A sorte está lançada

      Todo mundo que já teve seus dezessete dezoito anos passou por uma fase que marca para o resto da vida, o vestibular. Durante grande parte da escola a grande preocupação é apenas passar de ano, como não importa, já no ultimo semestre do terceiro colegial parece que o universo conspira e você só ouve uma palavra: vestibular.

            Não está sendo diferente para os três amigos: Caio, Daniel e Pedro colegas durante todo o colégio chegam a tão temida hora de escolher uma profissão, com perfis e comportamentos distintos.

Era o dia antes das inscrições, chovia tanto que as roupas colavam no corpo de Pedro e Daniel reclamava de ter esquecido o guarda chuva do lado da porta. O único aparentemente mais calmo era Caio, todo organizado estava vestindo capa de chuva além do minúsculo guarda- chuva preto que mal lhe cobria a cabeça. Enquanto estavam na fila, para passar o tempo, uma conversa animada mas, um pouco nervosa, acontecia, Pedro começou:

- Vou escolher engenharia civil, me dei bem em exatas na escola, e até que curto a profissão.

Parece que essa declaração não espantou os colegas já que o pai de Pedro é engenheiro civil, nada mais normal do que o filho seguir a carreira do pai.

A fila andava lentamente, quase parando, e a chuva continuava forte encharcando as roupas e cabelos dos desavisados e pingando insistentemente nos guarda – chuvas enfileirados formando um teto de cores sobre os estudantes.

- Já eu vou prestar medicina – conta Caio com sua habitual segurança – Sempre quis ser dentista quando pequeno, mas essa vontade mudou para medicina agora na adolescência quando virei fã de House! Adoro esse seriado! Quero ser que nem ele! – empolga-se o menino com um sorriso de orelha a orelha.

- Hermann (como Daniel é conhecido entre os amigos), e você? O que pois na ficha?

- Admistração – disse inseguro. – Na verdade, só decidi por ADM agora no ultimo ano, porque nunca soube o que queria e essa profissão é bem ampla e é o ramo do meu pai.

A essa altura a fila já andava mais rápido e logo os três conseguiram fazer as devidas inscrições e cedinho no dia seguinte já estavam na escola.

O dia parecia se arrastar, o calor não ajudava e a hora não passava era assim que os estudantes se sentiam nas classes. O interesse nas aulas parecia evaporar já que depois de começarem o cursinho eles perceberam que sim, é possível uma aula de literatura ou de química ser cativante e produtiva. Mas, nem tudo são flores, a empolgação no cursinho também acaba e se torna cansativa, e era justamente esse o assunto na van a caminho da segunda rodada de aula:

- Hoje vai ser revisão de química para primeira fase né? – relembra Caio com a voz cansada e a cabeça apoiada no encosto do banco e com os olhos fechados.

- É, e logo depois intensivo de matemática! Não aguento mais musiquinhas para decorar fórmulas! – completa Pedro com seu vozerão agitando as mãos e bagunçando os cabelos na tentativa de esvaziar a mente e se acalmar.

Daniel estava caladão, no fundo da van olhando pela janela, com o olhar perdido alheio a conversa, mas pensativo. Estava preocupado com o resultado do simulado de 4 horas feito no dia anterior.

Agora com cerca de um mês e meio para a tão esperada prova, as emoções se misturam, alivio, ansiedade e principalmente cansaço apesar disso tudo, o que ainda prevalece é a esperança de realizar um sonho buscado com muito esforço. Um futuro engenheiro, um futuro médico e um futuro administrador de empresas não sabem o que a vida lhes reserva, inseguros mas crentes de um possível sucesso caminham para uma nova fase de suas vidas. A sorte está lançada!

