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Narrativas

Um bate-papo com o chefe

Publicado por novashistorias em 11/11/2009

 São 15h30 de uma quinta-feira. Estou preparando um texto para ser publicado em nosso site quando toca o telefone: 

- Flávia, já pode descer, o secretário está a sua espera para a entrevista.

 Aviso os meus chefes da Assessoria de Comunicação e desço dois lances de escada. Passo por um jardim interno e entro no gabinete do secretário municipal de Esportes, Walter Feldman. Sônia, uma de suas secretárias já está a minha espera com a porta aberta e um sorriso no rosto.

- Pode entrar, não precisa bater.

 É a primeira vez que eu entro sozinha na sala do secretário. Ele pede para eu me sentar e, educado e gentil, pergunta se quero um copo de água ou uma xícara de café. Porem, diz que infelizmente o seu tempo é curto, já que têm outros compromissos agendados e uma viagem internacional a sua espera.

 Como estou um pouco nervosa, a cada três palavras que pronuncio uma é “senhor”. Até o momento em que ele me olha no fundo dos olhos e diz: 

- Eu tenho verdadeiro horror quando alguém me chama de senhor.

Depois de ouvir isso não sei onde colocar as minhas mãos. Sinto meu rosto cada vez mais quente e, com um sorriso sem graça, peço desculpas. 

- Você conhece o Fernando Henrique Cardoso, menina? 

- Conheço, claro! Ex-Presidente da República. 

- Sim. Perguntei porque você é novinha. Quantos anos tem? 

- 20 anos, secretário. Mas me lembro do FHC na presidência. 

- Então, sou amigo dele de outras épocas, muito antes dele se tornar Presidente. Por isso, sempre o tratei por “você”. Mas quando ele subiu no Palácio do Planalto eu não sabia mais como o tratar. Sempre que o encontrava eu me rodeava, rodeava… Até que um dia tomei coragem e falei que continuaria o chamando por “você”. Então, se eu posso me dirigir ao FHC dessa forma, você também pode me chamar assim.   

Um pouco mais aliviada e com um sorriso no rosto, explico o motivo pelo qual estou ali, mostro a minha pauta e digo que é para um trabalho da faculdade. 

- Que curso você faz na faculdade? 

- Jornalismo.

 - Hum… Muito bom. Então, você será a próxima Fátima Bernardes? – brincadeira que quase todos gostam de fazer quando falo da minha profissão. 

- Lembro dos meus bons tempos de faculdade. Eu sou formado em medicina pela Escola Paulista de Medicina, mas logo entrei para a vida política, é o que eu realmente gosto de fazer. 

Eu já sabia de tudo isso, afinal Walter Feldman é o meu chefe, mas escuto atentamente todas as suas histórias. 

- Mas vamos lá, menina! Como falei não temos muito tempo. 

- Sim, vamos começar. Gostaria de saber, como está a história do destino do Estádio Municipal do Pacaembu. 

- No dia 29 de setembro entreguei à comissão de estudos da Câmara Municipal de São Paulo um projeto que prevê uma série de melhorias no local. Desde a adequação para 45 mil lugares (todos com assentos numerados), criação de um estacionamento subterrâneo (abaixo da Praça Charles Miller), cobertura de toda a área de arquibancada, rebaixamento do campo de futebol e criação de uma zona mista, além de modernização dos espaços de imprensa, criação de camarotes e instalação de lojas e estabelecimentos comerciais nas áreas próximas ao Museu do Futebol. Queremos mostrar que é possível modernizar o Pacaembu sem nenhum tipo de influência negativa, nos aspectos de tombamento e conservação do patrimônio histórico. O Museu do Futebol e os serviços oferecidos à população pelo programa Clube Escola também não seriam prejudicados por uma eventual modernização.

- Mas para isso ser realizado, da onde sairia a verba? 

- Para mim, a concessão à iniciativa privada é o melhor caminho a ser tomado, já que irá garantir a readequação do Pacaembu ao cenário do futebol mundial e colaborar, também, com a modernização do bairro.  

- E qual é o custo total da obra? 

- R$ 250 milhões é o valor proposto para todas essas adequações apresentadas. 

- Você acha que o Corinthians é o melhor nome para pegar essa concessão?

 - O que foi divulgado pelo Corinthians é que o clube tem, atualmente, interesse em investir até R$ 100 milhões para isso então, se realmente for interessante para eles, terão de fazer parcerias. O objetivo da Prefeitura é modernizar e garantir o futuro do estádio, por meio da concessão, independente de ser com o Corinthians, ou não.  

Depois disso, Feldman pega o celular que está tocando em sua cintura, olha com ar de importância e pergunta se podemos encerrar, se as dúvidas já foram sanadas. Faço sinal de positivo com a cabeça. Levanto-me da cadeira e passo os olhos em algumas fotos em preto e branco que estão pregadas na parede de sua sala. Agradeço e atravesso novamente o jardim interno, subo os dois lances de escada até voltar à minha sala, meu computador e à minha rotina de estagiária.

Flávia Ribas

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Nove anos em trinta minutos

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

Assim que entrei no hall da festa já percebi que a noite renderia até altas horas. Só no primeiro saguão tinham três bares bem localizados, cada um com um tipo de bebida diferente, e sofás brancos que compunham uma decoração junto às cores quentes das paredes. Ainda era cedo e os preparativos finais estavam sendo providenciados. Modelos uniformizadas de vestidos brancos e sandálias havaianas já estavam a postos para receber os convidados e garçons de preto já estavam posicionados para a noite que prometia ser animada. Eu, porém, estava fora do começo desta comemoração. Logo que entrei procurei a salinha de redação e me instalei junto aos meus outros três colegas.

Eventos como estes deixaram de ser curtição e passaram a ser uma longa e acelerada noite de trabalho. O aniversário dos nove anos da revista em que eu trabalho não seria muito diferente da correria das outras noites. A festa da revista Quem aconteceu numa terça-feira extremamente chuvosa de São Paulo, no WTC Golden Hall, e contou no final com mais de 1.800 convidados. Entre eles, famosos, assessores de famosos e outros profissionais da área de comunicação. Festas assim costumam ser disputadas pela mídia e a frente do prédio estava lotada de carros da imprensa. A fila pra entrar já estava se formando, e os convidados pareciam ansiosos para a festa.

- Quem será que vai aparecer? – perguntou uma menina ruiva, não muito alta, com um vestido preto que só fazia os olhos dela ficarem mais azuis.

- Ano passado estava a Carolina Dieckmann, mas dizem que pagaram cachê. – respondeu a amiga de vestido vermelho e maquiagem forte.

- Será?

Mais adiante na fila, um casal confabulava sobre os shows:

- Falaram que será da Banda Eva.

- Tem certeza? Disseram que ia ser o Tony Garrido.

Menos de uma hora depois do início, a festa já estava fervendo. Chega Adriane Galisteu. Fotos. Crédito das roupas. “Como está o namoro?”. Fotos. “E o programa novo, quando estréia?”. Fotos. Carolina Dieckmann. Fotos. “Vai estar na próxima novela?”. Fotos. “Da onde é seu vestido?”. Fotos. Fotos. Fotos. “E o José, já está na escola?”. Fotos. Giovanna Antonelli chega de vestido preto justo. “Como é trabalhar com Manuel Carlos?”. Fotos. A jornalista Glória Maria chega de bom humor. Fotos. Fotos. “Como estão as gêmeas?”. Fotos. “Os papéis da adoção já saíram?”. Fotos. Paola Oliveira chega com o novo namorado. Fotos. Fotos. Fotos! De repente tudo para. Todos os jornalistas viram os olhos para um só lado, e em seguida, correm na mesma direção.

- Jesussssssss Luzzzzzz!!!!!!!!!!!!

“Cadê a Madonna?”. “Vão Casar?”. “Quando estréia como DJ no Brasil?”. “Vai tocar hoje na festa?”. “A Madonna vem pra cá?”. “E o apartamento em NY?”. As respostas foram dadas com um silêncio. Nem uma palavra, só o aceno de positivo para os fotógrafos e um sorriso acuado, parecendo até tímido. Por volta de meia hora depois do fervor todas as celebridades foram embora.

- Rápido assim? – perguntou a assistente de fotografia.

Logo depois já avistei minha chefe vindo de longe.

- Deu tudo certo?

- Acabou, né?

- Acho que sim, todos já foram embora.

- Já viu o site? Está tudo ok?

- Tudo em ordem.

Em seguida ela pega dois copos de cerveja e me dá um deles.

- Pode vir então. A festa vai começar!

Victoria Bessell

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O Furto

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

Chaves de casa, ok. Celular e carteira, ok. Lápis de olho, ok. É feriado de 9 de Julho e ela não foi viajar por falta de grana. “Sorte minha”, pensou enquanto conferia se havia colocacado o documento do carro dentro da bolsa, “o pessoal ficou todo em São Paulo mesmo!”. Então se olhou a última vez no espelho, arrumou a franja e deu um sorriso forçado para conferir se os dentes estavam limpos. “É hora de ir”.

Juliana Lima, 22 anos, estuda psicologia em uma universidade famosa da cidade e passa a semana toda fumando cigarros e se acabando em cervejas no bar da faculdade. A lei das calçadas é a solidariedade, quem estiver bem de grana, banca as rodadas. E de rodada em rodada, ela pega o ônibus de volta para casa com a cabeça girando. Faz questão de sentar do lado da janela e sentir a saudade chegar conforme o bairro onde mora se aproxima. Observa casa por casa, pensa nos amigos que fez duarnte o tempo de colégio e sente um alívio tremendo ao lembrar que todos continuam ao seu lado aos finais de semana….

… Finais de semana como este, que permitem o reencontro de toda turma antiga em um só lugar! Ela estaciona o carro em uma rua paralela. O lugar é simples visto de fora. “Cerveja barata, yes!”, pensa apagando o cigarro na calçada. O encontro é emocionante como sempre. Brindes celebram a amizade e ela decide exibir sua máquina digital: “Junta aí, galera”, flash! “Bate mais uma!”, flash! Fotos e mais fotos, copos e mais copos, dígitos e mais dígitos na conta ao final da noite. Juliana havia apoiado sua bolsa na cadeira e, quando virou para pegá-la… “A BOLSA SUMIU!!”.

Procura aqui, procura alí, pergunta pro garçom, pergunta para a mesa do lado. Seu humor variava entre riso nervoso e desespero, riso nervoso e desespero. “O que tinha lá dentro?”, perguntaram para ajudá-la a decidir pelo desespero: chaves, documentos, máquina digital, bilhete único, cartões do banco…. Então uma cadeira voou! Voou porque ela chutou mesmo. A raiva bateu com força e ela ficou inconformada em pensar que alguém poderia ter causado tamanha confusão. Entre desconfianças e esperanças, ela acendeu mais um cigarro e foi até a calçada com as mãos na cabeça. De nada adiantaria ficar alí. Optou, então, por agir racionalmente e pediu uma carona até sua casa, de onde seguiu para a delegacia mais próxima para registrar um B.O.

Ela nunca havia estado em uma delegacia antes. Mentira. Só uma vez, quando tinha 17 anos e tomou um porre em uma praça residencial. Os policiais encaminharam toda a turma ao DP e os pais precisaram assinar uns papéis… Mas desta vez era diferente, ela estava sozinha, precisando se virar. “Tomara que seja rápido”, pensou e já ‘des-pensou’ assim que viu outras quatro pessoas sentadas na sala de espera.
“Você vai ter que esperar, senhora”, avisou um dos pouquíssimos policiais presentes.

Entre os casos presentes: um assalto à residência, um carro roubado e uma briga entre vizinhos por conta do barulho de uma festa. “eu só preciso registra um B.O rapidinho, moço. Não rola?”, disse ela acendendo mais um cigarro. Foi ignorada.

Mais de duas horas depois, seu nome foi chamado. A maquiagem já estava toda borrada, os pés doiam e ela foi mancando até a tal salinha dos registros pensando que, naquele momento, todos da delegacia deviam ter certeza de que ela era uma prostituta vítima de furto.

Ela explicou a confusão a um dos funcionários e, em menos de 20 minutos, foi liberada. “Malditos!”, pensou. Bem que podiam disponibilizar um sistema em que as próprias vítimas digitassem seus casos e pudessem ir pra casa mais cedo descontar a raiva em seus travesseiros.

O desejo de Juliana foi atendido meses depois. Fumando um cigarro às 7h da manhã e lendo o jornal no último dia 13 de outubro, ela constatou que a  Polícia Civil implantou um novo sistema de atendimento nas delegacias de São Paulo. Agora, os casos podem ser registrados pelas próprias vítimas em computadores disponíveis nas delegacias. Somente as ocorrências graves serão encaminhadas aos delegados. “De acordo com o o Dr. Marco Antônio, diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital, o sistema ficará muito mais rápido”, leu alto para si mesma enquanto equilibrava a cinza para não sujar o tapete. “A pessoa que for à delegacia comunicar um crime sem urgência, não precisará ser atendida naquele exato momento, podendo fazer o registro de imediato e ir embora”. Ela respirou fundo e apagou o cigarro.

Apesar de toda dor de cabeça causada naquele tal feriado, Juliana continua sem se preocupar com a bolsa. E no fim das contas, até que foi bom… “Bebi pra caramba e saí sem pagar a conta!”.

Natália Daumas

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Rio 2016 divide opiniões

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

A escolha da cidade do Rio de Janeiro para ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016 pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) parou o mundo nas últimas semanas. Além de ser a primeira cidade da América do Sul a ser escolhida para sediar tal evento, também é a primeira representante de um país em desenvolvimento. Porém, o forte apoio popular para a escolha – cerca de 85% – não é a visão geral da população brasileira, sobretudo dos cariocas.

Em um escritório grande, bem iluminado e arejado a duas quadras de Ipanema, região sul do Rio, o economista José Jaime Soto e o cientista político Marco Lúcio Ribeiro divergem a respeito da escolha da cidade-sede.

- Em 12 meses, entre julho de 2007 e julho de 2008, ocorreram 2.336 homicídios dolosos no Rio, além de 902 casos de resistência, como são denominadas as mortes em supostos confrontos entre policiais e criminosos. É impossível uma cidade atrair tanto turistas sem colocá-los em risco eminente vinte e quatro horas por dia, diz Soto.

Não satisfeito com a resposta nada nacionalista do economista, Marco Lúcio retruca, tentando demonstrar certa convicção.

- Claro que temos um problema, como em qualquer lugar. O governador de Illinois, em Chicago, disse que está muito preocupado com a violência na cidade. Londre também não diminui as taxas de violência. Temos problemas, mas estamos enfrentando-os.

- Não queira comparar os problemas em Chicago e Londres com os do Rio. Os dados são alarmantes, estamos vivendo uma das piores fases da história do narcotráfico e venda de armas ilegais. Se continuar nesse nível, quem vai ser responsável pela nossa segurança em 2016 senão os próprios traficantes, com suas armas mais potentes do que as da polícia, indaga o economista.

O cientista político abaixa a cabeça e retira os óculos de armação pesada que usa. Olha para a mesa de madeira envelhecida que separa os dois como se estivessem em um palanque, mas, quando abre a boca para revidar novamente, Soto continua:

- Se as obras públicas não forem devidamente administradas e monitoradas irão acabar tudo como nos Jogos do Pan 2007, onde ocorreram diversos casos de corrupção e acabaram que as construções já estão praticamente abandonadas, sem nenhum cuidado e revitalização.

- Agora você já está usando argumentos sem base. As Olimpíadas no Rio foram defendidas por muitas pessoas que sabem de casos de corrupção, falta de segurança, mas que sabem que essa é chance de mudar a realidade socioeconômica do Rio de Janeiro, tomando como exemplo os Jogos de Barcelona em 1992, que revolucionaram a situação da cidade, com um impulso no turismo e abertura econômica favorável não só para a cidade, mas como para toda a região da Catalunha e da Espanha.

O economista agora parece estar um pouco mais aberto às opiniões favoráveis à escolha do Rio como sede. Pensativo, não consegue contra-argumentar:

- Eram épocas totalmente diferentes, não podemos tomar como base.

- Então nós conversamos novamente daqui pelo menos uns três anos, quando muito já deve estar preparado, tudo bem?

O economista e o cientista político voltam ao trabalho habitual, mas ambos parecem estar pensando no que o outro disse. Os pontos negativos e positivos coexistem e não se pode prever como vão ser os preparativos e projetos desenvolvidos para o acontecimento, não somente esportivo, mas também social e econômico. Só resta torcer por mais uma vitória do Brasil.

Renan Miret

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Reembolso do Enem: Questão de honra

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

De mãos dadas com a pressão, o ritmo de estudos estava cada dia mais acelerado. Os planos e metas já haviam sido traçados, as escolhas feitas e a sorte estava prestes a ser lançada.

Desde que foi anunciado que neste ano, pela primeira vez, a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) seria aceita parcial ou integralmente como passaporte para a entrada em importantes universidades do país, Pedro Gonçalvez, 22, perdeu o sono. Ao lado de cerca de 4,5 milhões de estudantes que se inscreveram para participar da prova, o candidato adotou diferentes hábitos de estudo e passou a se dedicar integralmente ao novo modelo do exame.

A promessa do Ministério da Educação (MEC) foi a de promover uma reformulação no Enem. O novo modelo põe fim ao decoreba e exige reflexão multidisciplinar dos alunos. A ideia é eliminar, de imediato, aqueles que não estudam, pois é preciso ter conteúdo adquirido em todas às áreas do conhecimento, sem deixar de lado as suas relações os com fatos atuais.

Buscando um lugar no curso de medicina há quatro anos, Pedro definiu que prestaria o vestibular da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Fuvest (Universidade de São Paulo). A boa notícia veio quando as universidades escolhidas anunciaram que usariam a nota do Enem e o estudante teve a oportunidade de focar suas energias exatamente onde tinha interesse.

O ponto de partida para a ruína dos planos de Pedro só estava começando. Logo de cara, o Inep (Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais), órgão responsável pelo Enem, assumiu um erro de logística na distribuição dos alunos que iriam prestar o exame na cidade de São Paulo. Quando foram divulgados os locais de prova, muitos candidatos reclamaram da distância entre suas casas e os lugares estabelecidos. Pedro era um deles. “Não fazia a menor ideia de como chegar onde iria fazer o exame, ficava a 25 km de casa”. Apesar disso, a palavra solução parecia estar fora de uso para o MEC.

Mas o pior estava por vir. Ao ligar a televisão se deparou com o que jamais imaginou que pudesse acontecer. A prova do Enem havia sido roubada e o exame estava cancelado. O choque inicial cedeu lugar a revolta pelo aparente descaso com a educação e com os milhões de candidatos inscritos para fazer a prova. ”Levei um susto quando vi a notícia na TV. Não passava pela minha cabeça que uma prova como o Enem poderia ser adiada, o sentimento é mesmo de revolta, fomos lesados e isso interfere em muitas coisas para os vestibulandos”, desabafa o estudante.

Agora Pedro tinha um sentimento a mais pra adicionar à sua lista, a angústia. Como uma avalanche, os escândalos relacionados ao roubo da prova não paravam de acontecer. Desde acusações contra a gráfica responsável, aos funcionários, o surgimento dos boatos de que eram, de fato, os meios de comunicação que receberam ofertas pela prova e tantos outros. O MEC, a Polícia Federal, as Força Nacional de Segurança e os Correios, entraram no caso. A demora para definir uma nova data fez o desespero aumentar ainda mais.

Na última semana a decisão foi tomada e as provas estão previstas para os dias 5 e 6 dezembro. Inúmeras faculdades modificaram todo o seu calendário para não coincidir com o exame e não prejudicar ainda mais os estudantes. Mas isso não foi unanimidade, muitas não alteraram as datas e até descartaram usar a nota da prova, algumas modificaram a maneira de como utilizaram e outras continuaram confiantes no MEC e dispostas a cumprir o que já haviam previsto.

Quanto ao Pedro, mais caos para a sua vida. A nova data coincide justamente com a segunda fase de um dos vestibulares que ele pretendia prestar, a UEL, que não abre mão do seu processo seletivo para não coincidir com outras faculdades do Estado. E de quebra, a Fuvest anunciou que por razões “operacionais” não utilizaria mais a nota do exame. Com a mesma decisão, a Unicamp também descartou o uso da pontuação, que ajudaria com até 20% da avaliação para ingresso na universidade.

Longe de chegar ao fim, agora Pedro luta pelo ressarcimento da taxa de inscrição, já que não tem mais sentido algum fazer a prova, pois para as faculdades do seu interesse nada valerá. “Sinto-me um idiota. A pressão psicológica que sofri, não há dinheiro nenhum que pague, perdi todo esse tempo me preparando para o exame, deixei de estudar para os vestibulares que queria porque o Enem iria me ajudar. Quebrei a cara, por uma questão de honra, quero o meu dinheiro de volta”.

O MEC promete encontrar uma forma de reembolsar os estudantes que desistirem de fazer a prova. Porém, ainda não sabe como isso será feito, especula-se que os estudantes deverão mandar uma carta para o Inep, mas não foi dado detalhe algum. No entanto, os procedimentos da devolução só serão anunciados depois da aplicação das provas. Até lá, o Pedro continuara vivendo de promessas.

Juliana Mosca

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O Brasil a caminho do pódio

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

A indicação do Rio de Janeiro como cidade sede da olimpíada de 2016 abre um novo desafio para o Brasil: bater o recorde de medalhas em participação nos jogos. Especialistas dizem que uma das maneiras de se obter o melhor desempenho da história no quadro geral é investir com mais força em algumas modalidades. Vou abordar nesta matéria os esportes que distribuem mais prêmios individuais: a ginástica, natação e atletismo. Em Pequim, no ano passado, o nadador Michel Phelps, a ginasta Nastia Liukin e o velocista Usain Bolt conquistaram, juntos, um total de 16 medalhas, sendo 12 de ouro.

Quando o assunto é, literalmente, correr atrás de medalhas….ninguém pode com eles: os jamaicanos. Em Pequim, a Jamaica ganhou 11 medalhas na pista do estádio “Ninho de Pássaro”. No Brasil, ainda não há atletas como um Bolt ou um Asafa Powel… Porque não? O principal motivo é que o esporte mais popular dos jamaicanos não é o futebol, e sim o atletismo. Correr é o que as crianças mais fazem por lá. Respeitando as diferenças culturais, é nesse caminho que o Brasil deve seguir para brilhar em 2016. Para Robson Caetano, que conquistou dois bronzes olímpicos, a família deve assumir o papel de incentivar a criança assim que ela demonstrar sinais de que pode ser um futuro atleta. “Acho que tudo parte da família, passando pela escola e fazendo uma ligação entre os clubes que estão falidos. Acho que temos que investir na base para, daqui a médio / longo prazo, tenhamos no Brasil fenômenos acontecendo”, afirma.

A atenção com os jovens é um dos grandes trunfos da modalidade. O técnico Nélio Moura cita a Jamaica como modelo a ser seguido pelo Brasil, além de pedir mais estrutura para formar atletas. “O grande exemplo que a Jamaica nos dá é o esporte escolar. Pensando especificamente em 2016,precisamos oferecer boas oportunidades de treinamento. Outro fator fundamental é o Comitê Olímpico Brasileiro fazer intercâmbios com atletas para eles poderem adquirir experiência.”, relata Nélio Moura.

Outra atitude necessária é olhar para todo o Brasil…com uma política abrangente, para não desperdiçar talentos. O presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, Roberto Gesta de Melo, garante que isso irá acontecer. “Nós já temos alguns centros no Brasil inteiro montados. Nos já estamos planejando com o Ministério dos Esportes e o da Educação para que ingressemos nas escolas e possamos conseguir atletas de bom nível para representar o Brasil em 2016.”, concluiu Gesta.

Raramente um país consegue êxito nos Jogos Olímpicos sem que o sucesso passe pelas piscinas. É o terceiro esporte que distribui mais medalhas no geral, e é aquele que pode dar mais prêmios individuais: em Pequim, Michel Phelps brilhou com 8 pódios. No Brasil, o nome de maior expressão é Cesar Cielo, campeão olímpico e mundial; um fenômeno que serve de espelho, mas não pode ser exceção.

Maiores investimentos nos clubes e um bom material humano é a chave para o Brasil conseguir bons frutos neste esporte. Gustavo Borges, integrante da comissão de atletas do Comitê Olímpico Brasileiro. “Tem duas coisas em que é necessário investir. A primeira é uma boa infra-estrutura para os atletas praticarem e a segunda é em educação, para o atleta ter um bom educador para sempre passar boas orientações na hora da competição. Quando se fala em educação é um melhor ensinamento para os técnicos nas faculdades, para que essa pessoa possa acompanhar um atleta de alta performance”. Gustavo Borges afirma que não é necessário copiar o modelo americano, o maior vencedor no esporte, e sim, ter a noção dos próprios problemas e tentar resolvê-los na melhor maneira.

Ginástica. Um esporte que se torna tradicional para o país em mundiais e é um dos objetivos olímpicos para 2016. A certeza do apoio governamental e a esperança no investimento privado movem a ginástica no país. O Brasil é o atual 5º colocado no ranking mundial; Diego Hipólito, com um ouro, e Jade Borba, com um bronze, conquistaram medalhas no ultimo mundial. Resultados que não são repetidos em Olimpíadas. Para mudar o quadro, a modalidade espera um investimento imediato, como revela a presidente Confederação Brasileira, Maria Luciene Resende. “Tenho certeza que o governo investirá a longo e a curto prazo para atingir um bom papel em 2016”, acredita. Para Jade Barbosa, o Brasil precisa de mais locais de treinamentos. “Eu acho que seriam necessários outros centros treinamentos para dar possibilidade a todos crescerem e assim o Brasil encontrar novas perolas do esporte.”, conclui.

Felipe Piccoli

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Quanto custa o amor?

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

Juazeiro do Norte, Ceará, 1994. Cheia de expectativas, cega de amor e sem saber que sabor tem o futuro que lhe aguarda, Márcia Gomes, mãe de Marina há 15 anos, descobriu uma gravidez inesperada. A falta de experiência lhe deu, sim, certo receio de não conseguir cumprir suas novas responsabilidades, mas a felicidade de gerar um novo ser, fruto de um amor sincero, era muito maior naquele momento.

Arrumou-se, escolheu o mais belo vestido que mantinha no armário, colocou os brincos de pérola herdados da avó, equilibrou-se no salto, respirou fundo e encheu-se de coragem. De onde veio tamanha bravura ainda não se sabe, mas aquele era o momento. O momento da verdade. “Descobri que estou grávida, agora somos uma família”. Inconformado com a notícia que acabara de passar por seus ouvidos, implorou para que ela fizesse um aborto. Essa foi a única solução que o desespero dos 19 anos lhe dera.

Marina, hoje com 15 anos, não consegue esquecer o que lhe foi contado ao longo de todos esses anos. Cabelos negros encaracolados e pele morena de sol; olhos e magreza da mãe, sorriso e estatura mediana do pai. Os carneirinhos cedem lugar à história de sua vida, que faz questão de assombrar suas noites de sono – quase – tranquilas. “Meu avô forçou o casamento de meus pais, que não conseguiram viver sob o mesmo teto nem um dia sequer”.

Sensibilizada com a situação e com a inocência da criança que acabara de vir ao mundo, a avó paterna pediu sua guarda, disposta a oferecer tudo o que uma família feliz poderia. “Minha avó não conseguiu o que queria; mas, em troca, exigiu que nós jamais nos afastássemos”, lembra a menina. Trato feito.

Esperta, Marina está longe de querer repetir os mesmos erros da mãe, que fez o que podia para mantê-la debaixo de suas asas. O pai? Ela sabe exatamente seu paradeiro, mas não que essa informação tenha muita utilidade em sua vida. Aos 36 anos, Roberto tem uma filha de dez e, outra que logo completará sete. A referência feminina dessa nova família foi um dos motivos pelo qual seus pais optaram por seguir rumos diferentes, mas a adolescente não guarda rancores do passado não vivido. A única mágoa alojada em seu coração é o fato de o pai ignorá-la. “Ele sempre deixou claro que não gostava de mim e, sem motivos aparentes, decidiu que jamais falaria comigo”.

