Eu sabia que a Amanda Moura, minha melhor amiga, de Resende, que estuda Ciências Sociais na UFRJ e mora no Rio, fazia estágio na EPE (Empresa de Pesquisa Energética), órgão público vinculado ao ministério de Minas e Energia. Também soube, por ela, que ficou empolgada quando conseguiu o emprego, em meados de junho deste ano, que a EPE desenvolvia estudos e planejamentos para o setor energético e, o que me chamou a atenção, lidava com o licenciamento ambiental para a construção de hidrelétricas, dentre elas a polemizada usina de Belo Monte.
Segundo ela, quando me falou sobre a entidade, o principal trabalho desenvolvido por eles eram estudos de impactos ambientais e sociais de empreendimentos do setor; que os técnicos visitavam comunidades indígenas de todo o país; e que, além de Belo Monte, haviam muitas hidrelétricas a serem licenciadas e construídas no Brasil.
Amanda também me falou de seus chefes, entre eles, uma mulher, que quando a entrevistou para a vaga estampava no pulso uma tatuagem falsa, dessas de chiclete, e César, um sociólogo de 34 anos, que logo se tornou seu amigo.
Entre happy hours com César e o pessoal da empresa, Amanda de vez em quando me contava sobre seu relacionamento com os colegas de trabalho e com César.
Um dia, em uma chamada que pensei que seria mais uma de suas habituais ligações para o meu celular, eu atendo…
“—Izabelle, o César foi sequestrado por uma tribo indígena.”
E óbvio que a minha pergunta, acompanhada por um pensamento de desenho animado, em que índios canibais capturam o invasor e o jogam em um caldeirão – motivada mais por falta de contato com essa realidade do que por desrespeito – foi: “—Como assim Amanda??”
Em meio ao desespero, influenciada pelo clima de tensão que predominava entre os conhecidos de César, ela não sabia muito bem me explicar o que havia acontecido, apenas que ele e outro funcionário da EPE haviam feito uma viagem para o Mato Grosso, referente à construção da Usina Hidrelétrica de São Manoel, no rio Teles Pires.
“—Estou com medo de acontecer alguma coisa com o César, ele tem um filho de um ano.”
Na ocasião, em protesto contra a construção da usina, índios das etnias kaiabi, munduruku e apiaká, na divisa do Estado do Mato Grosso e Pará, mantinham como reféns desde a segunda-feira, 17 de outubro, dois funcionários da EPE – César Maurício Batista da Silva e Marcos Ribeiro Conde – além de cinco técnicos da Fundação Nacional do índio (Funai).
Os nativos também exigiam a demarcação de suas terras, como garantia de que a construção não as afetariam, a interrupção do processo de licenciamento ambiental da usina, que resultou no adiamento das audiências públicas, onde os seqüestrado atuariam, que aconteceriam na semana seguinte ao seqüestro, o comparecimento na aldeia de líderes do governo, para um acordo.
Em nossas conversas, Amanda tentava se convencer de que nada aconteceria, de que os índios só precisavam chamar a atenção para a sua causa, que era legítima, mas a falta de notícias sobre César fazia com que, muitas vezes, fosse conferida uma dimensão ainda maior sobre a intenção dos índios.
Ela comentou que a EPE ainda não havia divulgado um comunicado oficial sobre o ocorrido e que, por isso, nenhum jornal do sudeste havia publicado sobre.
Me senti egoísta por pensar no “furo de reportagem” que tinha mais ou menos na mão, mas logo desisti de divulgar qualquer coisa pela falta de possibilidade de contatar alguém para falar a respeito
Amanda me enviou uma das poucas notícias que conseguiu encontrar na internet, no site nortista ‘Nativa News’, que divulgou a fala de alguns dos índios envolvidos na situação.
“—Nossos parentes Munduruku e Apiaká, principalmente os Kayabi, tomo aqui muito revoltado por causa que ta muito próximo da nossa terra e nós não queremos a usina perto da nossa terra pra prejudicar essa natureza”, frisou João Kayabi, cacique da tribo.”
Um dos trechos contribuiu para a tensão geral sobre esse impasse, que a essa hora já me influenciava, ao registrar a ameaça presente na fala de uma das líderes.