Uma tarde com a Chef

Vestida com seu chapéu de chef de cozinha branco com detalhes azuis e um avental branco com os mesmos detalhes azuis, Teka Borba parecia impaciente. Em frente ao fogão prata da Escola de gastronomia Atelier Gourmand, Teka mexia delicadamente sua colher de plástico de cor amarela na panela onde se encontrava o recheio do bem casado, que mais tarde serviria de demonstração para sua aula sobre doces.
Sua impaciência logo deu lugar a um longo sorriso. Ela me olhava por debaixo de seus óculos de armação preta, com um olhar de indagação, já que eu estava lá para entrevista-la e perguntar sobre sua vida.
A cozinha da escola de gastronomia era bem grande. No canto encontram-se armários com vários utensílios que são utilizados nas aulas de culinária, havia também três pias grandes. No canto central do cômodo uma enorme escultura retangular de pedra levava o nome e o desenho da escola. E no meio havia uma grande bancada branca e preta com cadeiras e com o fogão onde se encontrava a chef. Sentei ao seu lado, e observava seu movimento com a colher. “Menina, pode começar quando quiser” ela falava. “Não quero te atrapalhar, Teka” retruquei. Ela olhou-me e falou com seu jeito simpático: “Não atrapalha, vai fazendo as perguntas e eu vou respondendo”.
Imediatamente peguei o gravador e a folha com as perguntas, entreguei a ela, pois seria mais fácil para ela ler e responder, já que estava concentrada para não queimar a panela.
Ela mesma leu as perguntas e respondeu:

-“Como comecei a cozinhar? Ah, eu estudava em uma escola de freiras, e você sabe como é né, rígido. E lá tínhamos que fazer alguma coisa, e eu ajudava na cozinha fazendo balas.” Respondeu com olhar pensativo e continuou: “Eu peguei o gosto por cozinhar, comecei a fazer cursos, trabalhei em muitos lugares como a garoto. Sempre gostei de fazer doces.”

Teka não parava de mexer a colher na panela e quando começava a ler a próxima pergunta parava um pouco e continuava:

-“Olha, tudo o que eu tenho hoje em dia, meu carro, minha casa foi pela cozinha. Eu sempre fiz encomendas de bolos, tortas, frango assado. Quando eu e meu marido estávamos numa fase ruim, o que nos reergueu foi isso aqui. Porém você deve sempre fazer as coisas com amor e dedicação e gostar do que faz que assim, tudo dá certo.” Explicou a chef com um olhar de felicidade e de quem estava tentando relembrar o passado.

Fomos interrompidos por quatro pessoas que entraram na cozinha. Uma moça loira com olhar de cansada, uma ruiva que parecia estar com pressa e um moço moreno que carregava um saco preto: “Eles querem encher as bexigas para o evento que terá no Atelier, mas vai fazer muito barulho.” Explicou a moça que trabalhava na escola. As bexigas seriam cheias com a máquina de ar, então nossa entrevista com a chef teve que ser encurtada.

-“Só um momento” pediu Teka ansiosa. “Aqui já está acabando”. E continuou: “Quando eu vi que estava cansada de trabalhar para os outros, resolvi montar meu próprio negócio, a chocolateria. (Teka sempre gostou de mexer com doces). Eu vi que eu podia. Minha vida é cozinhar, tem vezes que eu deito para dormir e acordo no outro dia com uma receita nova na cabeça, eu tenho facilidade nisso.”

Mas uma vez fomos interrompidas pela funcionária, que impaciente, disse que não tínhamos mais tempo.

Para finalizar, pedi a Teka que contasse algo engraçado que ocorreu com ela na cozinha:

- “Uma vez a receita pedia dois ovos inteiros, minha aluna foi lá e colocou os ovos com casca e tudo na receita” Explicou Teka, e todos que estavam na cozinha riram.

E assim, a entrevista teve que terminar. Agradeci a Teka, que com um longo sorriso convidou-me a ir pra casa dela em Joinville, deu seu cartão da chocolateria e por fim agradeci pelo tempo concedido pra entrevista-la.

Em poucos minutos, os balões coloridos começaram a ser cheios pelos funcionários. Um barulho infernal começava na cozinha, e a Teka continuava a mexer a sua colher delicadamente para seu bem casado sair perfeito.