Sua mãe tem um novo marido há quatro anos e um bebê de apenas um, com quem mora em uma cidade interiorana de Pernambuco. Apesar de viver em conflitos com aquela que a trouxe ao mundo, que faz o possível para ver um sorriso em seu rosto, a garota, em seus mais íntimos desejos, sonha viver com o pai. “Talvez pelo fato de nunca ter tido um”, diz.

O ciúme que tem da relação de seu pai com as irmãs é indisfarçável; entretanto, madura, no alto de seus 15 anos, não permite que esse sentimento traiçoeiro interfira no amor que sente por suas pequenas. “Eu fico muito triste, dá vontade de sumir. Todo pai ama os filhos e eu me sinto a exceção”.

Vítima de abandono afetivo, ela teria o pleno direito de processar seu pai. O projeto de lei nº 10.406 – idealizado pelo Deputado Carlos Bezerra, em 2002 –, que ainda tramita na Câmara Federal, afirma que o abandono afetivo sujeita os pais ao pagamento de indenização por dano moral; e o mesmo acontece aos filhos que negligenciam os pais já idosos. O projeto ainda acrescenta que “entre as obrigações existentes entre pais e filhos, não há apenas a prestação de auxílio material, encontra-se também a necessidade de auxílio moral, consistente na prestação de apoio, afeto e atenção mínimos indispensáveis ao adequado desenvolvimento da personalidade dos filhos”.

Na realidade, Marina jamais cogitou a possibilidade de processo por conta dos possíveis transtornos que viriam a acontecer em seu já conturbado relacionamento. Apesar do desconforto que toda essa situação lhe causa, a adolescente aproveita as marcas profundas para transformá-las em força de vontade. “Se eu estudo muito para ser alguém no futuro é porque eu quero mostrar a ele que eu sou alguém, mesmo que ele não consiga enxergar”, desabafa.

De acordo com o advogado Fabio Germano de Mattos Lourenço, a indenização é justa mesmo que, nesse caso, seja extremamente difícil quantificar um valor por danos morais. “Como iríamos saber quanto vale a falta de um telefonema na data do aniversário, a ausência no Natal ou os beijos de boa-noite? Acredito que seria razoável aplicar um percentual tendo como base a pensão alimentícia, que já é paga”.

O especialista ainda ressalta que a aplicação de uma condenação, possivelmente, implicará em maiores desavenças entre pai e filho, podendo se estender até a mãe. “Se alguém já está insatisfeito em ter que pagar uma pensão para um filho pelo qual não sente muito afeto, vai sentir muito menos quando condenado ao pagamento do valor proposto”.

Quantidades enormes de carta já foram escritas para tentar expressar o carinho, o reconhecimento e o amor. Tudo em vão. Nenhuma resposta dada. A proporção é diretamente proporcional: quanto mais amor é demonstrado, maior é o desprezo do pai. Não existe um motivo para esse abandono, aliás, se existisse, talvez fosse a oportunidade dessa angústia encontrar seu fim. A ilusão da incerteza é, sem dúvidas, muito mais dura do que a verdade, por pior que seja. “As pessoas próximas a mim costumam fingir e falar que é o jeito dele, mas sei que não é. Deve haver alguma explicação”.

Roberto não lhe dirige a palavra e não faz questão de encarar seus olhos castanhos, brilhantes e verdadeiros, mas Marina faz as malas durante as duas férias escolares do ano e corre para a cidade que um dia habitou. Apesar de o pai se trancar no quarto e fazer a madrasta entregá-la na casa da avó no dia seguinte, o choro das irmãs não desmente a saudade.

Por mais que o projeto de lei seja cautelosamente examinado e as feridas deixadas pelo abandono afetivo tenham prejudicado, impiedosamente, seu desenvolvimento, desejar mal ao pai é uma ideia que jamais lhe veio à mente. Muito pelo contrário: ainda aguarda ansiosamente por um beijo carinhoso, um abraço que nunca veio e um sorriso farto depois da frase que mais gostaria de ouvir e que projeta todas as noites antes de dormir. A atenção da avó e o carinho das irmãs não a deixam esquecer que, apesar de tudo, a felicidade existe. “Minha irmã disse que se fosse para me ver sorrindo, gostaria que o nosso pai deixasse minha madrasta para se casar com a minha mãe. Assim, eu seria feliz algum dia”.

Larissa Drumond

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Gritaria em Copacabana

Publicado por blognovashistorias em 22/10/2009

Uma explosão no Rio de Janeiro é o principal assunto do dia pelo mundo. O cenário da ocorrência foi a praia de Copacabana. A multidão presente na longa faixa de areia, isolada pelas cordas de segurança, gritava descontroladamente, em meio às lágrimas que perceptivelmente escorriam nos rostos de milhares de pessoas. O funcionário público Andy Malafaya, que rotineiramente ocupa sua mesa na Secretaria de Esportes da cidade, era mais um carioca atônito. A cidade maravilhosa acabava de ser anunciada como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
Os minutos que antecederam a festa brasileira foram de grande ansiedade e nervosismo. Enquanto na praia, debaixo de forte sol, aproximadamente 100 mil brasileiros olhavam fixamente o telão montado ao lado do mar, na Dinamarca os integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI), devidamente posicionados no auditório da entidade, começaram a apertar os botões que correspondiam às cidades de suas preferências. Do lado de cá do hemisfério, os relógios marcavam meio-dia e alguns minutos, mas poucos se lembraram da tradicional hora do almoço. A primeira rodada de votação foi aberta em Copenhagen e 96 dedos indicadores apertaram os botões correspondentes a suas escolhas. Na praia, o jovem Andy começava a ficar tenso, com medo de ouvir a prematura eliminação do Rio.
Os sorrisos que se abriram em seguida nos rostos que lotavam Copacabana estavam em sintonia com a expressão de Andy e significavam que a eliminada da vez era a cidade norte-america de Chicago. A multidão ainda se acalmava com o sucesso inicial da candidatura brasileira e a segunda rodada de votação foi aberta na Dinamarca. O ritual se repetiu entre os votantes do COI, que agora tinham três opções: Rio, Madri e Tóquio. Silêncio na capital do Rio de Janeiro. Nas areias, confidenciou Andy, era possível ouvir novamente o barulho das ondas. Ouve-se, então, o nome de Tóquio ecoar pela praia, o que significa que a cidade japonesa também estava fora da disputa. Milésimos de segundos depois, Copacabana presenciava sua segunda explosão do dia.
A alegria e o oba-oba logo deram lugar a apreensão. Era a hora da verdade para os milhares de brasileiros reunidos em torno daquela tela gigante. A terceira e última rodada de votação começou em Copenhagen e, rapidamente, o diretor do COI pegou o resultado processado pelo computador e pronunciou no microfone: “presidente, já temos o resultado”. O silêncio era o som que se ouvia pelo Brasil enquanto o comandante máximo do Comitê Olímpico anunciava que a sessão entrava oficialmente em recesso por uma hora, quando, enfim, ele anunciaria a cidade vitoriosa.
Nas areias de Copacabana a tensão crescia. O Brasil nunca esteve tão perto de sediar o principal evento esportivo do mundo. Tentando disfarçar o nervosismo, Andy se juntava à multidão para cantar sucessos da música brasileira enquanto a cidade vitoriosa não era escolhida. A hora custava a passar. De tempos em tempos, o funcionário público pegava seu celular do bolso com a única intenção de ver o horário. A conversa com os amigos foi a melhor solução encontrada para disfarçar a ansiedade. O tempo seguiu seu percurso natural e o momento chegou. A multidão tornou a silenciar-se à espera do resultado final e conforme assistia à solenidade pelo telão, a angústia coletiva crescia. A imagem que vinha da tela montada sobre o palco de shows mostrava o momento em que uma atleta dinamarquesa levou o envelope branco com o resultado em direção ao presidente do COI. Com o nome da cidade em mãos, ele vagarosamente rompeu o lacre, tirou o papel de dentro e anunciou em alto e bom som. “O direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2016 é concedido para a cidade de… Rio de Janeiro”.
A terceira e maior de todas as explosões ecoou em Copacabana. O choro incontrolável tomava conta da multidão, os sorrisos se multiplicaram na mesma proporção e o sofrido povo brasileiro enfim tinha motivos para comemorar. “Fiquei muito emocionado”, confidenciou Andy. “A cidade do Rio de Janeiro deve ter uma melhora significativa em sua infraestrutura”, afirmou com entusiasmo. Com o sentimento de que as coisas vão melhorar de agora em diante, os cariocas começaram a deixar a praia para retomar a rotina em uma cidade ainda igual, mas com ares olímpicos.
Emilio Franco Jr.

Uma explosão no Rio de Janeiro é o principal assunto do dia pelo mundo. O cenário da ocorrência foi a praia de Copacabana. A multidão presente na longa faixa de areia, isolada pelas cordas de segurança, gritava descontroladamente, em meio às lágrimas que perceptivelmente escorriam nos rostos de milhares de pessoas. O funcionário público Andy Malafaya, que rotineiramente ocupa sua mesa na Secretaria de Esportes da cidade, era mais um carioca atônito. A cidade maravilhosa acabava de ser anunciada como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Os minutos que antecederam a festa brasileira foram de grande ansiedade e nervosismo. Enquanto na praia, debaixo de forte sol, aproximadamente 100 mil brasileiros olhavam fixamente o telão montado ao lado do mar, na Dinamarca os integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI), devidamente posicionados no auditório da entidade, começaram a apertar os botões que correspondiam às cidades de suas preferências. Do lado de cá do hemisfério, os relógios marcavam meio-dia e alguns minutos, mas poucos se lembraram da tradicional hora do almoço. A primeira rodada de votação foi aberta em Copenhagen e 96 dedos indicadores apertaram os botões correspondentes a suas escolhas. Na praia, o jovem Andy começava a ficar tenso, com medo de ouvir a prematura eliminação do Rio.

Os sorrisos que se abriram em seguida nos rostos que lotavam Copacabana estavam em sintonia com a expressão de Andy e significavam que a eliminada da vez era a cidade norte-america de Chicago. A multidão ainda se acalmava com o sucesso inicial da candidatura brasileira e a segunda rodada de votação foi aberta na Dinamarca. O ritual se repetiu entre os votantes do COI, que agora tinham três opções: Rio, Madri e Tóquio. Silêncio na capital do Rio de Janeiro. Nas areias, confidenciou Andy, era possível ouvir novamente o barulho das ondas. Ouve-se, então, o nome de Tóquio ecoar pela praia, o que significa que a cidade japonesa também estava fora da disputa. Milésimos de segundos depois, Copacabana presenciava sua segunda explosão do dia.

A alegria e o oba-oba logo deram lugar a apreensão. Era a hora da verdade para os milhares de brasileiros reunidos em torno daquela tela gigante. A terceira e última rodada de votação começou em Copenhagen e, rapidamente, o diretor do COI pegou o resultado processado pelo computador e pronunciou no microfone: “presidente, já temos o resultado”. O silêncio era o som que se ouvia pelo Brasil enquanto o comandante máximo do Comitê Olímpico anunciava que a sessão entrava oficialmente em recesso por uma hora, quando, enfim, ele anunciaria a cidade vitoriosa.

Nas areias de Copacabana a tensão crescia. O Brasil nunca esteve tão perto de sediar o principal evento esportivo do mundo. Tentando disfarçar o nervosismo, Andy se juntava à multidão para cantar sucessos da música brasileira enquanto a cidade vitoriosa não era escolhida. A hora custava a passar. De tempos em tempos, o funcionário público pegava seu celular do bolso com a única intenção de ver o horário. A conversa com os amigos foi a melhor solução encontrada para disfarçar a ansiedade. O tempo seguiu seu percurso natural e o momento chegou. A multidão tornou a silenciar-se à espera do resultado final e conforme assistia à solenidade pelo telão, a angústia coletiva crescia. A imagem que vinha da tela montada sobre o palco de shows mostrava o momento em que uma atleta dinamarquesa levou o envelope branco com o resultado em direção ao presidente do COI. Com o nome da cidade em mãos, ele vagarosamente rompeu o lacre, tirou o papel de dentro e anunciou em alto e bom som. “O direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2016 é concedido para a cidade de… Rio de Janeiro”.

A terceira e maior de todas as explosões ecoou em Copacabana. O choro incontrolável tomava conta da multidão, os sorrisos se multiplicaram na mesma proporção e o sofrido povo brasileiro enfim tinha motivos para comemorar. “Fiquei muito emocionado”, confidenciou Andy. “A cidade do Rio de Janeiro deve ter uma melhora significativa em sua infraestrutura”, afirmou com entusiasmo. Com o sentimento de que as coisas vão melhorar de agora em diante, os cariocas começaram a deixar a praia para retomar a rotina em uma cidade ainda igual, mas com ares olímpicos.

Emilio Franco Jr.

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Uma lição de vida dentro do Salão Duas Rodas

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

A cidade de São Paulo sediou, entre os dias 7 e 12 de outubro, no Centro de Exposições Anhembi, a 10ª edição do o Salão Duas Rodas, maior evento do setor de motocicletas da América Latina, que contou com a presença de mais de 240 mil visitantes. Para encher o pavilhão do Anhembi de novidades e inovações, foram reunidos 443 expositores, desde pequenas empresas até as marcas super famosas. Como o evento adquiriu uma dimensão gigantesca, o Sambódromo do Anhembi foi utilizado como área para teste drive e também para shows de pilotos profissionais.

Ao chegar no evento, o visitante teve dois problemas. O primeiro foi estacionar, pois houve uma tremenda confusão dos organizadores com os locais de parada por conta dos flanelinhas contratados mal preparados e o outro problema foram as grandes filas para a compra de ingressos. Como era esperado, dentro do pavilhão do Anhembi encontra-se uma feira de grandes proporções, num espaço gigantesco que não parece ter fim de tão grande que é e pelos diversos stands, que vão desde pequenos sem chamar muita atenção até os chamativos das grandes montadoras com utilização de pirotecnia e serviço de som para chamar ainda mais a atenção do público. Na tendência do Salão do Automóvel, o Salão Duas Rodas traz em todos os stands do evento belas modelos que dividem atenção ou até chamam mais do que os produtos que representam.

Uma inovação muito bacana e que pode servir de referência é a bicicleta elétrica apresentada pela General Wings (GW). Com uma ideia de veículo autônomo, acessível, limpo, econômico e sustentável, o equipamento consiste em agregar a bicicleta uma tecnologia para facilitar a vida das pessoas. “A bicicleta elétrica tem a mesma função que uma máquina de lavar para uma dona de casa. Ela pretende promover uma facilidade na vida moderna”, afirma Ricardo De Féo, diretor da GW.

Como golpe de marketing, a Yamaha apostou em fazer motos estilizadas de clubes de futebol paulistas especialmente para o evento, que não serão comercializadas. Os clubes que ganharam uma moto estilizada foram do Corinthians, Palmeiras, Santos e Portuguesa. Para quem pergunta onde está a do São Paulo, a resposta é que o clube do Morumbi não autorizou a utilização dos direitos de imagem.

Foram centenas de novidades, como o lançamento mundial da Ninja ZX-10R, da Kawasaki, a primeira moto mundial bi-combustível desenvolvida pela Honda, a escolha da BMW K1300R como a “Moto do Ano 2009” pela revista Duas Rodas, mas uma história de vida chamou muita atenção, a do jovem Victor, de 23 anos.

Sem querer falar o seu sobrenome e revelar seu nome somente após muita insistência, o sorridente Victor prefere ser chamado pelo apelido de “Sem Canela”. Apelido proveniente de um acidente de moto que ele sofreu há três anos e explicou com detalhes. “Eu garoto, apaixonado por velocidade, estava correndo muito com a minha moto, a mais de 100 km/h, na Avenida Nova, na Zona Norte, só que um carro furou o farol vermelho, eu bati com tudo nele e minha vida mudou completamente.” Neste acidente, Victor perdeu parte da perna direita.

Perder um membro do corpo poderia ser o fim para muitos, mas para o agora “Sem Canela” foi apenas o início de uma nova vida. “Foi um choque no início, precisava de ajuda para tudo, mas sempre tinha na cabeça a vontade de fazer sozinho as minhas coisas”. “Na AACD, durante a minha recuperação, percebi que poderia voltar a fazer o que queria se tivesse força de vontade”, afirma.

A maior surpresa na sua recuperação foi o momento em que a enfermeira da AACD perguntou a ele qual tipo de esportes ele gostaria de praticar para a confecção da prótese. “Então, eu quero uma moto para empinar moto”. Sem levar a sério, a enfermeira perguntou novamente o qual esporte ele queria fazer e a resposta foi à mesma. “Empinar moto”.

A cerca de um ano, “Sem Canela” começou a disputar competições de manobras de motos, ganhou diversos títulos e leva uma vida normal, como se nada tivesse acontecido. “ Como eu tive a oportunidade de me recuperar sei que todas as pessoas que sofreram um acidente podem tirar de letra o acidente e voltar a ter uma normal”.

 Marcos Garcia

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O que tem para o almoço…?

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

Esta foi uma das primeiras perguntas que fiz a Maria Lucia Guimarães de 35 anos moradora do Jardim das Flores, região do Jardim Ângela.  Mas, antes de conhecê-la fiz um percurso descrito por muitos como uma selva de violência – “na periferia só há violência”. Eu concordo desde que violência seja sinônimo de falta de oportunidades, saúde, educação e o pior de todos, o preconceito com aquilo que não conhecemos.

Ao chegar, lá pelas oito horas da manhã, não presenciei nenhum tiroteio, apenas muita gente como se fosse um formigueiro, que em sua maioria tinha como destino ir ao trabalho, em ônibus lotados sem espaços nem para ficar em pé. Em seguida, fui procurar a Rua Agenor de Oliveira, na altura do número 90. Após uns quinze minutos de caminhada morro acima, cheguei ao numero indicado. Logo ao lado, tinha um “escadão” que dava na Viela dos Amigos, onde fica a residência de número 19, e onde mora Maria Lucia com seu filho Felipe de cinco anos.  Surpreendi-me quando vi sua casa, pequena, com apenas três cômodos, mas muito arrumadinha.

Pensei que fosse encontrar uma mulher marcada pelo tempo e com jeito de senhora. Mas vi uma negra meio gordinha usando roupas coladas ao corpo sorrindo o tempo inteiro. Nossa conversa fora para ver de perto, como a camada mais pobre da sociedade paulistana tem sobrevivido à inflação dos últimos meses. Já que as pesquisas do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apontaram o aumento inflacionário de 0,27% sobre o custo de vida em São Pulo no mês de setembro e a classe mais pobre é a mais atingida.

Ela me disse que ganha cerca de um salário mínimo trabalhado como diarista e que o ex-marido dá uma ajuda de 100 reais por mês. “O que ele me dá, eu pago algumas contas”, diz ela franzido a testa. Há mais de um ano, Felipe passa o dia em uma creche da Prefeitura e além do tempo livre que permite a mãe trabalhar diminui as despesas com alimentação. “Quando creche não funciona, eu fico sem trabalhar”. E não é só quando falta o “auxilio” da Prefeitura, quando o menino fica doente, os gastos com remédio são indispensável. “Eu levo no posto de saúde, mas a maioria dos remédios eu tenho que comprar”.

Não tenham duvidas de que essa gente acaba sendo a camada mais afetada pela inflação ou pelo desemprego, pois não têm nenhum tipo de reserva para qualquer eventualidade e o que ganham é contado para as despesas. Maria Lucia conta que sempre falta algum produto antes do fim do mês. ”O que falta eu pego emprestado com minhas vizinhas”.  Sua compra mensal equivale a uma cesta básica, a sobremesa e o iogurte que Felipe tanto gosta, nem sempre são possíveis. “Quando um produto aumenta, eu não compro, o dinheiro não dá”.  

Perguntei o que havia para o almoço e ela me disse que como era o inicio do mês tinha arroz e feijão acompanhados de salada e bife acebolado. “Pode ficar pra comer com a gente”. Fiquei com água na boca, conferi a hora e vi que era cedo demais para esperar. Então me despedi e agradeci a gentileza, deixei o Felipe comendo pão com mortadela: uma raridade.

 Alexandre Azzene

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O que deu errado?

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

Em julho de 2009, quando foi anunciada a formação de um super time de vôlei do Esporte Clube Pinheiros, o Pinheiros/Sky, a única certeza era que seria praticamente impossível bater uma equipe com quatro atletas medalhistas olímpicos. Porém a confiança retratada há três meses foi por água abaixo quando o SESI-SP eliminou o time de galácticos do Pinheiros na semifinal do SuperPaulistão na última sexta feira. O placar da partida foi de 3×1 com parciais de 26-24, 23-25, 25-17 e 25-16.

Um investimento estimado em mais de R$ 15 milhões e a grande expectativa por parte do patrocinador na conquista de títulos, acabaram sendo adiados para a Superliga, com início previsto para o próximo mês, que contará com equipes de todo o país. No campeonato estadual restou apenas a lamentação, decepção e tentativas para explicar o inesperado. Após a derrota do dia 09 de outubro, o treinador do Pinheiros/Sky explicou o que para ele culminou na eliminação do seu time. “Fizemos uma preparação muito curta. Tivemos muitos desfalques por conta de lesões, sem contar o período que o Giba ficou ausente por estar servindo à seleção. Não pude escalar em nenhum jogo do Paulistão a equipe que foi contratada para ser titular”, lamentou Cebola.

A maior estrela do time, medalhista de ouro nas Olimpiadas de Atenas e prata em Pequim, Giba, demosntrou também sua frustração da desclassificação de sua equipe: “Precisamos ver o que está errado, não podemos perder assim (da maneira como foi)”. Seu salário é o mais alto do time, estimado em R$ 120 mil. Jogadores que também fizeram parte das últimas olimpíadas como é o caso de Rodrigão, Gustavo e Marcelinho, também recebem salários altos para os padrões do volei nacional, cerca de R$ 100 mil.

Fica difícil conseguir apontar onde existiu o erro para tamanha decepção. Sem dúvida que a falta de tempo para uma preparação adequada e as seguidas contusões de jogadores importantes dentro da equipe, colaboraram para o acontecimento do último dia 09. Porém mesmo com algumas adversidades mostradas pelo técnico do Pinheiros/Sky, ninguém poderia imaginar que este time poderia perder uma semifinal de um campeonato que conta apenas com times do estado de São Paulo. A dúvida que resta é se essa equipe reagirá nos próximos campeonatos e finalmente fará jus ao altíssimo investimento, ou irá decepcionar mais uma vez aqueles que esperavam títulos, uma vez que a Superliga contará com equipes fortíssimas, inclusive a campeã sul-americana de clubes, CIMED de Florianópolis.

Danilo Tenenbojm

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Enem para que?

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

São 10h da manhã de uma terça-feira e estou atravessando a Avenida Paulista. O movimento é intenso. Carros passam acelerados o tempo inteiro. O sol brilha forte e me faz suar. Avanço pela faixa de pedestres e logo chego ao lado oposto da avenida. Entro na Rua Haddock Lobo. Ando, ando e avisto-o. Lá está o colégio. Foi nele que passei alguns dos melhores anos da minha vida. Agora, praticamente uma jornalista formada, adentro-o com objetivos diferentes. Quero entender exatamente o que aconteceu no caso do Enem. Aliás, não é isto que quero descobrir. O que quero saber, mais precisamente, é o que aconteceu na vida dos estudantes com o caso Enem.

Ao chegar, logo avisto uma menina de pele clara e cabelos castanhos. Sentada em um dos bancos, ela parece tensa e preocupada. Eu me aproximo:

- Oi! Podemos conversar? Estudei aqui e agora curso jornalismo. Gostaria de entrevistá-la para uma matéria…

- Claro! Pode começar…

- Você já está no “3º colegial”?

- Não. Estou no “2º”…

- Estava inscrita para fazer o Enem no domingo passado?

- Estava.

- Gostou de não fazer a prova?

- Na verdade não!

- Por que?

- Já tinha me programado! Além disso, nas novas datas de prova estarei viajando e gostaria muito de fazer essa prova…

Despeço-me e vou andando. Gostaria mesmo é de falar com alguém do 3º Ensino Médio. Alguém que já está realmente na época de prestar vestibular. Viro para o lado e encontro:

“Ainda bem que a Unicamp abandonou o exame.” Essa é a primeira frase que sai da boca de Isabelle Garcia ao ser perguntada sobre o que pensa a respeito do adiamento. Que o Enem virou caso de polícia, com esquema de segurança acertado entre Ministério da Educação e Cultura (MEC) e Polícia Federal (PF), e que o MEC negocia com várias universidades a mudança do dia dos vestibulares não é novidade para ninguém. Porém, cancelar uma data de prova (tão perto de seu acontecimento) e propor uma nova vai bem além negociações e esquemas governamentais.

Para ela, estudante do 3º Ensino Médio do Colégio São Luís, o cancelamento do exame – que deveria ocorrer nos dias 3 e 4 de outubro – não gerou grandes conseqüências devido a posição adotada por sua opção número um de Universidade. “Como a Unicamp cancelou o Enem, não vou ser prejudicada.” Porém, repensa e logo afirma: “na verdade, gostaria de fazer esse exame… Gosto desse tipo de prova e já garanto pontos para o meu objetivo final.”

Já ao lado da menina está Bruno Almeida. Alto, magro e cabeludo diz: “acho essa história um absurdo. Estou preocupado com todos vestibulares que vou prestar e não dá para ficar nessa de mudança de data.” Continua: “vamos ver agora como será a nova prova… Espero que esse adiamento faça o exame ganhar qualidade!” É… É o que todos nós esperamos…

 Paola Parisi

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Cuidado! Você também pode ser multado.

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

Era para ser um dia típico na cidade de São Paulo, se não fosse pela atuação de alguns ambientalistas. Vestindo os trajes da CET – o convencional conjunto de camiseta e calça bege a amarelo – os integrantes do Greenpeace aplicaram, no dia 17 de setembro, multas simbólicas aos motoristas que estavam sozinhos em seus veículos.

- Você está multado. Esta frase provocou espanto de até risadas dos motoristas, mas pareceu conscientizá-los sobre a emissão excessiva do CO2 na atmosfera. “Os brasileiros das grandes capitais são dependentes dos veículos por falta de opções. O governo tem investido no lugar errado, quando se trata de transportes”, disse em nota a coordenadora de mobilização da campanha do clima, Gabriela Vuolo.

A ação faz parte da semana do clima, elaborada e executada pela ONG. Criada em 1917 a instituição tem hoje mais de 3 milhões de colaboradores em 40 países. A sua atuação está ligada a preservação do meio ambiente e faz campanhas do Brasil pela proteção da Mata Atlântica, da Amazônia, dos biomas naturais, dos animais selvagens, do clima, da camada de ozônio e da despoluição de rios e mares, entre outros.

O evento não foi o único realizado em defesa a adoção de políticas ambientas no país. A comemoração do Dia Nacional sem Carro na cidade (22 de setembro) mostrou que muito ainda deve ser feito para que o paulistano troque o automóvel pelo transporte público. Criado em 1998 pela França, a data prega a conscientização da população na importância do controle da poluição e só foi adotada no Brasil há três anos.

Neste dia  Camila Pereira não mudou a sua rotina. Com 1, 56 metros de altura a psicóloga de 28 anos acredita que é ainda é muito difícil se locomover com rapidez e conforto na cidade.  De sua casa, em Pinheiros, para o seu trabalho no centro ela gasta 50 minutos. O trajeto não é agradável. Para os usuários da linha vermelha o desafio é grande e o espaço dentro do trem pequeno. “Dependendo do horário, não consigo entrar no transporte. Na maioria das vezes, pego a condução uma estação antes da Sé. Ando um pouco mais, mas consigo entrar no trem”, desabafa.