“—Nó só vamos soltar eles quando o ministro vir aqui, as autoridade, enquanto isso ainda ninguém fez nada, mas a partir de hoje se eles não der nenhuma posição positiva, a gente vai fazer uma gaiola e fazer um fogo junto com os guerreiros e as guerreiras, nós vamos queimar eles. A nossa posição é essa, se eles não der nenhuma posição, não ficar acreditando em nóis índios, porque nóis somos valentes sim, porque antigamente os Munduruku era cortador de cabeça, e é isso que nóis vamos fazer agora, eu acho que eles não tão acreditando”, afirmou Rosenida Munduruku.”
No dia seguinte, as pessoas que trabalhavam com Amanda viram uma reportagem feita pela TV Record em que os índios também davam declarações a respeito. Nessa reportagem se via o retrato de uma manifestação amistosa e que a intenção dos índios era que suas reivindicações ganhassem atenção do governo e da sociedade, por meio da imprensa.
O vídeo deixou Amanda e o resto da equipe da EPE mais calmos. Os telefonemas deseperados para mim cercearam, até que Amanda me deu a notícia de quem em um domingo, pela manhã, os reféns haviam sido soltos e que César estava a caminho do Rio de Janeiro.
Segundo César, em entrevista via e-mail, assessorada por Amanda, essa foi sua terceira ou quarta visita à aldeia. “Mas esse projeto já promoveu por volta de seis visitas, desde2008”.
Sobre a legimidade dos motivos que motivavam aquele protesto, césar declarou que ele mesmo manfestaria apoio incondicional de primeira hora ao movimento. “Não fosse eu mesmo um refém neste instante”.
Em seu diário de cativeiro, indicado por ele como complemento à entrevista, César contou que o planejamento das atividades previam dois dias de reunião com as comunidades indígenas, na aldeia. De lá seguiriam para outras cidades, para realizar outras ações e para participarem da audiência pública.
No primeiro dia, por volta da cinco e meia da tarde, todos foram chamados à sala de reuniões.
“Um anúncio breve, porém contundente, a liderança Taravy Kayabi informou que nós estávamos, a partir daquele momento, na condição de reféns das comunidades das etnias kaiabi, munduruku e apiaká.
Encerrada a reunião e após alguns momentos para firmar entendimentos sobre a nova condição que começávamos a assumir, todos vestiram seus calções e calçaram suas chuteiras para uma partida de futebol, no campinho atrás da aldeia.”
Ele conta, que o seqüestro e as ameaças dos índios, inclusive a da construção de uma gaiola, não representaram momentos de terror, mas sim de muita tensão.
“—Não fomos agredidos fisicamente, muito embora ter sido pintado com extrato de jenipapo pode ser considerado uma agressão física. Houve ameaças de agressão, mas não foram levada as cabo, entre outras razões, pela divisão interna do movimento, que incluíram a discordância quanto ao “uso” dos reféns. Nesse sentido, foi importante a atuação de um contingente de kaiabis convertidos ao protestantismo. Em certo episódio, uma senhora impediu que um grupo de guerreiros nos levasse para sermos amarrados em troncos de árvores na beira do rio.”
Sobre as condições dos reféns, César as julgou, com bom humor, como cômodas.
“— Além de acesso ao telefone [nos primeiros dias], circulávamos na aldeia, nossos mantimentos eram fartos e as refeições saborosas. Para sorte do nosso paladar (e azar dos nossos endocrinologistas) a cozinheira compunha o grupo de reféns.”
Os reféns perceberam que a situação ficava cada vez mais complicada, principalmente após tentativas de acordo, propostas pela FUNAI, para a liberação dos reféns, que foram rejeitadas pelos índios que queriam a presença pessoal das autoridades do governo.
“—As comunidades indígenas não abriam mão da presença de autoridades na aldeia, para que as negociações fossem travadas às vistas de homens, velhos, mulheres e crianças, que deveriam presenciar, também, eventuais acordos firmados. Começávamos a perceber que a questão era ainda mais complicada do que podíamos supor nas horas iniciais de cativeiro.”
César avalia a situação daquelas comunidades, como um exemplo de exclusão dos povos indígenas de processos que dizem respeito a eles próprios.
“—Não pude deixar de notar que uma das principais exigências do movimento das comunidades indígenas foi a simples presença de autoridades do governo federal na aldeia. Esse fato, isoladamente, ilustra que a incapacidade de diálogo do governo federal contribui para que grupos sociais implicados por projetos de interesse governamental se percebam alijados dos processos, induzindo a situações críticas, como a que acabamos de experimentar.”
* A íntegra do diário de cativeiro de César, completamente literário, pode ser conferida no Blog do Arnaldo Bloch, em http://oglobo.globo.com/blogs/arnaldo/