Mais um dia em um ônibus

Mais uma manhã de segunda-feira chegava e eu, novamente, no ponto de ônibus. Quando avistei o Liberdade – 314v para os mais chegados – dei o sinal, e, curiosamente, percebi que neste dia haviam acentos vazios. Sentei-me no penúltimo acento, próximo a porta, pois, sabia que logo o corredor estaria lotado.
Tenho o habito de reparar nos outros usuários do transporte público. Um tiozinho que estava ao meu lado, por exemplo, com sua cor de jambo e um chapéu azul, – que parecia ter sido cortado com uma faca sem corte – me deixou curioso sobre sua vida, sobre os lugares por onde passou e as histórias que, certamente, tem. Ele tinha umas pálpebras inchadas que não me permitiam dizer ao certo se ele estava acordado ou dormindo.
Mas, uma voz, próxima a catraca, começou a me incomodar, dizendo: “Vendo deliciosas balas, chocolates “Hercheis”, chicletes com sabor de hortelã…”. E um infindado discurso sobre como a vida é injusta e como ele poderia estar seguindo outro caminho e chegando com uma arma – aquele mesmo discurso irritante.
Finalmente avistei quem é o vendedor ambulante. Um homem com seus 20 anos, cabelos escuros, roupas simples de lã, e uma cara estranhamente familiar. Assim que o discurso acabou, ele começou a distribuir os doces, de mão em mão. Reparei que as pessoas, em sua maioria, não recusavam e o jovem parecia estar contente por ter entrado naquele ônibus.
Ao se aproximar de mim, ele me encara por certo tempo, o que me incomodou profundamente. Após alguns segundos ele diz: “não vai querer nenhum Daniel?”. Olho para ele com uma cara abismada e me pergunto: de onde este cara me conhece? Quem é esta pessoa?
Envergonhado – por não saber quem ele era –, cumprimentei com uma balançada na cabeça e um sorriso discreto. Mas, ele foi logo se apresentando. “Sou o Renan, do Prudentão! Num lembra?”. E ao ouvir essas palavras comecei a reconhecer seu rosto, e seu nome me veio a mente: Renan Pacheco. O Prudentão, que ele se referiu, era o colégio onde cursei o ensino fundamental. Escola municipal Presidente Prudente de Morais, localizada em um bairro simples da zona leste de São Paulo.
- Quanto tempo, mano. Tá indo trampar? – pergunta meu velho colega de colégio
- Indo para faculdade – respondo.
Ainda meio constrangido com a situação, começo a reparar como o rosto dele está melhor das espinhas. Antigamente, seu apelido era pipoca, pois, seu rosto era repleto de acnes. Claro que ainda se nota alguns buracos e saliências, mas, nada comparado ao que era em sua adolescência.
– Você ainda estuda? – pergunto curioso.
- Ainda tô no Prudente. Voltei esse ano pra cursar o supletivo. Tenho que terminar, porque agora eu sou pai, mano. – responde com um sorriso no rosto.
- Que legal! Eu conheço a mãe? – replico.
- Claro! É a Iris, amiga da Bia. – disse com a certeza de que eu conhecia.
Não fazia a menor ideia de quem eram essas pessoas, mas, consenti com a cabeça para não decepcioná-lo. Não faria diferença conhece-las ou não. O que me deixou chocado foi o fato de nossas vidas terem seguido rumos tão opostos. Durante a escola, ele sempre foi um aluno mais dedicado que eu, suas notas eram acima das minhas, ele se dava bem com os professores. O que teria acontecido na vida deste homem? Poderia ser eu nesta situação. Esse pensamento não saia da minha cabeça.
Quando fui questioná-lo sobre o fato de ter largado a escola ele assoviou para o motorista, que abriu a porta. E num pulo ele desceu do ônibus, dizendo: “Bom te ver Daniel, até a próxima rapá”.

Marley e nós

Chamo-me Sonia Ducatti, 60 anos. Meu marido, Norberto Zago, 59 anos. Tenho 10 filhos de quatro patas. Ele, uma filha de duas pernas. Juntos, construímos o império do fracasso do relacionamento: a falta de compreensão. Conhecemo-nos ainda jovens. Vim do interior de São Paulo, com meu corpo esbelto e cabelos loiros que se constratavam com meus olhos azuis. Norberto era ato, bom de papo, sabia encantar uma mulher. E encantou. Há cerca de 40 anos atrás nos conhecemos, namoramos, casamos e formamos uma família. Quer dizer, uma quase família. Norberto sonhava com o modelo de família tradicional “Quero ter pelo menos dois filhos”, dizia no auge de sua juventude. Eu queria apenas amar e ser amada. Os filhos normais sempre ficaram em segundo plano e foram substituídos por cachorros, afinal, quando me casei não tinha estabilidade econômica nem psicológica para ter filhos. O tempo foi passando, a idade chegando. Ganhei um cachorro filhote de um amigo e foi amor à primeira vista. Sem dúvidas meus cachorros substituem um filho. E eu os trato como se fosse um.