Enquanto isso, acima do subsolo, o trânsito da cidade pareceu mais vazio. Grupos de ciclistas usando verdadeiras armaduras de proteção (capacetes, joelheiras e cotoveleiras) espremiam-se corajosamente entre ônibus e automóveis. Muitos eram quase atropelados pelas motocicletas que atravessavam com imprudência os automóveis. Tudo pelo dia nacional sem carro.

Para as questões ambientais, o futuro promete grandes decisões e comprometimentos do mundo com metas de preservação ambiental.  Na Conferência do Clima, realizada na Suécia também no dia 22, o presidente Luis Inácio Lula da Silva assinou um plano de metas ambientais a ser adotado no país. Tendo como foco principal as emissões de carbono na atmosfera, e por conseqüência o agravamento do aquecimento global, o governo brasileiro se comprometeu a reduzir em 70% o desmatamento no território nacional até 2017.

Julia Benvenuto

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O fim do pimentão

Publicado por blognovashistorias em 14/10/2009

Luiza desperta todos os dias às 6h30. Depois de levantar da cama aconchegante de seu quarto, a primeira coisa que faz é ir ao banheiro e tomar um banho de cerca de 10 minutos. O ritual matinal da jovem de 23 anos leva ainda mais 40 minutos até ser finalizado, com 15 desses dedicados à maquiagem e arrumação do cabelo. O toque final, no entanto, só é dado com uma camada de protetor solar, especial para pele oleosa, que é espalhado em seu rosto, mãos, braço e pescoço.

Todo o cuidado de Luiza em usar o creme de fator solar 15 é o sonho de boa parte da classe médica dermatologista. Se fosse comum o hábito de usar o protetor solar diariamente, os doutores especialistas em pele teriam muito menos trabalho em tratar de problemas sérios na mesma, o que inclui, inclusive, casos de câncer gerados pela constante exposição das pessoas à radiação solar – hoje, ainda mais alta devido aos buracos na camada de ozônio causados pelo alto índice de poluição aérea.

Diferente do status de cosmético adquirido pelo produto, o creme agora é elevado à categoria de item de saúde, ou seja, vai além da vaidade de muitos em dedicar um pequeno tempo de seu dia para “cuidar da pele”. Usuária do protetor solar por recomendação de sua médica, Luiza não gasta mais de noventa segundos em aplicar o creme ao corpo, todos os dias. Pouco mais caro que os produtos convencionais disponibilizados em mercados ou farmácias, o protetor usado pela jovem ainda previne o acúmulo de óleo em seu rosto, o que favoreceria a aparição de acne e cravos na pele – nada melhor que unir o útil ao agradável.

Mesmo que não ofereça outros benefícios diretos ao usuário, o protetor solar popular ainda assim é o grande aliado na luta pela boa saúde. Pensando nela, o Governo do Estado de São Paulo pretende reduzir o preço do produto em 50%, tornando-o (mais) acessível à população – até então reservada a utilizar o creme quase exclusivamente em viagens à praia, onde a radiação solar é sete vezes maior que nas cidades urbanas (fator ainda assim ignorado por muitos).

Marcos é um desses que não se importa com o creminho melequento em sua pele. O estudante de 21 anos pouco leva em consideração o ditado que já dizia que é melhor prevenir do que remediar. O negócio, aqui, é simples: mal sabe o garoto, mas, ao pisar fora de casa, ele e todos nós estamos sujeitos à radiação solar que, apesar de nociva quando alta, é necessária para nosso crescimento quando somos pequenos. Se gastaria pouco menos de dois reais no produto? “Se houvesse um chocolate ao lado dele, por menos, eu levaria o doce.” E é para essas pessoas que os médicos ainda gastam tempo e saliva em explicar que sim, é necessário o uso do protetor solar para evitar doenças de pele, da mais simples a mais grave.

A bronca vale também para aqueles que iniciam o “tratamento” e resolvem dar continuidade ao mesmo quando bem entendem. Sem a má intenção, Érica só passa o creme no corpo quando lembra que está com o mesmo na bolsa ou sente o sol arder em sua pele. Ela sabe que precisa da proteção, afinal possui sardas no rosto que o deixam mais vulneráveis à força da grande estrela de nosso Sistema Solar. Ao sentar em uma cadeira de praia, à beira do mar, às vezes vemos passar aqueles vendedores ambulantes com uma camada generosa de protetor solar nas bochechas. Talvez, eles aprenderam na prática que, além de evitar o ardido e vermelhidão no final do dia, o creme pode ser muito mais que um simples aliado, mas seu grande “santo” protetor.

Adriana Douglas

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Titão, um prato de comida e uma entrevista comprada

Publicado por novashistorias em 01/10/2009

O cheiro era insuportável. Uma mistura de suor, mofo e algum outro dejeto que não consegui identificar impregnavam o fundo do ônibus. A maior parte dos passageiros tentava disfarçar o incômodo, mas apesar de várias pessoas estarem em pé, os três bancos ao seu lado permaneceram vazios.

Ele estava logo atrás de mim. Cabelos sujos e desgrenhados, barba grisalha comprida, quase amarelada. Calça rasgada, blusa puída, uma trouxa de roupas velhas enrolada em um cobertor marrom, desses que se doa à Igreja.

Decidi dominar meu asco e fiquei a um assento de distância, encarando-o. Um ou dois minutos depois, ele mordeu a isca:

— Você tem um trocado pra eu comprar um prato de comida?

Só existe um odor pior que o de uma pessoa que não toma banho há semanas (um mês e meio no caso): o hálito de alguém que não escova os dentes há três meses somado à aguardente barata.

— Não costumo dar esmolas. Mas te dou cinco reais se você me responder algumas perguntas.

Ele ficou ressabiado, perguntou se eu era da polícia ou da assistência social.

— Não, sou jornalista. Quero fazer uma entrevista com você.

“Titão” riu uma longa risada, relevando os dentes amarelos, como o losango da bandeira do Brasil. —Vou aparecer na Globo?

Digo que não, mas ele não dá muita atenção. — Manda um abraço pro Márcio Canuto.

Nas ruas há cinco anos, o pedreiro João Batista de Oliveira não gosta de lembrar da noite em que foi expulso de casa pelo cunhado, depois de bater na mulher com quem estava casado por 17 anos —de quem se recusa a dizer o nome. “A vagabunda me traía com qualquer um”, justifica, com uma fala arrastada, apesar de não parecer estar embriagado.

Aquela foi a primeira noite em que dormiu na rua. Depois de afogar as mágoas em um forró da Vieira de Carvalho e gastar o pouco dinheiro que tinha em bebidas, conseguiu a façanha de ficar com um banco na Praça da República. “Era o melhor lugar pra dormir. A gente [os mendigos] brigava com os maconheiros pra ter um banco, já teve até morte”.

Após uma reforma, a Praça deixou de ser um oasis para os moradores de rua. Agora os bancos tem divisórias de metal que impedem a pessoa de se deitar. “É coisa desse viado desse Kassac (sic)”, protesta. Ele diz não se lembrar de como foi parar lá, mas relata que ficou por não ter para onde ir. “Pra casa dela eu não volto”.

Com um certo ar de nostalgia, conta que veio do interior de Minas Gerais aos 20 anos, “fazer a vida na cidade grande”. Aos 39 —aparenta ter no mínimo 50— “vive” a metrópole intensamente. Nos últimos meses, dorme dentro de um caixa eletrônico do Bradesco na avenida Ipiranga, em frente ao Terraço Itália e ao Copan.

Sobre a vida nas ruas, Titão não tem dúvida: o pior é o frio. “Não gosto de albergue, não. Eles querem ficar mandando em você”. Diz que prefere ficar isolado, não anda com outros mendigos por medo de ser roubado ou morto.

Pergunto se tem filhos. Titão fica em silêncio, fecha a cara e resmunga. “Tenho uma filha. Não quero falar disso”. O mesmo acontece quando pergunto se ele tem vontade de voltar a trabalhar e de ter uma casa.

Chega seu ponto e ele subitamente se levanta. Diz que vai tentar encontrar um ex-patrão e cobrar uma dívida de trabalho. Dou a ele dez reais e os dentes amarelos aparecem mais uma vez.

— Você vai comer com esse dinheiro mesmo?

— Comer e beber.

William Maia

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Boca virgem

Publicado por novashistorias em 25/09/2009

Como de costume, lá pelas dez da noite, coloquei meu pijama e preparei-me para deitar. Ao meu lado, mais precisamente na cama debaixo de minha, meu irmãozinho já estava coberto e procurava a posição mais confortável para iniciar sua noite de sono.

- Ei.

- Hm?

- Você já está dormindo?

- Não, e você?

- Também não, né! Mula.

- Hm.

- Estou sem sono.

- Problema seu…

- Vai, me diz. Como andam seus casos com as garotinhas do colégio?

- Cala a boca.

- Ué, eu sou sua irmã, tenho que saber.

- Não tem caso nenhum. Elas são ridículas.

- Ridículas? Seeei. Não tem nenhuma bonitinha assim, que faça seu tipo?

- Como assim “tipo”?

- Tipo, ué! Você gosta de loiras, morenas, gordas, magras, peitudas?

- Se liga.

- Anda, fala. Você ainda é BV? Sabe, “BOCA VIRGEM”?

- Cala a boca.

- Se você não conversar comigo, vai conversar com quem? O papai não mora com a gente, a mamãe vai ficar cheia de perguntas constrangedoras… Bem, só se você preferir a vovó. Aliás, acho que ela pode te dar boas dicas de como conquistar uma moça.

- Como você é otária.

- Eu sei que você não vai querer me contar esse tipo de coisa. É chato uma irmã dez anos mais velha ficar perguntando, né. Mas sabe, eu tenho alguma experiência no ramo, posso te dar boas dicas de relacionamentos e tal. Entendo perfeitamente que você não queira me dar detalhes da sua vida pessoal, essa fase é assim mesmo e…

- Eu já beijei na boca.

- O queeeeee?????!!!

- Pronto. Não é isso que você quer saber? Eu já beijei na boca. Agora podemos dormir?

- MEU DEEEUS! Como assim? Quando? Como? Beijou quem?

- Ué, beijei. Uma vez, lá no clube.

- Beijou uma menina?

- Não, o faxineiro.

- Idiota. Vai, me fala. Como foi?

- Ah, a gente tava brincando e duvidaram que eu beijasse uma delas…

- E você colocou a mão aonde? Nas costas dela? No ombro? No rosto?

- Sei lá…

- Sei lá, pô?! Não me diga que não colocou a mão em nenhum lugar? É ridículo beijar paradão com as mãos para baixo!

- Coloquei nas costas.

- Hmm. E você gostou? Como foi?

- Normal.

- Normal? Você beija pela primeira vez e acha normal? Que insensível!

- É, ué. Normal!

- Hm, ok. Então quer dizer que você não é mais BV?

- Não.

- É estranho beijar de língua, né?

- Língua?

- É. Não foi de língua?

- Não…

- NÃO?! Mas você não disse que não é mais BOCA VIRGEM?

- É. Não sou BV.

- Pois então…

- Sou BVL.

- BVL? Que merda é essa?

- “Boca virgem de língua”.

- Ah, você só pode estar de brincadeira comigo. Perdi todo esse tempo pra você me contar de um SELINHO?

- Foi um beijo.

- Não, foi um selinho. Vou contar tudo pra mamãe.

- Não, por favor!

- Hm, vou pensar no seu caso. Boa noite.

- Ei.

- Fala, pentelho.

- Como é beijar de língua?

Natália Daumas

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Você quer dançar comigo?

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

O som já era ensurdecedor. As pessoas mal cabiam no galpão. As mulheres usavam roupas minúsculas. E os homens estavam carregados de colares e anéis de ouro. O baile funk tinha começado há pouco. A alguns passos de mim, um rapaz negro, medindo mais ou menos 1,70m, magro e com um black power se aproximou de uma mulher. Aparentemente com medo e carregando um olhar tímido, ele a abordou:

- Quer dançar comigo?

- O quê?

- Você quer dançar comigo?!

Assustada, a menina respondeu:

- Não, eu tenho namorado.

Logo em seguida, seu namorado chegou ao local e perguntou o que estava acontecendo. Nervoso, o homem do cabelo black perguntou:

- Você que é o namorado dela?

- Sou sim.

- Tira a roupa.

- O quê?

- Tira a roupa!

- Como assim?

Rapidamente, o rapaz sacou uma arma e disse:

- Tira a roupa, “cumpadi”!

Com medo, o namorado começou a tirar a roupa. Nesse instante alguns estalos puderam ser ouvidos no ambiente. A “muvuca” então foi generalizada. Os tiros pareceram vir de fora. Virei para o lado e vi um corpo estendido no chão. O homem do cabelo black avistou o que pareceu ser um amigo. Com a voz carregada de raiva e tristeza ela gritou:

- Eu vou pegar quem fez isso! Eu juro! Vou pegar quem fez isso!

Em pouco tempo a polícia chegou e interditou o local do incidente. Alguns dias depois, o principal suspeito do atentado foi encontrado morto, com marcas de tiro pelo corpo.

André Ranieri

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Nova York

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Em algum bar de São Paulo com uma dupla sertaneja presente: “essa é a história de um novo herói. Cabelos cumpridos a rolar no vento. Pela estrada no seu caminhão*¹…” Me pergunto: como seria a conversa destes personagens.

- Para onde estamos indo?

- Temos que entregar essa encomenda de frutas no CEAGESP. Mas, eu queria realmente ir para Nova York.

- Fazer o que lá?

- Encontrar a minha namorada.

- Sério?

- Não. “Tô” brincado.

- “Eitcha”, calma aí.

- Desculpa. É que sinto falta dela.

- Dela quem?

- Você não entendeu ainda, não é?

- Ahhhhh, da sua namorada.

- Isso. Fiz uma promessa que enquanto não a encontrar, não irei cortar meu cabelo.

- Calma que isso vai passar meu caro amigo. Só coloca uma tiara porque seu cabelo está voando e atrapalhando a sua visão.

- Não vou colocar, pois entre meus cabelos fico imaginando fazer meu caminhão voar nas nuvens.

- É…isso sério ótimo.

- Vai.

- Vai aonde?

- Vem.

- Você está passando mal?

- Saudade vai, vai, vai. Saudade vem, vem, vem.

- Cara, você não sabe?

- Não. O quê?

- O que eu sei.

- Fala logo.

- Ela gosta de outro. – Sério? – Amigo, o que passou, passou.

- Não acredito que ela fez isso comigo.

- Cara! Vamos em frente. Você vai superar isso.

- É isso aí! Vou esquecer isso e o que tiver que vir: virá, virá com toda força.

- Boa! Por isso você é meu amigo.

FIM

*¹ Música dos Cantores Cristian & Ralf intitulada Nova York.

História baseada na música do cantores.

Felipe Piccoli

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Um simples telefonema

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Era mais um dia de trabalho. Apesar de ser fechamento da revista a redação estava aparentemente calma. Sento na minha mesa e recebo a boa notícia de que todos os entrevistados estão aprovando as reportagens, com exceção de um.

– Oi Fê, recebemos um e-mail da assessora do Sr. Luiz cobrando a publicação da foto dele na matéria, diz minha editora.

– Sério? Mas eu tinha pedido para ela novas fotos, porque aquelas que ela havia mandado não estavam com a resolução adequada e não obtive resposta.

– Eu sei, já encaminhei para ela o seu e-mail solicitando as novas fotos e expliquei que como não tivemos resposta e não conseguimos falar com ela não será possível incluir a foto agora. Como ela ainda não me respondeu você poderia dar uma ligadinha para ela?

– Claro.

Pensando que iria ser uma conversa rápida e fácil ligo para a assessora para dar uma satisfação:

– Oi Mariana, aqui é a Fernanda da Revista O Mundo da Usinagem, tudo bom? Estou ligando para ver se você recebeu o e-mail da Natália em relação às fotos do Sr. Luiz.

– Oi Fernanda, recebi sim, mas não achei a atitude de vocês legal.

– Eu entendo que vocês gostariam de ter a foto do Sr. Luiz publicada, mas infelizmente aquelas que você me enviou estão em baixa resolução e como não recebemos outras como foi solicitado se formos incluir alguma coisa agora atrasaria a revista.

– Entendi, mas ainda acho que não foi uma atitude legal porque é importante ter essa foto publicada.

– Eu entendo, mas é que realmente não temos como incluir outra foto agora, pois teríamos que cortar texto e todos os outros entrevistados já aprovaram a reportagem.

E ela insiste:

– Então não tem jeito mesmo? Porque acho que não foi legal da parte de vocês.

Meio nervosa, não sei mais o que falar. Tento fazer a assessora entender a nossa posição, porque não podemos deixar o entrevistado “insatisfeito”, já que alguns são parceiros da empresa para qual fazemos a revista.

Já um pouco irritada, minha editora pede para falar com ela:

– Olá, Mariana, peço que você entenda que se incluirmos a foto agora atrasaria a revista.

– Mas vocês deveriam ter publicado a foto, todos os outros entrevistados têm fotos publicadas, e vocês escreveram tão pouco dele…

Depois de muita insistência, minha editora cede e pergunta:

– Ok, Mariana, você pode nos enviar outra foto em alta resolução?

– Posso sim, mas só na segunda-feira.

Ai também ela já estava pedindo muito! A revista deveria ir para a gráfica na segunda.

– Ok, Mariana, vou ter que verificar com a responsável pela revista se podemos esperar até segunda.

Minha editora liga então para a responsável e explica o que aconteceu. Ela entende o ocorrido e pede:

– Natália, o ideal não é atrasar a revista, mas como o Sr. Luiz é importante para nós diga que podemos esperar até segunda.

Pronto. O assunto foi resolvido apenas com um simples telefonema e pensamos:

– Por que não fizemos isso antes? Iria poupar um bom tempo e muita paciência!

Fernanda Feres

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De cabeleireiro a pedófilo

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Os almoços de domingo são sempre recheados de fofocas de vizinhos contadas, claro, pela minha avó. E dessa vez não foi diferente:

- Viu, gente, a Maria disse que além de cabeleireiro, esse cara aí de baixo também é pedófilo.

- Quem? O João?

- É

-  E como ela sabe disso?

- Ela foi cortar o cabelo ontem e ele contou para ela.

- Isso é mentira, vó! Você acha que o cara ia contar para ela que é pedófilo?

- Claro, eles são amigos.

- Mesmo assim…

- E outra, ele quer ganhar dinheiro. Tem um aviso lá na porta do salão, até. Por que você não vai?

Não é raro eu ficar confusa e intrigada quando converso com a minha avó, mas dessa vez confesso que achei mais estranho que o normal. E depois de olhar fixamente para ela por alguns segundos, soltei um:

- O QUÊÊÊ?

- É, não custa tentar. Eu pensei em ir, mas fiquei com medo de marcar e não ser tudo limpinho.

- O que você tá falando, vó?

- É, tem que ficar esperta! Vai que eu pegue micose no pé de novo. Lembra quando eu ia naquela mulher perto da casa da sua tia e quase caiu a minha unha? Depois demora muito para crescer.

- Micose no pé? AHHHHHHHH, o cara é podólogo, então?

- Isso! Podólogo. O que eu disse?

- Pedófilo! HAHAHAHAHA, que susto!

-  Ah, tudo a mesma coisa…

Fernanda Frozza

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No caminho de Avellaneda

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

O Relógio marca 18 e 20 e meu guia para seu carro na avenida principal. Irei pela primeira vez ao Juan Domingo Perón com Die, um argentino “muy amigo” que se propôs a me levar na “cancha de Racing”. Entro no “coche” e, apesar de ainda não conhecer o rapaz muito bem, conversamos como se fossemos antigos amigos até o Estádio Cilindro.

- Prazer, Die.

- Prazer, Gustavo!

- Cuanto tiempo estas en Argentina?

- Poco mas de una semana – repondo com meu espanhol “afiado”.

-  Ya conosceste muchas cosas acá?

- Algunas, pero somente algunos puntos turísticos y boliches del centro!

- Ah! Puedo perceber que vieste aca para divertirte. Lo que pensa de las chicas?

- Ellas são muy hermosas y divinas! Pero muy diferentes de las brasileiras!

- Por quê?

- Ah, no caem en qualquier papo furado de los chicos brasileiros (risos). Usted me entende?

Pronto. Sem querer acabei incomodando meu novo amigo com uma simples palavra que só fui saber pouco tempo depois, após um mistério.

- No – depois de uma resposta negativa vem a explicação – no me llame asi.

- Asi como?

- Usted – palavra que significa senhor em português.

Die me explica então que na Argentina, chamar uma pessoa de usted é uma forma muito incomum, muito pesada. Lá, o certo é sempre chamar de você, pois pelo contrário, as pessoas ficam desconfortáveis. Não é necessária essa hierarquização, tipicamente brasileira quando se fala com alguém mais velho.

Após está rápida introdução pessoal, começamos a conversar sobre o evento principal que iremos assistir daqui a pouco, em Avellaneda, distrito próximo a Buenos Aires.

- Desde cuando és hincha de Racing? – me pergunta.

- Desde que un amigo me dió uma remera de presente.

- A si, por supuesto – nessa hora sinto que meu anfitrião se sentiu meio decepcionado. Torcedor do seu time por um fato qualquer. Senti que ele esperava algo a mais.

É aí que ele me explica o porque que eu deveria ser torcedor de seu clube.

- Racing és um club diferente de los otros de Argentina. Nosotros tenemos sofrimento, por eso cada vez que entramos em la cancha és especial. No somos amargos, tenemos aguante.

A conversa se seguiu até o fim do passeio. Após um tempo tentando descobri o significado desta palavra – aguante – chego a conclusão que é difícil explicá-la. É algo como ter raça, vontade, tudo vindo de um lugar desconhecido dentro dos homens. Na Argentina eles tem de sobra, já no Brasil… Bom, deixa pra lá!

Gustavo Coelho

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O diálogo que não deveria ter começado

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

O dia de maior pressão da semana, assim são todas as minhas quartas-feiras.  Fazer a produção de um programa me exige atenção redobrada e não existe espaço para erros. Há exatamente uma hora antes de sair para gravar surge um colega de trabalho:

- Ju, acabou de sair um estudo do IBGE com novos números sobre a educação do país em 2008. Será que você conseguiria escrever uma notícia sobre o assunto?

- Posso sim, me passe as informações.

- Claro, um segundo.

Mil coisas para fazer. Conferir o carro do convidado, twittar a participação dele, checar informações com a assessoria. Esqueci de fazer o que ele pedirá.

- Pedro, me desculpa, não pude fazer a notícia, ainda estou no segundo parágrafo e preciso sair para a gravação, o carro já me espera.

-Não conseguiu? Não acredito.

-Não tive tempo. Na hora que voltar eu termino.

- Ta bom, você não tem que me pedir desculpas, eu não sou o seu chefe. Mas se eu fosse eu diria “já faz uma hora que eu te passei”. Em outros lugares as coisas podem não ser como aqui.

- Ok, eu preciso ir.

- Se precisar de algo pode contar comigo.

Fui. Nervosa e irritada. Parecia que tudo ia dar errado aquele dia, não precisa ter ouvido aquilo de quem se quer sabia o que estava fazendo e pra quem eu não devia satisfação alguma. Voltei, e  com cara de poucos amigos.

- Oi Ju, será que poderíamos tomar um café?

- Vamos lá.
- Olha eu queria te pedir desculpas pelo que falei, depois que você saiu fiquei pensando que exagerei.

- Estou longe de ser uma pessoa que não aceita críticas, muito pelo contrário, elas são sempre bem-vindas, mas desde que tenham fundamento. Eu estava a uma hora de fazer o que á  minha função primordial aqui.

- Eu sei disso. Realmente não deveria ter falado daquela maneira, você sabe que não é pessoal. Mas quando eu te perguntei você disse que poderia fazer. Em outro lugar o seu chefe iria te dizer isso.

- Em outro lugar, no mínimo, o meu chefe saberia que era uma quarta-feira e que esse é o dia que eu tenha que ficar disponível para fazer outra função.

-Eu te entendo. Você tem as suas razões.

-Eu também te entendo. Errei, deveria ter tido que estava fazendo outras coisas e que tentaria fazer a notícia e não afirmado que faria.

- Você me desculpa Ju?

-Claro.

-Você também me desculpa?

-Agora sim, mas há duas horas te desejei uma cama de pregos!

Acabamos rindo. Mas desejei que nada disso tivesse começado.

Juliana Mosca

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Um banquinho e um violão à beira da piscina

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

- Nossa, já começou a novela?

- Já, lógico! Você trabalha até tarde todos os dias, não sei para que tanto! Daqui a pouco, você vai abrir a porta de casa só na hora do “Jornal da Globo”.

- Que exagero! Ah, nããão… o Zé Mayer beijando a Taís Araújo de novo. Que irritante!

- Pois é, não aguento mais também! O Zé Mayer já tinha chegado ao limite há dez anos, em “Laços de Família”. Se naquela época já não era grande coisa, agora então…

- Também acho, ele está velho demais para esse papel de galã. Alguém avisa para o Maneco que não dá mais? Obrigada!

- Ah, sabia que aquele iate dos capítulos anteriores custa 33 milhões de reais e é da Ana Maria Braga?

- Jura que é da Ana Maria Braga? Quanta humildade, Brasil!

- Mas, raciocine comigo:  se o Faustão é apresentador apenas aos domingos e ganha nada menos do que um milhão, imagine a Ana Maria, que está lá, batendo ponto todo santo dia, com aquele papagaio chato ao lado! Fora toda a publicidade…

- Pelo menos a Ana Maria pode almoçar com a família aos domingos; o Faustão, não.

- O que isso tem a ver?

- Não sei, mas me deu vontade de falar isso!

- Então, mas voltando à novela… O Manoel Carlos disse que representa a classe média brasileira como ninguém.

- Ah, claro! Ter iate, viajar de jatinho particular para Paris, ficar de biquíni e chapéu à beira da piscina, com os empregados oferecendo drinks o dia inteiro, é representar a classe média agora?

- É, ué! Você não toma drinks à beira da piscina o dia inteiro? É uma delícia, deveria experimentar.

- Como você é boba, hahaha!

- Mas não se preocupe mais, o Zé Mayer vai sair da trama.

- Ah é, é? O que vai acontecer?

- Ele vai morrer, mas antes vai trair a Taís Araújo. Como eles estão casados, o dinheiro todo deveria ir para ela, mas as filhas vão roubar tudo e ela vai ficar pobre. Além disso, a Luciana vai sofrer um acidente e ficar paralítica.

- Meu Deeeus, quanta tragédia! Credo! Prefiro o mundo ideal do Leblon e as pessoas tomando drink à beira da piscina.

- E não pode faltar a bossa nova tocando ao fundo.

- É verdade! Bom, vou dormir, porque amanhã eu vou trabalhar para, quem sabe, um dia ficar à beira da piscina também!

- Vai lá. Boa sorte! E não se esqueça de me chamar para as festas…

- Pode deixar!

Larissa Drumond

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Diálogo de uma pessoa só

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

- TVA. Boa tarde.

- Alô, boa tarde. Gostaria de conversar com algum técnico de sinal a cabo, por favor.

- Se deseja informações sobre a compra de canais pay-per-view, disque 1. Para sugestões de melhorias, disque 2. Para pacotes de canais adicionais, disque 3. Para problemas de sintonização, disque 4. Para pacotes de canais por um curto período de tempo, disque 5. Para maiores informações sobre a TVA, disque 6. Para outros problemas, fique na linha que o redirecionaremos para uma de nossas atendentes. Obrigado.

- Alô, boa tarde. Em que posso ajudar?

