.

O som dos cabides batendo compunha a mais bela sinfonia, ela pensou em como era boa a vida e que, enfim, poderia até comprar aquele videogame para os dois meninos.

Era a maior venda que já havia feito, finalmente faria a sonhada drenagem linfática e compraria presentes para todos. No seu rosto, um sorriso que nem a mais forte toxina botulínica conseguiria manter durante tanto tempo.Para a surpresa de todos , o cartão da cliente não passou, Sônia parecia não acreditar, a cliente com calma pediu que guardassem as compras, ela falaria com o marido e voltaria para pegar tudo mais tarde.

Esperou . . .

Não voltou!

Não queria acreditar, mas o tempo passou, e quando voltou a si era o fim do expediente. Foi levar o lixo ao depósito, voltou para pegar suas coisas e anotou no seu caderninho as vendas do dia…

10 reais…

E de repente voltou a ser Maria…

Velhinho do voleibol

- Alô? Oi Carvalho, aqui é a Vanessa que te solicitou a entrevista. Tudo bem?

- Olá, Vanessa. Tudo bem e você?

- Tudo bem também. Você acha que posso te entrevistar ainda hoje?

- Hoje será muito complicado, Vanessa. Estamos com muitos problemas nas quadras dos Jogos Abertos. Está uma correria aqui em Mogi das Cruzes, talvez amanhã a gente possa conversar.

- Ah, então tudo bem. Muito obrigada!

Ao desligar o telefone, a primeira coisa que veio a minha cabeça: o que fazer? Depois do desespero e de tanto pensar, decidi falar sobre o José Antônio Carvalho, mais conhecido como Carvalho, sem entrevistá-lo diretamente. De início a ideia me pareceu um pouco vaga, mas, aos poucos, ela foi se tornando interessante. Com aulas sobre arbitragem de voleibol que tive com ele e jogos que o vi apitando, teria capacidade de escrever sobre aquele simpático velhinho, que ao lado de seu companheiro de aventura, Dalmir Medeiros, forma a dupla de “dinossauros” árbitros de voleibol da Federação Paulista (Sim, eles são os mais velhos de lá).

José Antônio Carvalho é um orgulhoso morador de Jales, localizada a 600 quilômetros da cidade de São Paulo. Apesar de quase ninguém conhecer essa pequena cidade, Carvalho gosta de ressaltar sua importância: “Todas as cidades ao redor de Jales, situam-se na Grande Jales”, brinca.

De barba e cabelo brancos, Carvalho é um homem baixo, brincalhão, cheio de energia e apaixonado pelo apito. Gosta de destacar a responsabilidade que um árbitro de voleibol possui, visto que o mesmo marca ponto por ponto. Não deixa de contar também das vezes que precisou tomar certas decisões em campeonatos com times importantes, como na Superliga e na Liga Mundial – e o problema é ter que pensar tão rápido, “questão de instantes”.

Nas suas aulas de arbitragem, ele contou como foi difícil o início de carreira, com viagens longas, escalas malucas, que o colocavam do outro lado da Grande Jales. Mas com garra, aos poucos, foi conquistando seu espaço e conseguiu se consagrar na profissão. E, apesar disso, não deixou de lutar pelo voleibol – continua apitando (mesmo que menos jogos), trabalhando na comissão técnica da Federação e desejando que os futuros árbitros sejam melhores que os do presente e os do passado.

Ele já viajou para inúmeros países, conheceu inúmeros lugares, tudo de graça e ainda ganhando dinheiro para apitar. Dizem que esse é glamour da profissão de árbitro de voleibol. “Disso, quem não gosta?”.

Ao entrar em quadra com o apito na boca, Carvalho tem uma mania que o destaca de qualquer outro árbitro: a cada apito, ele dá uma puxadinha na calça, na altura da coxa. Com esse vício ele também não perde a oportunidade de brincar: “Não tem jeito. Essa mania eu tenho desde criança, minha mãe já tentou tirá-la de mim, mas não conseguiu”. E ainda acrescenta: “Agora isso acontece só quando entro em quadra mesmo. Que engraçado, né?!”.

Com postura firme de árbitro e cara de bravo, o velhinho de barba branca é tão amável quanto um Papai Noel, além de ser respeitado e admirado no mundo da arbitragem. Um homem que viveu e ainda vive pelo voleibol e que permanece trabalhando na profissão.  Na correria, com horários irregulares, como os de hoje que não permitiu me conceder a prometida entrevista, Carvalho segue sua luta e parece não conseguir largar essa profissão (ou ela que não larga dele?!) – algo que o fez e ainda o faz tão feliz.

A força de um italino

As famílias mais tradicionais têm por costume reunir-se aos domingos para comer, ouvir música, jogar baralho, contar fofocas e piadas. Em domingos de feriado isso não é diferente, o que muda, é o local da reunião. O alvo, geralmente, é casa de um parente distante.

No caso da família Vizentin ou Vicentim, não se sabe ao certo a grafia desse sobrenome de origem italiana, a reunião aconteceu na casa do mais simpático e orgulhoso dos Vizentim.

Natural de Fernandópolis, cidade do interior e São Paulo, e aposentado da CESP – Companhia Energética de São Paulo – há mais de 14 anos, seu passatempo diário é cuidar de sua chácara em Valinhos. Com uma casa grande, planejada por ele para que pudesse abrigar a visita dos quatro filhos e dos três netos, uma piscina, um pequeno galinheiro e uma horta, o trabalho o ajuda lembrar a infância e a adolescência nas lavouras de café.

Durante o almoço ele prende a atenção de todos reunidos em torno da grande mesa da área de churrasqueira, não só por ser o anfitrião, mas por sua simpatia e curiosa habilidade para contar “causos” de seus poucos 61 anos de vida.

Enquanto, com muito carinho, mostra papeis antigos que reuniu para montar a árvore genealógica da família Vizentin, conta que na juventude, quando já namorava com Lena, hoje esposa e mãe de seus filhos, mudou-se para Campinas em busca de melhores oportunidades. Logo começou a trabalhar na CESP e muito cedo foi pai. A vida, não satisfeita, lhe deu de presente dois filhos gêmeos, que completaram o time ao lado das duas meninas.

- Na verdade sempre achei que meu nome estivesse grafado certo: Vicentim, mas na verdade, dos meus nove irmãos, só o mais velho, o César, teve o nome certo: Vizentin, com “z”.

Arlindo,é um daqueles santistas saudosista que irá comparar todos o meninos da vila ao grande rei Pelé por toda a vida. Sua simpatia é impar, mas o que chama mais a atenção é sua força física e moral. A família Vizentin, de longe não é rica, ou cheia de posses, mas tem como maior riqueza seus valores de honestidade e força de vontade.

A teimosia pode ser apontada com o defeito desse homem branco de olhos claros que ficam escondidos pelos óculos e que quando um pouco alegre pela bebida, ficam vermelhos como tomates.

Já no fim da tarde, ele resolve mostrar seu esporte de fim de semana. Uma mesa de sinuca do nos fundas da casa. Ao lado dos genros e filhos ele não da mole e o jogo é animado.