 

Uma questão tão simples quando se é jovem e ainda acredita na teoria do “amor e uma cabana” foi tornando-se um problema.

- Sonia, escolha: ou nossos filhos, ou os cachorros.

E eu escolhi. Separamos-nos por 6 anos, tempo suficiente para Norberto cessar seu desejo de filhos de verdade. Durante uma visita a Belo Horizonte, conheceu Emília. Namoraram, não casaram, mas tiveram Mariana. Hoje com 20 anos, a menina vive longe do pai e detesta sua madrasta. Madrasta? Sim, eu e Norberto reatamos tempos depois. Em São Paulo, construímos uma empresa juntos. Enriquecemos. Engordei 25 kilos. Norberto 18. Já estávamos velhos, ultrapassados segundos a medicina para terem filhos. Chance perfeita para a minha argumentação:

- Amor, um parto na minha idade é perigoso. Posso morrer. Fiquemos então com nossos cães!

Norberto concordou. Já havia matado seu desejo. Mas me aconselhou a  frequentar uma terapia, pois “não é normal uma mulher não ter vontade de filhos. A mulher nasceu para procriar”, explicava, com todo machismo embutido em suas palavras.

 

Em um pequeno consultório em Higienópolis, a psicóloga Karina me recebeu. Conversamos sobre amenidades, rotinas, até chegarmos ao assunto principal. Com os olhos lacrimejados, eu disse:

- Eu vim até aqui para tentar entende e explicar ao meu marido a minha falta de vontade por filhos.

 A psicóloga, já habituada com a frequente visita de mulheres que quebram padrões de família na qual todos estão acostumados, respondeu quase que a defendendo.

- Entendo que, se a substituição do animal pelo filho é consciente, com a pessoa sabendo os reais motivos de preferir o contato animal ao contato humano, não há prejuízo psicológico. Hoje em dia tem-se visto com frequência essa preferência, e acredito que se deva muito a correria do dia a dia, a uma maior preocupação em como o futuro filho irá se comportar na adolescência e na vida adulta. Todos têm o direito e a liberdade de buscar o que é melhor para si, e sendo que essa busca do melhor é algo individual, seu marido deve respeitar suas escolhas, sem criticá-la por ser diferente das escolhas e padrões de épocas anteriores.

 

Voltei para casa aliviada. Não era doente, não tinha problemas. Entreguei o cartão da psicóloga para Norberto, recomendando-lhe uma consulta. Quem havia de entender o comportamento alheio era ele, não eu. Nunca mais voltei às consultas. Há alguns anos, Norberto frequenta o consultório. Já está menos machista. Comprou um cachorro e adotou outros abandonados. Visita sua filha com certa frequência em Belo Horizonte. O melhor de tudo, é que se sente um garotão vivendo um relacionamento considerado moderno. Nós e os cachorros vivemos felizes, e esperamos que para sempre!

 

A última visita

Feriado de finados, o sol aparecia ainda meio tímido por trás das nuvens. Com destino à Caraguatatuba segue o neto mais velho de uma senhora de 84 anos, com um objetivo, o de visitar a sua avó.

Everton estava apreensivo, pois não se tratava de uma visita qualquer, era uma missão, tanto como um neto que fazia tempo que não via sua avó, como também um médium.  Porque além de engenheiro elétrico, em uma multinacional, ele trabalha em um centro espírita, oferecendo passes às pessoas que freqüentam, e onde faz o curso para “despertar” a sua mediunidade. “Todos nós somos médium, só que alguns precisam aprender como controlar e usar, por isso há cursos para “despertar” essa sensibilidade. ”- comenta.

Depois de quase duas horas de viagem, enfim chega à cidade litorânea, cansado e com fome passa na casa de sua tia, com quem sua avó mora. Durante a pausa para o descanso e almoço, ela comenta com o sobrinho sobre o estado de saúde de sua avó, os dois muito emocionados, se abraçam, sua tia pergunta se está preparado para visita, ele responde que sim e lhe conta que quando estava em sua casa já havia feito uma oração em que seu avô e seu tio, filho que sua avó perdeu há trinta anos, apareciam para ele com a mensagem de que todos estão prontos para ajudá-la se ela viesse a desencarnar.