- Alô, gostaria de informações sobre problemas no cabo da antena. Não estou conseguindo colocar em nenhum canal. Todos ficam com uma tela preta. Queria falar com algum técnico.

- Vou te passar para um responsável na área, Espere na linha, por favor.

- Se deseja informações sobre a compra de canais pay-per-view, disque 1. Para sugestões de melhorias, disque 2. Para novos pacotes, disque 3. Para problemas de sintonização, disque 4. Para pacotes de canais por um curto período de tempo, disque 5. Para maiores informações sobre a TVA, disque 6. Para outros problemas, fique na linha que o redirecionaremos para uma de nossas atendentes. Obrigado.

Digito 4.

- Aguarde um momento, estamos redirecionando sua ligação para o setor de sintonização. Obrigado.

- Sintonização da TVA, Rosana, boa tarde.

- Boa tarde Rosana. Eu estou com alguns problemas com meu sinal a cabo. Gostaria de informações sobre como proceder, ou então se é necessária a vinda de um técnico. Não estou conseguindo colocar em nenhum canal. Todos ficam com uma tela preta. Queria falar com algum técnico.

- Só um minuto que eu vou te passar para o setor de técnicos. Espere na linha, por favor.

- Mas vão me colocar na linha de no…

- Setor técnico da TVA. Se deseja informações sobre a sintonização de canais pay-per-view, disque 1. Para sugestões de melhorias técnicas, disque 2. Para problemas de sintonização em áreas comerciais, disque 4. Para problemas de sintonização em áreas residenciais, disque 5. Para marcar visitas técnicas, disque 6.. Para maiores informações sobre a TVA, disque 7. Para outros problemas, fique na linha que o redirecionaremos para uma de nossas atendentes. Obrigado.

Digito 6.

- Aguarde um momento, estamos redirecionando sua ligação para o setor de visitas técnicas. Obrigado.

- Mas até quando será que vão ficar me passando de pessoa para pessoa, saco!

- TU TU TU TU TU…

Renan Miret

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A revolta de um melhor amigo

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Em mais uma sexta feira de manhã, depois de uma semana inteira de trabalho, saio correndo para a aula de um professor que se eu não me engano é um dos poucos que faz chamada tão cedo. Com a minha cara de sono, a mais amassada possível, entro na sala e me deparo com meu melhor amigo bravo comigo! Ele está p** desde o começo da semana por algumas desavenças naturais.

- Bom dia! – Digo eu com a maior educação do mundo.

- Bom dia por quê? O dia nem começou ainda. A resposta mais inspiradora para um inicio de manhã.

A aula continua e eu até queria quebrar o clima com alguma piadinha sem graça ou um comentário relevante, mas ele insistia com aquela cara de chuchu revoltado. Mas não custa tentar, até o final do dia ele tem que voltar a falar normal comigo, afinal, já estamos no final da semana e as coisas já deveriam ter se resolvido.

- E ai? Vai fazer o que no final de semana? (numa tentativa amigável de puxar uma conversa)

- O que eu quiser!

- E hoje? Alguma coisa especial?

- Não sei.

A delicadeza daquele ser, o qual no começo do texto me referia como “melhor amigo”, começa a me irritar. Imagina só, se ele que é estimado como o “melhor” como seriam os outros? Considerando o fato de ele ser orgulhoso e além de tudo virginiano, as tentativas não iriam parar por aí.

- Você vai ficar com essa cara até quando?

- Até quando eu quiser! (Ele insiste nesta brincadeira sutil que aprendeu há 5 minutos)

- E esse “até quando” dura quanto?

-Até quando eu quiser!!!

- Para de ser chato e fala comigo c*¨%!

Ele ri da minha cara e volta ao seu estado de verdura brava. Penso em alguma coisa e proponho uma solução:

- Tá, sobre o trabalho, eu me desculpo 60%. Isso porque eu estou sendo legal, os outros 40% ficam por sua conta.

- Não ! Perai! Você tem que pedir desculpa por uns 90%. (rindo da minha cara com um tom sarcástico)

- Ah! Você está de brincadeira né? No máximo 62% e não se fala mais nisso!

- Não, 62% baseado no que?
A conversa muda de foco e ao invés de discutir sobre o trabalho ficamos vendo a “estatística da desculpa” quem merecia pedir mais ou menos, quase uma bolsa de valores. No final das contas fomos para o 3° andar da Piauí comer alguma coisa, temos 15 minutos de intervalo antes de começar a escrever este texto.

Tatianna de Oliveira

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O Barrigão

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

- Oi irmã, tudo bom?

- Tudo.

- Onde você estava irmão?

- No trabalho.

- Junto do papai?

- Não, o papai trabalha em outro lugar.

- Ah, você vai dormir em casa hoje?

- Não vou não.

- Vai dormir na Isabel?

- Hoje não, vou ficar na casa de um amigo perto da faculdade.

- O que você faz na faculdade?

- A faculdade é como a sua escolinha, nós aprendemos muitas coisas com os professores.

- Mas eu não gosto de aprender, eu gosto de brincar irmão!

- Eu sei Julia, mas você não aprendeu a cantar músicas na escolinha, por exemplo?

- Aham. Aprendi a da aranha e do vampiro.

- Qual você gosta mais?

- Ah, tanto faz!

- hum.

- Irmão, posso tirar foto com seu celular?

- Pode, só não deixa ele cair no chão, tá?

- Tabom. Posso tirar foto do seu barrigão?

- Claro.

- Huahuahuahuahua, seu barrigão na foto!

- Você precisa emagrecer irmão, a mamãe vive dizendo isso.

- Eu sei, mas estudando e trabalhando ao mesmo tempo, mal sobra tempo para jogar uma bola.

- Quer jogar comigo, no quintal?

- Agora não posso, vou arrumar minha mala e sair em seguida.

- Nem um pouquinho?

- Rapidinho então, tá?

- Eba!

Ao imaginar que sairíamos para o quintal, ela entrou em seu castelinho montado na sala.

- Ué, não vamos jogar bola no quintal?

- Não, quero brincar aqui mesmo, com as bolinhas do meu castelinho. Entra aqui irmão!

- Julia, esse castelinho é para crianças pequenas, eu sou grande, não caibo aí!

- Por causa da sua barriga que está grande?

- Não irmã, o castelinho é pequeno mesmo, não tem como.

- Tem sim, você nem tentou! Mamãe, o Thiago não quer brincar de castelinho comigo!

- O filha, o irmão é grande, não cabe aí.

- Cabe sim, quer ver?

- Quero! Como vamos fazer!

- É simples ó, tira a parte de cima do meu castelinho e fica de pé, aí você cabe!

- Huahuahuahauhau, como você é esperta irmã!

- Eu sou? Não sabia.

- Bom, to saindo agora irmã, preciso mesmo ir.

- Tabom, amanhã você volta?

- Sim. Daí brincamos mais, tudo bem?

- Aham.

- Beijo meu anjo.

- Ai, sua barba me fez cócegas irmão!

- Desculpa, foi sem querer.

- Tchau barrigão, até amanhã!

Ao sair de casa escuto mais uma vez a voz da minha irmã:

- Tchau barrigão, te amo!

- Tchau, desconsolado ainda completei.

- O barrigão amanhã volta!

Thiago Manholer

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Nobre Miserável

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

  “Os livros são amigos desapaixonados e fiéis”.
        Victor Hugo – Os Miseráveis

Um mendigo deitado na frente de uma universidade francesa apoiava sua cabeça em uma pilha de livros enquanto lia um outro livro, de aspecto puído. Já tinha visto que ele ficava sempre ali, entre a prefeitura, o Panteão e a faculdade de direito. Dessa vez, resolvi falar com ele.

- Bom dia, senhor, digo.

- Bom dia, “mademoiselle”!

- Desculpe a curiosidade…

- De forma alguma, não precisa se desculpar.

- O que o senhor está lendo?, questiono com um tom curioso.

- Kierkegaard.

- Puxa!

- Você o conhece?

- Conheço, mas nunca li nada. Sei que é o pai do existencialismo.

- É uma visão um tanto quanto simplista, mas é por aí.

- Gosto muito de Sartre, revelo.

- O que mais gosta dele?

- Dos romances e das peças… mas adoraria entender o “Ser e o Nada”.

- Você está indo para a aula?

- Sim, mas posso ficar mais um pouco. Eu te atrapalho?

- De forma alguma. Uma boa forma de entender a questão chave é lendo primeiro o “Existencialismo é um humanismo”. Ele rejeita o conceito de desculpas determinísticas e clama para que o povo tenha responsabilidade pelo seu comportamento. Muitos dizem que o livro é superficial. Eu não acho.  Você fuma?

- Sim, mas são mentolados.

Um menino de terno e gravata entra na porta da unidade de direito e cumprimenta o mendigo, que por sua vez fala alguma coisa em gíria que eu não consegui entender.

-  Bahhh… bom, ok.

- São bons.

- Vamos tentar. Voltando ao assunto… sabe o que é melhor? Você quer levar esse livro que estou lendo?

- Imagina, termine de ler e depois eu pego.

- Eu já li várias vezes, leve fique o tempo que precisar. Se puder, amanhã me traga algum para eu ler. Quando terminar, volte aqui e discutimos sobre.

-  Como o senhor se chama?

- Monsieur Ferdière, o mesmo nome do médico do Artaud, diz ele rindo.

- Bom, eu preciso ir, mas o meu duplo fica com o senhor.

- Boa menina. Você se chama…?

- Juliana, com j.

- Ciao Giuliana!

- Obrigada pelo livro. Amanhã trago algum de casa. Mas são contemporâneos…

- Gosto muito, atualmente os meninos meus amigos tem me apresentado aos sul-africanos. Uma visão muito interessante da literatura.

- Ok. Até amanhã. “Boa coragem”.

- Bon courage, Giulia. Pode me deixar mais um cigarro?

Não quis saber o que ele estava fazendo na rua. Achei que perderia o encanto. Mais tarde descobri, e acho que foi no momento certo. A aura poética do momento não foi quebrada por um questionamento jornalístico-curioso. Até hoje somos amigos. Foi ele quem me apresentou outros importantes amigos, gente brilhante, que com certeza eu não conheceria em outras ocasiões mais pomposas, porém, bem menos nobres.

Juliana Amato

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Para passar o tempo

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

- Você já entrou no site o melhor do twitter?

- Não…

- Entra aí, vê se dá!

- Ah, até entro, mas não agora…

- Nossa, era só para te mostrar.

- Tá, fala. Qual o endereço?

- www.omelhordotwitter.com.br

- Não entra. É bloqueado aqui. O que tem nele?

- São diversas frases engraçadas postadas no twitter

- Tipo?

- Não lembro

- De nenhuma? Então não era engraçado.

- Claro que era, meu. Eu só não lembro agora.

- Bacana, agora fiquei com vontade de ler, dar risada, e vou ter que ficar aqui aturando seu mau humor.

- Que mau humor? Eu to super empolgada hoje, puxando papo com todo mundo. Depois que eu tomei aquele café, fiquei elétrica.

- É bom o café da lanchonete?

- Não muito, mas eu tava precisando. Ontem só dormi quatro horas, fui à apresentação da banda do meu namorado.

- Onde foi? – Na livraria da esquina….eu to morta hoje. Vou dormir a noite toda, não saio de jeito nenhum.

- Ah, porque eu ia te chamar para ir numa festa open-bar hoje, de graça.

- JURA? Aonde vai ser?

- Haha. Ué, você não estava exausta?

- É…sabe como é, né…festa open-bar, música, sexta-feira….

- Eu estava só te enchendo. Mas da onde veio esse ânimo?

- Depois de sair com o namorado, meu filho, qualquer coisa anima.

- Credo, a relação tá ruim assim?

- Faz tempo…

- Uuu…conversa bombástica. Haha.

- Depois te conto melhor, temos que fazer o texto no laboratório…

- Vamos…Eu vou usar esse diálogo lá.

- Nossa, falta criatividade aí, hein?

- Isso falta, mas ao menos não falta tempero na minha relação

Emilio Franco Jr.

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Pizza? Melhor não

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Nove e meia da manhã de sexta-feira.No intervalo da faculdade, entre uma aula e outra, fui no terceiro andar onde fica a lanchonete. Enquanto minhas amigas faziam seus pedidos, fiquei sentada numa mesinha, junto de Thais, uma menina da minha sala:

- Thaís, você não vai comer nada?

- Aí amiga, acabei de comer, tenho muita vontade de comer mais alguma coisinha, mas não quero.

- Por que não?

- Vou almoçar ás 11 horas, antes de ir ao trabalho. Se comer algo, depois não tenho fome. E no trabalho, não sei que horas poderei beliscar algo.

- Ah! Coma algo leve agora e depois você almoça.

- Tenho muita vontade de pedir um pedaço de pizza, todo mundo está comprando, parece deliciosa. Mas não é leve, que se diga, é?

- Não, é não! Mas vá enfrente você é magrinha e além do mas sua genética não lhe deixará na mão.

Thaís se levanta, com a carteira na mão e se coloca na fila do caixa da lanchonete:

- Uma pizza por favor.

- R$ 3,20

- Você sabe se é boa essa pizza, moça?

- Sim, é o que a moçada mais pediu hoje!

- Ótimo. Então vai ser isso mesmo, uma pizza.

Observo-a escolhendo o sabor da pizza. Mussarela sem azeitona. O aspecto e o cheiro dão água na boca. E me desperta uma certa fome.

-Nossa! Parece delicioso, acho que vou comprar pra mim também amiga.

- Não faça isso! Está terrível. Esse queijo barato, parece plástico. Não consigo engolir um pedaço sem sentir que vou engasgar.

- Credo. Pare de comer então. Vai te fazer mal!

- Parei total, perdi minha fome até. E para onde foram suas amigas que estavam por aqui, agora a pouco?

- Foram para aula. Aliás, preciso ir também. Joga fora essa pizza e compra uma barrinha de cereal, que não tem erro.

- Sim, é o jeito. Bom, vai logo, você vai chegar atrasada!

- Beijo, fui!

Cláudia O’Keeffe

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Viagem com um suíno

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

- Quantos quilômetros faltam?

- Não sei, já devemos estar pra frente da metade do caminho

- Você morou em Ribeirão Preto quanto tempo?

- Desde quando eu nasci. Me mudei para São Paulo só quando tinha 21 anos, morei sozinho uns dois anos e meio e trouxe minha mulher. Precisava de uma companhia permanente, as temporárias me deixavam meio depressivo.

- Por que?

- Sei lá, essas coisas de dormir uma noite acompanhado e outra sozinho sempre me causou estranhamento, gosto de companhia e minhas “amigas” da faculdade e do trabalho não queriam nada permanente, é o que vocês chamam hoje de ficar, naquela época era igual, só mudava o nome.

- É verdade, eu também gosto de companhia, ficar sozinho me deixa pensativo e geralmente são pensamentos ruins que me vêm à cabeça, não gosto de ficar sozinho não, por isso te chamei pra vir comigo, além do que dirigir sozinho, sem conversar com ninguém, me deixa com sono, é um pouco perigoso.

Após um silêncio de mais ou menos 30 segundos, ouvi um ruído estranho que me lembrou um porco. Sim, a companhia que eu havia chamado para me acompanhar na viagem e não me deixar dormir, estava dormindo. Senti um fio de arrependimento e raiva, aquele imbecil não havia se tocado o porquê da carona.

- Então Gui, você volta no domingo também?  – Perguntei meio que gritando e num tom imperativo.

- Oi, quê? Domingo? É acho que volto no domingo sim, por que? – Respondeu, meu colega assustado e sem muita certea.

- Por nada (só para te acordar, seu imbecil, pensei), só pra saber mesmo.

- Hum se você vier nesse dia também podemos voltar juntos.

Senti muita raiva naquele momento, ele com certeza me considerava uma besta.

- Não, devo voltar só na segunda cedo, quero aproveitar melhor a viagem.

- Segunda cedo? Acho que dá pra mim sim, viu!

- É então, não sei se venho cedo ou a tarde, depende do tempo – respondi arrependido da pergunta que fizera segundos atrás afim de acordá-lo.

- Hummm, me liga e a gente vê – comentou com um ar de desprezo.

Após um minuto e meio mais ou menos, pude perceber novamente aquele som animalesco, agora mais intenso. Não sabia se o abordava com outra pergunta idiota ou se me arriscava sozinho pela estrada. O sentimento de estar sendo usado e o de sono entravam em conflito nesse momento. Decidi por minha segurança.

- Gui, o que você está pensando em fazer no sábado? – perguntei com medo de sua reação.

- Ham? Quando Raoni? – meio acordado e meio dormindo.

- Sábado, o que você vai fazer no sábado? – minha impaciência já era notável em meu tom de voz.

- Não sei não viu, mas olha se você for a alguma festa ou churrasco e precisar de companhia, pode me chamar, eu posso ir conversando com você!

Tomado de um ódio mortal, querendo atirá-lo pela janela resolvi ficar em silêncio, aumentei um pouco o volume do carro e decidi continuar minha viagem sozinho. O suíno ao meu lado não se interessou muito em saber minha resposta e logo começou a produzir seu barulho característico. Aquele ruído, por incrível que pareça me deixou um pouco mais aliviado, as vezes é melhor ficar em silêncio que conversar com um porco.

Raoni Scandiuzzi

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Já sabem o que vão pedir?

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Depois de uma tarde inteira andando sem parar no shopping, resolvi, junto com a minha mãe e a minha irmã, tomar um café e comer um doce.

- Qual mesa você prefere, mãe?

- Pode ser aquela, perto da janela…

-Gente, aqui! Achei uma! – disse minha irmã que, logo depois, já aprontava os lugares acomodando nossas bolsas.

- Que demora, por que o cara não vem logo?

-Calma, Victoria, ele deve estar atendendo.

- Já sabem o que vão pedir? Soube que aqui tem uma torta de chocolate ótima!

- Boa tarde, serei seu garçom hoje. Em que posso ajudar?

- O cardápio, por favor. – disse minha mãe

- Por que nunca me decido? Esse cardápio deveria ter apenas duas opções e não várias!

- É só pegar uma bebida e um doce, Victoria, não é tão difícil. – retrucou minha irmã.

- Já posso anotar o pedido de vocês?

- Um café com leite e um brigadeiro, por favor.

- Café pequeno?

-Médio.

- E a senhorita? – disse o garçom apontando para a minha irmã

- Eu quero um cappuccino grande e uma daquelas tortas de chocolate.

- A de chocolate acabou. Agora só temos a de morango e maracujá.

- Morango, então.

- E a senhorita, já escolheu? – disse o garçom já um pouco impaciente para mim

- Hm, ainda não… Acho que ou querer um chá gelado. Não, mentira! Quero um chocolate quente!

- E para comer?

- Pensando bem, acho que também vou querer um cappuccino, mas pequeno. Médio! – me desculpei em seguida.

O garçom respirou fundo, rabiscando o bloquinho.

- E para comer… Que torta você disse que tinha mesmo?

- Morango e maracujá.

-Maracujá. Ou um brigadeiro?! – Outra respiração funda. – Já sei! Vocês têm mousse de limão?

-Não.

- e de maracujá?  – o garçom me fitou com olhos impacientes.

-Só a torta.

- Ah.

- Você pode decidir logo, por favor? Não tenho todo tempo do mundo pra ficar te atendendo.

- Como?

- É isso mesmo, não tenho o dia todo! Escolhe logo, que chatice!

- Ok, já escolhi. Perdi a vontade, não vou querer mais nada.

Depois de vários tipos de xingamento e muita reprovação, levantei da mesa e fui me afastando do local, junto com a minha mãe e a minha irmã, que a essa altura já estavam menos vermelhas de tanta vergonha.

Victoria Bessell

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Ainda convenço meu irmão

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

Tenho um irmão de oito anos. Mas desde os quatro sabe o que quer. Me contrariar. Sempre fiz de tudo para que fosse palmeirense. Só por isso, é corintiano. Mas não desisto, e dentre as infinitas tentativas de convencê-lo do melhor peguei o telefone e liguei para ele:

 - Alô.

- Alô, gordo?

- É.  Quem é?

- É a Jú. Tudo bem? – tudo.

 - Quer ir domingo ver o jogo comigo no estádio?

 - Quero. Mas é do Palmeiras. Não é do Corinthians.

 - Tudo bem, eu não me importo.

Nesse instante achei que o convenceria. Até que…

- Oh Jú, eu não preciso ir com a camiseta do Palmeiras né?

 Pensei rapidamente em falar que sim, mas achei melhor ir aos poucos.

- Não. Pode ir com uma camiseta branca.

 -Oh Jú… – fala – quando o Palmeiras fizer gol eu tenho que gritar?

 - Não, é só ficar quietinho lá. Ninguém vai te obrigar a gritar.

 - Ah tá.

Ficou calado por um momento. Pelo histórico do meu irmão saberia que viria mais uma pergunta. Não demorou e…

- Eu vou poder levar maquina pra tirar foto?

 - Vai sim.

 E nesse momento, sem falar tchau, nem nada, largou o telefone e foi contar para minha mãe todo empolgado. e só para deixar registrado, ela não gostou muito da historia. Mas também não interveio.

Juliana Rufino

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Quer ir pra faculdade, filho?

Publicado por blognovashistorias em 25/09/2009

-Bom dia, filho! Vai querer ir pra faculdade?

- Claro pai, faltei a semana toda não posso perder mais aulas. Ainda mais de sexta-feira.

-Mas Henrique, você teve uma crise convulsiva na terça-feira, tem que descansar, seu remédio ainda não se estabilizou. Seu primo disse que o remédio que você, pra variar, esqueceu de tomar demora dois dias para estabilizar no sangue.

-Eu sei pai, então deixa ficar mais dez minutos na cama o André que é meu professor faz chamada só às oito horas.

Eu tinha certeza que meu pai não me iria deixar ir pra faculdade, então tratei logo de levantar da cama e ir pra sala. Lá estava ele pronto para sair.

-Por que você acordou? Não disse que era pra ficar na cama!

-Eu sei pai, mas não posso faltar mesmo. Aproveita que você está saindo e me dê uma carona até o metrô Santos-Imigrantes.

-Claro né! Já pensou você ter uma convulsão no meio do ônibus e ninguém saber o que fazer.

Não sei o porquê do meu pai sempre achar que eu vou ter uma convulsão no caminho de casa, claro no meu caso de epilepsia as crises têm 90% de chances de acontecer no período da manhã, logo depois do despertar; mas é preciso tanto cuidado?

-Vamos pai não posso atrasar mais nem um minuto, você já está pronto?

-Eu estou, Henrique.

-Então vamos antes que o professor me dê falta.

-Já pegou suas coisas?

-Já pai.

-O celular está ligado? Deixa essa merda ligada, vai que eu preciso te ligar e você não me atende. Olha filho. Aonde você vai depois da aula? Você sabe que não vai sair esse fim de semana né? Acabou a aula vem direto pra casa, e nada de ficar mexendo em computador a tarde toda.

-Eu sei pai, não vou para lugar nenhum e outra tenho que fazer meu TGI esse final de semana, não vou ficar dando voltinhas o sábado e o domingo inteiro.

-Tá bom. Vamos?

-Vamos…

Henrique Gióia

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O caso do sorvete

Publicado por novashistorias em 23/09/2009

Era sábado, o dia estava ensolarado e eu animada. Resolvi ir correr no parque. Troquei de roupa, tomei café-da-manhã e fui. Chegando lá, deparei-me com uma garotinha que andava calmamente com um sorvete na mão:

- Olá, menininha, como você se chama?

Ela não respondia. Com um olhar misterioso e um sorrisinho malandro, se interessava apenas em lamber seu sorvete de morango na casquinha. De repente disparou:

- Eu não vou te dar nenhum pedaço!

-Mas quem disse que eu queria…

- Ninguém!

- Então… Eu não quero o seu sorvete!

- Quer sim!

- Eu não quero!

- Quer! Você só veio falar comigo para poder pedir um pedaço.

- Claro que não! Falei com você porque queria ser sua amiga! Mas já que você não quer…

- Eu quero! Toma… você pode lamber!

- Humm… Que delícia…

- Viu?

- Viu o que?

- Como você queria o sorvete…

- Não queria! Só aceitei porque agora somos amigas…

- Não somos amigas…

- Como não? Acabamos de decidir que seríamos…

- Mas não somos!

- Porque não somos?

- Você nem sabe o meu nome…

- Qual é seu nome?

- Não posso falar com estranhos…

- Mas não sou estranha, sou sua amiga!

- Não é!

- Tudo bem, não sou…

Virei de costas para a garotinha e sai andando com um ar de “eu nem queria mesmo”. Através da pequena conversa, havia percebido o quanto um serzinho de apenas um metro podia ser petulante… Quando:

- Ei! Minha mãe deixou eu ser sua amiga! Meu nome é Mariana!

- Oi, Mariana! O meu é Paola.

- Toma o meu sorvete! Pode ficar com tudo!

Entregou-me o doce e quando percebi já estava com ele na mão. Porém, ao aproximá-lo do meu olhar para cheirá-lo, logo vi algo de estranho… Enquanto isso, ela dizia para um menininho:

- Dei meu sorvete para aquela mulher… Tinha caído na areia…

Paola Parisi

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Convite bacana

Publicado por blognovashistorias em 23/09/2009

Em uma tarde normal na redação do Portal ONNE, uma assessora de imprensa liga querendo falar com o repórter Marcos Garcia. 

-Alô

-Olá Marcos, Tudo bom?

 -Tudo bem e você?

- Tudo bem também! Então, estou ligando para te fazer um convite.

Pensando ser mais uma das inúmeras sugestões de pauta que aparecem todo dia, respondi sem muito entusiasmo:

-Pode falar!

-Sexta-feira agora, nós estamos chamando alguns jornalistas para conhecerem uma estação de esqui em Las Lenãs, na Argentina. Você gostaria de ir?

A expressão deu uma mudada, pensamentos a mil, mas como em todos os lugares é preciso pedir autorização.

-Então, tenho que pedir autorização para a diretora. Quando eu tenho que dar a resposta?

-Até às 16 horas.

Já eram exatamente 15:35 no relógio.

-Ok! Vou perguntar aqui e daqui a pouco te retorno.

Então, olho para o lado e chamo a atenção da chefe.

-Ju, a assessora acabou de me convidar para uma viagem para Las Leñas, posso ir?

Ela olha pra minha cara, com uma expressão meio de espanto.

-Acho que não vai rolar! Nossa redação esta com pouca gente e você tem que escrever para os seus canais.

Ai veio aquele aperto no coração, de ter que dispensar uma matéria especial. No entanto, ela acrescentou.

-Mas se você fizer algumas matérias extras, e também, uma matéria especial da viagem, além de curiosidades da região, pode ir sim.

Da angústia a alegria. Só foi retornar a ligação e confirmar a presença.

_Alô. Pode confirmar a minha passagem…

Marcos Garcia

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Danada greve

Publicado por blognovashistorias em 23/09/2009

Bom dia Júlio, tudo bem?

- Estou meio preocupado, mas tudo bem. E com você?

- Tudo certo. Mas o que está te preocupando?

- Comprei dois livros pela internet e estava aguardando eles chegarem quando descobri que os Correios estavam em greve.

- Desde quando?

- Desde quarta-feira passada, dia 16.

- Quando você comprou?

- Tive a sorte de comprá-los na terça-feira (15) a noite.

- Mas você sabe o motivo da paralisação?

- Não sabia, mas como também fui afetado pelo problema, resolvi pesquisar um pouco.

- E qual é?

- Não sei exatamente, mas pelo que eu me informei, entre outras reivindicações eles querem aumento de 41% nos salários, além de readmitir funcionários demitidos recentemente.

- Você passou a se informar somente quando se viu incluído no problema, por quê?

- Porque eu preciso lê-los e fazer um trabalho utilizando-os como base para daqui duas semanas. Eu sei que deveria estar mais bem informado, principalmente sobre o que acontece no Brasil, mas eu ando muito ocupado ultimamente e confesso que não sei bem o que está se passando mundo afora.