Everton, parece entender melhor como funciona a morte, não, que ele não sofra com a perda, mas entender sobre o que se passa após essa passagem o ajuda muito. Ele se prepara para a visita, pega seu livro “O Evangelho”, de Allan Kardec, da um breve tchau para sua tia e segue a caminho da Santa Casa de Caraguatatuba.

Quando chega ao hospital, que estava cheio devido ao horário de visitas, pede informação para um assistente. “Por favor, onde fica a UTI?” – Após a resposta ele seguiu  um corredor em direção à UTI.

Ele se identifica e diz o nome do paciente para o enfermeiro, que pede para que ele aguarde ser chamado para entrar. Enquanto isso permanece concentrado de olhos fechados segurando seu livro.

“Pode entrar o visitante da paciente Maria José.” – chama o enfermeiro

Respirou fundo, abriu os olhos e caminhou até a porta, fez a higienização e colocou um avental azul. Lá estava ela, da porta já dava para ver aquela que por diversas vezes correu e gritou atrás dele dando broncas, preocupada.

Ele a cumprimenta, passa a mão sobre seu rosto com os olhos marejados e comenta baixo: “Vai ficar tudo bem”. Os olhos dela ainda fechados começam a mexer, como se ela tivesse acordada, mas apenas isso se mexia. Os batimentos cardíacos estavam fracos, pois seu coração só estava funcionando por causa dos remédios, os outros órgãos, como, pulmão e rins estavam em péssimas condições. Respirar por aparelhos ajuda o paciente a não sofrer tanto, como disse o posteriormente médico ao neto da dona Maria.

Enquanto ele rezava, ele olhava para o rosto dela, e os olhos dela continuavam a mexer fechados, parecia que ia chorar, mudou a expressão do rosto ficou vermelha, mexeu muito pouco a cabeça, mas não acordou. Feliz, por sentir a sua presença ele continuou a rezar.

“Acabou o tempo, senhor” – disse a enfermeira

Fez que sim com a cabeça, e começou a se despedir de sua avó.

“Vó,  siga o caminho de luz, sentirei a sua falta…” – cochichou em seu ouvido.

De volta a casa de sua tia, ele muito pensativo com a cena que não sairia tão cedo de sua cabeça, sua avó mexendo os olhos e a sua expressão de choro, não aconteceu isso com nenhum dos outros netos e nem visitantes. Apesar da dor de saber que sua avó estava para morrer, ainda sim estava feliz, pela experiência de estar presente em seu leito, passando todas suas energias e palavras boas. Ele sentiu que ela se emocionou ao vê-lo ali e se sentiu segura, pois confiava muito em seu neto.

Três dias depois, ele recebe a notícia de que sua avó havia falecido. Infelizmente não pode ir ao seu enterro, pois estava fora do Brasil a trabalho. Ele sabia que aquela visita era a última vez que iria vê-la em vida.

Sobre os que já se foram

Sobre os que já se foram, diria que não podemos dizer que nossa cultura regada por elucubrações científicas, hipóteses materialistas de um mundo que só sabe olhar para o próprio umbigo (o mundo ocidental), possa se vangloriar de prestar alguma homenagem a eles – os que vieram antes de nós; nossos antepassados, incontáveis almas (palavra essa que pode acarretar demissão, se publicada por um jornalista desprestigiado) responsáveis pela nossa estadia mundana.  Talvez, o que melhor resuma nossa atitude pretensiosa e provinciana – já que um não caminha sem o outro – seja a frase que ouvi de um amigo meu alguns dias antes do último dia 2/11: “Não entendo a necessidade desse dia, deste feriado. Afinal de contas, já estão todos mortos, mesmo!”. E por aí vai.

Para a Igreja Messiânica Mundial, crença fundada por Mokiti Okada, ou “Meishu Sama (senhor da luz)”, no Japão da primeira metade do século XX, Finados constitui a data mais importante a ser celebrada anualmente. No último dia 2/11, para se ter uma ideia, estiveram reunidas no Solo Sagrado de Guarapiranga – um dos maiores templos messiânicos no mundo – em torno de 40 ou 50 mil pessoas (estimativa minha, baseada na lotação do Morumbi e do Pacaembu) entre membros e visitantes.

A Messiânica, e outras religiões orientais como o Budismo, acreditam no que constitui o princípio da metafísica: o que nós fazemos no mundo material reflete no mundo espiritual, e o que acontece no mundo espiritual reflete no mundo material. Se fôssemos hierarquizar os três mundos, os três planos existentes, em primeiro lugar viria o Plano Divino – habitado por Deus e alguns espíritos superiores – ,o Plano Espiritual – habitado pelos outros espíritos desencarnados, e dividido em camadas em ordem de importância (como em “A divina comédia”) – e o Plano Material – habitado por nós, espíritos encarnados ou reencarnados.

Finados é, aos messiânicos, o único dia do ano em que todas as camadas do Plano Espiritual são abertas por Deus, possibilitando o encontro e a comunhão de todos os espíritos entre si e com o Plano Material, se lembrados e ritualizados por nós. Esta é a importância da data, assim como dos ritos messiânicos diários e preparativos especiais para esse culto.

Ainda em atividade

Na época, a imponência da Praça Roosevelt escondia a porta da pequena charutaria, incrustada entre teatros alternativos e um supermercado. Entro. Os móveis de madeira tornam o ambiente escuro e só a iluminação que vem de fora permite a visibilidade no interior da loja. As vitrines por trás do balcão dividem espaço com uma barbearia aos fundos. O cheiro forte de tabaco logo na entrada lembra um avô sentado na cadeira de balanço em um final de tarde qualquer.

- Se eu posso responder algumas perguntas? É sobre o teatro? Espera aí, não comece ainda não. Ô Renato, vem cá que a menina quer saber sobre o Cultura Artística.
Dona Gilda Orbetelli permanece por trás do balcão como se eu fosse a próxima cliente a pedir um charuto.

- Minha sobrinha tem o mesmo nome que você. É muito bonito.
Agradeço enquanto um senhor grande e simpático se aproxima.
- Eu sou dono dessa loja há 40 anos, e lembro da época em que o Cultura Artística foi utilizado pela TV Excelsior; com o teatro o movimento era maior, até o Fagundes costumava comprar aqui – diz orgulhoso o senhor Orbetelli.

A entrevista para. Um morador de rua, comum nas proximidades da Praça Roosevelt, tenta entrar na loja e assusta o casal.
- Hoje não tem nada não, pode sair. – e o seu Renato continua após a saída do convidado indesejado – Viu só?! Quando o teatro funcionava a gente podia ficar aberto até de noite, os guardas permaneciam na região. Agora não dá mais. Até durante a Virada Cultural a gente fica preocupado.

Pergunto sobre a importância do teatro. O marido fala sobre o alto padrão do espaço e sua importância para o comércio. A esposa é naturalmente mais poética:
- O teatro era vida, sem ele o bairro fica morto.
Anoto a frase.
- Não, não coloca isso no seu texto não. Que vergonha, coloca algo mais importante e bonito.
Dou risada: a frase ficaria perfeita na matéria.

Estou para ir embora quando os papeis se invertem e quem precisa responder a perguntas sou eu:
- Quando o teatro ficará pronto?
- A previsão é que em 2012 ele seja reinaugurado – respondo.
- Puxa, ainda temos que esperar três anos – lamenta a senhora Gilda.

2012 já está chegando. Durante estes anos a Sociedade Cultura Artística continuou com suas temporadas de concerto em outros teatros da cidade, enquanto esperava sua casa definitiva ser finalizada. A região também sofreu grandes mudanças: a Praça Roosevelt foi derrubada e agora o que se vê são tapumes e a espera de sete anos por uma reforma do local parece ter chegado ao fim.
A região central, no passado símbolo de glamour da cidade de São Paulo, já não é mais a mesma e continua mudando. São tantas transformações desde a época da TV Excelsior até o incêndio e atual reforma do Cultura Artística que parece que o único resquício do tradicionalismo se encontra na porta desta charutaria. Podem vir novos teatros e novas Praças Roosevelt, o casal Orbetelli continua por lá.