Você tem mais informações sobre o caso?

- Bem, eu li que os Correios recorreram ao TST (Tribunal Superior do Trabalho) contra a paralisação dos funcionários na sexta-feira (18).

- E surtiu algum efeito?

- Na segunda-feira (21), o TST resolveu dar parecer favorável aos Correios e obrigou que fosse mantido ao menos 30% do efetivo em seus postos, sob multa de 50 mil reais ao dia.

- Mesmo assim Correios e funcionários não chegaram a um acordo?

- Ainda não, mas marcaram uma reunião para amanhã (24) com o TST para ambas as partes chegarem a um acordo.

- Enquanto isso você continua esperando?

- É o que eu posso fazer. Se não chegar nesses próximos dias vou procurar entrar em contato com os Correios e ver se existe alguma alternativa para eu poder retirar a encomenda.

- Boa sorte Júlio, e obrigado pelo papo.

 

Leonardo Gandolphi

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A caminho dos livros

Publicado por blognovashistorias em 23/09/2009

Eram 8h05 quando entrei no prédio da Piauí. Subi o elevador afoita até o quarto andar, pois estava atrasada para aula de Criação de Texto e ainda precisava pegar alguns livros, com o professor Lucas, para o meu Trabalho de Graduação Interdisciplinar (TGI).

A sala 41 estava lotada. Avisto o Lucas sentado em sua mesa em meio a diversos alunos. Espero ele parar de comentar sobre trabalho de uma menina e me apresento:

- Oi, professor! Tudo bem? Recebeu meu e-mail ontem?

- Oi, Flávia, tudo bem! Ah, sim! Aqui estão os seus livros.

Ele tira de uma espécie de bolsa preta e entrega em minhas mãos três livros. O primeiro é pequeno, os outros dois mais extensos.

- Muito obrigada, professor. Hum… Livros do Kamper, Milton Santos e Domenico de Masi. Acho que essas leituras vão nos ajudar muito no desenvolvimento do projeto.

- Sim. Estou emprestando do meu acervo pessoal e espero que vocês cuidem muito bem, pois dois deles eu uso para as minhas aulas de Semiótica da Cultura II.

- Pode deixar, professor.

- Estão sob sua responsabilidade, hein?

- Ok. Sem problemas. Ah! Já vou aproveitar para fazer uma pergunta. Por um acaso você também vai adiar a entrega do projeto em uma semana?

- Eu não sei ainda. Preciso conversar com o André Santoro. Na verdade estava pensando em adiar só para uma turma que está mais atrasada.

- Nossa, professor! Mas se você adiar para uma turma, tem que adiar para as outras também. Assim, não fica injusto e todos terão mais tempo para fazer um trabalho melhor.

- Hum… Bom, vou pensar e te mando um e-mail, pode ser? Daí você avisa o restante da sala?

- Com certeza. Fico esperando, então. Pense com carinho…

- Hahaha… Tudo bem.

- Até semana que vem. Muito obrigada e desculpa interromper a sua aula.

- Boa sorte e até semana que vem.

- Saio da sala. Aperto o botão para chamar o elevador. Dirijo-me ao décimo andar, para a aula que estou atrasada e que sei que levarei uma “chamada” por isto…

Flávia Ribas

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A redundância mental

Publicado por blognovashistorias em 23/09/2009

- Andei pensando e acho que vou sair daqui em outubro.

- Nossa, mas tem certeza?

- E por que não teria?

- Bom, não sei se é o melhor a fazer agora. Não sei se a hora é certa.

- Mas pensei bastante, sei que se prolongar ainda mais, isso não vai me ajudar.

- Então, mas decidiu já?

- Refleti um pouco e preciso de tempo para ler uns livros e fazer alguns trabalhos pendentes.

- E se sair mais no final do ano, em dezembro?

- Não, se for para sair mesmo, tem de ser o quanto antes, afinal, meus prazos são para outubro e novembro. Não adianta nada sair depois deles.

- É, mas, no ano que vem, você ainda terá um semestre disponível para fazer suas coisas e depois, no outro, pode estudar e se preparar para o cursinho.

- Não, mesmo assim, acho melhor agora.

- Ok, respeito sua decisão, até porque poderá ficar mais comigo também.

- É, isso é verdade, mas ainda assim vou usar o tempo para os meus compromissos; é esse o grande motivo da minha saída.

- E você já falou com a Carol? Ela pensa assim também?

- Não, ela sabe que quer continuar lá, mesmo com a falta de tempo pra tudo, o mal-estar diário…

- Então, mas não adianta uma querer e a outra não. Aliás, as duas precisam se dedicar, senão será o esforço de uma só e não está certo.

- Sim, mas coloquei na cabeça que, se eu quiser algo bem feito no final, preciso pelo menos da minha vontade. Uma de nós se dedicando já é uma grande coisa.

- Hum, então tá. Você quem sabe. Eu sei que você nem tem mais tanta vontade de continuar.

- É, isso também, mas é que eu preciso realmente ler todos aqueles livros para o projeto de pesquisa e o relatório do trabalho de conclusão de curso. Sinto falta da leitura. E, mesmo que eu faça medicina depois, ainda posso arrumar alguma coisinha em jornalismo para fazer, caso eu sinta falta.

- Tá certo.

Adriana Douglas

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Só não roube sua ex-mulher

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

Era uma tarde como outra qualquer, para um desempregado. Meu emprego se foi com a desculpa de sempre; a tal crise econômica, corte de custos, a necessidade de enxugar a folha de pagamento. 

Normalmente, perder um emprego não é o fim do mundo. É apenas um saco. São mais preocupações, ansiedades, medos e angústias para colecionar. Até que se encontre um novo emprego para se estressar.

Porém, para alguém que não possuía vinculo empregatício formal – aquelas bobagens que a gente faz para tentar manter seu emprego em uma crise e lhe faz a presa mais fácil na seguinte – ser despedido é como naufragar sozinho no meio do triângulo das bermudas.

Não pensava que, de todos os meus credores, minha ex-mulher seria a mais voraz e cruel. Sem renda, sem seguro desemprego, sem seguro e sem poder pagar a pensão de meus dois filhos. Até a companhia telefônica seria mais compreensível, mas uma ex-esposa não teria piedade.

Tudo bem que a gente faz umas bobagens na vida. Não vou negar que o divórcio foi por minha culpa. Ela tem motivo para estar ressentida, mas não esperava que fosse vingativa.

Engraçado o dia que fui preso. Não fazia idéia do motivo, até que meus carrascos me contaram suas razões. Os arautos da justiça estão atrás do cruel caloteiro das pensões. Afinal, por que correr atrás de quem cometeu um brutal e sanguinolento assassinato, se os terríveis não pagadores de pensão estão a solta!? E eu pensava que o SPC seria meu maior problema…

Não sabia se me indignava ou ria. Era eu tão perigoso para me algemarem? Que risco eu apresentava à sociedade?  Qual havia sido meu crime, ser demitido? Minha vontade era chutar o banco do passageiro da viatura. O que de pior poderia me acontecer? Já estava preso por um dos motivos mais ridículos, qual seria o problema de arranjar um de verdade?

Aquelas algemas me irritavam. Eu sempre vi na tevê aqueles bandidos sem rancor algemados. Só de ver alguém de algema eu pensava mal da pessoa. Antes disso, eu pensava que, se estava de algema, o cara estava errado.

 Quando antes eu poderia imaginar que por essas bobagens colocariam algemas em cidadãos de bem? Eu sempre paguei meus impostos, nunca cometi crime nenhum. Está bem; ás vezes uma ou outra multa de trânsito, mas isso não é exatamente colocar a vida dos outros em risco, não é?

Ao adentrar a minha cela, senti-me como um cordeiro entregue aos leões. Eu era o almoço após sete dias de jejum.

Por sorte, na delegacia dificilmente eles colocam caras como eu com os homicidas. Claro, os homicidas que eles pegaram cometendo um homicídio. Mas ao meu lado, três rapazes, por volta de 19 anos, que alegavam ser apenas usuários de 900 gramas de cocaína. Porém, ao cair da noite, contavam todos os passos, pontos e lugares para se conseguir drogas. Eu, um pai, um cidadão que nunca havia colocado um cigarro na boca, já sabia como conseguir a droga que quisesse, pelo preço mais barato, com o irmão mais “firmeza”.

Foram três dias até que meu irmão conseguisse regularizar a situação. Se eu fosse patrão, tivesse advogado, tenho certeza, nem teria que dormir na cadeia. Mas a gente faz o que nesse Brasil? Não dá para fazer muito, mas uma coisa eu percebi. Você pode dar calote em qualquer um, desviar verbas públicas e, se for esperto, roubar. Mas não pague sua ex-mulher e… eu garanto; é fatal.

Paulo Rhedy

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Made In Korea

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

O conflito de ideologias que marcaram o início da guerra da Coréia, em junho de 1950, teve o seu fim somente três anos mais tarde com suas terras devastadas, famílias separadas e crianças já órfãs com menos de cinco meses de idade. Dentre eles, alguns optaram por continuar no país enfrentando as dificuldades pós-guerra, enquanto outros escolheram iniciar novamente suas vidas em outro lugar.

No Brasil, a data oficial da imigração coreana está marcada como 12 de fevereiro de 1963, porém, a vinda destes já acontecia muito antes, com imigrantes munidos de passaportes falsos japoneses a fim de fugir da guerra que matou pelo menos três milhões e quinhentas mil pessoas na época.

A primeira imigração oficial teve 33 famílias aprovadas, mas somente 92 pessoas, de 17 famílias diferentes, receberam os vistos do Consulado Brasileiro, pois foi preciso muita negociação para que os coreanos pudessem vir ao Brasil. No início ficou acordado um projeto de aquisição de terras e colonização agrícola para a concessão do visto, porém os imigrantes não conseguiram se adaptar bem ao campo, já dominado pelos japoneses, e logo partiram para a cidade com o objetivo de exercer a prática do bendê, que consiste na venda de quaisquer produtos de porta em porta.

A imigrante Ana Cho Sun Choi, atual dona da loja Juliana do shopping Center Norte, lembra bem das vezes que andava por diversos bairros da cidade de São Paulo vendendo roupas e tecidos: “Na época meu português era precário e 95% da minha venda era feita por meio de gestos. O máximo que eu dizia era ‘Bom dia’, ‘quer?’ e ‘obrigada’. Até os preços dos produtos eu escrevia em uma folha para que o cliente lesse”. Hoje, com quatro filhos e três destes trabalhando com o ramo da confecção, Ana diz que não se arrepende de ter saído de seu país natal, mas confessa que às vezes sente muitas saudades. “Se puder, quero visitar novamente, antes de morrer, a casa em que morava antes da guerra. Lembro que era perto do mar e tinha uma vista incrível e indescritível. Estou feliz com a minha família, todos bem adaptados ao Brasil, mas gostaria de um dia poder levar todos eles para mostrar o lugar maravilhoso em que morei.”

O imigrante e médico Young Man Lee também precisou de muito trabalho e suor para conquistar o lugar em que se encontra hoje. Conhecido por todos da comunidade coreana, Dr.  Lee chegou ao Brasil em 1965, já formado em medicina, porém, por causa da ausência de relações dos dois países e a invalidade de seu diploma no território nacional, não conseguia exercer sua profissão. Assim, a primeira idéia que teve foi tirar a carteira de habilitação profissional a fim de trabalhar como taxista, mas com a desaprovação do pai logo decide voltar aos estudos, iniciando desde o primário até a faculdade de medicina, obviamente. Com o diploma em mãos, Lee abre um consultório reformado com suas próprias mãos, onde atendeu, no pico de sua carreira, mais de 50 pacientes em um único dia. “Eu cobrava cerca de 15 reais por consulta, quando não as realizava gratuitamente para pessoas sem condições financeiras de pagar. Com isso, não dava nem tempo de almoçar, pois os pacientes faziam fila na porta”. Atualmente aposentado, afirma que sua maior conquista no Brasil foi a educação que pôde dar aos seus filhos, que são formados, sem grandes sustos, em medicina e odontologia.

Hoje, estima-se que cerca de 15% da população coreana da Coréia vivam fora do país e dentre elas aproximadamente 50 mil estariam residindo o Brasil. Uma das imigrações mais jovens e não por isso menos importante, os coreanos geram, somente na cidade de São Paulo, cerca de 40 mil empregos diretos e outros 100 mil indiretos.

Andréia Choi

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A luz e a escuridão – os dois lados da moeda

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

Você já imaginou como enxergaria a vida se de repente perdesse a visão? Assim aconteceu com um grande número de brasileiros que, por algum acidente ou problemas de saúde, deixaram de apreciar as belezas proporcionadas por esse sentido tão importante para nós, seres humanos, mas aprenderam a enxergar as coisas a partir de uma ótica diferente e subjetiva. Este é o caso de Geraldo Magela, comediante de um teatro para cegos na cidade de São Paulo.

Antes de ser humorista, na infância, Geraldo foi vendedor de picolé, sucos, bolinho de espinafre e carregador de feira. Quando adulto, fez como a maioria dos deficientes visuais: vendeu loteria.

Geraldo era criança quando sua vida mudou de cor. A partir desse momento, ele foi obrigado a criar novos hábitos para se adaptar à doença. Mesmo assim, conta que não foi fácil aceitar o problema e continuar vivendo com a mesma determinação de antes. “No início, eu não tinha vontade de sair da cama. Meus pensamentos se misturavam e eu ficava confuso vendo tudo preto”, afirma.

Apesar da grande dificuldade enfrentada por Geraldo, ele procurou encontrar um novo sentido para sua vida, evitando que a depressão tomasse conta dele.  Como ouvinte na rádio, ganhou um concurso em um programa de um dos maiores nomes do rádio mineiro, Aldair Pinto. O prêmio: uma lata de café de 2 kg. Mas Aldair Pinto pediu que Geraldo fizesse algumas imitações e o convidou para participar do seu programa. Depois, passou a ter um programa só seu e trabalhou em diversas rádios mineiras. Rádio Incofidência, Rádio Capital, Rádio Itatiaia. No teatro, Geraldo começou com a peça “Radioatividade”, uma programação de um dia em uma rádio feita no palco.

Outro caso de cegueira é o de Jorge Murari Filho, agente administrativo do Velório Municipal Adamastor Fernandes. Aos 10 anos de idade, ele perdeu totalmente a visão após cair de um cavalo. Com a pancada na cabeça, começou a ter reações como vômito e dor de cabeça, além de ter ficado com o corpo completamente paralisado. Jorge foi levado ao hospital, onde os médicos realizaram uma cirurgia para a retirada de um coágulo e ele acabou perdendo a visão. Mas, aos poucos, os movimentos do seu corpo foram voltando ao normal. Formado em Direito, Jorge não chegou a atuar na área. Ingressou na administração municipal em 1973 e até hoje é servidor público.

Grandes estudiosos e escritores já escreveram sobre o tema, como José Saramago na obra O Ensaio sobre a Cegueira. O livro de Saramago descreve uma epidemia de cegueira branca, onde apenas uma mulher não perde a visão. Desta maneira, a cada parágrafo o autor nos mostra a vida sendo a perspectiva dos cegos e da personagem que enxerga normalmente.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), é considerada cegueira qualquer deficiência visual menor do que 3/60 no melhor olho, com a melhor correção óptica, além de definir a incapacidade visual acentuada (baixa visão) como a acuidade menor do que 6/60 no melhor olho, com a melhor correção óptica.

Tanto Jorge quanto Geraldo, cegos que enfrentaram a patologia e superaram os problemas da doença, devem servir de exemplo para muitas pessoas que insistem em reclamar de coisas supérfluas da vida. Eles podem não enxergar fisicamente, mas demonstram uma visão diferenciada do mundo, que em alguns casos pode ser muito mais sensível do que a ótica de uma pessoa que possui 100% deste sentido.

Felippe Camargo

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Trair ou não trair?

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

A traição tem se tornado um comportamento cada vez mais comum nos relacionamentos modernos. Na verdade, ‘comum’ não é a melhor forma para descrever o quão banalizado tornou-se a infidelidade. Desde os primórdios da sociedade, o homem conhece a tentação e é instruído a resistir a ela.  Claro que, muitas vezes, essa resistência é em vão. Por isso, corrijo o que disse: a traição tem se tornado um comportamento cada vez mais ‘escancarado’ nos relacionamentos modernos. Para a pessoa traída, não ficou menos dolorido, nem menos sofrido e nada menos humilhante. Mas para quem trai, parece que ficou mais fácil. Posso estar redondamente enganada, já que nunca estive nessa posição. Mas com base em algumas entrevistas, pude perceber que ser infiel é apenas difícil para os amadores.

“A primeira vez é a mais complicada. Você pensa em tudo: ser pego, levar um fora, carma… Mas se você se dá bem da primeira vez, você não pára. Tudo fica mais fácil, mais normal e aí você já não pensa em mais nada”, conta o administrador Téo.  Caroline também passou por isso, mas diferente de Téo, ela não conseguiu seguir em frente com o relacionamento. “Me arrependi, claro. Passei noites sem dormir com a dúvida cruel de contar ou não contar. O medo de não ser perdoada me machucava demais. É claro que ele não me perdoaria. Que tipo de pessoa perdoa uma traição? Mas o que mais me intrigava era a pergunta que eu fazia para mim mesma: ‘Que tipo de pessoa tem a coragem e o sangue frio para trair alguém que ela diz amar?’. Terminei o namoro porque não consegui viver com a minha vergonha”.

Esse tema tornou-se pauta para discussões, pesquisas sobre o comportamento sexual das pessoas e até um despertador de curiosidade. É engraçado como o assunto chama a atenção e assusta até os mais fiéis. “O medo de ser traído, muitas vezes, leva a pessoa a trair. Comigo foi assim. Minha namorada era segura, independente, trabalhadora e bonita. Não confiei no meu taco e tive que apelar para me auto-afirmar”, admite Téo.  Mas e o traído? A pessoa que cegamente investe em um relacionamento desleal?  “Quando a bomba cai, você perde o chão. A desconfiança até já poderia estar lá, mas quando ela se materializa, sai da ideia e vira verdade, você é pego de surpresa… No fundo você nunca acreditou que seria possível. Ficamos com raiva de nós mesmos por ter nos deixado enganar. Mas no fim das contas, não fomos nós que perdemos o sono; não fomos nós que nos corroemos de culpa; e seremos nós os primeiros a encontrar a felicidade”, desabafa Helena.

Não é fácil falar sobre traição. É preciso conhecer os dois lados da moeda para dizer qual é pior. Talvez não exista uma situação mais fácil. O que pesa mais? A dor arrependimento ou a dor do perdão? Ainda preciso ouvir mais depoimentos de cada um dos lados para definir um posicionamento sobre o assunto – se é que existe.  Na verdade, não acredito que exista um certo e um errado. Ambos sempre serão embasados com justificativas plausíveis e motivos justos, ainda que subjetivos. Como dizem, tudo é válido enquanto você tiver a paz de espírito para colocar a cabeça no travesseiro e dormir à noite.

Andrezza Duarte

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Em sua própria casa

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

Quantas vezes nos deparamos com pessoas miseráveis ao passar pela rua? Ao sair de casa ou no caminho para o trabalho, elas estão lá. Muitas vezes ignoramos, e outras até nos incomodamos. Certas vezes são as mesmas pessoas que nos deparamos todos os dias, e até começamos a questionar e nos vem a vontade de perguntar o que as levou a morar pelas ruas. Mas poucos de nós têm realmente a coragem de se aproximar.

Juliana nunca participou de obra assistencial e não gosta de dar esmolas. Via todos os dias uma mesma moradora de rua perto de sua casa, com o tempo não conseguia ignorá-la mais. Deu-lhe de comer, perguntou seu nome. Fátima.

Sua idade, de onde vinha, sua família, Fátima já não se lembrava. Os dias passavam todos iguais. Era quase sempre melancólica e às vezes explodia de raiva. Mas sempre pedia desculpas.

Juliana ia sempre à igreja, escutava sermões. Pensava em que tipo de cristã era ela e o que poderia fazer por Fátima. Junto a sua família decidiu então acolher aquela moradora de rua em sua própria casa. “Nós fizemos isso por uma questão de fé. Acreditamos que acolhê-la seria acolher ao próprio Deus, e que era da vontade Dele que ela permanecesse na nossa casa, como parte de nossa família”, conta Juliana.

É claro que no começo ficou receosa, pois sabia que Fátima tomava medicamentos para distúrbios mentais, o que a levou matar outro mendigo que morava ali há 15 anos. Devido aos distúrbios mentais, Fátima não poderia ficar na cadeia e ao mesmo tempo não tinha com quem ficar, assim, os pais de Juliana decidiram trazê-la para casa.

A primeira dificuldade foi fazê-la se adaptar às regras da casa, principalmente impor-lhe certos limites para que ela se recuperasse do vício em bebidas alcoólicas. Eles não esperavam algo extraordinário, muito menos alguma recompensa por isso. Queriam que ao menos ela tivesse a oportunidade de se recuperar, que se sentisse parte da família.

Por duas vezes, Fátima não resistiu, fugiu bêbada da casa da família Junqueira e voltou para rua. “Tivemos que ir ao seu encontro para poder recomeçar tudo de novo, restabelecer uma nova confiança e acreditar nela novamente”, explica Juliana.

Fátima morou com a família Junqueira por dois anos ajudando nos afazeres da casa. “Aprendi muito, principalmente que só o amor pode resgatar pessoas, e mudar situações, que devemos ser perseverantes, mas que é uma via de mão-dupla, pois é necessário não somente uma escolha nossa, mas da pessoa com quem estamos criando um relacionamento”, conta Juliana.

Nicole Melhado

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“A morte não devia existir”

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

Foi na tarde de 5 de setembro de 2003 que a vida de Priscila Ramos mudou. Era sábado à tarde quando o telefone tocou:

- Alô, Priscila?

- O que foi, Paulo? – perguntou, já percebendo a tristeza na voz do amigo.

- É a Tereza…

- O que aconteceu? Já sei! Vocês brigaram de novo!

- Não, é pior…

- Vocês terminaram?! Paulo, não acredito!

- Não, Priscila. É pior.

Paulo começou a contar sobre o acidente de sua namorada e amiga de Priscila. O carro em que Tereza voltava de um casamento bateu em alta velocidade em uma árvore e, no mesmo instante, ela quebrou o pescoço e morreu. “Foi simples assim. Ela se foi. Eu havia passado o recreio de sexta-feira no colégio conversando com a Tereza. Ela estava tão bonita! Tinha feito escova no cabelo para ir a um casamento e estava preocupada com a prova de italiano na segunda-feira. No dia seguinte, estava em frente ao caixão dela. Não conseguia entender e processar tudo aquilo. Estava no primeiro colegial e aos 15 anos pensava que, nesta idade, a morte não devia existir”, conta a universitária.

Durante o velório, o caixão permaneceu fechado devido à violência do acidente. Sobre ele, havia apenas uma foto da amiga cercada por pequenas flores amarelas. Priscila ficou ao lado de Paulo a cerimônia inteira, enquanto pensava no quão alegre e viva era a amiga que estava morta diante dela. “Permaneci aparentemente calma durante quase todo o velório, até não consegui controlar aquele choro convulsivo que traduzia tão bem minha revolta. Nada fazia sentido”, fala Priscila, “Poderia ser eu naquele caixão de madeira”.

Quando saiu da sala de velório, a estudante se recorda da garoa que caía durante aquela noite. “Devia ser o céu que chorava”, pensou Priscila. No caminho de volta ela se perdeu em meio a seus pensamentos e a única coisa que queria saber era o porquê daquela fatalidade. Dúvida esta que permanece até hoje. Priscila não foi à cremação no dia seguinte, acho que seria difícil demais ver a amiga se transformando em pó.

Priscila revela que nunca mais foi a mesma e até hoje não superou o medo de andar de carro. “Até hoje me assusto na direção. Não queria tirar a carta de motorista, mas tirei. A vida continua. Lembro-me da Tê todos os dias. Não é saudade, é uma lembrança, mas falar disso ainda me traz um nó na garganta e vontade de chorar, mas quero viver com alegria e vontade a vida que ela não viveu. Ela se foi e me ensinou muito. Acho que quando morrer vou dar um abraço muito forte nela e ouvir uma bela bronca por ter chorado tanto”.

Bruna Bariani

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Dupla perda

Publicado por blognovashistorias em 17/09/2009

Por volta das onze horas da manhã do dia 7 de maio de 2000, o empresário chileno Heitor Alvarez foi surpreendido com uma ligação de sua namorada. Ela havia sido levada ao hospital. Às pressas, Heitor saiu de sua loja e se encaminhou ao hospital e maternidade Santa Marina, na região do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Nervoso, ele pediu informações sobre o estado de saúde de sua mulher. Ela acabara de sofrer um aborto espontâneo.

A baiana Claudineide Rodrigues , que, na época, tinha 25 anos, vivia junto com Heitor havia dois anos. Ambos sempre quiseram ter filhos, mas a dificuldade que ela tinha para engravidar havia diminuído as esperanças do casal. Em janeiro, os dois foram pegos de surpresa com o início da gravidez de Claudineide.

No decorrer dos meses seguintes, o casal vivia momentos de alegria e de expectativa. Apesar de ter 46 anos, seria o primeiro filho de Heitor, que já estava em seu segundo casamento.

Com os meses passando, o casal foi se preparando para a chegada do bebê. Ainda não sabiam se era menino ou menina, mas Claudineide sentia que carregava um homenzinho em seu ventre.  No dia 3 de maio, ambos foram a um laboratório onde Claudineide faria mais uma ultrassonografia. Ela e Heitor estavam ansiosos, pois, a essa altura da gravidez, já era possível saber o sexo do bebê.

“Quando chegamos à sala de consulta, o que vimos foi mágico. Dava para ver o meu menininho. O Heitor ficou muito feliz e eu apenas confirmei o que eu já sentia. Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida”.

Em estado de êxtase, o casal saiu do laboratório. Já queriam comprar todo o enxoval com roupas azuis, verdes. “O Heitor sempre quis ter um filho. Quando viu que era menino, então, ele virou o homem mais feliz do mundo”.

Ao final daquele dia, o casal já havia comunicado a todos os parentes que o novo caçula da família seria um menino e já tinha um nome: Juan Carlos. Claudineide e Heitor já haviam definido o nome que dariam à criança caso fosse menino.

Os dois dias que se passaram deixaram o casal cada vez mais unido e mais empolgado com a possibilidade de ter, em breve, um garoto pra brincar, trocar, dar banho. “Me lembro que dois dias depois de sabermos o sexo do bebê, já havíamos feito pedido de móveis e comprado algumas peças do enxoval. Minha mãe sempre me ajudava a escolher, mas o Heitor participava muito de tudo. Ele queria muito esse filho”.

Na manhã do dia 7, Heitor acordou, tomou café com sua mulher e seguiu para o trabalho. Com o avançar da gravidez, Claudineide não trabalhava mais. Ela havia deixado seus pais tomarem conta da distribuidora de água mineral que Heitor havia aberto para ela. Ela ficou em casa e, quando tomava banho, sentiu uma dor forte no ventre.

“Parecia que eu tinha entrado em trabalho de parto, mas não era possível. Foi uma das piores dores da minha vida. Quando olhei o que tinha acontecido, vi muito sangue. O meu menino estava lá.”

Ao chegar ao hospital e encontrar Claudineide, Heitor, ainda em choque, tentava, em vão, consolar a mulher. Ele também estava desconsolado.

“Aquele filho era muito importante para nós. Fortaleceu a nossa relação. Quando eu perdi o bebê, parecia que o laço que existia entre a gente não tinha mais forças. Foi incrível, mas parecia que não éramos mais um casal.”

 O sentimento de Calaudineide era recíproco. Após o aborto espontâneo, a relação com Heitor durou mais três meses. Dizendo que iria ao Chile para uma viagem de negócios, ele não voltou mais.

Thiago Rocha Kiwi

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Chuva e ansiedade

Publicado por novashistorias em 09/09/2009

O primeiro dia foi realmente turbulento. Era uma quarta-feira chuvosa e caótica nas ruas de São Paulo, a etapa inicial de uma entrevista de emprego que duraria três dias. Após uma breve preparação, enquanto enfrentava uma multidão de carros no centro da cidade, consegui ainda chegar com 15 minutos de antecedência ao local desejado. Uma bela construção, com salas pequenas e movimentadas, todos os funcionários trabalhando e eu lá, à espera de uma conversa com a diretora do RH.

O teste foi fácil, o que me causou certa desconfiança. Apenas uma análise de comportamento. Consistia em enumerar em escala crescente de 1 a 4 as minhas qualidades profissionais. Respondi com calma, confesso que não fui totalmente verdadeira em algumas características, afinal queria muito que a vaga fosse minha e, se revelasse algumas peculiaridades de minha personalidade logo de cara, poderia me prejudicar.

No dia seguinte, a resposta chegou via e-mail: havia sido aprovada. Agora, meus conhecimentos técnicos seriam colocados à prova. Tive duas horas para escrever um release sobre um lançamento de uma marca e encaminhá-lo a um plano de mídia. O detalhe é que essa marca ainda existe no Brasil e, para descobrir mais informações, tive que fazer uma verdadeira varredura na internet. Felizmente, consegui todas as informações e cumpri o prazo estimado.

A partir disso já estava bastante confiante, porém restava a etapa final. Na sexta feira retornei ao local, agora para uma conversa com minha futura chefe.  As perguntas me fizeram ficar mais ansiosa. Após 5 minutos de prosa, tive que esperar mais algum tempo, tomar um café, me distrair. Ao voltar para a sala, era evidente que estava nervosa. O discurso final soava como música aos meus ouvidos; enfim, seria a nova estagiária da agência.

Bianca Sorrentino

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O grande dia

Publicado por novashistorias em 09/09/2009

No sábado passado recebi o convite de uma amiga para ir a um casamento com ela. Aceitei. Fazia tempo que não ia a um casamento e este tinha tudo para ser bom. Chegamos à igreja um pouco atrasadas, sentamos e ficamos por lá esperando o grande momento. Os convidados estavam ansiosos. Os padrinhos, nervosos. O noivo, preocupado. Onde estaria a noiva? Começamos a conversar e o tempo voou. Quando nos demos conta já havia passado quase uma hora. Mas e a noiva?

Olhamos para o altar e sentimos a preocupação no olhar do noivo. Ele se mexia, coçava a cabeça, fechava os olhos… E nada da noiva. Pensei: “ela deve estar chegando…” Voltamos a conversar. Falamos, falamos e mais meia hora se passou. A demora já se tornava insurportável. O que poderia ter acontecido com ela?

Conversamos mais. Meia hora se passou. O que faria uma noiva se atrasar duas horas? Os boatos corriam entre os bancos da igreja e os motivos eram vários: “ela deve estar presa no trânsito”, “tenho certeza que teve um algum problema com o vestido”. Aquela situação estava agonizante e nós – convidados, padrinhos e noivo – não sabíamos o que fazer.

De repente, ele sorriu. Como em um passe de mágica, a feição do noivo trocou o ar tenso e desesperado por um sorriso intenso e contagiante. Toda a demora havia sido esquecida e seu motivo não interessava mais. Ela estava lá, ele sentia. E realmente estava. Anunciada pela orquestra, e exterminando qualquer constrangimento que estivesse no ar, ela entrou linda, feliz e pronta para ser não só admirada, mas, principalmente, amada.

Paola Parisi

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“Posso passar na frente?”

Publicado por novashistorias em 09/09/2009

Era uma tarde de sábado. Meu namorado estava viajando e eu fazia o papel de vela para a minha irmã e meu cunhado. Decidimos, então, ir ao cinema. Ao chegarmos ao local encontramos, como de costume nos finais de semana, estacionamento lotado e muita gente circulando entre as escadas rolantes. Era uma constante disputa por espaço.

Corremos em direção à cabine de ingressos. Afinal, ansiávamos por ver mais um filme do Harry Potter. “Identidade, por favor? Digite sua senha…” E, até que enfim, garantimos o nosso tão sonhado lugar na seção. Agora, tínhamos que garantir a nossa pipoca e, inevitavelmente, o nosso lugar na fila.

Quarenta minutos em pé. Conversamos com o segurança sobre a estreia de um filme brasileiro que ocorreria no local. Após 10 minutos, chega uma mulher. “Estou grávida, posso passar na frente?”. “É claro”, diz o segurança. “E você tem direito a um acompanhante”. As minhas pernas já estavam cansadas quando, novamente, outra pessoa interrompe nossa conversa. “Estou com uma criança com dificuldade de aprendizado”…

Faltando cinco minutos para o início do filme, não somos os primeiros na fila. Acredito que quinze pessoas estavam na nossa frente. Além dos idosos simpáticos, havia também acompanhantes, que tinham a difícil tarefa de segurar a pipoca ao mesmo tempo, que equilibravam com destreza o refrigerante.

Entramos! Na sala escura, podíamos ver que os melhores lugares já tinham sido ocupados pelos preferenciais ou pelas suas bolsas que demarcavam os assentos. Os outros companheiros não tardavam a chegar. Sentamos no centro da sala, um pouco a esquerda. Finalmente, as luzes começavam a se apagar…

Julia Benvenuto

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Duas impressões sobre o mesmo joguinho

Publicado por novashistorias em 09/09/2009

Em um domingo com um sol pouco comum nesses últimos meses, mais uma vez tenho o prazer de poder prestigiar meu time de coração no estádio Cícero Pompeu de Toledo. Dividir esta emoção com mais quatro amigos são-paulinos da faculdade torna o programa ainda mais diferente e agradável. Algo que faço desde os cinco anos de idade se repete: mais um jogo no estádio, mais um clássico, mais um, pouco emocionante, São Paulo X Palmeiras.

Na sexta feira que antecedeu o clássico já estava combinado que o Augusto daria carona aos outros quatro amigos da classe. As 13h30 já estávamos dentro do carro em frente ao prédio de comunicação do Mackenzie com a expectativa bem grande, não só por ser um clássico, mas por ser um jogo bem importante naquela altura do campeonato.

Após ouvir o som do Zeca Pagodinho (não foi unanimidade) e percorrer cerca de 30 minutos do centro à zona sul de São Paulo, já estávamos pronto para estacionar o carro. Como de costume tivemos que pagar 10 reais para deixar o carro na rua com um dos mais de 30 “flanelinhas” que estavam naquele quarteirão. Algo considerado bem injusto por todos que estavam no carro, porém a única opção de ter um pouco mais de tranqüilidade durante o jogo, que era o grande propósito daquela tarde.

Entramos no Morumbi por volta das 15h10 e o jogo estava marcado para as 16h. A torcida tricolor estava em grande maioria. Pelo menos 90% dos 41 mil torcedores presentes estavam de vermelho, preto e branco. Infelizmente o jogo ficou devendo em emoção, um fraco 0×0. Se no campo o tricolor não conseguiu devorar o porco, pelo menos na saída do estádio comemos e devoramos um delicioso pernil, que já é tradição nas redondezas do estádio.
(Danilo Tenenbojm)

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Domingo é dia para descansar um pouco da semana agitada. No entanto, quando há um jogo de futebol não há como ficar parado em casa. Ainda mais se tratando de um clássico com ares de decisão, entre São Paulo e Palmeiras. Nesse contexto, cinco amigos com o mesmo pensamento e uma paixão em comum, o Tricolor Paulista, combinaram de se encontrar para ir ao estádio do Morumbi presenciar o jogão.

O ponto de encontro do grupo foi o Mackenzie, em frente ao prédio da Piauí. Como de costume, um integrante chegou um pouco atrasado em relação ao horário combinado, mas sem muitos transtornos com os demais. O relógio marcava exatamente duas horas da tarde quando os amigos entraram no carro e partiram empolgados rumo ao Cícero Pompeu de Toledo.

Ao chegar perto do estádio o primeiro problema enfrentado é achar um lugar adequado para estacionar o veículo. Como falta estrutura no local, o jeito é apelar para um flanelinha, que cobra para você deixar o carro na rua. No primeiro contato, o rapaz com colete de segurança cobra R$ 20, porém, depois de uma negociação, ele permitiu estacionar na rua por “apenas” R$ 10. Foi então que todo mundo fez a famosa vaquinha para pagar o tal guardador de carros.

Fora isso era tudo alegria, milhares de são-paulinos pelas ruas, todos vagando em direção aos portões de entrada. Dentro do estádio, as arquibancadas estavam todas lotadas, o Morumbi estava quase todo vermelho, preto e branco, exceto em um pequeno ponto na arquibancada laranja que estava verde, com a torcida rival.

A torcida incentivou, gritou, pulou e xingou a equipe, mas não teve jeito. O jogo foi tão ruim que não merece nem ser comentado.
Após o clássico, todos foram comer o famoso pernil que fica fora do estádio, e partiram às suas respectivas casas, inconformados pelo resultado e o tempo perdido. O que tinha tudo para ser um jogão foi apenas um joguinho.
(Marcos Garcia)

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Desconstruindo o mito

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Chico Buarque escreve. Mas isso todo mundo sabe. O que poucos conhecem é que Chico, ainda menino, escreveu um bilhete para a avó. “Eu vou me tornar um cantor de rádio. É só a senhora ligar o rádio do céu que vai escutar”. Até hoje não se sabe a frequência da estação celeste, mas ele, de fato, virou cantor, escrevendo sua primeira música, “Canção dos Olhos”, aos 15 anos , a qual nunca gravou.

Para Chico ser o gênio que é bastariam as canções, mas Chico foi além. Fez peças de Teatro como Roda Vida (1967), adaptou e assinou o roteiro de filmes, como Para Viver um Grande Amor (1983), foi ator em Quando o Carnaval Chegar (1972), centro-avante no Politheama, compôs o hino do time e, não menos importante, escreve livros, sendo o mais recente, Leite Derramado.

Não é para menos que sua influência é notória em todo acontecimento relevante musicalmente no Brasil nos últimos 35 anos, pelo requinte melódico, harmônico e poético que suas obras apresentam. Mais uma vez, isso todo mundo sabe. E são poucos os que se atrevem a discordar.

Contudo, tive a oportunidade de descobrir algo sobre Chico que nem todos os mortais tiveram a oportunidade de conferir. Descobri que seus olhos azuis são capazes de desconstruir qualquer um. Percebi que ao olhar para um Deus, que parece tão distante de nós, perdemos os sentidos, esquecemos como ser racionais.

Cheguei a essa conclusão ao me deparar com o mito na fila do cinema na Avenida Paulista. E o mais incrível é que foi o ídolo que foi ao encontro de sua fã. Olhou-me direto nos olhos e me fuzilou com aquele brilho. E quando achei que nada mais poderia tornar aquele momento mais inacreditável, Chico falou comigo. “Aqui é a fila para comprar a entrada?”. Eram tantas coisas que eu queria falar. Poderia ter dito que ouvia A Banda desde que me conhecia por gente e que Roda Viva é uma de minhas músicas prediletas. Poderia também ter me atrevido a dizer que ele tinha escrito Carolina só para mim. Ah, tantas coisas para dizer. Mas, como se recebesse um Cale-se de seus olhos, só consegui responder “Não, aqui é a fila para a pipoca”. Com um sorriso típico de Chico, ele se virou e caminhou na direção contrária. Trajando uma camisa amarela, calção e sandálias, percebi naquele dia que Chico não era um Deus. Ele era um homem. Mas isso só torna sua construção ainda mais divina.

Ana Carolina Santos

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Stefhany, linda e absoluta

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Stefhany é incomum a começar pelo nome: a alcunha registrada em cartório termina em ‘ie’, mas adotou-se o fim em ‘y’ para seu apelido artístico. O meio em ‘fh’, no entanto, é o original da certidão. Enquanto é alheia a quem não acessa a internet frequentemente, para sua mãe, irmãs e os milhares de fãs na cidade de Inhuma, no interior do Piauí, ela é uma diva: “linda e absoluta”, em suas próprias palavras. Essa nova sensação da música/internet brasileira iniciou-se na música aos oito anos de idade como backing vocal na banda de sua mãe, Necy França. Aos 15 gravou seu primeiro CD solo e agora, com 17, tem uma carreira em ascensão, com dois CDs lançados e apresentando-se por diversos estados do Brasil.

Para as cerca de 400 mil pessoas que assistiram ao seu vídeo-clipe principal na internet, no entanto, além de semideusa, ela também pode ser “ridícula”, “brega”, “tosca” e “pobre”. “Quem não é brega hoje em dia? Até os mais chiques, que pensam que estão arrasando, não passam de uns bregas”, provoca a garota. “Você tem que se assumir como é. Se quiserem me chamar de brega, tudo bem”, completa a jovem, que diz se inspirar em sua mãe. “Acho que não tem nada a ver me chamarem de Beyoncé, Britney e tudo o mais, porque eu sou a Stefhany. Não gosto de ficar imitando os outros”. Mas então por que a melodia de seu maior hit é retirada da canção ‘A thousand miles’, de Vanessa Carlton? “Todos os cantores brasileiros fazem versão de alguma música, mas quando uma pobrezinha lá da roça faz igual todo mundo fica em cima. Quem é o cantor brasileiro que nunca fez versão?”, alfineta.

Independente do rótulo, seu objetivo é, por enquanto, continuar levando sua “mensagem de amor” pelo Brasil. “Eu não penso em virar um ícone da música brasileira, mas se acontecer, eu tenho que agradecer”, assume. Já seu atual sonho não é difícil de adivinhar: ganhar um CrossFox da cor amarela. Sua obsessão por esse modelo de automóvel, aliás, deu força para que um boato se espalhasse pela internet há algumas semanas. Dizia-se pela rede que a empresa fabricante do veículo iria gravar um comercial daquele carro tendo Stefhany como protagonista. “Eu acho que isso deve ser tudo história. Hoje em dia, quem quiser falar comigo me acha. Se eles quisessem ter feito isso, já teriam me ligado”, desmente. “Mesmo porque não sou famosa”.

Mas se a humildade impede que essa garota que conquistou o Nordeste seja alçada ao status de celebridade, seus fãs fazem o contrário. “Minha dentista não cobra mais a manutenção do meu aparelho e eu também ganhei um computador portátil de uma loja de informática. Fora isso, recebo muitos presentes: bonecas, flores, pulseiras… Já ganhei até calcinha”, brinca. “[O problema é que] tem muita gente se aproximando agora, mas sabemos que não são verdadeiras. Nós [ela e sua família] começamos na dificuldade, então quando precisamos de ajuda muitos viraram as costas. Agora, aparecem aí em entrevistas dizendo que são nossos amigos”, repreende.

Bruno Soraggi

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Pedreiro e Cineasta

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Um homem de aparência saudável, cabelo ralo, estatura média, magro e com um semblante humilde e triste. Os olhos se limitam a percorrer a região inferior dos objetos, pessoas e paisagens e transmitem com uma força impressionante a decepção que a vida lhe trouxe e a falta de esperança na raça humana.

- Meu nome é Miguel. Miguel Batista. Sou pedreiro e cineasta! Diz satisfeito, com um sorriso um pouco tímido e um olhar que já foi iluminado.

Miguel mora em Diadema, em uma casa pequena e simples, que divide com a esposa e com a sogra. Para ele, compromisso é coisa séria, mas prefere não fazer promessas:

- Vai que um dia eu resolvo fazer alguma coisa errada? Pelo menos não prometi nada a ninguém, você não acha?

- Não sei, o que o senhor acha?

- Eu acho que é uma boa maneira de viver…

Ele trabalha em uma construção que fica a três ou quatro quarteirões de sua casa, mas não vai à obra todos os dias. Para ele, antes do trabalho como pedreiro, vem a paixão pelo cinema. Miguel dirige, produz e também atua em seus filmes e já ganhou alguns prêmios na região onde mora. Além disso, é poliglota, filósofo e poeta.

- Quando eu estou muito pensativo, minha patroa já sabe que eu estou pensando em cinema. Ela fica brava e me manda pra casa pra não deixar as paredes tortas, diz ele antes de uma gargalhada.

- O que o senhor gosta de ler?

- Leio Nietzche, Schopenhauer, Goethe. Mas gosto mesmo é de desligar meus pensamentos dos livros. Prefiro ser eu mesmo.
Por onde passa, Miguel é cumprimentado pelas pessoas. É chamado de “cara do cinema”, sonhador e Krusmanta.

- Por que Krusmanta, seu Miguel?

- Krusmanta é o nome de um dos meus filmes e também é nome da religião que eu criei. Esse Deus de que todos falam já tem seguidores demais.

- É sonhador?

- Muita gente não acredita em mim. Pensam que eu sou só um louco.

- O senhor não liga?

- Ah. Eu não. Prefiro dar risada. Eles nunca vão entender o que passa pela minha cabeça.

Ligia Tuon

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A fortaleza ruiu

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Era uma quarta-feira. Mais precisamente 6 de maio de 2009. Já era tarde, por volta das 21:30, quando eu cheguei em minha casa. Abri a porta e avistei minha mãe, Regina, sentada na ponta de um sofá de três lugares. Havia algo de estranho nela, mas não sabia o quê. Segui até meu quarto para guardar meu material e colocar uma roupa mais leve e então voltei para a sala. Lá, eu a encontrei na mesma posição, como se não tivesse movido um centímetro desde que eu a tinha visto cinco minutos antes. Seus olhos, sempre tão carinhosos e alegres, agora estavam vermelhos e fixos na televisão. Ao olhar bem, notei que era um vermelho brilhante, reluzente devido às lágrimas que se acumulavam e refletiam a tevê, que ela apenas fitava sem prestar atenção no que era transmitido. Sentei-me então ao seu lado.

Minha mãe sempre foi uma mulher trabalhadora, moderna. Nunca quis viver do trabalho e dinheiro do meu pai, ainda que pudesse. De segunda a sexta ela acorda às 5:30 da manhã e regressa ao lar apenas às 20 horas, muitas vezes sendo a última a chegar. Mesmo assim, cansada, ainda tem força para cuidar da casa e dar atenção às reclamações e carências dos homens da família (meu pai, meu irmão e eu). Escondendo suas aflições e nos ajudando em nossos problemas, ela sempre deixou transparecer uma imagem de uma mulher forte e guerreira, a típica mulher do século 21, apesar de os seus olhos a trairem e revelarem sua doçura e meiguice típica da “mãezona” do início do século passado.

Quando perguntei se estava tudo bem, ela não se agüentou e desatou a chorar. Fiquei assustado com a reação dela, uma mulher sempre tão forte, e insisti em minha pergunta. Como se estivesse envergonhada, ela virou a cara e a escondeu em suas mãos, sem conseguir me encarar, assim como uma criança faz com seu pai durante uma bronca depois de ter aprontado algo grande. Eu, ao lado de minha mãe agora, parecia seu pai. Com meus braços em seus ombros e afagando sua cabeça, sussurrava pedidos de calma a ela. Fiquei um tempo a vendo chorar sem saber o porquê. Minhas perguntas não eram respondidas.

Era ela querendo, mais uma vez, se mostrar forte. Ficamos um tempo calados, só abraçados e fingindo ver tevê. Quando me dei conta, ela havia invertido o jogo e agora fazia as perguntas. Novamente eu era o filho contando as novidades do dia, os sonhos, os sucessos e os fracassos para a mãe. Com minhas besteiras, que segundo ela “nunca são bobagens”, ao menos consegui um sorriso. Aos poucos as lágrimas cessaram e ficamos no sofá conversando até ela ver a hora e dizer que tinha que dormir. Levantou-se, deu-me um beijo e foi dormir.

Fernando Aquino

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Uma vida boa e simples

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Já dizia Amyr Klink. “… um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus próprios olhos e pés, para entender então o que é seu. (…) Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Essa arrogância que nos faz professores e doutores do que não vimos e não sabemos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir e ver”.

Para Jefferson Estevam, também conhecido como Jé… , essas palavras se tornaram bem reais. Desde cedo mostrou sinais de sua independência. Saiu de casa aos 16 anos e abriu uma escola de música para se sustentar. Qualquer instrumento em suas mãos compõe aos poucos uma sonoridade perfeita e toda essa facilidade com a música resultou na escolha de sua profissão. O trabalho de músico possibilitou flexibilidades e, como reflexo de sua autonomia, começaram suas viagens pelo Brasil e pelo mundo.

A cada ano, uma viagem marcante era programada. Para acompanhá-lo nessas jornadas, ele escolheu Terumi, uma moto XT 600 E que se tornou mais do que apenas uma moto, era sua cúmplice em cada novo momento e nova experiência. E foi com ela que Jé… realizou uma viagem de 25 dias rumo ao nordeste brasileiro, passando por Minas Gerais, Brasília, Goiás e Bahia. A viagem foi batizada de “Os Filhos da Mãe Gentil”, por explorar pontos turísticos brasileiros e outros nem tão turísticos assim. A viagem virou um filme, produzido e filmado por ele mesmo.

Nessa viagem, como em todas as outras, não houve luxo nem conforto. Seu hotel era móvel, uma barraca que ficava onde ele decidia que era hora de descansar. Seu restaurante era uma espiriteira e algumas misturas que inventava, e suas experiências eram vividas conforme pessoas passavam e marcavam sua trajetória. Seguiu assim, visitando toda a costa brasileira, o Deserto do Atacama, e decidiu também que era hora de navegar pelo Rio São Francisco, e diferente das outras viagens em que era acompanhado apenas por Terumi, nessa, o momento foi compartilhado com três amigos que passaram quase um mês navegando de caiaque pelo rio.

Jé… não é de permanecer muito tempo em um mesmo lugar. Ele busca incansavelmente viver a vida boa e simples. Já passou pelo Japão, pela Europa e atualmente vive em Londres, na Inglaterra. “Quero viver o hoje e o que vejo diante dos meus olhos. Viver bem mais que essa vida tem para dar. Tentando a cada dia ser uma pessoa melhor”, comenta sempre e aconselha toda vez que possível: “Aproveite os momentos simples”. Apesar de suas constantes viagens, ele sempre volta para perto dos amigos para ensinar o que aprendeu, afinal, para ele, a frase de Christopher Johnson McCandless faz todo o sentido: “A felicidade só é verdadeira quando partilhada”.

Thâmara Kaoru

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A frieza é uma saída

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Quando alguém vai à casa de Marcelo é bastante curioso. Além de estar entrando em lar alheio e, portanto, ter a indecisão e o receio ditando o comportamento, depara-se com um homem em uma cadeira de rodas em um formato arcado. Qualquer ação posterior acontece de forma racional. É impossível não ficar no mínimo pensativo.

Normalmente as pessoas têm vontade de se mostrar carinhosas e simpáticas. Mas não há um pingo de reciprocidade. Na maioria das vezes o silêncio se segue. Marcelo não faz questão nenhuma de ser hospitaleiro. O silêncio, dessa forma, é maior ainda. E nada mais desesperador do que o silêncio.

Marcelo Velasco tem 37 anos e carrega um fardo já há anos: uma doença degenerativa do sistema nervoso. Não há mais movimentos voluntários da cintura para baixo e, a cada dia, novas partes do corpo sofrem perdas terríveis. Tem dois filhos pequenos que gerou com rapidez, pois já se casou sabendo do infortúnio. Sua esposa Vanina aceitou como ninguém o famigerado trecho do dia do casamento: “na alegria e na tristeza; na saúde e na doença…”.

Formado em cinema, Marcelo é daquelas pessoas amantes da literatura. Já leu muito em sua vida. Disse que sempre gostou de escutar livros lidos. Foi assim que desenvolveu um projeto voltado para cegos no qual produz livros falados. Marcelo sempre diz que trabalha para o seu patrão (os cegos), e é a eles que deve satisfação. Quem o conhece tem a impressão de que seu patrão é imensamente rígido. Marcelo tem uma aplicação invejosa.

Em razão de sua condição física, tornou-se frio. Não se preocupa com relações pessoais. Há coisas mais importantes para ele, como pegar o papagaio para urinar. Marcelo não pensa duas vezes em pedir ajuda. Um mínimo de intimidade que alguém tenha com ele é suficiente para ajudá-lo a abrir sua braguilha. Certa vez disse, logo após suas calças terem saído quando era puxado pela fisioterapeuta na cama: “a gente chega em um momento em que perde o pudor”. Passado um tempo de convivência percebe-se o quanto Marcelo necessita da relação humana, embora não demonstre. Sua aparência de frieza é exatamente para esconder a tristeza que tem pelo isolamento imposto pela doença.

Rebecca Nogueira

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Vaivém de vontades

Publicado por novashistorias em 29/05/2009

Ele vai e vem com seus pensamentos, sempre foi assim. Muda tudo, toda hora, mas não muda a personalidade inconstante. Desde criança oscila de humor e de opinão e os brinquedos com que a mãe a presenteava perdiam o encanto de um dia para o outro. Com olhar inquieto, cabelos castanhos e arrepiados de gel e a vontade de estar em mil lugares ao mesmo tempo, a infância terminou e com ela se foi a coleção de latinhas de bebidas exóticas. Tornou-se adolescente e o lugar da ex-coleção cedeu espaço aos CDs. Na segunda-feira ele gostava de pagode, na quarta jurava só ter Beatles como ídolos.

Anderson sempre teve muitos amigos, família grande e unida. Frequentou bons colégios, namorou belas garotas, viajou Brasil afora. Mas era pouco para ele. Sempre quis ir além, buscar o ainda não vivenciado. Passou de surfista a roqueiro, de 100 quilos para 50. Desejava encontrar seu lugar no espaço, um porquê para sua existência ou para a de algum outro planeta. Confuso, mas sóbrio. Oscilante, mas perseverante.

Na inconstância de seus sonhos, jurou ter talento nato para publicidade. Criar, imaginar, convencer. Durou pouco e Anderson percebeu que seu caminho era a televisão, o rádio, o novo curso que começara. Foi assim que durante um tempo, talvez o maior em que ele tenha permanecido num mesmo lugar, ele acreditou ter se encontrado. Mas o diploma na mão lhe trouxe a agonia dos estagnados. Precisava de movimento, fuga de rotina. E, então, resolveu virar jornalista. Leu, escreveu, sentiu-se boêmio e sem regras, sem vínculos. Foi bom enquanto durou.

Não demorou muito para que se sentisse preso. Ainda jovem, e com o mesmo cabelo arrepiado de gel, Anderson argumentou com seus pais sobre a necessidade de deixar o país. Precisava ver o mundo, as mil possibilidades de lugares, pessoas e momentos. A chance de se achar, ou perder, de vez. Como sempre na sua vida, ele foi. Deixou família, amigos e um amor, que apesar de intenso já o sufocava na temida rotina. Peru, Holanda, Alemanha, Itália, Londres. Como que num ato de esquizofrenia, viveu inúmeras profissões. Pedreiro, garçom, gerente, estudante. E assim, dois anos depois, voltou para continuar a ser um cometa. Nada de jornal ou TV, ele agora quer parar num só lugar. Criar raízes, fazer tudo direito. Bem direito. Defensor da filosofia do carpe diem, em cinco anos vai se formar advogado.

Fernanda Emmerick

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O velho tinha fome

Publicado por novashistorias em 25/05/2009

Com o pequeno lenço que sacou do bolso do paletó, espantou algumas folhas secas que cochilavam no assento frio do banco. Desconfiado de novo, olhou para a esquerda e para a direita. Somente duas crianças perturbavam uma indefesa bola de futebol enquanto eram observadas por seus pais, em pleno domingo do dia das mães no parque. Além do alarido dos pequeninos, havia pombas que comiam migalhas de pão deixadas por alguém que passou por ali. Nada mais afrontava o silêncio sepulcral do jardim.

Sentindo-se seguro do que viu, sentou-se, pousando a pasta sobre as coxas ao mesmo tempo em que a prendia firme com as próprias mãos trêmulas, como se algum dos moleques fosse roubá-la e sair correndo, aproveitando-se da incapacidade do pobre velho.

Sua feição é de um velho acabado. Os cabelos já não são muitos, os óculos de armação grossa e antiga parecem não servir para muita coisa, as roupas também não são novas, e os sapatos não sabem o que é graxa há muito e muito tempo. Também pode-se visualizar as pontinhas de suas meias marrons, que acabam por esconder o possível encardido de sujeira que acumulam seus pés.

Na juventude poderia ter sido um homem forte, vigoroso, de muitas mulheres, com dinheiro e capaz de fazer muita coisa. Hoje, sentado daquele jeito, com um olhar abatido, a impressão que se tem é de um homem cansado, que viveu muitas batalhas, mas que precisa descansar e observar mais esse mundo moderno e tão diferente daquele que viveu mais ativamente no passado.

Um pouco de longe, discretamente sentado em um banco próximo ao seu, eu observava seus gestos com extrema curiosidade. Em solavancos, minha mente fabricava suposições do que um dia aquele homem foi e o que estava por fazer num domingo a tarde, Dia das Mães. Enquanto famílias festejavam a data – inclusive eu com a minha – ele seguia sentado, desolado. Não aparentava ter família. Parecia que algo havia acontecido e ele ficou sozinho no mundo, com um olhar caído, mas pensante e reflexivo. Seu corpo era fraco, mas ainda parecia possuir uma mente capaz de imaginar e de lembrar de muita coisa.

Não parei de observar seus gestos, que eram poucos, mas marcantes. Suas mãos tremiam muito, poderia estar doente. Parkinson talvez. Mas elas não desgrudavam da pasta. Seus pés batiam um contra o outro como se uma ansiedade tomasse conta apenas de suas pernas. O resto continuava inerte e calmo.

Até que, finalmente, o homem abriu a pasta, dela tirou um pequeno e bem feito embrulho quadrado. Embalado em papel pardo de padaria, estava preso em um barbante, muito bem amarrado com vários nós e um laço que enfeitava o embrulho como se fosse um presente. Devia ter gasto horas para deixar o embrulho daquele jeito. Tão certinho, tão bonitinho, tão cuidadoso. Não devia ter muitas ocupações, seu tempo devia ser livre na maior parte do tempo. Somente uma pessoa pouco atarefada perderia minutos de seu dia para fazer um embrulho daquele modo para logo em seguida desmanchá-lo e atirar os restos na lata do lixo.

A falta de ocupação e a necessidade de fugir da ociosidade deixam as pessoas mais dedicadas a tarefas pequenas e frívolas, como se elas fossem um trabalho importante, necessário e que merecessem atenção especial.

O grande interesse meu em saber o que havia naquele embrulho não deixava que meus olhos perdessem qualquer detalhe do que o velho fazia. Com gestos lentos, ele soltava cada nó do barbante até chegar ao laço final. Desdobrava a folha interna de papel alumínio, alisando-a e dobrando-a meticulosamente, como se fosse reaproveitá-la em um próximo embrulho. Seus olhos eram concentrados na ação. Era um profissional naquilo. Fazia tudo com muita calma e propriedade, como se fosse um ritual religioso que merecesse atenção especial em um momento íntimo, embora estivesse em local público.

Com um corpo debilitado, mas com uma mente que ainda parecia servir para alguma coisa, ele voltou a olhar para os lados. Nesse momento disfarcei meu olhar e fingi que fazia outra coisa, menos observá-lo, foi quando de suas mãos surgiu um pedaço de pão com algum recheio que eu não pude distinguir. Sua boca seca e enrugada mais parecia um maracujá passado e estava aberta para comer o primeiro pedaço. Começou a degustar cada naco do pão, e seus olhos fechavam enquanto mastigava. Sua empolgação era tanta, que, imagino eu, deveria até soltar alguns gemidos enquanto sentia o sabor do alimento. Sua fome parecia ser grande, mas mantinha a calma nas mordidas. Sua velhice parecia incomodar até na hora de comer, o pão era seco, isso atrapalhava na hora de engolir, era visível o desconforto.

Seu olhar treinado pelo tempo mantinha-se do mesmo modo. O velho só estava com fome. E eu, extremamente curioso.

Vinicius Bruno

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Militante da educação

Publicado por novashistorias em 25/05/2009

Sábado trivial no Cursinho Comunitário Pimentas. Uma hora da tarde, e começa o intervalo para que estudantes e professores – todos voluntários e ex-alunos do cursinho, atualmente cursando universidade – possam almoçar o macarrão com carne moída preparado pelas cozinheiras – também voluntárias, sendo, quase todas, mães de alunos. A comida vem do Banco de Alimentos, ONG dedicada a evitar o desperdício de comida, e é trazida até as dependências do cursinho por (adivinhem!) voluntários. Pelo cheiro e pela experiência pregressa deste repórter (que também estudou neste cursinho) nota-se que a comida está saborosa. Tanto que o grande responsável pela criação deste curso pré-vestibular, que consegue levar às universidades públicas cerca de 20% de seus alunos (média similar aos do colégio Anglo e Objetivo), não se faz de rogado em filar a bóia enquanto cede a entrevista. Mesmo tendo sido eleito, ano passado, vereador do município de Guarulhos.

Rômulo da Silva Ornelas nasceu em 1960 na cidade de Comercinho, Minas Gerais. Bem no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres e com “maior índice de esquistossomose e doença de Chagas do Brasil”, como ressalta o próprio Rômulo. Veio com 17 anos para São Paulo com o objetivo de estudar ou então jogar futebol. Embora “jogasse muito”, segundo próprio relato, optou por estudar, se graduando como professor de história numa universidade guarulhense. Milita nos movimentos de esquerda desde 79, quando estudava no ensino médio e trabalhava como metalúrgico. Participou da fundação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), mas não do PT: “nunca acreditei que partido deveria liderar a luta dos trabalhadores ou dos movimentos populares. Mesmo assim, me filiei ao PT em 84, porque a única saída de participação era via partido”.

Continuou militando durante toda a década de oitenta, sempre nos Pimentas, bairro da periferia de Guarulhos. Organizou greves em algumas das empresas que trabalhou (como a Corona e a Persico), e ajudou a difundir as idéias socialistas numa época em que a ditadura ainda não havia deixado completamente o poder. Rômulo gosta de lembrar que exibiam filmes políticos – ainda na época da câmera Super-8 – como o libelo anarquista “Libertários”. Demitido da Corona, passou a trabalhar no IBGE, e em 1992 passa a dar aulas na rede estadual de ensino após se formar. Em 1997 se muda do bairro do Parque CECAP para o bairro dos Pimentas, “por opção própria!”, para espanto deste repórter. É que os Pimentas (que na verdade é um conjunto de bairros menores) sempre foi carente de infra-estrutura: nunca foi exatamente um lugar onde alguém moraria “por opção própria”.

Rômulo teve a idéia de organizar um cursinho comunitário neste bairro inspirado na experiência da Educafro, uma ONG fundada por franciscanos que administra vários cursinhos comunitários pelo Brasil, e que luta pelos direitos de minorias raciais. “Um amigo meu, o padre Waldeci, trouxe a Educafro pra cá em 96, ele me chamou mas não pude ajudar, pois estava construindo minha casa na época. Ele levou a Educafro lá para (o bairro do) São João”. Logo depois, “fui ajudar um grupo lá no Bonsucesso”, entretanto, “eu tinha umas críticas quanto à postura que a Educafro tinha como cursinho. Enquanto movimento popular é excelente, aglutina, tem uma luta interessante de inclusão mas enquanto cursinho não virava”. Então, em agosto de 2001, Rômulo tirou licença de três meses do serviço em e se empenhou em chamar voluntários na escola onde lecionava para organizar um cursinho pré-vestibular. E, apesar das críticas, com a ajuda da Educafro.

Nossa conversa se dá na biblioteca do cursinho, onde alguns alunos pegam livros e apostilas. Apesar do movimento e de um certo barulho, conseguimos conversar normalmente: Rômulo fala de maneira calma enquanto termina de almoçar. Na entrevista não transparece muito seu temperamento forte, que já lhe custou amizades e voluntários. Muitos brigaram e largaram de vez o projeto. Outros permanecem, mas sempre há um debate mais acalorado, como quando se estabeleceu a obrigatoriedade dos alunos levarem material reciclável ao cursinho como forma de ajudar nos custos. Nem todos conseguiam levar uma quantidade considerável, e por isso levavam uma “comida de rabo”. Entretanto, parece que todos concordam que o estilo ocasionalmente “mão-de-ferro” de Rômulo foi o que manteve o cursinho funcionando até hoje.

Desde que o cursinho foi criado, a história dele e de Rômulo se confundem. Tudo que ele realizou desde então foi em função do cursinho e devido a ele. Sua eleição para vereador foi conseguida com ajuda dos alunos e dos voluntários, tendo pouco apoio de outros candidatos do mesmo partido (o PT). O sangue subiu logo após a posse, e Rômulo criticou publicamente o colega de partido, e também vereador eleito, Prof. Auriel. Os próprios voluntários o criticam (na lata) por suas declarações equivocadas. Entretanto, o apoio a ele, aparentemente, continua incondicional.

A entrevista termina, o almoço também. Os alunos voltam à sala. As senhoras da cozinha guardam os utensílios, alguns voluntários lavam a louça. O homem parece um pouco cansado, finalmente percebo suas olheiras. Talvez tenha se dedicado por muito tempo ao cursinho, que já levou tantos à universidade pública. E pelo menos nos próximos quatro anos, a rotina dele não vai mudar. A pergunta é: um projeto popular pode subsistir sem o seu, falando o bom português, líder? O clichê é muito surrado, mas… só o tempo dirá.

Bruno Rios

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Sol para Seu Kahlil

Publicado por novashistorias em 18/05/2009

Cheguei em casa no sábado por volta das 9h. Já fazia calor e minha mãe estava na cozinha falando ao telefone com uma cara mais fechada do que o normal, mesmo para o horário – minha mãe não acorda muito bem humorada. Lembrei de nossa conversa da noite anterior, e logo percebi do que se tratava. Falamos por uns momentos e fui me trocar para sairmos. Escolher roupa não é um problema pra mim, mas como se tratava de um velório, fiquei pensando no que seria mais apropriado. Uma dessas bobagens que temos, porque afinal de contas, quem iria reparar nisso em um velório? Escolhi um vestido preto. Não pelo luto, mas pela discrição que ele trazia. Senti-me confortável. Eu e minha mãe entramos no carro. Não estávamos tristes e falávamos muito, lembrando de histórias e do jeito do Seu Kahlil.

Não fomos direto para o cemitério. Paramos na escola para fazer alguns telefonemas. Chegamos rápido apesar da longa distância entre minha casa e a escola. O caminho é longo, mas corriqueiro. Durante toda minha infância fiz esse trajeto e adorava contar as inúmeras lojas de casas pré-fabricadas que há na avenida. Na minha última contagem eram 18. Hoje, o número é bem menor. A escola mudou muito. Continua pequena, mas tem uma arquitetura bem diferente. A fachada é azul e amarela e tem cara de escola. Antes não tinha. Era apenas uma casa ampla. Mas, apesar das mudanças, a escola permanece um lugar muito agradável, com árvores, pássaros, tanques de areia, bancos coloridos. Adoro essa escola. 

Passamos por lá antes, porque pensamos que seria bacana avisar alguns alunos da morte do colega. Seu Kahlil era um dos 30 alunos do projeto de alfabetização que minha mãe criou e do qual faço parte. O calor estava mais intenso e a sala dos professores fica em uma casa no fundo da escola. Parece que lá é ainda mais quente. Passamos pelas duas quadras e chagamos na sala, normalmente lotada, mas vazia naquela tarde de sábado. Ao procurar os telefones dos colegas na pasta dos formulários dos alunos que fica em um pequeno gabinete ao lado da porta do banheiro, passamos pela página de registro do Seu Kahlil. Foto 3X4, dados pessoais. Não fiquei triste. Mas ficamos em silêncio. O que é raro.

Descendo a rua da escola até o final, damos de cara com o muro do cemitério. Branco, alto, com algumas frases poéticas escritas a mão que não consegui guardar. Lembro que tinha várias com “flores”. Acho que não estava prestando atenção em nada no momento. Uma curta caminhada e estávamos na entrada do cemitério. Lembrei que fazia quase um ano que eu não ia a um. Chegamos na sala em que estava acontecendo o velório. Uma sala pequena. Com o caixão aberto e menos de vinte cadeiras. Poucas estavam ocupadas. Ao lado do caixão, quatro velas acesas consumidas quase que por completo e três grandes coroas de flores. Chegamos sem nada nas mãos. Ninguém se lembra desses detalhes em uma hora como essas. Achei que tinha pouca gente e foi só então que fiquei triste. 

Mas não era uma tristeza muito profunda. Fiquei realmente impressionada com as coroas de flores. Eram muito grandes e predominavam flores nos tons amarelados e alaranjados o que trazia certo calor para a sala estranha, como são as salas de velório. Cinza, apertadas e desconfortáveis. Seu Kahlil estava usando um terno cinza, como as paredes, com uma gravata muito bonita em tons de roxo, se não me engano. Sua expressão era quase como se tivesse iniciando um sorriso. Sua filha estava em pé ao lado do caixão marrom com as duas mãos sobre as do pai. Miriam. Uma mulher lindíssima com pouco mais de trinta anos. Aparenta muito menos e ao nos abraçar trouxe ainda mais calor para a sala. Ela só poderia ser filha do Seu Kahlil mesmo. Uma pessoa adorável, afável. Dessas de quem é impossível de não gostar, assim como o pai.

 Saímos para almoçar e, quando voltamos, a sala tinha de fato se mostrado pequena como achei que fosse. As cadeiras não só estavam todas ocupadas, como havia pouco espaço para acomodar todos que estavam de pé. O caixão foi fechado e começamos a caminhar pelo cemitério. Passamos por uma ala que só tinha túmulos de família. Passamos pela família Salim Farah Maluf e até achei uma Família Pereira Ignacio, como a minha, mas evitei pensamentos macabros a respeito. A caminhada foi silenciosa e tranquila. Poucas palavras eram ouvidas e o ambiente era de muita paz. Pode ser estranho sentir paz em um cemitério, mas era nítido que muitos sentiam e até sorriam enquanto caminhavam. Pelo sol que ainda fazia e que não cessou nem por um minuto durante a tarde, tive a certeza de que se tratava de um dia de conforto e paz e não de luto. Ninguém teve pressa para ir embora.

 Ana Ignacio

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Texto interessante — “Por que precisamos de jornais?”

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

‘Por que precisamos de jornais?’

Autor: Eugenio Bucci.

Clique aqui para ler.

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E depois?

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

Para chegar até a cidade dele, é preciso pegar um avião, ultrapassar a linha do equador, fazer ponte no aeroporto de Atlanta e, se tudo correr como previsto, chegar na terra onde é possível reviver o passado – isso, pondo de lado o fato de que um mesmo homem não atravessa o mesmo rio duas vezes.

A cidade de Bellville é do tamanho de uma bola de golfe. Cinco mil habitantes compõem essa pequena povoação tradicional, de maioria republicana e conservadora. As casas se parecem muito umas com as outras, todas de madeira, com escadinhas que dão para a porta de entrada e com um modesto front yard. Apesar de todas as semelhanças, cada uma delas têm pequenos detalhes que dão um toque especial, aplicados cuidadosamente por donas de casa dedicadas.

E foi lá, no sul do Texas, onde vivi meus dezessete anos. Lá morei e tive de me acostumar com outra cultura que me era imposta, à qual respondi passivamente.  Lá estudei, fui a rodeios, toquei saxofone, marchei na bandinha da escola, estudei a Bíblia, fui à igreja e à festas fenomenais – em torno de fogueiras e de piscinas, repletas de amigos e de cerveja.

Assim como Bellville, os moradores da cidade são bastante acolhedores, receptivos e atenciosos. Era comum aparecer algum curioso buscando saber quem eu era, como é o Brasil e se macacos circulam pelas ruas junto com os cidadãos comuns. Alguns atrevidos também perguntavam se eu tinha namorado, o que faz parte da fascinação entre norte-americanos e mulheres latinas em geral.

Durante esse tempo, enquanto cumpria a trajetória e passava pelo calor escaldante do verão e pelo inverno de fazer tremer joelhos, me apaixonei – o que apenas rendeu-me frios na barriga, nada mais.

Desde a primeira vez que o vi, no primeiro dia de aula, e na primeira aula de artes, soube que Paul era diferente. Digo que ele é como um americano temperado com um toque francês. Quando nos encontramos, ele permaneceu com um sorriso dividido entre a timidez e a curiosidade em saber quem eu era. Pauly, assim como o chamo, vivia me provocando com comentários sobre as brasileiras, apenas para chamar minha atenção. Certa vez, ele pediu para que eu entregasse um bilhete à minhas irmãs quando eu retornasse ao Brasil. No bilhete, ele dizia que gostaria de casar com as duas (ele nunca viu nenhuma delas). Eu nunca entreguei, apenas guardei-o com muito carinho.

Hoje, em São Paulo, cinco anos depois de minha viagem, recebi um e-mail. Era ele. Me disse que uma amiga está vindo para cá e está me trazendo uma surpresa. Amanhã nos encontramos. Mal posso esperar.

Tássia Moretz

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Novos ares

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

Todos os dias eram iguais. Ela chegava à sala, sentava em frente ao computador e passava horas olhando para a tela. Lia, relia e às vezes escrevia alguma coisa. Sempre olhava no relógio. Estava cansada da monotonia de seu trabalho e do tempo que desperdiçava todas as tardes.

Na salinha pequena, as luzes oscilantes do teto e o frio do ar condicionado incomodavam. O silêncio era cortado pelo som das teclas e, vez ou outra, pelo toque do telefone. Olhava para a janela e, lá fora, o céu escuro indicava tempestade: já sabia que esse seria o assunto até o fim do dia.

Suas tentativas de mudar de emprego não haviam tido êxito e cada vez que mandava um currículo era como jogar na loteria; suas chances pareciam ínfimas. Naquele dia, no entanto, houve uma surpresa. Depois de ler as notícias do dia e todas as suas mensagens, quando o ócio já se aproximava, recebeu um e-mail de uma revista com algumas perguntas – era parte de um processo seletivo de estágio. Na mesma hora, ela respondeu as perguntas e elaborou o texto solicitado. Orgulhosa do resultado, enviou à revista e aguardou ansiosa.

O dia entediante fora cortado por uma nova esperança. Sentia que se aproximava uma maré positiva: acabara de marcar uma grande viagem, em breve se tornaria madrinha e, agora, havia um novo emprego no horizonte. Sua vida mudava e, com ela, sua forma de viver.

A ligação veio no dia seguinte: chamaram-na para fazer uma entrevista. Pela rapidez, pensou, devem ter gostado de seu texto. A noite passou devagar e mal dormida. Acordou cedo, se arrumou e saiu antes da hora, pois não queria se atrasar.

Chegando ao local, uma pequena decepção: faltava o glamour de seu escritório de assessoria de imprensa. O sobrado branco de portas vermelhas parecia um casarão antigo e um tanto abandonado. Ao abrir a porta, uma longa escada num corredor estreito a conduzia à redação. O ambiente desconhecido a deixava pouco confortável e, enquanto aguardava, reparava na bagunça predominante.

Foi entrevistada por uma repórter que era ex-aluna de sua faculdade e, assim, a conversa transcorreu amigável. A vontade de trabalhar ali foi crescendo e ela saiu de lá confiante, esperando uma próxima ligação que, afinal, seria capaz de lhe dar um novo ânimo.

Achava que receberia uma resposta na semana seguinte. Estava calma até ser pega de surpresa naquela mesma sexta-feira, quando o telefone tocou trazendo a proposta de emprego. Com a voz vacilante, aceitou. Precisaria começar na segunda-feira seguinte e, então, tomada de nervosismo, pediu demissão. Sabia que sentiria saudades, mas era preciso dar esse passo. A despedida melancólica não inibiu sua enorme ansiedade.

Mariana Setubal

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Começo atrasado e término antes do início

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

Rua da Mooca, meio dia, horário de saída de turmas; para o Colégio André Xavier, ainda não.  Aula de matemática. Ameaça de prova-surpresa.  Um alvoroço ocorre entre os alunos, excluindo-se toda a bagunça motivada pela prova. Entretanto, há silêncio dentro de cada um deles.  Frio na espinha à parte, a professora Melissa sai da sala. O tempo anda, aparentemente na velocidade que os discentes gostariam. A balbúrdia gerada a partir de uma simples frase tende a diminuir e o que era desespero começa a transformar-se em esperança.

É impressionante o que uma frase faz com o coração de uma pessoa. As mãos começaram a suar. O coração bate numa velocidade de taquicardia, que nem um metrônomo consegue acompanhar, devido ao batimento descompassado e acelerado; a aparente fome torna-se dor estomacal; as cinco gramas de uma Bic tornar-se-ão um quilo. Todo o senso comum sobre o conteúdo da prova tornou-se uma aparente citação sem autor e sem razão; o sentido, as sensações muito mais do que ilógicas tornam-se múltiplas.

Claudia Iha, do 2º B, observa uma movimentação no lado de fora, e percebe que a professora que antes se retirara tende a não voltar mais. Melissa ingressou em uma reunião de professores promovida pelo Governo e não sairia até o término do período de aula.

Uma espécie de brilho invadiu a sala com esta afirmação. É como se uma tormenta tivesse acabado e a bonança chegado. Sorrisos puros e incrivelmente sinceros eram o que mais se via no 2º B. Até o momento que uma figura incrivelmente corajosa, sentada lá no fundo da sala diz, “Poxa, a prova tinha que ser hoje! Eu sabia tudo da matéria!”. O teto da sala pareceu tremer. A qualquer momento um vulcão iria expelir sua lava naquela sala. Tiago “Reta” (já se deve imaginar de onde vem esse apelido, de “retardado”), jogou seu mp3 no chão e por um segundo houve um silêncio geral na sala. Aquele sujeito de camisa preta do Marlyn Maison, cabeludo e magro, que costumeiramente cai de bêbado, fecha sua mão com seus dedos amarelados por fumar seus cigarros até o máximo possível. Levanta-se. Anda em direção da “corajosa”, uma patricinha vinda de uma escola particular que só veste cor de rosa, e num ato súbito olha em seus olhos e desaba em lágrimas. São situações como essa que servem para desvendar os comportamentos, pensamentos e crenças de pessoas estranhas.

Com a fé de que a Professora de álgebra não voltaria, e com o êxtase  de uma vitória contra uma dezena de leões prestes a devorá-los, a gritaria se instaura, agora dignamente conquistada.

O trepidar intolerante das pernas sossega. Os tiques nervosos que se criam durantes essas situações de estresse terminam. Mas, como sabemos, esperam qualquer brecha de nervosismo para retornar em um grau mais elevado. Os soluços e o pranto de Tiago “Reta” findaram, agora restando somente um aspecto branco em sua face, como nata de um leite fervido. Sua camiseta de rock suada e molhada por lágrimas não condiz com seu coturno preto.

Luiz Rocha

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O pior dia da semana

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

Existem livros e livros. Às vezes quando me envolvo com a trama, uma entre duas coisas podem acontecer: ou não consigo parar de ler ou tenho que deixar o livro de lado para conseguir respirar.

Sempre gostei muito de ler, nunca tive preconceitos sobre gêneros de leitura, se alguém me diz que tal livro é bom, sinto vontade de lê-lo.  Quando estou lendo é como se eu não tivesse problemas, faz parte da minha terapia, passo o tempo que for, em outro contexto, outra vida, usando outros sapatos.

Domingo, oito da noite, estou sentada em uma antiga cadeira de balanço em meu quarto, leio O Amante, Marguerite Duras, preciso soltá-lo, não posso mais ler, abraço-o como a um bebê, quase choro. É hora de parar de ler. Alcanço meu celular, preciso falar com alguém, sobre alguma banalidade, algo sem importância. Ligo para a Tati, uma amiga que sempre tem o que contar.

Alta, loira, com os cabelos pela cintura, bonita , muito bonita, sempre alegre e pronta para uma aventura, esta é a Tati. Por conta disso acaba se metendo em mais enrascadas do que gostaria. Tem uma compaixão pouco comum em pessoas do dia-a-dia, parte deste sentimento se deve a sua  memória de peixe dourado de aquário doméstico. Uma boa amiga, assim a descreveria.

Ela está em um bar, com um amigo em comum que temos, pede para eu ir encontrá-la, sem pensar saiu de casa. Nos encontramos, bebemos, resolvemos ir para um Karaokê, cantamos embriagadas, damos risadas e tiramos fotos, não penso mais no livro, que em um passado que agora parece tão distante me causou tanta dor.

Maria Leopoldina

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Fim do expediente

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

O relógio marca 23 horas, é hora de partir. Desligo o computador e começo o ritual de fechamento do andar onde trabalho.  Sou o último a deixar a empresa; as luzes lá em baixo já estão todas apagadas. Dirijo-me ao final do corredor e num movimento com a mão apago todas as luminárias do local.

O escritório não é muito grande, mas a noite e sozinho aquele lugar parece suntuoso. Ele não está silencioso, pois diversas pessoas displicentes com o gasto de energia teimam em deixar os computadores ligados 24 horas apenas pela comodidade de não ligar no dia seguinte.

Agora só me resta apenas a iluminação vinda da escada que utilizo para descer até a porta de saída. Antes de me libertar da rotina de trabalho, coloco meu dedo no ponto virtual e cadastro a minha saída. Realizo o último ato da jornada, digito o código de segurança, o alarme soa e tenho alguns segundos para deixar o prédio.

Estes dois últimos atos demonstram como o ser humano na intenção de se modernizar e também controlar os demais cidadãos é capaz de criar engenhocas eletrônicas para realizar simples funções de assinar um ponto de trabalho e também fechar uma porta com chaves e cadeado.

Abro a porta e me encontro com o segurança.  Em seu falar codificado, ele me conta sobre a nova funcionária da empresa. Respondo com um sorriso e me dirijo ao meu carro. O veículo é um refúgio, dou a partida, e vou em busca da minha tão e desejada casa.

Cearense já com um sotaque misturado. Muitas pessoas não dão a devida atenção para este homem que guarda a empresa durante a calada da noite. Há dias que fico horas conversando com ele só para rir de suas divertidíssimas sagas de segurança nas mais diversas regiões do Brasil.

É o fim do expediente

Giuliano Giovanetti

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Pequeno atraso

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

Meio-dia, estava atrasado. Combinei com minha namorada, Deborah, que a buscaria naquela mesma hora. Enquanto escovava os dentes, toca o telefone. Era ela. Indagou-me, em tom de irritação, se iria demorar. Sua prima, Danielli, já tinha chegado na maternidade São Luis, e em poucas horas iria entrar em trabalho de parto. Com a boca cheia de espuma, falei com dificuldade que estava no caminho e em poucos minutos chegaria. Nossa ajuda era fundamental, pois além de escolhidos padrinhos, o futuro pai, Sérgio, precisava da nossa presença para cuidar de todos os detalhes, antes do nascimento do segundo filho do casal, Gabriel.

A televisão estava alta, era possível ouvir do banheiro as notícias do esporte. Enquanto falava ao telefone, não dispensava atenção aos comentários sobre o meu time – fiquei irritado ao saber que o técnico optaria por escalar alguns jogadores reservas, meu ingresso para a partida estava garantido, queria ver os melhores, queria ver show – minha namorada percebeu a falta de concentração no diálogo e questionou se estava vendo a TV. Respondi negativamente e lembrei que precisava me apressar.

Desliguei o telefone, coloquei em cima da pia molhada do banheiro, enxaguei a boca e corri para a cozinha para pegar a chave do carro, que estava pendurada. Preocupei-me em me despedir da minha mãe, dando um grito — “tô indo” — e chamei o elevador. Enquanto não chegava, liguei para Sérgio, perguntando como estavam indo as coisas e informando que já estava a caminho. O elevador chegou, havia uma senhora, nos cumprimentamos com um “bom dia” e descemos calados. Nesse intervalo lembrei que deixei o telefone em cima da pia do banheiro. Esquecê-lo longe da base era horrível pois, se sua bateria se esgotasse, não conseguiria falar com ninguém em casa. Me aliviei pois lembrei que minha mãe estava em casa e ao usar o banheiro, colocaria o telefone na base, com certeza.

O caminho até a casa da Deborah é curto. Fazer aquele trajeto diário é simples e repetitivo, porém quando o tempo está curto a viagem se transforma em um desafio. O semáforo não abre. O caminhão não sai da frente. A lombada atrapalha. Por alguns instantes, senti ser um bom piloto, já que ultrapassei em alta velocidade uma senhora no Corsa prata e um jovem no Punto. Estava a caminho.

Cheguei à casa da minha namorada com vinte minutos de atraso em relação ao que combinamos. Ela esperava no portão, com três sacolas. Eram presentes, para Gabriel. Abriu a porta do carro, com dificuldade, sentou-se colocando as sacolas por entre as pernas e me deu um beijo. Pensei que seria ríspida por conta do atraso, porém me tratou com naturalidade e carinho. Seguimos para o hospital, onde nosso afilhado nasceria em poucas horas.

Diego de Lima

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O estouro da boiada de cada dia

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

O relógio de ponteiro da estação marcava 6 horas em ponto. As pessoas, que quase sumiam no meio da neblina que invadia a plataforma, já começaram a ficar aflitas. A mocinha ao meu lado colocou a mochila na frente do corpo e a abraçou como se ela fosse sumir. Pensei bem e decidi fazer a mesma coisa, só por desencargo de consciência. Pequenos grupos começaram a se formar ao longo da plataforma e o que separava os homens que fumavam do trilho era uma linha invisível, que ninguém nunca viu, mas todo mundo sabe que existe. De repente, começamos a escutar um TIM TIM TIM TIM da porteira. O trem estava chegando.

Os olhos se arregalaram, os músculos se contraíram, as mães seguraram seus filhos como se fossem pequenos delinqüentes – pela toca do blusão – e os fumantes, finalmente, lançaram seus cigarros que formaram uma parábola invertida no ar e me fizeram lembrar daquelas aulas de geometria e daquele tempo em que tudo era mais fácil.

Nesse momento, mulheres grávidas, idosos e crianças se misturavam com os jovens e os homens fortes. Todos eram iguais. O intervalo de tempo que separou o momento em que o trem parou ao lado da estação e aquele em que se ouviu o “psssssss” da porta se abrindo foi de muito silêncio. Nessa hora, pareceu que todo mundo ficou paralisado. Depois disso, a lei era salve-se quem puder.

Desejei voltar no tempo para trocar o aperto pela aula de matemática, mas tive que voltar à realidade quando senti alguns cotovelos cutucando minhas costelas. De repente, a figura daquela sala de aula tranqüila e alaranjada, por causa dos raios de sol da manhã, e da professora que cuspia em cima dos alunos, foi arrancada a força da minha cabeça e substituída pelos hálitos de álcool e as axilas mal cheirosas de pessoas que nada tinham a ver com aquelas que costumavam povoar nossas manhãs naquele tempo.

A correria e o empurra-empurra para ver quem seriam os sortudos a entrarem no vagão me lembrou o estouro da boiada. Quem estava dentro do trem e olhou para as expressões nos rostos dos que estavam do lado de fora deve ter sentido medo. Não lembro muito bem do que eu senti naquele exato momento. Só sei que fechei os olhos, endureci meu corpo inteiro e me joguei pra dentro da composição. Do jeito que eu entrei, fiquei durante os 50 minutos seguintes de viagem.

Depois de tanto tempo fazendo a mesma coisa, a gente acaba desenvolvendo técnicas para ficar parado sem ter que segurar em algum lugar, segurar um livro sem atrapalhar os outros usuários e até dormir em pé. Eu cheguei até a sonhar um dia desses.

É estranho como acabamos ganhando certa intimidade com as pessoas que estão espremidas ao nosso lado. É como se fôssemos amigos de longa data. Ninguém fala uma palavra, mas ficamos mais próximas delas do que de alguns amigos. Afinal, é como se nossos braços se fundissem, formando um só. Mas isso só é permitido dentro do trem. Quando a viagem acaba, nós voltamos a ser aquelas pessoas intocáveis de olhar blasé que caminham pela plataforma como se estivessem em uma passarela. Amanhã, repetirei esse episódio sem mudar uma linha. Quem sabe dessa vez não puxo assunto com alguém e estendo a conversa até a catraca do metrô.

Ligia Tuon

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10h53

Publicado por novashistorias em 08/05/2009

As semanas têm passado rapidamente. Terças-feiras se transformam em sextas, que se convertem em domingos, que continuam como são. Domingos nunca mudam. Ontem, porém, foi mais uma quinta-feira que chegou repentinamente, como se a segunda-feira simplesmente tivesse decidido mudar seu nome sem avisar. Junto ao calendário, voam as horas. Tal qual pássaros migrando no inverno, agem mutuamente de forma a diminuir a resistência do ar, permitindo maior velocidade em seus vôos, passando despercebidos.

Ao acabar o filme ao qual assistíamos, a madrugada ainda se iniciava. Dali a cinco horas e trinta minutos, mais precisamente às 7h30, deveria estar desperto e seguir para a universidade. Não foi o que aconteceu. Às 9h30 que entrei na sala. Cheia. Quente. Os olhos de meus colegas se voltavam, concentrados, às telas de monitores pretos alinhados nas duas grandes bancadas localizadas em cada um dos cantos desta sala subterrânea, como em um bunker de algum filme de baixo orçamento sobre espiões. Uma produção de alunos em início do curso de Cinema, talvez? Não. Lá ninguém grampeia mafiosos. Estão lá para escrever.

É o que devo começar a improvisar. “Sobre qualquer situação pela qual já tenha passado”, explica o professor. Assim, de supetão. Fazer com que o cursor cintilante passe a se movimentar pelo espaço em branco defecando letras que de fato produzam algum sentido, assim de repente, no entanto, não é tarefa fácil. Tal qual João e Maria, nas primeiras tentativas as vogais e consoantes mais servem como o pão largado à trilha para a casa de doces: úteis apenas para facilitar o caminho de volta do ‘Backspace’. As horas têm passado rapidamente. As 9h30 de repente se transformam em 10h52. Voam livres, sem resistência, rumo a um lugar mais quente, talvez. Pertinente, já que aqui o ar condicionado é gelado demais. 10h53.

Bruno B. Soraggi

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Wolverine e a mídia (ou “O jornalismo quase acabou e ninguém percebeu”)

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

Pode abrir os jornais de hoje ou a home page dos principais sites de notícias (notícias?): lá está ele, o todo-poderoso Hugh Jackman, Wolverine para os íntimos, batendo papo com Ronaldo, visitando o Pão de Açúcar, sorrindo na porta do Copacabana Palace… jornalistas ou pseudo-jornalistas de plantão nas principais redações do país — não apenas nas pequenas e pobrezinhas, que vivem no maior miserê e dependem demais do material das assessorias de imprensa, mas também nas grandes, poderosas, vinculadas a tradicionais grupos de mídia — estão, aparentemente, num frenesi de publicação de todas as notas divulgadas pelo estúdio de cinema que faz a promoção do filme por aqui.

Quem é Hugh Jackman? Onde ele nasceu? Quantos anos tem? É casado? É gay? Tem filhos? Qual é o seu posicionamento político? O que acha do extermínio das baleias? Perdeu muito dinheiro com a crise? O que acha do cinema brasileiro, se é que já viu algum filme? Será que ele sabe que o faxineiro do Copa deve morar em alguma favela ou periferia do Rio onde o índice de homicídios — inclusive aqueles perpetrados pela polícia — supera o de Bagdá? Perguntas inúteis? Talvez… mas se não há nada a perguntar, que ao menos se diga, com todas as letras, sempre, em notinhas e matérias extensas, que o que ele veio fazer no Bras(z)il é divulgar o filme que protagoniza. Marketing puro. Ou, melhor, que não se escreva nada.

Jornalismo? Publicidade? É tudo a mesma coisa? Não é. Mas a mídia parece fechar os olhos para isso. Por preguiça, falta de tempo e/ou dinheiro ou desleixo. E embarca na canoa furada do entretenimento sem notícia. A constatação é uma tremenda obviedade, e não é nova: o jornalismo pode estar com os dias contados. Mas há antídotos possíveis. Como diria Italo Calvino, se vivo estivesse, uma das soluções pode estar no aprimoramento daquilo que, no fim das contas, faz de nós humanos: a linguagem. Este blog se presta a esse tipo de experimentação. Sem perder o pé no factual, queremos oferecer um modesto sopro de renovação ao texto jornalístico. Com criatividade e seriedade, a batalha é viável. Mas é preciso correr. Antes que Wolverine e sua trupe destruam o que ainda resta de nosso suado, mal pago e fascinante ofício.

André Santoro

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Ela não gosta mais de você

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

Não conseguia ver as horas – perdera os óculos no meio dos lençóis ao adormecer por acaso – sabia somente que a noite corria solta. Mais uma vez era despertada pelo barulho agudo do telefone, seria aquela a quarta ou a quinta vez naquela madrugada? Levantei, e ainda emaranhada de sono, sem muita percepção da realidade, tirei-o do gancho.

- Alô? – disse, sem obter resposta.

Eu sabia exatamente quem ligava para minha casa naquele horário, que pude então constatar ser às 4 horas da manhã.

Os móveis espalhados pela sala perdiam suas proporções. O sono atrapalhava meu julgamento e, potencializado pela ausência dos óculos, formava figuras que me remetiam a uma outra realidade qualquer . No caminho de volta para minha cama não perdi a oportunidade de chutar duas ou três mobílias pelo caminho. A dor sentida era apenas mais um agravante para minha noite de sono mal sucedida.

Eles começaram a namorar em uma primavera qualquer, como muitos outros casais de namorados já haviam feito tantas vezes antes. Seu amor, como tantos outros antes, foi esfriando ao longo do tempo, até que um dia, aproximadamente duas primaveras depois de seu começo, chegaram a seu inexorável fim.

Eles formavam um casal bonito,desses vistos somente em filmes hollywoodianos ou em propagandas de pasta de dente. Esbanjavam saúde e não conseguiam esconder a classe social da qual provinham. Mas como a perfeição nunca me convenceu mesmo, a declaração de término não foi recebida por mim com ressalvas.

Ele, no entanto , não admitiu que esse relacionamento acabasse. E, numa saga shakespeariana, fez movimentos que apenas Freud seria capaz de explicar.  Perseguiu-a, correu atrás de seus queridos, ameaçou Deus e o mundo. Ela apenas fez que não via, tinha cansado dele. Decidira viver tudo que perdera enquanto esteve trancada nesse amor que não sabia direito como amar.

Na noite de ontem me avisou que sairia para dançar e pediu para que não a esperasse acordada. Fiz meu ritual de todos os dias: banho, jantar, jornal e cama. Mas meu sono não teve seu descanso merecido nessa noite. Enquanto ela dançava, ele aparentemente se afogava em mágoas e culpas, e ligava para tentar tê-la de volta (com certeza cheio de promessas inúteis).

Imaginava-o perdido em um bar de azulejos muito anteriores ao seu próprio nascimento, entre um copo e outro da pinga mais barata , embalado por canções piegas de amores mal amados, assim como o seu. Enquanto ela, embalada por luzes diferentes daquela amarela projetada no bar, contorcia seu corpo no ritmo frenético da pista de dança.

Quando finalmente decidi atender a uma das ligações- que com certeza não me eram endereçadas, mas que nem por isso deixaram de perturbar meu sono – ele desligou na minha cara ao não ouvir o timbre esperado no alô.

Fiz a mesma via-crucis de volta para a cama, mas já iluminada por alguns tíbios raios de Sol, não me deparei com nenhum entreposto indesejável no caminho.

A próxima ligação seria apenas às cinco e meia da manhã, o que já representava um avanço em relação aos espaçamentos anteriores de apenas 5 minutos.

Peguei o telefone com a mesma rispidez das vezes anteriores, como se a culpa do meu mau humor fosse inteira do aparelho instalado na sala.

-Ela não gosta mais de você – disse, e fui dormir em paz.

Sarah Germano

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Valeu tudo a pena

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

Olhava para o relógio e os ponteiros pareciam não andar. Minha concentração, que deveria estar direcionada para meu trabalho, em uma revista de corrida, estava absolutamente voltada para o evento da noite. Não suportava mais a espera. Iria ver Ronaldo, no Pacaembu, jogando pelo meu time de coração.

O sites esportivos, coloridos, para mim eram somente pretos e brancos. Minha cabeça naquele dia era única e exclusivamente do Corinthians. Conseguia, de verdade, ouvir a torcida cantando suas músicas animadas. O hino não parava de soar em minha mente: “Salve o Corinthians, o campeão dos campeões…”.

Quando o marcador de tempo apontou para as 18h, já estava com minhas coisas arrumadas. Saí depressa, quase me esquecendo de me despedir do pessoal da redação. Trabalho próximo de casa, e às 18h25 já estava em meu apartamento, me preparando para sair. Camisa do Corinthians, um pouco de dinheiro, bilhete único, documentos… Estava pronto.

Já imaginava a festa do ônibus, diversos torcedores, de vários locais e classes diferentes, juntos, por um só motivo. Minhas pernas, cansadas do dia cheio, latejavam com o andar rápido e direto, e pareciam independentes de meu corpo. Queriam chegar antes de mim.

Peguei o ônibus por volta das 18h50. Até o trânsito parecia a meu favor naquela noite. Antes das 20h já estava em frente ao Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Estava presente um público como poucas vezes se viu para uma partida no meio da semana, enlouquecido, pelo mesmo motivo que eu. Ver o Corinthians. Ver o Fenômeno.

O clima antes de uma partida do Corinthians, para quem não sabe, é uma coisa única. Os churrasquinhos de “gato” parecem mais cheirosos, até para mim, que sou vegetariano. A cerveja barata está presente na mão de uma em cada duas pessoas. A alegria é indescritível… até para um texto descritivo.

Dentro do estádio, quando o telão anunciou a presença do maior artilheiro das Copas do Mundo como titular, a torcida vibrou como num gol no último minuto contra o Palmeiras, que, aliás, já tínhamos presenciado poucos dias antes. O jogo começou mal para a fiel, com um gol do adversário, cujo nome não é importante. Porém, o gol de André Santos, ainda na primeira etapa, deu de volta a alegria à torcida.

O andar da partida era lento, mas movimentado. Por alguns momentos entediante, mas sempre animado, se é que tudo isso é possível. Lances de pouco efeito eram suficientes para animar a massa, que pulava e gritava com chutes ao gol sem nenhum perigo. E assim acabou a primeira etapa.

Já o melhor acontecimento do dia estava guardado para o segundo tempo. Ronaldo não saiu no intervalo, como alguns esperavam. Pelo contrário, voltou com fôlego extra e, aos 5 minutos de bola rolando, em um cruzamento na área de Dentinho, lá estava ele. Imponente, onipresente, onisciente para marcar. Um golaço. Tão emocionante que nem a torrencial chuva na hora de ir embora me abalou. Estava feliz, tudo tinha valido a pena.

Fausto Fonseca

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Meu momento está valendo dois pontos

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

Último ano de faculdade é sempre complicado. Não sabemos se ficamos felizes por entrarmos na reta final ou tristes por terminarmos uma etapa que não voltará mais. Fora esta questão, me sinto numa ainda pior. Meus pais moram longe e pode não parecer, mas sair do “ninho” incomoda. Todo tempo penso se voltarei para casa ou não. Penso mesmo que queria voltar. Mas e o mercado de trabalho? Este sim me deixa ansiosa. Ainda hoje tenho muitas coisas para fazer no meu estágio e conciliar com estudos também não é tarefa fácil.

Estou na minha cama, tento deixar meus olhos abertos, mas eles teimam em fechar. Ligo a TV no primeiro canal que aparecer. A luz e o som fazem meu sono se tornar menos intenso. Dez minutos passam e estou em frente da geladeira. Leite, toddy, requeijão e clube social. Esse é o meu café da manhã de quase todos os dias. Abro bem a janela. O sol bate,  traz com ele calma e me animo. Enquanto escovo os dentes, fico parada diante do guarda roupa para escolher o que vestir. Na maioria das vezes, por mais que esteja diante dele, roupas são a última coisa que vejo. Viajo lembrando o que sonhei e o que tenho para fazer. Olho para o relógio, chamo o elevador e saio bem apressada. Enquanto caminho, me volto aos questionamentos, acabo de sair da cama e ainda me sinto cansada.

Mas chega de reclamar da vida cheia de oportunidades que tenho. Vou para aula, atrasada, como sempre! Longas explicações sobre tudo aquilo que você sabe que é importante e também causa curiosidade, mas que dá um sono… Sinto vontade de conversar com minhas amigas, de matar tempo à toa. Ao mesmo tempo, sinto vontade de entender tudo aquilo que o professor está falando. Chamada para o intervalo, beleza!  Mas, atividade valendo nota na próxima aula, tristeza.

Barulho contínuo, mas não muito alto. São muitos estudantes dividindo o mesmo espaço na hora do intervalo. Assuntos variados, gente variada, mas acabam todos meio iguais. O cheirinho de comida invade todo espaço, aquele cheiro de padaria, sabe? Muito bom. Ao redor muitas pessoas falam sorrindo, gesticulam. Já meu estômago ronca. Ainda bem que está na hora de partir.

Após conversar bastante, quase comer e resistir em nome do regime de sempre, entro na sala de aula. Informações sobre a atividade e “mãos à obra”. Lembro mais ou menos sobre narração cena a cena. Mas vou arriscar. Sei que tenho que contar tudo sobre um momento. Já dá para começar. O professor acaba de ler um texto de outro aluno, bem mais atraente do que o que eu fiz até agora. Então surge a dúvida: Paro e começo tudo de novo? Não. Como eu disse, vou arriscar.

Tainá Figuerôa

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Tchau?

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

Era um típico fim de tarde de domingo: sol quase se pondo, já anunciando a segunda-feira, preguiça depois de um almoço em família e um jogo passando na TV. Foi diante desse cenário mais do que corriqueiro que minha irmã comentou (com mais seriedade do que vinha havendo na conversa): “você lembra de um cara que estudou com você, o R. R.?”. Eu lembrava, é claro. Lembrava de ser infernizado no colégio, em particular nas aulas de educação física; lembrava dos apelidos, ofensas gratuitas, até do medo que senti em alguns casos. E não consegui entender o que, passados cerca de dez anos, mais traumas e muitas alegrias, aquela figura vinha fazer de novo em minha vida e minhas conversas. “Ele morreu”, disse minha irmã, sem exclamação mesmo, talvez para me chocar ainda mais. “Levou um tiro na cabeça em um assalto”, de novo sem exclamação, e eu ainda sem processar direito o mar de sensações que me tomou.

Uma música dizia “nem sempre se pode ser Deus”, e foi assim que eu comecei a me sentir. Afinal, sou um ser – humano, cheio de bons sentimentos e de maus também. Não achei que tivesse motivos para tentar assumir uma postura tão superior, tão “divina”.  Perdoar? Será que ele queria ser perdoado? Será que lembrava da minha existência? Acho que não. Em sua vida, atormentar os outros devia ser algo corriqueiro, não tinha por que lembrar justo de mim.

Enfim, a ética cristã que me perdoe, mas realmente não consegui ficar triste. Não consegui nem sentir pena, ou pelo menos dizer o clássico dos clichês, “ele era tão jovem”. Na hora em que soube, só conseguia pensar em tudo o que sofri, fundamentando minha indiferença, enquanto fotos e testimoniais de Orkut me eram mostrados, aproximando-me da dor de familiares e amigos. Não os culpava. Acredito que como filho, namorado, amigo ele deva ter sido bem diferente do que eu conheci.

Na minha opinião, R. R. era um verme. Arrogante, agressivo, falso, convencido e uma longa série de adjetivos negativos. Duvido que as pessoas que sentiram sua morte conhecessem esse lado, até por isso acho que sentiram. Todo mundo tem um lado bom e um mau. Por que eu conheci apenas o mau dele? Tenho vontade de rir quando dizem que não tenho sentimentos. E ele tinha? Desculpe, é feio falar do mortos.

No entanto, por trás da indiferença pessoal, havia, sim, uma sensação de proximidade com a morte. Ele tinha a minha idade, estudou no mesmo colégio, em algum momento devemos ter morado em regiões próximas. Não vi a nota de seu falecimento no jornal, mas soube que saiu uma. E, pela primeira vez, eu conhecia o morto. Estranho não estar triste, mas acredito que tenha sido uma conseqüência do passado.

Diego Salomão

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A despedida

Publicado por novashistorias em 06/05/2009

A “comemoração” pareceu um tanto forçada. É estranho celebrar com bolo, refrigerante quente e sorrisos amarelos a saída de um colega da empresa em que se trabalha. Ainda mais quando essa mudança não se dá por uma proposta melhor de emprego —ela simplesmente estava cansada daquilo tudo.

No misto de recepção e redação, 12 pessoas formavam uma roda em torno da mesa de centro. Algumas sentadas nos sofás cor de marfim, confortáveis, mas que há muito não recebem uma boa limpeza.

Em cima da mesinha, os inevitáveis copinhos descartáveis e as cinco garrafas que havia comprado há pouco; duas de Coca Zero, como era a exigência da maioria. Os refrigerantes também circundavam o bolo com raspas de chocolate, fruto de uma vaquinha que arrecadou cerca de 40 reais. Nem todos os presentes deram sua contribuição.

O desconforto ficou claro quando alguém perguntou, pouco antes da demissionária irromper à sala e fingir cara de surpresa.

—O que é que a gente canta? Parabéns pra você?!

Em seguida, muitos abraços e beijos desconcertados. Afinal, poucos naquela sala realmente se conheciam e sabiam pelo que passamos nos últimos meses. As demissões e desistências, o arrocho salarial, o clima de tensão por resultados. Tudo isso veio antes de a crise deixar de ser “marolinha”, apesar de a situação ter se agravado quando o tsunami chegou.

Priscila é uma garota muito bonita. Nunca escondeu o sorriso fácil, a despeito do aparelho para endireitar os dentes incisivos encavalados. Mas naquele momento sua feição denunciava um sentimento de constrangimento, que ao mesmo tempo era lamento e nostalgia.

Agora ela colocará de vez o Vade Mecum debaixo dos braços curtos e frágeis. Vai vestir o tailleur, calçar o salto alto e bater na porta de rígidos escritórios de advocacia. O jornalismo enfim foi vencido pelo Direito no coração da baixinha.

Enquanto isso, equilibrando-se diante dos solavancos, o site sobrevive. Novos estagiários chegam, com o entusiasmo de quem acha que vai mudar o mundo com o jornalismo rasteiro da Internet. O clima de velório na redação se dissipa um pouco com essa nova onda de energia, ao menos até o próximo “boa sorte, tudo de melhor pra você nessa sua nova jornada!”.

William Maia

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Um dia que era mais um dia

Publicado por novashistorias em 29/04/2009

Ontem fez um ano de registro na minha CTPS. Não foi um fato a ser comemorado, todavia, não era para ser esquecido. Não pense que é um caso de ingratidão ou insatisfação, mas passou longe do chauvinismo corporativo. Nos anais da companhia eu sou apenas um código funcional, para os clientes tenho outro nome, e para mim eu sou mais um num mar de atendentes.

Atendente de uma central telefônica como outra qualquer: corredores com muitas baias, computadores, headsets em todas as cabeças. A cor predominante é azul, provavelmente inspirada em algum moderno manual de feng-shui: o azul deve nos acalmar, azul da cor do mar. Encardido. Muita gente bem vestida, e isso para mim é incrível; o departamento não tem contato físico ou visual nenhum com o cliente, e concluo que isso só é narcisismo sem objetivo nem causa. Faço parte do grupo dos sem gravata. Movimento considerável, rebeldes dentro da alçada permitida. Além do mais, o tempo é poupado: deixo de me vestir bem para ir à empresa e só vou me dedicar no momento correto. Nada mais justo.

Para quem vive uma rotina como a minha, as coisas acontecem bem automaticamente. Estacionar a moto tornou-se inerente: é como se ela fosse para a vaga sozinha, tanto que às vezes, quando acaba o expediente e vou ao encontro dela, nem ao menos lembro onde parei, e ontem não foi diferente. Ao passar o crachá no ponto seis vezes por dia nada foi diferente, tudo igual. Atender os clientes, passar o protocolo de atendimento, ouvir suas diversas mazelas bancárias, redigir suas reclamações, ser xingado e elogiado. Não tinha dúvidas; foi mais um dia.

Os clientes são minha razão de existir. Eu gosto dos meus clientes. São extremamente mal-informados e ignorantes. Não por sua culpa. Em algum momento eles compraram ou adquiriram um produto ou serviço e não lhes foi explicado nada. Isso torna meu trabalho muito mais fácil. Sei tudo de cor na maioria das vezes. Para o cliente desinformado, a alegria de entender como funciona o rotativo do cartão de crédito. Para o resmungão, uma reclamação que vai ser enviada para o gestor responsável com o prazo de resposta de três dias úteis. E é isso. Fatura atrasada? Débito indevido? As notas não saíram na máquina? Três dias senhoras e senhores, aguardem. E devo dizer que é um prazo para o esclarecimento, não a solução.

Levei pra ler um livro do Bukowski, Misto Quente. Estava no fim, li ele no intervalo das ligações dos outros dias também. Vieram me dizer que não era permitida a leitura no ambiente de trabalho como sempre. Não os culpo. Não tenho nada a ver com as ordens que eles seguem, e sendo assim, continuei e terminei, finalmente. Grande Buk.

Leio, pois a falta de ter o que fazer entre as ligações é algo desesperador. Tenho poucos amigos no trabalho e queria ler meus livros em paz para ser transportado de lá um pouco, sei lá. A maioria dos atendentes conversa sobre o que diabos não faço a mínima. Sorriem, dão risadas. As garotas saem com seus saltos altos, efusivas. Nossas musas subalternas. As vejo e imagino a enorme possibilidade de histórias da boca pequena. Algo assustador. Deve ser por isso que riem tanto. Num local onde 98% das pessoas recebem o mesmo salário, o mesmo cargo e com quase a mesma idade propicia-se um belo bacanal. Penso mais nas meninas, e na reputação de algumas.

Depois pensei nas coincidências do dia: um ano no banco, 66 anos de banco e o primeiro dia do novo diretor-presidente, Sr. Trabucco. Perguntei-me se seria uma nova era para empresa e seus funcionários. Um ano de inovações como adoram propagandear. Decidi que não. Olhei para o lado e vi minha namorada. Algo restou daquele ano, além do óbvio. Além da mais-valia, além dos lucros exorbitantes e dos números que a recessão não alcançou. E vi que por enquanto, ser funcionário de um conglomerado bancário daqueles, no fim das contas, era bom.

Sr. X.

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Festa de inauguração

Publicado por novashistorias em 23/04/2009

Olá!

Somos uma equipe — ainda tímida; em breve, despudorada — de jornalistas (profissionais e/ou nem tanto) em busca de novas fórmulas e soluções para contar as histórias do cotidiano.

Junte-se a nós! Seus textos são muito bem-vindos!

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